A Realidade Transcendental

 

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           Para se postular a existência de um universo transcendental, é necessário, preliminarmente, questionar se a matéria é o fundamento da realidade física e se só o que é material é real.       

           A ciência vem procurando, até hoje, identificar a realidade com a matéria e encontrar o elemento fundamental da própria materialidade.

            Inicialmente, concebeu a matéria como tudo o que nos afeta e que podemos perceber.

        Depois, observou que poderíamos também ser afetados pelo que não percebíamos. Então, a matéria passou a ser entendida como tudo o que nos afeta, mesmo aquilo que não podemos perceber, tais como os raios ultravioletas, os micro-organismos, etc.

            Graças, porém, ao crescente progresso científico e tecnológico e em razão das nossas extensões artificiais, estamos aumentando, gradativamente, o alcance da nossa materialidade.

         Pensamentos, emoções, idéias, desejos têm também a sua “materialidade”, pois podem nos afetar, apesar de sua imaterialidade.

            A realidade virtual, criada por programas de computadores, são simulações da realidade e que, um dia, poderão tornar-se concretas. O computador antecipa vivências e situações, propiciando amostragens de futuros possíveis. O real físico sofre, agora, a concorrência do real virtual e passa a ser controlado, até certo ponto, por ele.

            A realidade, no entanto, para nós, é sempre material, pois matéria é o modo como decodificamos a realidade. A matéria, portanto, não é ilusória, mas, sim, a nossa crença de que ela é a única forma da realidade.

         A matéria é um construto perceptual de cada organismo, e cada espécie, aqui, na Terra, tem o seu universo material específico. Logo, a realidade não se reduz à nossa materialidade humana e, conseqüentemente, existem outros níveis da realidade com a sua materialidade própria.

            Ainda não se comprovou que  matéria é constituída de elementos irredutíveis, indivisíveis, pois a ciência, até agora, não descobriu o átomo, na verdadeira acepção do termo. Já foram identificados cinco níveis da matéria – moléculas, átomos, núcleos, hadrões e quarks – e ainda não foi encontrada a sua estrutura fundamental. A realidade parece ser composta de infinitos níveis fenomenológicos, com ilusórios elementos constitutivos.

         A materialidade não está lá fora, mas em nós mesmos, no nosso modo de perceber o mundo exterior. Matéria é a nossa relação com os seres e as coisas. Isso não quer dizer que eles sejam produtos da nossa mente, mas, sim, que eles são materiais para nós porque podemos percebê-los. A essência da matéria é, portanto, a percepção. A cultura da sociedade em que vivemos é que nos fornece a materialidade das nossas percepções. Por isso, nós vemos a realidade com os olhos que a cultura nos deu, porque ver não é um fato apenas biológico, mas principalmente uma experiência culturalmente condicionada. O que chamamos de fato é uma percepção interpretada

          Uma região da realidade, além do tempo e do espaço, sempre foi intuída  por místicos e filósofos, e, atualmente, por cientistas. Platão concebeu-a como o mundo das Idéias. David Bohm a denominou de ordem implícita ou implicada. E Rupert Sheldrake, de campos morfogenéticos.

            Esta realidade, que podemos denominar de realidade transcendental ou RT é a região matriz da realidade fenomênica. Ela é tida como o mundo real, o mundo das possibilidades infinitas, pois a essência do real é o possível. Assim, o que chamamos de real é apenas uma parte do possível que fenomenologicamente se realizou.

             Certos fenômenos paranormais estudados pela Parapsicologia e outros tidos por milagrosos, observados em todas as religiões, transgridem as leis da realidade física e ultrapassam, de muito, a capacidade do ser humano, permitindo-nos especular sobre a existência de um outro nível da realidade - a realidade transcendental ou RT. Os fenômenos paranormais e os milagrosos são fenômenos insólitos, mas nem todos os fenômenos insólitos são paranormais ou milagrosos, pois podem consistir numa manifestação patológica da mente humana ou naquilo que se chama aberração da natureza ou teratologia.

        Há uma intencionalidade, um conhecimento e um poder por trás de certos fenômenos insólitos que não podem ser explicados pelas aptidões ainda pouco conhecidas do inconsciente do homem.

          Parece-nos sensato admitir que os fenômenos insólitos que não possam, razoavelmente, ser atribuídos a uma pessoa humana, na condição de agente psi ou AP, devem ser considerados como indícios da interferência de um agente transcendental ou AT, nome genérico para os seres transcendentais ou STs, os quais foram identificados, pelas religiões, como deuses, anjos, demônios, devas, espíritos da natureza e espíritos dos mortos.

            Este universo transcendental, também conhecido por mundo espiritual, é, até hoje, do domínio exclusivo das religiões, as quais jamais se conciliaram para buscar uma visão holística e coerente do mesmo. E a competição acirrada e dogmática entre as diversas religiões só resultou em conflitos desnecessários e na manutenção de concepções setorizadas e excludentes a respeito da RT.

            Enquanto a Ciência tem procurado harmonizar todas as ciências dentro de uma concepção unificada da sua metodologia cognitiva, a Religião, pelo contrário, se mantém fragmentada pela querela estéril de religiões e seitas, dando a impressão de que a RT é, fundamentalmente, caótica e ininteligível.

            Parece-nos evidente que a RT é extremamente complexa, constituída de diferentes níveis fenomenológicos, o que, por certo, esclarece a diversidade das revelações espirituais e das comunicações mediúnicas. Há, porém, uma interessante convergência nestes relatos: a existência de planos espirituais hierarquizados, melhor diríamos, diversificados. É a nossa tendência à simplificação que nos deixa atordoados e confusos ante a presumível heterogeneidade da RT.

            Porque vivemos num universo material, temos a propensão de tentar explicar todos os fenômenos psíquicos à luz das leis da Física ou como alterações bioquímicas do cérebro.

            Podemos, metaforicamente, falar num espaço da consciência, mas não da consciência ocupando um lugar no espaço. Podemos observar indiretamente a ação psíquica por seus efeitos sobre os organismos e a matéria em geral, como também mensurá-los. Na verdade, tratamos a consciência como se fosse algo físico para torná-la inteligível no universo sensorial, embora saibamos que se trata apenas de um recurso analógico, de uma estratégia pedagógica, de um expediente simbólico. E, por isso, falamos em peso da consciência, em consciência leve ou pesada. Afinal, qual é a forma, a cor, o aroma, a contextura da consciência? O poeta poderá melhor compreendê-la com as suas metáforas do que o cientista com os seus instrumentos de medição. Aliás, também os cientistas se dão ao luxo de usar metáforas, quando definem cor e sabor nos quarks. A rigor, qual a “materialidade” das partículas atômicas, fundamento da materialidade das coisas físicas?

        Como não chegamos, ainda, ao elemento fundamental da matéria, por certo, também, não chegaremos à essência do espírito. Por isso, não podemos detectar materialmente o espírito, nem encontrar o elemento último da matéria, pois não sabemos  se existe um ponto crítico, onde um deles termina e o outro começa.

        O ser individual é simultaneamente comando (espírito) e centro operacional (corpo). O comando é o aspecto interno e informacional do ser, variando seus conteúdos informacionais segundo as suas necessidades no universo onde ele esteja. O centro operacional é o aspecto externo e material do ser e varia de materialidade segundo o universo em que atue.

            O corpo é a consciência do ser no nível da realidade onde ele se encontra. Sem corpo, não há consciência, pois o corpo é o ponto referencial do processo. Por isso, dizia, elegantemente, Merlau-Ponti que o corpo é o nosso ancoradouro no mundo, o nosso meio geral de ter um mundo. O corpo é o poder geral de habitar todos os lugares do mundo. Assim, ser é sinônimo de estar situado.

            Embora mergulhado no mundo fenomenal, o ser extrapola a realidade física, conservando a sua contraparte não-física, espiritual. Assim, toda sabedoria que nos é necessária se origina da nossa contraparte, o daimon socrático, a nossa virtualidade ou espírito. Por isso, aquele que centra sua consciência exclusivamente no mundo material, ganha as coisas deste mundo, mas perde, não a sua alma, mas o contato com ela. Assim, a nossa “perdição” não é estar no mundo, mas estar separado da contraparte espiritual de nós mesmos.

            Tem-se especulado ainda que o universo é, fundamentalmente, um holograma e que, por isso, está presente em cada uma de suas talvez infinitas fragmentações. Se cada parte é a miniaturização do Todo, então, a rigor, não há aprendizado, nem troca de informações, porque já sabemos de tudo o que passou, de tudo o que está passando em qualquer parte do universo e até de tudo o que acontecerá. Assim, temos de dar razão a Platão, quando declarou que saber é recordar. O que não sabemos é como podemos ter acesso a essa sabedoria universal.