A Saga do Existir

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           Existir é uma saga. É a busca de sentido para o que não se compreende.

            A Vida é um mistério e cada pessoa, como parte deste mistério, é também um mistério.

           Não somos seres que apenas existimos, mas que também buscamos uma saga para o nosso próprio existir.

          O sempre e o nunca são criações do homem desejoso de impor leis à natureza

          Deus é a experiência humana que está acima da própria razão humana.Tudo o que for dito sobre Deus é o que o homem pensa como conseqüência desta experiência.

            Um Deus situado é um Deus sitiado e envolvido pelo espaço.

           Deus é um ser onde tudo está acontecendo. Nele, nada aconteceu, nem acontecerá.

           Deus é o ser simultâneo, por isso, onipresente e onisciente.  Os seres individuais são sucessivos e, por isso, se locomovem no tempo e no espaço, no infinito corpo de Deus.

          Algo infinitamente pequeno e infinitamente denso a que se chamou de singularidade existia no infinito nada, o qual não era infinito, porque existia algo.

          Então este algo explodiu ninguém sabe por que e como. E nem também quando, pois o tempo passou a existir depois da explosão.

          Dizer que o tempo existiu depois é uma contradição, pois depois também é tempo. Antes e depois são tempo: logo, não há antes e depois do tempo.

          E se não existia o tempo, o que era este algo sem tempo?

          Era o espaço infinitamente contraído e denso e que gerou o tempo ao explodir? Então, este algo que era espaço compacto explodiu no vazio e começou a se expandir em partículas e vazio no infinito vazio e ninguém sabe quando parará esta expansão. E se nunca parar?

          Esta é uma hipótese científica ou uma metafísica que obteve status de cientificidade?

         Têm-se procurado os fundamentos da realidade em reducionismos cada vez maiores.

          Primeiro foram as células.

          Depois, os genes.

          Por que não os átomos ou mesmo os quarks?

          Os mínimos são postulados como os construtores da realidade. Assim, tudo o que existe é o resultado dos jogos dos mínimos. Até o próprio homem não pensa: ele é pensado pelos mínimos que o iludem, fazendo com que tenha a impressão de que pensa.

          Saímos do antropocentrismo para o minimocentrismo.

          Deus deve ser o mais mínimo dos mínimos.

         Sabemos que nosso corpo é constituído de órgãos, células e átomos.Será que nossos órgãos, células e átomos sabem também que nós existimos?

         Se somos um sistema consciente de órgãos, células e átomos, terão estes subsistemas consciência da existência do sistema do qual fazem parte?

         E, ainda mais: cada órgão, cada célula, cada átomo do nosso corpo sabe tudo quanto sabemos e sobre a totalidade do que somos?

         Será que cada célula e átomo novo do nosso corpo herda de outras células e átomos  o conhecimento de tudo quanto somos?

         Será que nada mais somos do que uma estratégia dos nossos genes para garantir a sua sobrevivência, conforme pensa Richard Dawkins? Ou será que foram os genes de Dawkins que lhe revelaram esse terrível segredo?

          Essas coisas acontecem quando certos cientistas querem pensar filosoficamente.

          Afirma-se que há coisas sem vida e que a Vida resultou de relações aleatórias entre as coisas sem vida. Ou seja: no princípio não era a Vida. Todavia, não se sabe explicar por que as partículas subatômicas, que são coisas sem vida, constituam o estofo último dos seres vivos.

            A biologia se aferrou firmemente à crença de que o vivo só pode se originar do vivo.

            Como explicar, porém, que seres vivos sejam, em seu nível atômico, constituído por elementos não-vivos.? Ou temos de mudar o nosso conceito de vida ou especular sobre o que opera essa transição do não-vivo para o vivo.         

           Se Deus não tem atributos, como podemos afirmar que ele é amor, justiça, bondade, perfeição?! Como podemos dizer que Deus nos ama, nos pune e se ira contra nós?

          Um Deus concebido e compreendido é apenas um Deus humanizado e feito na medida de nossas carências.

           Deus é uma intuição do homem, mas que está acima de sua compreensão. Basta-nos somente o sentimento de sua invisível presença.

           Ateu não é apenas quem nega Deus, mas quem afirma qualquer coisa sobre Ele.

           Deus, para mim, é o melhor que eu posso conceber. E embora saiba que Deus não é isto, isto porém me basta.

           Talvez a realidade seja um vazio de infinitas possibilidades, onde o que chamamos de real é a atualização de uma dessas possibilidades a partir do ato da observação.

           O que resta saber é se há um Observador na Observação ou apenas a Observação.

           Palavras e números são invenções humanas e, por isso, inúteis para a compreensão do real.

           O homem não tem qualquer essência fixa, imutável. A sua essência são as suas relações com a natureza e com os outros homens.

           Somos o que nos relacionamos.

           Não há que se procurar causas para um evento. Um evento é apenas um referencial num contexto de interações. Logo, causa não é o que precede determinado evento tido por efeito.

          As interações do universo não são lineares, mas um sistema de interações em rede. Um evento é um ponto percebido nesta rede. Então, usamos o passado para explicar a causa deste ponto. Mas, acontece que o que queremos que aconteça no futuro pode influir no presente. Ora, se tudo é uma rede de interconexões, não existem passado e futuro, pois a realidade não é unilinear. Se somos pontos interconectados com a rede do Todo, tudo o que nos acontece repercute na rede e tudo o que ocorre na rede também repercute em nós. Nós, na verdade, somos nós, ou pontos, quando referenciados na rede.

             Devemos substituir o conceito de causalidade retilínea pelo de causalidade multilinear convergente, onde o evento é o ponto de convergência da dinâmica da rede de interações universais. Aliás, cada evento nesta rede é um ponto de convergência simultânea de todas aquelas interações.

           Organismos simples, com uma única célula e sem cérebro, sabem reagir ao ambiente em que vivem. Onde se situa o programa que faz com que estes organismos apresentem um comportamento adequado e coerente aos estímulos recebidos?

          Se programa é cérebro, como explicar a existência de um programa na ausência de cérebro?

          Comportamento pressupõe cognição. Cognição produz comportamento. Comportamento é cognição em  ação.

          O que faz com que uma bactéria modifique o seu comportamento e se adapte às mais diversas alterações ambientais, inclusive a antibióticos? A adaptação não é uma ação inteligente? Se a adaptação não fosse um comportamento inteligente, há muito as bactérias teriam sido vencidas pelo homem tido como mais inteligente. Mas onde está a mente da bactéria, capaz de se rivalizar com a mente complexa do homem. Como um ser sem cérebro pode medir-se, na batalha da vida, com outro ser com cérebro?         

            O homem não é mais somente o seu corpo, porém, cada vez mais, as suas próteses. Não apenas próteses como substitutos orgânicos, mas como extensões e complexificações do seu agir e até mesmo do seu pensar.

            Para ir além do orgânico, o homem se prolongou nos mecanismos que fez para si. Ele, hoje, é uma singular trilogia de mente, corpo e máquina. O orgânico já é insuficiente para abrigar tudo o que ele é.

            Expandimo-nos para além do nosso corpo e começamos a perder os limites somáticos de nós mesmos.

            Quando o corpo, por suas limitações biológicas, deixar de ser a nossa essencial ferramenta e se tornar uma insuportável prisão, para onde o homem irá? Construirá, então, um corpo mais compatível com o que ele, atualmente, é?

            Não podemos sequer imaginar o que será este corpo e também o que seremos. A nossa imortalidade estará nas máquinas como sucedâneo somático do velho corpo biológico?

            Como é que as múltiplas interações entre as sinapses e as ações dos neurotransmissores resultam em pensamentos, idéias, consciência, vontade?

            Como é que as talvez ilimitadas interações dos elementos mais simples resultam nas estruturas e sistemas mais complexos?

            Como é que as interações se transformam em autoconsciência e descobrem que a autoconsciência é resultado daquelas interações?

           Como é que essas interações geram, não só a consciência, mas também a vontade de agir sobre as próprias interações para controlá-las e até modificá-las?

            Tudo o que está rigidamente organizado tende à imobilidade e à morte.

            Tudo o que é excessivamente caótico nada produz de eficaz e é um turbilhão sem sentido.

            Um sistema eficaz é aquele que, apesar de coerentemente organizado, não é inflexível e permite certo grau de improviso e capacidade de adaptação até mesmo em face a situações normalmente imprevisíveis. 

           Afirma-se que a complexificação cerebral, resultante do aumento dos neurônios e das sinapses, ou seja, do aumento de unidades processadoras e de suas conexões recíprocas, cria uma organização psicobiológica. Ou seja, a organização psicobiológica não resulta de um plano prévio, mas de uma auto-organização aleatória, o que leva à conclusão de que a organização é anterior ao organizador ou que o organizador resultou da organização.

          Acontece que o organizador, que é a organização consciente de si mesma, passa a agir sobre a própria organização para modificá-la, e embora o organizador (o efeito) possa alterar a sua própria, não é capaz de saber o que ele é.

          O homem não é apenas um fazedor de coisas, mas um artesão de símbolos. As coisas só têm realmente valor para o homem, quando estão impregnadas de símbolos e significados.

          Somos seres significadores e vivemos em função de tudo o que significamos. Nossa vida é um conjunto de signos e significados.

         O homem é aquilo que significativamente fez de si mesmo.      

           A vida não imita as máquinas. As máquinas é que imitam a vida. As máquinas são inventadas para realizar supletivamente atividades vitais.

           O cérebro não se comporta como um computador, mas este é que é uma imitação canhestra daquele.

           Não foi o computador que descobriu os mecanismos do cérebro, mas o homem é que, descobrindo certos mecanismos cerebrais, aplicou-os ao computador. 

           O progresso é o aumento da complexidade das relações dos homens entre si e com a natureza, decorrente da crescente expansão do conhecimento. Não resulta necessariamente em bem-estar individual e social, mas na tentativa de adaptação às circunstâncias que ele próprio gerou.

            O conhecimento, pois, não nos faz felizes, mas complexos e até perplexos ante a expectativa de seu aparente desenvolvimento ilimitado.

            É de uma extrema insensatez a afirmativa de que, mediante as simulações do computador poderemos entender a mente humana. Ora, foi a mente quem inventou o computador, seus programas, suas simulações. Ele não passa de uma extensão da mente, a qual transfere para ele seus atributos. Tudo o que o homem produz é extensões de si mesmo. O computador, por mais complexo que seja, não passa de uma extensão da própria complexidade da mente humana.

           Para explicar a mente humana, o computador deverá ser mais complexo do que ela.

           Como pode a mente criar algo mais complexo do que ela?

           O egoísmo é o princípio de autoconservação de qualquer sistema biológico e cultural.

           Há duas modalidades de egoísmo: o individual e o coletivo, este último representado pelo grupo familiar, por outros grupos sociais e também pelo país em que se nasceu.

           O egoísmo individual é frágil, porque exercido por uma só pessoa e em seu próprio benefício.

           O egoísmo coletivo é forte, porque exercido por várias pessoas, beneficiando diretamente o grupo e indiretamente cada um dos seus indivíduos, em proporções diferentes.

            Se a consciência não tem forma, se não é possível medi-la, se não podemos localizá-la, concluímos, de logo, que ela não é local, não se encontra no espaço, nem está confinada no cérebro. Portanto a pergunta “onde está a consciência?” não tem sentido, pois a consciência não está onde. Ela não é um epifenômeno do cérebro, porque o cérebro é uma entidade espacial. Se não é um entidade física, a consciência, por conseqüência, não existe?

           O espaço e o tempo são hoje concebidos como uma unidade. Ora, se a consciência não se encontra no espaço, ela também não se encontra no tempo. Ela não é onde, nem quando. Logo, não é afetada pelas ocorrências tempo-espaciais.

           Um dos maiores mistérios reside nesta conexão que se estabelece entre a consciência e o universo tempo-espacial e o que acontece à consciência humana na sua desconexão definitiva com a organização biológica.

           Quem nega a consciência assume o seguinte paradoxo: eu estou consciente de que não sou (ou estou) consciente. Ou ainda: eu sou inconsciente, mas consciente da minha inconsciência.

           Também é interessante querer-se provar de que é feita a consciência. E afirmar-se que ela é efeito ou resultado de complexas atividades metabólicas. A consciência é um resultado que procura saber como chegou a este resultado.

            Procura-se saber o que é a consciência, usando, para isso, a consciência. Ou se procura negar a consciência, utilizando a consciência, embora se afirme que ela não existe.         

           O que é o tempo vazio? É o tempo em que não agimos, em que não pensamos, em que não sentimos?

           O nosso fazer, o nosso pensar, o nosso sentir por tanto ocupar o tempo não nos faz senti-lo. Então, o tempo só existe quando não agimos, não pensamos, não sentimos. É o vazio que nos intima a preenchê-lo e, enquanto não o fazemos, somos acometidos de um sentimento de culpa e de angústia.

          O passado, para muitos, é um museu. Para outros, porém, um companheiro experiente que pode sugerir comportamentos para situações semelhantes que nos ocorrem no presente.

           O passado é a presunção de que algo aconteceu segundo o que lembramos.

           A Idade de Ouro sempre está no passado ou no futuro. O presente não passa de uma janela onde contemplamos o que foi e o que será.

           O hoje nunca deve ser a sala de espera do amanhã.

           Quem espera sempre alcança? Nem sempre. E enquanto se espera, não se vive o que realmente se tem - o hoje.

           O tempo é a percepção sucessivizada da simultaneidade de tudo. Se o tempo não existe lá fora, então o tempo é uma experiência subjetiva. Mesmo o tempo cronológico não passa de uma experiência intersubjetiva.

          Não há o tempo onde as coisas se desenvolvem, mas há o desenvolvimento das coisas do qual resulta o tempo.

          Não há um tempo padrão, mas sistemas e subsistemas do tempo, cada um deles com os seus tempos específicos. Cada sistema ou subsistema cria o seu próprio tempo, como decorrência de sua mudança. Logo, o tempo é a mudança das coisas. Sem mudança, não há tempo. Por isso, a imobilidade é o símbolo da eternidade.

        Seres e coisas, portanto, não se transformam no tempo, mas geram o seu próprio tempo. Seres e coisas não estão no tempo, mas o tempo é que está nos seres e nas coisas. O tempo nasce com eles. Como, porém, cada subsistema está contido num determinado sistema, o tempo do sistema se torna um referencial externo dos subsistemas. O tempo de um vírus não é o tempo de uma galáxia. O que ignoramos é o que seja o Supersistema, ao qual se subordinam todos os sistemas e subsistemas da natureza.

       Espaço e tempo são, assim, aspectos diferentes da realidade física. O que se questiona é se o espaço é o vazio existente entre as coisas ou se o espaço é um continuum onde as coisas são um estado mais densificado do espaço, dando-nos a impressão do vazio. O tempo é o processo de transformação do espaço e na conformidade de cada sistema ou subsistema densificado do espaço. 

         Apegar-se ao conhecimento é o mesmo que se apegar às coisas. Todo apego, seja de que natureza for, é uma prisão.Quem não é livre do que sabe, não pode aprender sempre.

         Sábio não é aquele que se imobiliza no seu vasto saber, mas aquele que é capaz de renunciar a tudo o que sabe para saber mais.        

           Podemos reverenciar o que fizemos, mas nunca idolatrar a nossa obra. Ao contrário, é mister compreender e aceitar a idéia de que, por melhor que ela seja, um dia será superada.

          Talvez alguns de nós possam assistir, ainda em vida, a este acontecimento. Porém, o mais importante, embora supremamente difícil, é abraçar a ideia, hipótese ou teoria que substituiu a obra de toda nossa vida.          

           Paradoxalmente, o conhecimento que liberta o homem também, às vezes, o destrói.

           Porque queremos, pelo conhecimento, dominar as coisas, tornamo-nos, implicitamente, adeptos do determinismo. E dizemos que não há o acaso, pois este é fruto da insuficiência do nosso conhecimento. No entanto, apregoamos o livre-arbítrio, apesar de termos aceitado que tudo está determinado. Ou nos conformamos que tudo está determinado, porque só em Deus ou na matéria existe o conhecimento universal. O homem, diz-se então, por não possuir o conhecimento universal, tem a ilusão de que é livre, ou prefere ter essa ilusão.

            O que chamamos de liberdade ou livre-arbítrio é o exercício pleno ou parcial de nossas necessidades, as quais, por sua vez,  não foram determinadas por nós.

            Nós não queremos ter necessidades: nós as temos. E são as necessidades que se manifestam sob forma de vontades e desejos. Logo, não somos livres para escolher nossa vontade, pois são as necessidades que a determinam, como também e, paradoxalmente, a própria vontade de ser livre.

            Temos a impressão de que somos livre, quando satisfazemos nossas necessidades e até quando elas nos permitem que não as satisfaçamos.

            A sociedade é um conjunto de necessidades genéricas, protegido pelo Direito. Pune-se aquele cujas necessidades entram em conflito com as necessidades sociais, não porque ele seja culpado pelo que é e pelo que faz, mas pelo que faz e que põe em risco a sobrevivência da sociedade.       

            O fanatismo é a cronificação de um delírio sistematizado. O colapso definitivo da razão. O império irreversível da emoção descontrolada.

            O fanático não raciocina: emociona-se.

            O homem tem uma vocação irresistível para o maravilhoso. Como se já não bastassem os mistérios da vida, ele inventa também os seus próprios mistérios. Parece que o cotidiano o asfixia e ele sente uma urgente necessidade de ampliar a capacidade pulmonar de sua respiração existencial.

            Quanto mais exótica é a manifestação do mistério, tanto mais ele se deixa embriagar num exaltado apostolado do delírio. Apaixonado pela sua fantasia, ele se torna fundamentalmente incapaz de perceber a mais óbvia realidade. Por isso, o fanático não dialoga, pois é surdo à voz da razão e apenas escuta o discurso do seu delírio.          

            Quando nos lembramos do que fomos, praticamos necromancia.Tudo o que fomos são fantasmas: só hoje é que estamos vivos.  Somos receptadores de fantasmas.

            Falamos com quem já fomos. A memória é nosso Além, território onde vivem todos os fantasmas, onde vivem todos os que, um dia fomos, e também o que os outros foram.

            A memória é o deus Hades, o soberano dos Ínferos, a personificação do Id.

           O mesmo se dá quando nos encontramos com velhos amigos que há muito não víamos. Falamos de tudo o que fomos - nossos fantasmas - e não do que somos, porque, como vivos, somos dois desconhecidos, que se conhecem pela primeira vez, atraídos pelas influências do passado comum. É o diálogo de fantasmas que se comunicam por dois vivos em estado de mediunização recíproca.

          Mas, os fantasmas que fomos influenciam o transitório homem que somos num contínuo processo de obsessão. Os mortos que nos habitam dirigem o vivo de hoje.

            A Vida é o equilíbrio de sucessivos desequilíbrios. Num universo de ilimitadas possibilidades, nada é absolutamente certo. Só existe uma certeza: a de que tudo é incerto, exceto a proposição que afirma a universal incerteza.

           Qual o fundamento da certeza? É a prova do que se afirma? Mas, o que é provar e qual o grau de confiabilidade da prova? Ou seja: a prova, antes de provar alguma coisa, deve ser previamente provada. E o que prova que o que prova a prova também merece confiabilidade e assim ad infinitum?

           A certeza, a rigor, não passa de uma crença que, por ser provada, adquiriu status de confiabilidade.

            A repetição reiterada de um fenômeno não nos garante que ele foi sempre assim no passado e será sempre assim no futuro.

           Há pessoas que não privam, mesmo quando estão sozinhas, de sua própria companhia. Parece que não ficam à vontade com elas mesmas.   

             Vivemos mais num universo de símbolos do que de coisas. O homem é um ser em que o simbólico predomina sobre o biológico. Assim, o seu próprio e também todas as coisas só são percebidos por suas referências simbólicas. Ou seja: algo só existe para o homem se for por ele nomeado e simbolizado.      

          Quem se curte a si mesmo, ganhou a sua autonomia existencial. Sabe que, fundamentalmente, é a sua única e melhor companhia.

           Quem procura sempre agradar, esquece de se agradar.

            Há pessoas que, sob o pretexto de libertar os outros, torna-os seus discípulos.  Discípulos que morrerão sempre discípulos, na ilusão de que foram libertados.

            Quase tudo o que pensamos é produto cultural. Nada mais somos do que consumidores de pensamentos.

             Vivemos mais num mundo de símbolos do que de coisas. Só nos relacionamos com as coisas que sejam objetivações de símbolos.

            Somos essencialmente consumidores de símbolos, não de coisas. As coisas, em si, não têm valor intrínseco: elas valem o que simbolizam. Assim, quando compramos coisas, também compramos símbolos. Falamos de sua utilidade operacional, mas o seu verdadeiro valor é o simbólico.

            A utilidade, na maioria das vezes, é o pretexto do simbólico.             

            Há pessoas cujo cepticismo é uma neurose. A negação sistemática constitui a forma de afirmação de sua personalidade. Negar sempre, mesmo contra todas as evidências, desconfiar de tudo, menos do seu julgamento, é o orgasmo de sua paranóia

            O ódio é nosso grilhão: o fantasma cultivado do que já não mais existe.

            É bom morrer maduro, no outono, do que apodrecido no inverno.

            A fé é o recurso extraordinário do homem para resolver problemas que a razão não consegue.

            A inveja é um desejo paralítico que não suporta a ambição bem sucedida.   

            A verdadeira infidelidade é ser fiel ao que não mais somo

           É a lei da causalidade no plano moral que nos faz procurar sempre um culpado para tudo o que de mal acontece. O “bode expiatório” é uma catarse coletiva para a justificação dos males e a punição exemplar do seu causador.

           Instintivamente, não gostamos de assumir culpas ou conviver com remorsos. Vivemos, por isso, sempre à procura de um bode expiatório para transferir os nossos infortúnios, valendo-nos, para isso, de seres humanos e divinos.

           Em algumas sociedades, os reis divinos eram sacrificados em caso de calamidades. Ou se fazia o holocausto de animais ou de pessoas comuns ou mesmo de filhos de reis. Afinal, segundo o Catolicismo, o próprio Deus não ofereceu à humanidade o sacrifício de Seu próprio Filho?

            A vítima sacrificial, em algumas sociedades, tinha um tratamento especial e participava de todos os prazeres possíveis. Mas, a sua morte, geralmente, era terrível. Vê-se que o sadismo pode ser também de natureza metafísica.

            O bem que se pratica compulsoriamente não faz bem a quem o pratica.

            Há pessoas ditas virtuosas que vivem obcecadas em fazer o bem para provar a si mesmas e às outras pessoas as suas virtudes.

            Desejam garantir uma recompensa transcendental e se envaidecem em ser diferentes das pessoas comuns.

            Negam seus sentimentos, seus desejos, seus pensamentos considerados pecaminosos.

            Lutam tenazmente contra eles, porque se sentem tentadas pelas trevas e provadas por Deus.

           A própria doença decorrente de seus conflitos interiores passa a ser interpretada como uma prova de eleição divina. Encaram o sofrimento como uma bênção. No fundo, porém, invejam a saúde e o êxito dos maus, mas se confortam, numa vingança disfarçada, de que eles, no final, serão punidos. Vivendo num constante dualismo entre as suas disposições humanas e as suas pretensões espirituais, via de regra não gozam boa saúde física e tampouco mental. Por isso, se agitam entre o medo de fracassar e a culpa por eventuais fracassos, o ódio de terem fracassado e o rancor contra a boa sorte dos maus.

            A verdadeira virtude é a compreensão da natureza humana e a sua adequação à vida social, onde a prática de cada ato se faz com lucidez, sem sentimento de medo, culpa, remorso ou rancor.

            Por que o jogo sempre fascinou o homem?Tentar a sorte parece ser uma necessidade arquetípica de o homem experimentar o acaso.

            Segundo Plutarco, os deuses desciam do Olimpo para jogar dados com os guardas do templo.E os deuses germanos também eram fascinados pelo jogo.Por isso, é significativo que o homens obedeçam docilmente às regras do jogo e se mostrem tão rebeldes em relação às normas sociais.

            De tanto querer entender o desconhecido pelo conhecido, fazemos do desconhecido uma caricatura do conhecido.     

            Não pense apenas no que pode acontecer, mas no que você pode fazer acontecer.

            O humano é pouco ao humano: deuses, espíritos, ufos são sócios da solidão.