BORGES: É PERIGOSO TROCAR A RAZÃO PELA FANTASIA

 

Diário de Pernambuco, 18 de setembro de 1983

 

- Os mistérios são fatos e, assim sendo, não podem ser desprezados. A mente é um dos maiores enigmas para o homem, e somente agora, por intermédio da investigação parapsicológica, é que come­çamos a nos conscientizar dos extraordinários poderes de que somos dotados. O Espiri­tismo, a Metapsíquica e, atualmente, a Parapsicologia descerraram um limitado campo de especulações e pes­quisas do fenômeno humano, interessando os níveis físicos e não físicos da realidade onto­lógica.

A declaração é do parapsicólogo Walter da Rosa Borges, ao analisar os perigos que as pessoas correm ao se deixarem levar pelas fantasias do mundo maravilhoso. Segundo fez ver, "o fanatismo é a cronificação de um delírio sistema­tizado. O colapso definitivo da razão. O império irreversível da emoção descontrolada. O fanático não raciocina: emociona-se".

ADAPTAÇÃO

"O homem tem uma vo­cação irresistível para o mara­vilhoso. Como se já não bas­tassem os mistérios da vida, ele inventa também seus pró­prios mistérios. Parece que o cotidiano o asfixia e ele sente uma urgente necessidade de ampliar a capacidade pulmo­nar de sua respiração existen­cial.

Quanto mais exótica a manifestação do mistério, tanto mais ele se deixa em­briagar num exaltado aposto­lado do delírio. Apaixonado pela sua fantasia, ele se torna fundamentalmente incapaz de perceber a mais óbvia reali­dade. Por isso, o fanático não dialoga, pois é surdo à voz da razão e apenas escuta o dis­curso do seu delírio".

- A excitante vida das megalópoles tem exigido do homem urbano uma extraordinária capacidade de adaptação. E muitos são aqueles que sucumbem à trepidação de uma existência selvagemente competitiva. Assim, esse fracasso do processo adaptativo deve ser compensado, a todo custo, através de uma retirada estratégica, de uma fuga camuflada. Então, o mergulho nirvânico na fantasia se lhe apresenta como a única solução para os seus conflitos. E, disto, se aproveitam os profissionais do mistério para fundar novas seitas e religiões, fa­bricando consoladoras aliena­ções, maliciosamente travestidos de missionários, gurus ou embaixadores do Além".

FENÔMENO

Walter da Rosa Borges garante que "o fenômeno paranormal é um fato indiscutí­vel. Negá-lo, constitui uma demonstração de ignorância ou de má fé. E o médium, como veículo da fenomenologia paranormal, atrai para sua pessoa os mais controvertidos sentimentos de admiração e aversão, de aceitação ingênua e de negação sistemática. E são esses extremismos que prejudicam a serena e correta apreciação dos fatos, propor­cionando, quase sempre, o pronunciamento de juízos apressados, num clima cons­trangedor de intemperança emocional".

ESPERTALHÕES

- Infelizmente - comple­tou - o campo da fenomenologia parapsicológica se encon­tra poluído pela presença de fascinadores e fascinados. A credulidade fácil, o pensa­mento mágico, o desespero existencial, as enfermidades de difícil terapêutica, a perda de entes queridos, a necessi­dade emocional da certeza da sobrevivência, a ânsia pelo transcendental têm aprisio­nado inúmeras pessoas na teia sedutora do maravilhoso, tornando-as em vítimas inde­fesas nas garras dos trapa­lhões ou dos espertalhões da paranormalidade. O maravi­lhoso provoca no homem uma atitude ambivalente de medo e atração. E não é gratuita­mente que os prodígios da prestidigitação deslumbram os espectadores, os quais, numa euforia lúdica, se acumpliciam inconscientemente com o mágico para gozar as delícias de um engodo consen­tido. De maneira idêntica, certos fenômenos aparente­mente paranormais podem desencadear em pessoas su­gestionáveis e de reduzido senso crítico um insopitável desejo de autofascinação, como espécie de sedativo con­tra as angústias e as agressões da realidade cotidiana. O fan­tástico, assim, se transforma em singular psicotrópico, cujo maior perigo consiste em pro­vocar dependência nas pes­soas que dele se utilizam como recurso eletivo de sedação dos conflitos existenciais.