Comentário

A Saga do Existir

 

Lançamento do livro “A Saga do Existir”, na sede do Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas, na Avenida Dezessete de Agosto, 1778, bairro de Casa Forte, em 1995.

 

PREFÁCIO

 

A SAGA DO PENSAR (*)

 

Valter da Rosa Borges é um ser humano atípi­co, para não dizer "excrescente". Num mundo de ásperos valores, onde predominam o fanatismo tec­nológico, o desvarismo aquisitivo, o hedonismo de­sesperado e o materialismo que avaliza todos os des­respeitos a primados éticos, num mundo de terrenos tão pantanosos, ei-lo a sulcar a terra com o arado de sua busca transcendental.

Um compulsivo do incógnito, esse pernambu­cano que se arroja ao mar das aventuras metafísicas, com uma persistência e uma abnegação de marinhei­ro quase solitário. Daí os traços extremos que vincam sua personalidade, que para alguns parece ingenu­amente sonhadora e utópica, para outros, profética, para outros ainda, revolucionária e antecipatória.

Tal sua andança pelo planeta, desde que, há coisa de cinco décadas, resolveu enveredar pelo campo da Parapsicologia, ou da recém-criada Transcendentologia, tema de um próximo livro seu. Ao fazê-lo, é provável que tenha sufocado uma vocação poética, tida por promissora pelos críticos de seus poemas de mocidade. Mas as coisas não aconteceri­am exatamente assim, a golpe de cortes radicais. Isto porque, no percurso da Poesia à Parapsicologia, ocorreu a fase mística, espiritualista, espiritista.

Essas fases, se é que cabe a catalogação, se encontram nítidas no presente volume, tão pequeno de páginas quanto denso de idéias. Melhor dizendo: este trabalho revela o entrelaçamento entre as fases e as faces rosaborgianas. Basta ver que, do fundo das perquirições e conceituações rigidamente filosóficas e científicas, vez em quando repontam ingredientes místicos e poéticos. Neste último caso, não lhe foi possível sequer eludir a tentação aos versos, mescla­dos aos registros por vezes audaciosos e um tanto pretensiosos do parapsicólogo.

Daí o dito lá em cima: Rosa Borges é um ser humano atípico, que só não é excrescente no mundo hipertecnológico e cético, porque indispensável.

E como lhe sabe bem, ao paladar reflexivo, o jogo de palavras! Pois se trata - não esqueçamos - de um esteta minimalista... Tudo aqui remete à imagem do relojoeiro, à moda krishnamurtiana ou borgiana (sem trocadilhos...), quase à maneira zen...

Não se está diante de mais um livro de auto ajuda, ou de "esoterismo", ou de imposição de fór­mulas milagrosas de "salvação" e felicidade. O Autor não é um ilusionista ou um aproveitador da alheia inocência e da esqualidez pensante. Não é mais um "iluminado", espécie de que se encontra infestado e empestado o mercado livreiro, o comércio da fé e da indigente psicologia em voga numa ambiência de atordoados e medíocres.

Desavisado andará quem recorrer, nestas pá­ginas, à gurulatria dos magos de plantão. Ao contrá­rio: Rosa Borges sabe ser impiedoso e punitivo, ao desnudar o mundo dos humanos, a partir do seu próprio desnudamento, numa audácia catártica que não exclui, quiçá contraditoriamente, a compreensão das nossas fraquezas e, sobretudo, das nossas ilu­sões.
Ele transita por essa dualidade num à- vontade que beira (com rima e tudo) a irresponsabi­lidade, tamanha sua contundência não raro professo­ral. Para tanto, requer-se uma coragem intelectual somente reservada a quem não teme pensar e descer, até  às últimas consequências, ao poço
trevoso da condição humana.

Veemente e humilde ao mesmo tempo, culti­vando o paradoxo, afirmando e negando (se), distri­buindo as peças do seu jogo de xadrez no tabuleiro da ousadia, Rosa Borges nos instiga a reflexões e re­formulações de conceitos e preconceitos com que convivemos por vezes despercebidos e desapercebidos.

Ao cabo da leitura desta "Saga", saímos enri­quecidos pela impresão de que, com efeito, quando não é pequena a alma, tudo vale a pena.



                                                   Amílcar Dória Matos (Da Academia Pernambucana de Letras)