A Realidade e as questões existenciais

 

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A realidade é a maior de todas as questões metafísicas.

Como seres individuais, só podemos conhecer setorizadamente a realidade. Jamais conheceremos a realidade total. E a realidade, como a percebemos, é um mistério porque está sempre a mudar. Só podemos conhecer o que não muda. Por isso, buscamos inutilmente o imutável apesar de estarmos mudando e de tudo estar mudando.

A coerência é uma invenção humana que mantém a ilusão da permanência. É a tentativa de compreendermos a realidade, porque nos perturbamos com a contradição e o paradoxo.

Se tudo for imutável, tudo será previsível e, portanto, passível de controle. Se tudo for parcialmente imutável, só a parte imutável será previsível e controlável. Mas, se tudo for mutável, tudo será imprevisível e, portanto, incontrolável.

A realidade, para nós, é aquilo que percebemos ou que organizamos. Por isso, jamais poderemos livrar-nos, totalmente, do antropomorfismo e do antropocentrismo. Nada sabemos sobre o que nos é imperceptível.

Se não podemos entender a realidade em sua totalidade também não podemos entendê-la em suas unidades mais simples, ainda não encontradas pela ciência. Microcosmo e macrocosmo parecem não ter fim. Tanto em uma direção como em outra viajamos para o infinito.

Embora saibamos que a realidade nem sempre é como se nos parece, são as aparências que nos guiam, conquanto não sejam confiáveis.

Há ilusões que sabemos que são ilusões, mas nos comportamos em relação a elas como se fossem verdadeiras. E há ilusões que não sabemos que são ilusões e, por isso, temos a convicção de que são verdadeiras.  

Nunca saberemos por que e para que o universo e todos os seres existem. Por que o que é não é de outro modo. E por que e para que somos conscientes e vivemos a perguntar o por quê e o para quê das coisas. Tudo o que dissermos sobre isso não passará de especulação filosófica ou de crença religiosa.

Nunca saberemos o quanto não sabemos sobre a realidade. Ela é, para nós, como a percebemos e como imaginamos que ela seja.         

Todas as coisas parecem feitas de partículas cada vez mais ínfimas de nenhuma coisa. A mais ínfima partícula que a ciência, um dia, possa encontrar talvez não seja a substância última da realidade, mas sim o limite da nossa tecnologia.

A realidade é objetiva quando as subjetividades dos observadores interagem entre si, resultando em consensualidade. Ela não é apenas o que percebemos, mas também o que não percebemos. Não somente o visível, mas ainda o invisível.

Vivemos mais da ficção, do mito, do fantástico do que da chamada realidade objetiva.

Nada é real em si mesmo: tudo é real nas conexões. Ou seja, tudo é enquanto está em conexão. É ela que nos dá a impressão de que a realidade tem núcleo.

Nenhum fenômeno é ilusório, mas apenas transitório. Os fenômenos são pulsações do real, embora o real permaneça incógnito na sua plenitude. Assim, eles são momentos fugazes da realidade perene.

É possível que haja infinitos níveis da realidade, sendo o mundo físico um deles. O que denominamos de realidade é o conjunto de relações de um mesmo nível. Essas relações são resultantes de interações e constituem a “matéria” de um determinado nível fenomênico.

Podemos postular que esses níveis se entrelaçam entre si, formando uma infinita rede de interações que apresentam variações, porque cada um dos níveis da realidade tem a sua característica própria.

A realidade resulta das relações entre todos os seres da mesma espécie. Ela se constitui pelo consenso de observadores e muda quando ocorre mudança nesse consenso. Assim, a rigor, não há realidade, mas realidades, que interagem ou não entre si.

Essa realidade consensual é objetiva quando as subjetividades dos observadores interagem entre si.  

Não há uma realidade objetivamente organizada, mas uma realidade objetivada segundo a estrutura perceptual de cada espécie, produzindo a impressão de uma realidade comum aos seus indivíduos.

Os progressos da ciência e da tecnologia vêm, gradativamente, aumentando a nossa capacidade perceptual, visibilizando o que era invisível e comprovando que o real não é tão-somente o que reage à nossa sensorialidade. A estrutura sensorial detecta apenas uma insignificante parcela da realidade.

Se, como afirmam alguns cientistas, o universo é constituído, na sua quase totalidade, de matéria escura, a luz é um acidente da escuridão. A matéria luminosa, que emite radiação eletromagnética, é apenas uma parcela insignificante de toda a matéria. Assim, não podemos sequer imaginar a dimensão da realidade invisível. A luz é o nosso modo de ver uma ínfima parcela da realidade. Ver, para nós, é um ato de luz.

Denominamos de real o que é físico e, por isso, acreditamos que só o físico é real. O sonho é real, mas irreal se comparado com o físico. Por sua vez, o físico é irreal se comparado com o onírico. O virtual é um sonho induzido por um jogo de computador. O sonho é o virtual induzido por um estado orgânico.

A realidade virtual, oferecida por programas de computadores, se torna sucedânea da realidade porque simula situações que, um dia, poderão tornar-se concretas. O computador antecipa vivências e propicia amostragens experienciais de uma nuvem de probabilidades que nós denominamos de futuro.

A realidade, para nós, é sempre material, pois matéria é o modo como decodificamos o real. À medida, portanto, que ampliamos as nossas extensões sensoriais, com o auxílio do arsenal tecnológico, enlarguecemos o nosso mundo físico, tanto em nível microcósmico quanto em nível macrocósmico. A matéria, portanto, não é ilusória. Ilusória é a crença de que a matéria, isto é, a nossa forma de interagir com a realidade, é toda a realidade. Assim, há, possivelmente, infinitos níveis de realidade e cada qual com a sua “materialidade” própria.

Então, é de se perguntar: se a matéria é a forma, como os nossos sentidos decodificam a realidade, o que são, afinal, a realidade e o observador? Sentimo-nos reais, mas não sabemos o que é a realidade, do mesmo modo como somos seres vivos e não sabemos o que é a vida. Também não sabemos o que somos e porque somos estruturados deste jeito, percebendo a realidade segundo nosso modo de ser.

A cada momento, inventamos a realidade. O que chamamos de real físico é o colapso do real virtual, ou seja, é a atualidade de uma potencialidade, embora não saibamos o processo dessa seletividade, que produz a contínua conversão de potencialidade em atualidade.

No universo cultural, o real é a probabilidade que se realiza indefinidamente pela ação reiterada e simultânea dos membros de uma sociedade. Ou seja, cada cultura fabrica continuamente a sua realidade.

Tudo são probabilidades, e o que chamamos de real é a probabilidade que aconteceu. Logo, a probabilidade é a causa e a matriz do real, porque, como seres acontecidos, só consideramos real o acontecido.

           

De que é feita a realidade?

Se a matéria é o modo como nos sentimos reais assim como os seres e as coisas com os quais interagimos, seria redundante dizer que ela nos parece ser o fundamento da realidade.

Como a realidade física é constituída de átomos, tudo é essencialmente a mesma coisa e a diversidade não passa de aparência. Pedra, madeira, carne são aparências diversificadas do jogo atômico, seja ele determinístico ou aleatório.

As coisas e os seres vivos são sistemas de átomos em trânsito, mas nos dão a impressão de que permanecem imutáveis durante um curto ou longo período de tempo. O avanço do conhecimento científico constatou que as partículas subatômicas não parecem ser o fundamento da realidade material.

Se a matéria é constituída de ou por átomos, de que eles são feitos? De partículas subatômicas organizadas e em estado livre? Mas, de que são feitas essas partículas? Se afirmarmos que é de matéria, caímos da tautologia de dizer que a matéria é feita de matéria, ou de fragmentos de matéria cada vez menores, embora a ciência ainda não tenha encontrado o fragmento indivisível da matéria. No entanto, a matéria tal como a percebemos, é feita de fragmentos de material que não percebemos. O átomo não é matéria, porque esta resulta do modo como os átomos se organizam. Ela não é causa, mas efeito das mais variadas formas de organização atômica.

E como esses átomos, em combinações cada vez mais complexas, culminaram no ser humano e este, dotado de consciência, reconhece que tudo é feito de átomos? Ou seja, os átomos chegaram a tal complexidade que se tornaram conscientes de si mesmos.

O átomo é uma tentativa, até agora inútil, de encontrar o fundamento irredutível da matéria em sua contínua divisibilidade.

         

O que chamamos de matéria é a relação entre uma vibração que observa e outra que é observada. Ou seja: o percebedor é uma vibração que interage com a vibração, objeto de sua percepção, o que resulta na impressão de materialidade de ambas. Mas, o que é esse algo que vibra? Se o vazio é potencialidade, como pode algo potencial vibrar?

Cada conjunto interagente de vibração (observador e objeto da observação) cria a materialidade de seu próprio mundo. Logo, podemos argumentar que tantos mundos existirão quantos forem os conjuntos interagentes de vibração.

Na verdade, chamamos de matéria tudo aquilo que é apreensível pelos nossos sentidos ou por suas extensões artificiais. Por isso, à medida que aumentamos a capacidade da nossa instrumentação tecnológica, aumentamos o nosso universo material. Matéria é, assim, nosso modo de interagir com a realidade. A realidade não é, pois, a matéria, mas um modo de percepção de cada ser, na conformidade de sua estrutura sensoria

A rigor, não existe uma matéria em si como substância da realidade, mas, sim, como forma de apreensão da realidade. A matéria é um construto sensorial. Com isso não se quer dizer que não exista um mundo exterior, uma realidade objetiva. Afinal, o observador é real. Mas a realidade não é apenas o observador. A matéria é a maneira como a realidade se apresenta ao observador. Este não organiza a realidade tal como ela se apresenta aos seus sentidos. Ele a organiza como significado para si mesmo.

A matéria, portanto, não existe autonomamente. São os nossos sentidos que criam a nossa realidade, decodificando os estímulos recebidos do mundo exterior. O conjunto de todos esses estímulos nos proporciona a impressão da “realidade” da matéria. Assim, as “propriedades” da matéria - forma, cor, peso, aroma, sabor, impenetrabilidade - são decodificações da nossa estrutura sensorial e não de uma matéria objetivamente real.

A nossa percepção é conforme fomos organizados. E o que nos organizou? Foi a atividade aleatória dos átomos? O homem, sob esse aspecto, é um agregado instável e provisório de átomos que têm a veleidade de conhecer o mistério da realidade.

 

O observador isolado cria sua própria realidade subjetiva. Os observadores em interação criam uma realidade objetiva com a sua própria “materialidade”. Se a realidade é criação dos observadores, novas coisas podem ser inventadas ou descobertas desde que haja concordância entre eles, ao menos, na sua maioria. A aceitação de uma percepção constitui a sua realidade. Assim como os observadores criam a realidade, eles também a contestam e a modificam.

A realidade é uma consensualidade entre os observadores e essa é a sua materialidade. O mundo não é uma ilusão, embora cada mundo gerado por grupos de observadores  diferentes pareça ilusório em relação a outros.

Átomos criaram estruturas cada vez mais complexas e uma dessas - o homem - tornou-se consciente de si mesma e passou a estudar os próprios átomos que o compõem. Somos um conjunto instável e mutante de átomos, moléculas e células, que resulta na aparência estável do organismo e de um continuum da consciência.

 

Os materialistas, para explicarem o mundo, substituíram Deus pela matéria, dando a esta os mesmos atributos da Divindade. Assim, tudo é feito de matéria, tudo sai da matéria e a ela retorna, e a matéria é eterna porque nunca foi criada. É uma maneira inconsciente de desantropomorfizar o Todo, retirando dele os atributos humanos como também a natureza divina.

Matéria é informação em determinado nível, ou mais especificamente, no nível em que ela é percebida como forma. Será que o universo é um fractal que se reproduz infinitamente no microcosmo e no macrocosmo?

 

Somos um universo infinito de probabilidades, procurando, desesperadamente, ser algumas delas, mas conformando-nos em ser apenas umas delas.

O homem é a realidade que procura explicar-se a si mesma.

 

É impossível vivermos sem convenções, pois nos é natural o sentido de orientação, de organização da nossa realidade. Sentimos necessidade de criar regras e de a elas nos submeter. De elaborarmos um mundo lógico para nos sentir seguro nas certezas que inventamos. Cada sociedade é um sistema de relações dinâmicas que se alteram no tempo conforme as mudanças decorrentes das interações entre os indivíduos que a constituem.

Não somos apenas seres que vivem, mas que convivem em uma realidade comum. Não apenas uma realidade que nos situa no espaço, porém uma realidade simbólica que nos entretém em interações significativas e consensuais.

Há pessoas que são o passado da raça humana; outras, o presente; e, finalmente, algumas, o futuro. Apenas são contemporâneas fisicamente.

Cada cultura é o espírito coletivo de uma sociedade. Somos uma colmeia psíquica e, por isso, não pensamos, mas somos pensamentos que se reproduzem em coerência com o seu núcleo central.

Os homens não têm idéias, mas são “possuídos” por elas e se tornam seus veículos. Idéias são entes imateriais que atravessam séculos e as pessoas são seus “médiuns”. Algumas idéias, por perdurarem séculos e milênios, parecem imortais. Assim podemos perguntar-nos que idéias somos e, não, que homens somos. As idéias, como os genes, sofrem mutações para adaptar-se às novas circunstâncias, mas não mudam a sua natureza original.

O homem é uma programação cultural, o que confirma a afirmação freudiana de que uma pessoa socializada conduz, em seu superego, o sistema de valores de sua sociedade. Através dos mais diversos processos educacionais, ela introjeta no indivíduo, observada sua condição social, um programa existencial a longo prazo, programa esse a que, inconscientemente, obedece, cuidando tratar-se de um legítimo impulso do seu eu. A sociedade impõe as premissas, viciando o raciocínio e afetando a percepção da realidade. E o homem, assim condicionado, só percebe o que, no seu universo cultural, foi selecionado e interpretado.

Em cada cultura, os indivíduos desenvolvem aptidões específicas. Não há cultura que proporcione o desenvolvimento de todas as potencialidades do ser humano.

Não há sociedade anômica. Ela subsiste pela coerência de ações, propósitos, valores e significados de seus membros e principalmente pela confiança recíproca nas relações interpessoais. A força da lei não reside apenas no seu poder coercitivo, mas no respeito que os indivíduos têm a ela. A sociedade é, acima de tudo, uma filosofia de coexistência, um padrão existencial, cujas normas morais e jurídicas constituem a sua mera formalização.

O fundamento de qualquer sociedade é a solidariedade obrigatória ou espontânea de seus indivíduos. A solidariedade obrigatória é imposta pelas leis, e quanto maior a desobediência a elas, maior o risco de colapso social. Quanto maior a solidariedade espontânea, menor é a necessidade de invocação das leis, o que reforça a estabilidade social.

Uma sociedade é estável à medida em que for maior o número de pessoas que se afine com as suas normas e valores, tornando, assim, insignificantes as ações dos seus dissidentes. À medida que decresce o número dos que a apóiam, ela se torna mais vulnerável e entra em processo de degradação. A confiança é a base fundamental, não apenas das relações humanas, mas da sociedade, mantendo ativo o seu sistema imunológico e garantindo-lhe a própria subsistência.

Aqueles que se opõem a uma ordem estabelecida, seja temporal ou espiritual, são considerados anarquistas, agitadores, revolucionários, pecadores, heréticos, satânicos, ou seja, o símbolo do Mal. Ao contrário, os beneficiários da ordem se consideram os representantes do Bem. Se a ordem estabelecida é derrotada e outra ordem a substitui, tudo, então, se inverte e o Bem e o Mal trocam de posição.

De uma maneira geral, todas as pessoas são éticas. A ética é a lealdade ao grupo a que se pertence, mesmo que seja de criminosos. Por isso, cada grupo tem a sua ética própria, pouco importando qual a sua natureza, e abomina toda e qualquer forma de traição. Este sentimento ético decorre da necessidade de cada individuo de pertencer a um grupo com o qual se identifique, para garantir a própria identidade e segurança pessoais.

Confiamos mais nos outros do que suspeitamos. É impossível ao ser humano agir sempre racionalmente e duvidar de tudo. Quando as instituições sociais perdem credibilidade, as pessoas ficam confusas, desconfiadas, medrosas e, em alguns casos, agressivas, o que pode levar a sociedade a emergir num caos irreversível.

As infrações, sejam morais ou jurídicas, quando freqüentes, desestabilizam o sistema social e enfraquecem os poderes constituídos, que nada podem fazer se o modelo social não é mais confiável, o que compromete a sua própria legitimidade. As instituições se corrompem, perdem credibilidade e se mostram ineficientes para cumprir os seus objetivos.

Os desajustes sociais, os períodos de instabilidade e o questionamento de normas e valores são, para os moralistas religiosos, um claro prenúncio do fim do mundo. Todas as épocas têm seus momentos de transição, porém os comportamentos são classificados dualisticamente como o bem e o mal. Para os conservadores, o bem é o sistema a que estão adaptados. Para o os contestadores, o mal é o atual sistema e, por isso, lutam para que ele seja mudado. Para os primeiros, o mundo está perdido se o sistema for mudado. Para os últimos, o mundo não terá salvação se o atual sistema não for mudado.

Somente líderes honestos podem incutir no povo o sentido e o valor da honestidade. O exemplo dos que detêm o poder é contagiante e raras são as pessoas que não são contaminadas por ele. Assim, quando um país é liderado por insensatos, incompetentes e desonestos o seu destino está seriamente ameaçado.

Assim como na química, a mudança qualitativa de um corpo ocorre pela mudança de sua composição quantitativa, uma sociedade sofre mudanças qualitativas pelo aumento de sua população. A densificação de uma área demográfica pode ocasionar mudanças orgânicas e psicológicas de seus habitantes, influindo na qualidade de vida e nas relações interpessoais. Quanto mais somos, mais nos alheamos dos outros, o que resulta em crescente dificuldade de solidificar vínculos afetivos.

Em uma vida que se torna cada vez mais complexa, é difícil definir o que é estritamente necessário às pessoas. Enquanto as necessidades biológicas são as mesmas para os indivíduos, as necessidades psicológicas variam de indivíduo a indivíduo segundo a sociedade em que cada um vive.

A vida social é um ritual e a sua observância nos mantém permanentemente orientados em nossa vida de relação. A ritualização é fundamental para a segurança social, porque facilita as nossas relações formais. Só podemos ser criativos e espontâneos nos grupos informais. Normas e valores existiram, existem e sempre existirão em todas as sociedades. O seu conteúdo é que varia no tempo e no espaço.

Educar é condicionar a um padrão, habilitando os indivíduos a conduzir-se adequadamente na vida societária. Assim, todo ajustamento, no processo de socialização, só é conseguido à custa de amputações, podamentos e mutilação emocional e psíquica do homem. O maior inimigo do indivíduo é a força sociocultural que o obriga a padronizar-se. O conformismo das massas dominadas foi obtido pela justificação moral e/ou religiosa de sua condição. O poder político e o poder religioso determinam os atos que devem ser praticados pelas pessoas, segundo cada situação, e elas se sentem orgulhosas em praticá-los, sejam quais forem as suas conseqüências. Até matar se torna um dever, e a prática de atos abusivos, um direito. A coragem, o patriotismo, entre outros, se metamorfoseiam em virtudes impostas pela cultura. O suicídio, em certos casos, é um dever para evitar ou reparar uma desonra. A submissão e a obediência tornam-se virtudes. Preconceitos e xenofobismos são estimulados para justificar hostilidades e violências. Assim, virtude é a prática daquilo que deve ser feito, e o que deve ser feito é determinado pela sociedade.

Ensina-se que o ato de matar é lícito, e até obrigatório, quando se trata de eliminar os considerados inimigos do país. Um matador se torna herói, e o que morre pelo seu país também é herói ou mártir, segundo as circunstâncias. O nacionalismo patológico é a sigla dessa indústria que hipnotiza as pessoas, levando-as a matar e a serem mortas. Pátria e Deus são pretextos e bandeiras para justificar as grandes matanças. Os líderes guerreiros são momentos patológicos da humanidade.

O permitido, o proibido e o obrigatório variam no tempo e espaço, entre as culturas e em uma mesma cultura. O certo e o errado são criações culturais. Cada cultura acredita que o seu ponto de vista é o correto e possui justificativas para defendê-lo. O que chamamos de “senso comum” é o padrão lógico e comportamental de uma determinada cultura.

Ter uma identidade própria é atributo das poucas pessoas que se libertaram da hipnose cultural e, assim, passaram a perceber a realidade sob novas perspectivas. A maioria procura identificar-se com os outros e imitá-los. Imitar, copiar, reproduzir são mecanismos biológicos e culturais. É a condição de continuidade de uma forma, de uma espécie, de um processo. Daí, o mecanismo de reação ao que é novo, pois constitui uma ameaça ao que está adaptado. A lei da inércia, aplicada ao social, é uma explicitação desse neofobismo.

Nunca pode haver igualdade, mas solidariedade entre os homens, porque cada indivíduo tem suas necessidades pessoais, além das necessidades coletivas. A solidariedade pode resultar de egoísmos coincidentes. As pessoas, nessa situação, se unem para defender-se de um adversário comum, para fazer face a uma calamidade coletiva ou para melhorar as condições de vida. Quanto mais cresce a complexidade de um sistema, mais aumenta a interdependência de seus elementos constituintes. A solidariedade se torna compulsória, necessária e, afinal, inconsciente. Habituamo-nos a cooperar e isso passa a ser um comportamento natural.

A sociedade pode ampliar a satisfação das necessidades coletivas, mas nem sempre atende as de caráter personalíssimo. Um sistema social harmônico e relativamente estável influi sobre o equilíbrio físico e psíquico dos indivíduos e reforça a sua confiança nas relações sociais. A patologia social enseja o aumento das patologias individuais e inicia um circuito fechado de ações e reações capaz de levar à entropia sistêmica e redundar na destruição da sociedade.

Ninguém quer sentir-se só e sem objetivo. Queremos sempre pertencer a algo maior do que nós e que dê sentido à nossa vida. O grupo se torna, então, o nosso lugar no mundo, a nossa identidade social que sustenta e valoriza a nossa identidade pessoal. Ele confirma a nossa presença no mundo e atesta a nossa existência.

Somos atraídos por pessoas que se assemelham a nós porque, psicologicamente, elas são o espelho, o reforço da nossa identidade. Os que nos são dessemelhantes nos perturbam, porque deformam a nossa imagem e agridem a nossa identidade.

Todo ser humano é leal ao que ama, seja pessoa ou grupo social.

 Somos as interações que mantemos com nós mesmos e com os outros. Construímos, assim, um repertório de estados psíquicos e corporais com as pessoas com que interagimos. E quanto maior o número delas nessas interações, mais complexo o nosso repertório, embora, por uma questão de mínimo esforço, procuremos padronizar a maior parte das nossas inter-relações. Ou seja, formalizamos ao máximo as interações com estranhos, enquanto somos expansivos e criativos nas inter-relações com as pessoas que estimamos. Se aumenta o número delas, cresce também o nosso repertório. Se diminui, ele empobrece, e este é o grande problema das pessoas que  envelhecem, pela perda gradual de importantes vínculos afetivos. Construímo-nos com os outros e poucos somos sem os outros. A nossa realidade é, assim, tecida nas interações e sujeita a flutuações segundo a natureza delas.

Pensamos conhecer os seres e as coisas por suas repetências em situações semelhantes. Por isso, nos perturbamos quando ocorrem descontinuidades nessas recorrências ou o surgimento de algo novo no curso dos seus comportamentos habituais. O novo, sob qualquer aspecto, é sempre perturbador.

O desejo de compartilhar é uma necessidade humana. Mas, geralmente, as pessoas confundem o desejo de compartilhar com o de ter a companhia das pessoas que lhes dêem a sensação de segurança. O compartilhar não gera dependência e sim satisfação. A companhia pode até gerar satisfação, mas reforça a necessidade de segurança e a escravidão do apego. A proteção confiável está na confiança e solidariedade de um grupo. Todo poder está na união.

A sociedade nos induz a ser um padrão fixo de comportamento, uma personalidade estratificada, coerente, previsível. Se mudarmos, poderemos ser considerados loucos ou excêntricos e, principalmente, pouco confiáveis. Assim, petrificamo-nos em um tipo de personalidade, impedindo a manifestação do nosso potencial alternativo. Isso nos leva, na maioria dos casos, ao medo de mudar e ao apego à nossa padronização existencial. Somos obrigados e também nos obrigamos a ser sempre os mesmos, a fim de conservarmos a nossa identidade psicológica e social.  

O homem de caráter é aquele que foi exitosamente condicionado pela cultura. Por isso, é tido pela sociedade como virtuoso e merecedor do respeito social. Ele tem a firme convicção de que tudo deve ser como ele é, e o seu comportamento lhe parece um padrão universal. Ele só pensa, sente e age em razão desse padrão.

Cada cultura tem suas pessoas-padrões e que devem ser imitadas por todos os demais indivíduos. Até figuras fictícias ou lendárias podem servir de padrão. E cada sociedade tem seus métodos de condicionar os indivíduos, de socializá-os, de educá-los.

Há papéis que desempenhamos em razão da nossa sociedade. E outros que escolhemos em razão de nossas características psicológicas. Quer num caso, quer noutro, nós não somos os papéis, mas, sim, aquilo que não nos permitimos ver por trás deles.

O caos nos perturba e, assim, necessitamos de algum tipo de ordem para nos orientar.

Se, no universo físico, o homem procura descobrir leis ou construir modelos operativos para conviver adequadamente com a natureza, no universo social ele inventa leis que permitam a vida em comunidade, fornecendo um elenco de comportamentos previsíveis, permissíveis e exigíveis, garantindo a certeza das relações individuais.

Não há sociedade sem leis e sem um poder que a dirige. E este poder alcança a sua forma mais consistente, estruturada e burocrática na organização estatal.

A lei é poder. Poder disciplinado, mas poder. E poder de quem é seu representante, seu titular. A lei é o poder que é exercido com regras. E essas regras e sua observância dão visibilidade ao poder.

Para o equilíbrio da sociedade, é necessário que as leis sejam cumpridas e também mudadas quando se mostrarem insatisfatórias. Devem ser rígidas no seu cumprimento e flexível em caso de necessidade de sua mudança. Leis obsoletas se tornam prejudiciais ao convívio social. Elas podem ser mudadas pelo convencimento democrático ou pela força revolucionária. Se as leis não se tornarem hábitos sociais, dificilmente serão observadas. E quando não são observadas, a sociedade começa a desagregar-se.

Dizia Confúcio que uma sociedade, cujos membros não prosperem, é injusta e deve ser mudada. E os indivíduos, que não contribuem para a sociedade, são nocivos e, por isso, devem mudar sua atitude. Para ele, uma sociedade é estável quando as pessoas cumprem suas obrigações, sejam os governantes, sejam os governados.

Não existem direitos e obrigações na Natureza, mas sim o fato da sobrevivência do mais apto, da dominância do mais forte, da luta desproporcional entre a presa e o predador, da luta pelo território, e da anulação da individualidade na organização social das abelhas, das térmitas e dos cupins.

Em alguns aspectos, o Direito procura harmonizar-se com os fatos da Natureza, dando-lhes legitimidade jurídica e, em outros casos, a ela se opõe.

Assim como a natureza reage às violações de suas leis, o Direito é dotado de coercibilidade para reagir às violações das normas jurídicas. Elas devem ser observadas, porque são os alicerces de cada sociedade, embora mudem em razão das transformações sociais.

A justiça é um conceito subjetivo. É o sentimento de frustração que sentimos quando julgamos que fomos lesados em nosso direito.

Parece universal a crença na justiça e na punição para os injustos nem que seja no Além. Porque, se não houver justiça, o mundo não tem sentido, e se houver justiça, mas não punição para os injustos, ela é ineficaz.

A justiça, na sua essência, é necessidade de proteção e, por isso, os fracos a reclamam. Os fortes podem ser injustos, porque não necessitam de justiça. Porém, quando enfraquecem, passam a falar em justiça e a exigi-la. E os fracos, quando se tornam fortes, esquecem da justiça e não se sentem culpados das injustiças que passam a praticar.

A invenção da igualdade é a mais eficaz estratégia contra o poder dos fortes. A sagacidade, a astúcia e a desfaçatez são as armas que a presa utiliza contra a força do predador.

Os fortes transformam seu poder em privilégios, quer decorrentes das leis que elaboram, quer da presumida vontade divina. Ou seja, as leis são as formas de manipulação da vida societária.

Onde não há sociedade, não há lei, não há injustiça, nem sentimentos decorrentes de direitos e obrigações. As limitações, que a vida social impõem aos homens, despertam neles, em maior ou menor grau, o sentimento de liberdade. Se uns lutam para aumentá-la, outros se conformam com as limitações que lhe são impostas, gozando o mínimo de liberdade de que dispõem. E todos eles procuram racionalizar as suas atitudes para justificá-las em relação a si mesmos e/ou aos outros.

A vida social não é apenas ordem, hierarquia, previsibilidade, mas também a ludicidade, o acaso, a anti-ordem consentida e temporária. O lúdico é um dos aspectos mais importantes do social e tem a sua própria seriedade. O que chamamos de sério é o comportamento exigido pelas leis morais e jurídicas e cuja obediência é obrigatória. 

O lúdico também tem as suas leis. As regras do jogo são mais obedecidas do que as leis jurídicas, porque proporcionam prazer aos seus participantes. E como há jogos que permitem o blefe e desafiam o acaso, os jogadores desfrutam uma sensação de euforia e liberdade.

O lúdico é um dos fundamentos da estabilidade social.