A Realidade Múltipla

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         Não há essência da realidade. Não há nada em si. Tudo está em relação a.

            Sentimos que somos reais na nossa interação com os outros seres e as coisas chamadas materiais.

            A essência do real é a relação dos seres do mesmo nível fenomênico. A essa relação damos o nome de matéria e, por isso, nos sentimos como seres materiais.

            Nada do que é, foi. Nada do que é, será. Tudo o que é não foi e nem será. Cada coisa é sempre outra coisa a cada instante por mais que se assemelhem entre si.

            Tudo morre. Tudo é sempre novo. Nada é igual: tudo é semelhante ou diferente, pois tudo se assemelha ou se diversifica, segundo as peculiaridades e circunstâncias do processo transformista.

             O real é tanto o atual quanto o possível ou potencial.

             O infinito é, necessariamente, indivisível, pois, se fosse divisível, não seria infinito. Assim, o finito não passa de aparência.

             O infinito, por indivisível, é também imutável. Nele, não há onde e quando. Tudo é sempre tudo. Não há centro nem periferia.

            O infinito, por indivisível, imóvel, homogêneo, não admite posição, dimensão, distância. Assim, ninguém está em qualquer parte do infinito, porque não existe indivíduo ou parte no infinito.

           Quando falamos em realidade, referimo-nos a uma infinidade de coisas dos mais diferentes aspectos e formas, reunidas sob uma única palavra. A realidade é, assim, o conjunto de todas as realidades, sejam elas atuais ou meramente possíveis.

            Podemos conceituar a realidade como o Todo, como os sub-sistemas do Todo e como cada coisa individual. O conceito de realidade, por conseguinte, pode variar ad infinitum, de conformidade com o referencial escolhido. É ocioso, portanto, o questionamento sobre o que é a realidade, pois o modo de perceber cada um de seus inúmeros aspectos é o seu próprio conteúdo.       

            O real não é só o realizado, mas o realizável. Não só o percebido por  nossos sentidos e suas extensões artificiais, ou seja, o manifesto ou objetivo, mas também a programação preexistente no ser, oculta ou subjetiva.

            O real é eterno, infinito e constituído de infinitas formas e níveis fenomênicos.

            Por ser infinito o real, não existe o átomo, pois a individualidade de algo invalidaria o infinito.

            O átomo não é o contrário do vazio ou seu limite. Ele é o contrário do infinito e este não é sinônimo de vazio como inexistente, mas, sim, como potencialidade.

            Habitamos um dos infinitos níveis da realidade e só conhecemos este tipo de realidade. Por isso, somos levados a pensar que somente o nosso nível da realidade é a própria realidade.

            A realidade é, para cada espécie de ser, segundo ela a percebe. Não há, portanto, uma única realidade, mas múltiplas realidades em razão da multiplicidade das espécies. Eis por que certas drogas, denominadas alucinógenas, por desorganizar nossos padrões habituais, nos fazem perceber novas nuanças da realidade.

             Com arrimo na Física quântica, há os que admitem que o que é fisicamente possível inevitavelmente acontecerá em alguns dos universos cujo número é infinito. Esses vários universos são realidades paralelas ou coexistentes, mas só nos é dado perceber um só deles, ou seja, aquele que habitamos. Assim, as nossas possibilidades de ser acontecem em outros  universos, embora não as possamos conhecer.

              A realidade é um Todo unificado em todos os seus níveis.

              Tudo interage com tudo, sob formas e condições as mais diversas.

              Nada existe isolado e o individual não passa de aparência.

            Não há uma realidade objetivamente organizada, mas uma realidade objetivada segundo a estrutura perceptual de cada espécie, produzindo a impressão de uma realidade objetiva e comum aos seus indivíduos.  

              Não vislumbramos razões convincentes para a assertiva de que o nível físico da realidade é de importância secundária e caracterizado por imperfeições. Trata-se de mero juízo de valor, decorrente da nossa inabilidade de lidar com os problemas existenciais do mundo material e suas leis. Porque adoecemos, envelhecemos, sofremos e morremos, repudiamos estes fatos e, por um mecanismo de compensação, asseveramos que o mundo físico é necessariamente mau. E, assim, postulamos um mundo ideal, superior e perfeito, onde não adoecemos, não envelhecemos, não sofremos e não  morremos.

            A ilusão é a demonstração de que nossos sentidos podem, em certas circunstâncias, decodificar de maneira diferente os estímulos recebidos do mundo exterior. A chamada "realidade virtual" é outra constatação de que podemos ter percepções que sabemos não se originar do mundo exterior, mas de um programa de computador.

            A alucinação também nos proporciona uma decodificação de estímulos que, apesar de se originar de nossa mente, de uma sugestão hipnótica ou ainda de uma vivência telepática, nos fornece uma forte impressão de experimentar um acontecimento objetivo.

            A realidade não é apenas o que percebemos, mas também o que não percebemos. Não somente o visível, mas ainda o invisível.

           Os progressos da ciência e da tecnologia vêm, gradativamente, aumentando a nossa capacidade perceptual, visibilizando o que era invisível e comprovando que o real não é tão somente o que reage à nossa sensorialidade. A nossa estrutura sensorial detecta apenas uma insignificante parcela da realidade.

            A realidade virtual, oferecida por programas de computadores, se torna sucedânea da realidade física e também simulações de situações que, um dia, poderão tornar-se concretas. O computador antecipa vivências e propicia amostragens experienciais de futuros prováveis. O real físico sofre a concorrência do real virtual e passa a ser controlado, até certo ponto, por ele. Os futuros passam a ser experimentados como roupas e sapatos e, assim, escolhidos sob medida. E, (quem sabe?) até os gêneros de morte possam ser, do mesmo modo, previamente experimentados e livremente escolhidos.

            Então, é de se perguntar: se a matéria é a forma como os nossos sentidos decodificam a realidade, o que são, afinal, a realidade e o observador? Eis, por certo, uma questão embaraçante. Sentimo-nos reais, mas não sabemos o que é a realidade, do mesmo modo como somos seres vivos e não sabemos o que é a vida. Por conseguinte, se não sabemos o que é a realidade, embora sintamos que somos seres reais, não sabemos também o que somos e porque somos estruturados deste jeito, percebendo a realidade segundo nosso modo de ser.

            Sob este ponto de vista, a realidade, para nós, é sempre material, pois matéria é o modo como decodificamos a realidade. À medida, portanto, que ampliamos as nossas extensões sensoriais, com o auxílio do arsenal tecnológico, enlarguecemos o nosso mundo material, tanto a nível microcósmico quanto a nível macrocósmico. A matéria, portanto, não é ilusória. Ilusória é a crença de que a matéria, isto é, a nossa forma de interagir com a realidade, é toda a realidade. Assim, há, possivelmente, infinitos níveis de realidade e cada qual com a sua "materialidade" própria. 

           Na verdade, chamamos de matéria tudo aquilo que é apreensível pelos nossos sentidos ou por extensões artificiais dos mesmos. Matéria, portanto, é tudo aquilo que perceptualizamos. Por isso, à medida que aumentamos a capacidade da nossa instrumentação tecnológica, aumentamos o nosso universo material. Matéria é, assim, nosso modo de interagir com a realidade. A realidade não é pois a matéria, mas um modo de percebê-la, na conformidade de nossa estrutura sensorial.

            A rigor, não existe uma matéria em si como substância da realidade, mas, sim, como forma de apreensão da realidade. A matéria é um construto sensorial. Com isso não se quer dizer que não exista um mundo exterior, uma realidade objetiva. Afinal, o observador é real. Mas a realidade não é apenas o observador. A matéria é a maneira como a realidade se apresenta ao observador. Este não organiza a realidade tal como ela se apresenta aos seus sentidos. Ele a organiza como significado para si mesmo.

            A matéria, portanto, não existe lá fora. São os nossos sentidos que criam a nossa realidade, decodificando os estímulos recebidos do mundo exterior. O conjunto de todos  esses estímulos nos proporciona a impressão da "realidade" da matéria. Assim, as "propriedades" da matéria - forma, cor, peso, aroma, sabor, impenetrabilidade - são decodificações da nossa estrutura sensorial e não de uma matéria real fora de nós. A matéria é o modo como decodificamos a realidade.

           A partícula, como tal, não existe. A realidade é constituída da interação recíproca de campos: o campo eletrônico, o campo protônico, o campo eletromagnético e o campo gravitacional. A substância destes campos é vibratória e as partículas aparecem como manifestações "materiais" dos mesmos. Os físicos já começam a observar  que o que caracteriza um campo é a sua simetria invariável.

            A realidade é uma substância qualitativamente contínua e quantitativamente descontínua. Ela é constituída de múltiplos níveis fenomênicos.

            Já se admite, cientificamente, que não há vácuo absoluto: há sempre um campo eletromagnético residual.

            A Física quântica, postulando uma nova visão da realidade, inverteu toda a estrutura da Física clássica. Assim, enquanto para a Física clássica, o universo é constituído de elementos fundamentais, onde as partes determinam as propriedades do todo e toda causalidade é local, a Física quântica estabelece que o universo é um todo, constituído de interações, não existindo elementos fundamentais, onde o todo determina as propriedades das partes e a causalidade é não-local, decorrente do próprio todo e, portanto, estatística.

           Caos é tudo aquilo não conseguimos ordenar ou descobrir uma ordem, dentro dos nossos padrões convencionais. Caos é a infinita variedade da natureza e ordem, a nossa forma peculiar de perceber uma dessas infinitas formas da natureza.

            Vivemos num tipo de ordem a qual, para muitos, parece ser a única no universo. Por isso, o vezo de se denominar de caos tudo o que não se enquadra na nossa concepção de ordem. Na verdade, pode-se admitir outros tipos de ordem que a nossa estrutura ontológica - sensorial e racional - não pode conhecer. Logo, o caos é uma expressão genérica para balizar as fronteiras do cognoscível e do incognoscível.

            O que chamamos de caos é a reciclagem da realidade.

            A teoria do caos, revelando a imprevisibilidade e a instabilidade de todas as coisas,  rompe as estruturas do lógico, do racional e prestigia o milagre. Na verdade, o milagre é um tipo especial de acaso.

            A natureza não é ordem. A natureza não é caos. A natureza é ordem e caos.