COMENTÁRIO.

Deus: Realidade ou Mito? 

Erivam Félix*


Desafiante e repleto de indagações. Assim é o livro do Professor Valter da Rosa Borges, que tem como ideia central a referência do sagrado e a posição do homem diante da sua própria existência. Com os seus seis (6) personagens (o poeta, o místico, o cético, o filósofo, o teólogo e o cientista), cujos diálogos fazem parte da mente de cada uma das pessoas que somos: pessoas formadas a partir dos problemas e sentimentos próprios de uma época conturbada, com valores morais distorcidos.

O livro “Deus: realidade ou mito”, oferece uma reflexão crítica para os conceitos de tempo, ilusão, eternidade, probabilidade, determinismo, realidade, caos, ordem, acaso, liberdade, entre outros. Mais importante ainda é que o autor coloca as suas ideias, revelando talento próprio dos grandes mestres, transformando-se em cada um dos personagens citados, com discussões polémicas.

O teólogo e o místico defendendo a ideia de que Deus é imortal e imanente em cada ser vivo. O filósofo, persistente na sua busca por resposta às suas inquietações, acrescenta que dar nome a este algo imortal, não é compreendê-lo, mas nomeá-lo. O cético diz que tudo que existe é transformação da matéria. Então não há criador e, portanto, nada é criado. O cientista, fundamentado nas suas hipóteses acadêmicas, alega que Deus é uma questão de fé. A fé não pode fundamentar-se na ciência para ser validada. Nem a ciência pode questionar a fé, porque esta não é adequada à metodologia científica. E o poeta, no seu devaneio onde o absurdo, o paradoxo e o excêntrico se fazem presente, ironiza: Fazemos jogos mentais para conhecer a vida. Podemos ser hábeis nesses jogos e ter a ilusão de conhecer a vida. E se formos jogos de Deus que busca conhecer por meio dos jogadores?

Apesar das diferentes colocações os personagens se complementam, formando um grande mosaico acerca do homem e sua existência e do divino. Consiste em uma ambivalência que precisa colocar como tema para discussão e examinar a fundo no ponto de vista da Filosofia da religião.

Esses seis personagens ganham vida e tocam em verdades sobre cada um de nós, mostrando-nos as nossas percepções distorcidas e, sobretudo, que não somos tão perfeitos como julgamos, e fazendo com que “enxerguemos que a diversidade não passa de aparência e o que denominamos de caos é o que não se enquadra na nossa concepção de ordem”. Instigam-nos, ainda, a enfrentar os nossos medos e anseios mais íntimos, bem como revisar os nossos conceitos sobre o homem, a vida e o sagrado. Conceitos tais como: “O homem e o equívoco em relação ao seu papel na história”; “Certas teorias são tão metafísicas como a hipótese de Deus”; e “O deus das religiões é incompatível com a evolução do conhecimento da nossa época”.

Enveredando um pouco na dimensão antropológica do sagrado, o autor defende o quanto é essencial à pessoa encontrar respostas e buscar verdades sobre si mesmo e sobre o sagrado, ainda que não creia no transcendente.

Considero uma obra de grande sensibilidade e reflexão sobre a base da existência e das contradições humanas, fugindo aos modelos convencionais, apelando para uma forma sistémica de pensar, buscando a conexão das partes e sugerindo uma proposta de entender o existencialismo como especulação filosófica.

O professor Valter põe em cheque o intelecto humano mediante a conspiração contínua entre os seis personagens, com interrelações entre alguns, cujas teses e teorias ora convergem, ora contrapõem-se, num jogo paradoxal, através de preciosas metáforas, uma das suas características.

São questões controversas, requerem uma crítica reflexiva. Causam inquietação porque exigem posicionamento.

Entretanto como diz o próprio autor:

“Não tenho preferências por nenhum deles, porque todos sou eu, no tumulto de minhas contradições”.

(*) Erivam Félix é escritor

Trabalho apresentado em 06 de maio de 2011, na Casa Rosada da Rua Santana, sede da UBE, no Recife, por ocasião de sessão do programa Clube do Livro em apreciação do livro 'Deus: Realidade ou Mito', de Valter da Rosa Borges.