CIÊNCIA E RELIGIÃO SE ENCONTRAM NA UNICAP

 

Objetos que voam pela casa, móveis incendiados sem explicação, “fantasmas”: os fenômenos paranormais são o tema dos parapsicólogos que fazem hoje o seu Simpósio, no Recife

Jornal do Commercio, 30 de setembro de 1989

A Parapsicologia chega à Universidade

Durante todo o dia de hoje o au­ditório Antônio Vieira - no Bloco G da Universidade Católica de Per­nambuco - viverá uma discussão que se coloca na encruzilhada entie o co­nhecimento científico e as crenças religiosas, pois 6 lá que acontece, a partir das 8h30min, o 7º Simpósio Pernambucano de Parapsicologia, organizado pelo Instituto Pernambu­cano de Pesquisas Psicobiofísicas (IPPP).

Estimulados pelo fato de a Uni­versidade de São Paulo ter concedido a pós-graduação à professora Ade­laide Peter Lessa - que em 1988 apresentou uma tese baseada em fun­damentos parapsicológicos - os pa­rapsicólogos e estudantes de parapsi­cologia de Pernambuco e de outros Estados do Nordeste devem fazer deste 1° Simpósio um marco na luta que vêm enfrentando para transfor­mar a Parapsicologia numa Ciência com lugar nas Universidades. A Uni­versidade de Brasília (UnB) está im­plantando um curso na área, e poderá se transformar na primeira Universi­dade brasileira a fazê-lo.

A ciência e as crenças

“Parapsicologia é a Ciência que tem como objeto de pesquisa os fenômenos paranormais, e fenôme­nos paranormais são tudo aauilo que acontece e não pode ser explicado à luz da análise racional, dos sentimen­tos normais”, esclarece o promotor de justiça Válter Rosa Borges, 55 anos - 16 deles como presidente do Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas (IPPP).

Objetos que voam pela casa, móveis incendiados sem motivo apa­rente, ectoplasmas que saem da boca, nariz e ouvidos das pessoas dese­nhando figuras fantasmagóricas no espaço. Tudo isso são fenômenos chamados paranormais e, quando analisados por religiosos, espíritas, umbandistas ou babalorixás do can­domblé, são apontados como “mani­festações do além - do espírito dos mortos”.

Rosa Borges: além do racional

Válter Rosa Borges explica que “a Parapsicologia, como Ciência, aborda esses fenômenos paranormais como manifestações do organismo humano vivo, e não dos mortos”. Se­gundo ele, “é necessário fazer dis­tinção entre os dogmas religiosos e a Ciência, cujos postulados se baseiam na experimentação”. Rosa Borges assegura que todos os fenômenos pesquisados petos parapsicólogos - como Poltergeist e telepatia - podem ser comprovados e experimentados na prática”.

Os fenômenos

Poltergeist (“duendes”, “diabre­tes”, em alemão) não é apenas nome de filme de sucesso no cinema. O IPPP já tratou cerca de 20 casos do fenômeno no Recife e o professor Valter Rosa Borges diz que “o tra­balho sempre foi feito de forma pro­fissional, com respeito ao recato das famílias”. O fenômeno de Poltergeist geralmente ocorre com pessoas que estão na fase de transição biológica — 98% dos casos ocorrem com adoles­centes que estão passando da infância para a puberdade. As manifestações do Poltergeist são externadas pela ocorrência de pancadas misteriosas, desaparecimento e deslocamento de objetos e até incêndios autóctones de papéis, vasos e móveis. Válter Rosa Borges afirma que “o Poltergeist na­da mais é do que energia em abundância dentro de um organismo, e uma forma de eliminá-la é fazer exercícios físicos programados”. Nas mulheres, o Poltergeist cessa quando chega a menstruação.

Se o Poltergeist tem uma expli­cação fácil de ser compreendida, o mesmo não acontece com os ecto­plasmas, substâncias orgânicas libe­radas pelos paranormais que, soltas no espaço, formam figuras. “As fi­guras compostas pelo ectoplasma são, na verdade, imagens que estão gravadas no inconsciente do para­normal”, esclarece Rosa Borges.

A troca de informações mentais à distância (telepatia) ou a movimen­tação de objetos sem existir a neces­sidade de tocá-los (telecinese) também são outros fenômenos pes­quisados por parapsicólogos. O pre­sidente do IPPP conta que há um ano “um grupo de 18 médiuns de um ter­reiro de-umbanda procurou o Institu­to Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas para testar seus poderes. Feito o teste e ouvidas as explicações dos parapsicólogos, nenhum deles continuou no terreiro”. Para Rosa Borges, “isto é um exemplo da distância que deve existir entre dogmatismo e a necessidade de experimentação da Ciência”.

Discriminação universitária

Apesar de a Universidade de Brasília estar implantando o primeiro curso universitário regular de Parapsicologia, ainda há discriminações a este ramo de conhecimento nos meios acadêmicos. O Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas tem um curso de pós-graduação em Parapsicologia lato sensu, ou seja, ainda não reconhecido oficialmente pelo Ministério da Educação. “O tratamento concedido à Parapsicologia no Brasil é atrasado como o país, pois na Europa e nos Estados Unidos mais de 200 Universidades já reconhecem a Ciência”, diz Rosa Borges. O Simpósio de hoje, além de integrar os parapsicólogos do Recife, vai servir para que dois alunos formados pelo IPPP apresentem suas teses de pós-graduação em Parapsicologia.