A CIÊNCIA PRECISA DE MAIS ATENÇÃO, ALERTA PROFESSOR PERNAMBUCANO (*)

 

O Semeador. Junho de 1982

 

Entrevista a Norma Souza de Alcântara

 

"Temos praticado um Espi­ritismo acanhado... Nós espíritas amesquinhamos o Es­piritismo e traímos Kardec... Se Kardec voltasse teria que novamente reformular o movi­mento, abrindo os olhos dos espiritas para seu tríplice as­pecto, ou seja, o cientifico, o fi­losófico e o religioso." Estas fo­ram algumas das declarações feitas pelo professor Walter da Rosa Borges, Diretor Científi­co do Instituto de Pesquisas Psicobiofísicas de Pernambu­co (IPPP), durante entrevista concedida ao Semeador.

Em forma de denúncia, jus­tifica estas suas graves afirma­ções, pelo fato de os espiritas terem deixado de lado dois as­pectos fundamentais da dou­trina, quais sejam, o Científi­co e o Filosófico.

E explica: "Veja você: quan­do os espíritas fazem referên­cia às pesquisas, fazem-no sempre sobre as desenvolvidas por W. Crookes em 1874! De lá para cá nada tem sido feito."

As federativas devem cumprir o programa espírita

Acredita que as Federativas devem, com a maior urgência cumprir, integralmente, o programa Espirita, retornan­do à pesquisa e a um melhor tratamento dos fenômenos considerados, pela ciência, co­mo paranormais, sob um en­foque cientifico e, ampliar o campo de debates na área filo­sófica, compatibilizando a Doutrina com a própria vida, com os problemas sociais, pa­ra se ter uma visão histórica mais amadurecida da Sociedade".

O professor vai mais longe e acha que "as Federativas de­veriam se empenhar na criação de Departamentos de pesquisa científica, elaborando progra­mas e formando pessoal quali­ficado, para o estudo metódi­co dos fenômenos".

Sem isso, observa, "o Espi­ritismo está na verdade como um Saci, com uma perna só. Esquecendo que, quando Kar­dec definiu o Espiritismo o fez como ciência e filosofia com consequências morais e religiosas." É pre­ciso que, sem minimizar o tra­balho feito na área religiosa, maximizar, se é que assim po­demos dizer, a área cientifica, dando ensejo também, ao permanente círculo de debates no campo filosófico.

Os espíritas não compreendem os cientistas

Além de professor universi­tário da cadeira de Direito Ci­vil, da Universidade Católica de Pernambuco, é membro fundador da Academia de Ciências de Pernambuco. Es­creveu diversos livros e ensaios nas áreas da Parapsicologia, da Sociologia, do Direito, da Filosofia e da Poesia, entre 'eles "Introdução ao Paranormal" e "Rumo ao Sem Fim".

Conhecido em todo o movi­mento espírita, devido a enor­me repercussão do programa "O Grande Júri", que mante­ve durante quase quatorze anos na TV Universitária de Pernambuco, programa que reunia mais de trinta especia­listas nas diversas áreas do co­nhecimento humano, como químicos, físicos, católicos, protestantes, espíritas e ou­tros. Entre os temas levados a debate no "Grande Júri", o que mereceu maior cobertura da imprensa espírita foi "A Bíblia", mantido, conforme explicou o professor, durante quase seis meses a pedido do público.

Fala da incompreensão que os estudiosos, pesquisadores e cientistas recebem de grande parte dos espíritas, principal­mente aqueles que se dedicam à Parapsicologia, "havendo uma certa suspeição e até pre­conceito a quem se dedica a es­ta ciência". Explica que tem insistido no campo da ciência, pela mesma dedicação e inte­resse que os demais têm em di­vulgar a Doutrina Espírita.

Kardec não disse a última palavra e sim a primeira

Vê a necessidade de atualização "precisamos fazer algu­mas atualizações quanto à ves­timenta doutrinária, porque na essência não há nada a se reparar, e uma abordagem me­todológica mais adequada, uma visão mais aprofundada das coisas e dos fatos. Kardec já recomendava e advertia pa­ra a necessidade de dinamizar a Doutrina. Porque em Ciên­cia o conhecimento é provisó­rio. Ciência não pára. Uma ciência estática deixa de ser Ciência. Kardec descerrou-nos as portas de um mundo novo, infelizmente a quase totalida­de dos espíritas ficaram na so­leira".

É com este mesmo argumento que rejeita o posicionamento de alguns espíritas que colocam a pesquisa em segundo plano, chegando a encará-la como desnecessária, ao pen­sar que os fatos não precisam ser comprovados dentro dos métodos científicos. Vê este posicionamento como "uma completa miopia intelectual, fruto de fanatismo religioso, pois Kardec não resolveu ne­nhum problema quando abriu as portas para uma nova di­mensão, pelo contrário, aumentou-os, porque até então só tínhamos preocupações com a nossa vida física". E acrescenta: "Kardec não disse a última palavra, mas sim a primeira. Temos, por isso mesmo, que es­tudar e pesquisar cada vez mais, para ampliar o campo do conhecimento humano. Te­mos que responder, agora, questões como o funciona­mento da mente em nível bioló­gico e espiritual, quais as rela­ções entre este e o outro mun­do, entre tantas outras ques­tões que surgem a partir dessa nova fase do conhecimento".

Neste sentido, acredita que no Espiritismo temos nos limi­tado às comunicações espiri­tuais, os Espíritos é que nos di­tam orientações, "pois o Espi­ritismo parou como ciência, os espíritas precisam desenvolver com gosto o trato para os pro­blemas científicos, senão gera­remos um fanatismo e toda re­ligião que se esclerosa, fatal­mente morre" este não pode ser o caso da Doutrina Espíri­ta, porque a religião tem no Espiritismo a dinâmica pró­pria da ciência e da filosofia. Afinal, o Espiritismo é uma Doutrina universalista e é esta universalidade que vem agora cobrar do espírita uma nova tomada de posição.

A parapsicologia é fruto do descuido dos espíritas

O professor Walter afirma incisivamente que "a Parapsi­cologia de Joseph Rhine e a própria Metapsíquica de Char­les Richet só tiveram vez por­que os espíritas se descuida­ram da área científica. Senão a nossa Doutrina, por si só, to­maria os freios, as rédeas, o comando da pesquisa e hoje não teríamos a Parapsi­cologia".

Nesta mesma linha de ra­ciocínio, perguntamos ao pro­fessor se os estudiosos espíri­tas poderiam seguir caminho diverso ao da Parapsicologia, ao que respondeu: "isso não seria metodologicamente possível, apenas a interpreta­ção seria diferente. Primeira­mente porque há parapsicólo­gos espíritas, que permanecem cada vez mais espíritas, e exer­cem de maneira muito produ­tiva o seu ofício de parapsicó­logos, e há parapsicólogos ca­tólicos, como também mate­rialistas; no entanto, as áreas da Parapsicologia e do Espiri­tismo são as mesmas, apenas que cada uma pode atuar den­tro de seu modelo de interpretação", explicou.

Lembrando o pensamento de Rhine a respeito da sobrevi­vência da alma, disse: "o pró­prio Rhine já dizia que a ques­tão da sobrevivência é também uma questão da Parapsicolo­gia e que os fenômenos paranormais sugerem fortemente a hipótese do prosseguimento da vida após a morte, se não houvesse qualquer prova da so­brevivência, os fenômenos paranormais, por si só, seriam esta prova".

Os fenómenos são produzidos por encarnado e desencarnado

Insistindo na tese da criação de centros de pesquisa, sugeriu uma outra medida: "seria mui­to bom que os espiritas adotassem o procedimento científico da Parapsicologia. Desenvolvendo suas pesquisas dentro do próprio Centro Espírita, formando laborató­rios ou que fundassem em cada Estado, Centros Espíritas vol­tados à pesquisa científica, fa­zendo sessões experimentais, observando o comportamento dos médiuns etc..." Relata a sua tentativa da criação deste tipo de trabalho no Recife que não foi bem aceito "porque os espíritas insistem em não enca­rar o aspecto científico com a importância que ele deve ter no contexto espírita".

Mostrou-nos a diferença bá­sica entre o Espiritismo e a Pa­rapsicologia: "A Parapsicolo­gia é uma ciência que tem por objeto o estudo dos fenômenos paranormais, ou seja, ela pretende estu­dar os mecanismos e obter cer­to controle sobre os eles, e, como a ciência, dar-lhes um sentido prático. Na Parapsicologia, a hipótese da causa dos fenômenos é que eles se originam no inconscien­te do médium. Assim, enquan­to na Parapsicologia a sobrevi­vência é uma hipótese, para o Espiritismo ela é um fato: o espírito desencarnado é a causa da maioria dos fenômenos. Mas o campo de pesquisa é o mesmo."

Quanto ao problema do ani­mismo, lembra Ernesto Bozzano, quando este afirmou que "para conhecer os poderes do espírito desencarnado, precisamos primeiro conhecer os poderes do espírito encarnado”. Precisamos investigar a capacidade criati­va da mente, para, por qual­quer motivo não estar atribuindo aos espíritos a agência dos fenômenos paranormais. Tanto que Camille Flammarion chegou a afirmar textualmente que as comunicações entre vi­vos e mortos eram tão raras que a rigor poderíamos dizer que elas não existem".

E foi dentro desta mesma fi­delidade científica que o pro­fessor Walter Rosa Borges se propôs a estudar e pesquisar o médium pernambucano Edson Queirós, que vem fazendo cen­tenas de operações espirituais dentro da própria Federação Espírita de Pernambuco e que será objeto da reportagem em nossa próxima edição.