Comentários

Introdução ao Paranormal

 

Lançamento do livro “Introdução ao Paranormal”, no dia 29 de julho de 1976, na TV Universitária Canal 11, em solenidade presidida pelo Reitor da Universidade Federal de Pernambuco, Prof. Paulo Maciel.

Como se tratava de uma obra ainda mesclada de concessões ao Espiritismo, recebeu o maior apoio do movimento espírita nacional, sendo solicitada e vendida, não só em Pernambuco, como também em outros Estados.

 

O Reitor da Universidade Federal de Pernambuco, Prof. Paulo Maciel, que presidiu a solenidade, pronunciou o seguinte discurso:

“Considero o lançamento do livro de Valter da Rosa Borges um acontecimento de alta expressão universitária.

Para nós, ele não é só Universidade em formação, como é um para-universitário, por ser um dos esteios desta TV, como ainda antecipa, para Pernambuco, o primeiro lançamento de um livro didático sobre disciplina tão importante.

Aborda, realmente, não apenas a fenomenologia parapsicológica, como também a condição do paranormal. Este é um objeto importantíssimo para o momento presente, não só para o novo humanismo, que não nos parece ser só antropocêntrico, mas universal, no bom sentido do termo como para novas contribuições da ciência, que desvenda caminhos nunca dantes navegados.

O esforço de Valter é elogiável, sob todos os aspectos, porque, sozinho, enfrentou um tema árduo, numa bibliografia difícil, e se dispôs a colaborar com nós outros para possibilitar os curiosos, como eu e muitos outros, deste tema, encontre, nos seus esquemas racionais, bem pensados e bem explicados, facilidades que ele não teve e que ele graciosamente, fraternalmente, quer estender a todos nós.”

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O escritor Amílcar Dória Matos (hoje membro da Academia Pernambucana de Letras) escreveu no Jornal da Cidade, na sua edição de 14 a 20 de setembro de 1976, sob o título “Uma Lição de Normalidade”, o seguinte artigo:

“Livros como Introdução ao Paranormal, de Valter da Rosa Borges (edição do Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas), deixam a gente pensando em muita coisa. Será que ainda engatinhamos no caminho do entendimento da nossa verdadeira dimensão, ignorantes dos segredos da nossa mente e, ao que tudo indica, do nosso espírito imortal? Será que andamos muito convencidos da nossa individualidade, do nosso discernimento, da nossa cultura e sabedoria, quando na verdade deveríamos concluir, como Pound, que não passamos de pretensiosos ignorantes?

O Autor nos conduz didaticamente, sem alardes nem pressas, pelas sinuosidades de um mundo novo que, até há pouco tempo, era objeto de remoque e zombaria, mas que começa a atrair a atenção dos cientistas do mundo inteiro, em especial dos estudiosos da natureza humana - o da Paranormalidade. O homem parece estar sempre em guarda contra os segredos escondidos dentro de si mesmo, julgando e agindo na conformidade dos seus sentidos, dos seus “consagrados” sentidos. Então sempre houve uma propensão a atribuir a “artes do demônio”, fenômenos que, à luz da inteligência, deveriam estar sendo, há muito, pesquisados com a mesma seriedade com que se estudaram e se estudam, por exemplo, as dores de dentes. Sucede que os dentes não fogem à percepção sensorial, enquanto  certos “fluidos”, “energias” ou mesmo ostensivas manifestações escapam à suposta racionalidade. E isso é profundamente humilhante para o homem.

Mas, de tanto se repetirem, os fenômenos se impõem. E vêm bater a nossa porta com a força de uma nova mensagem, despertando-nos de superstições e temores. Como estamos num século em que se pretende fazer desabar a multidão de tabus que já não fazem sentido, as pessoas “sérias” começam a abrir a porta. Os muitos princípios filosóficos, científicos e/ou religiosos, até há pouco olhados de esguelha, passam a ser melhor analisados, com exaltação ou repúdio, total ou parcial, o que é bom para esses próprios movimentos ou seitas, nos quais também se escondem extremismos e ortodoxias nefastas. O Espiritismo e a Teosofia, para citar apenas dois exemplos, são objeto de melhor atenção. Retornamos ao Oriente, quais novos Marcos Pólos, pelas mãos do Budismo, do Taoísmo, do Zen—ao estudo do qual o admirável Thomas Merton, monge trapista, destinou valiosas páginas antes de encantar‑se em Bangcoc. Até que a Parapsicologia virou moda, talvez nem sempre separando bem os campos ocupados por uma multidão heterogênea de ramos científicos, seitas religiosas, artes circenses, fanatismos e fetiches.

É num momento assim que o livro de Valter da Rosa Borges nos introduz ao Paranormal, com a paciência de mestre de aldeia que tem a cultura dos frequentadores das metrópoles do saber. Como quem pisa muito de leve em chão de tapete, Valter caminha anos a frente com firmeza e vigor nas linhas, entrelinhas, meandros e labirintos de sua obra, tão carinhosa e meticulosamente construída. Donde enfatizar sua preocupação eminentemente didática, “com o propósito de orientar os interessados no território da fenomenologia paranormal , valendo-nos. algumas vezes, de esquemas pessoais, fruto de nossa experiência de mais de vinte anos no trato de tais problemas”.

Essas experiências, como nós as conhecemos... Às vezes de longe, às vezes de perto, às vezes plenamente “por dentro”, vimos acompanhando as passadas desse ainda jovem pesquisador, que deposita ante os nossos olhos e a nossa consciência um trabalho pioneiro. Pioneiro, em vários sentidos. Não consta haver, no campo da Paranormalidade, um ABC que nos propicie uma apresentação ampla e, ao mesmo passo, acessível. Tampouco não consta existir obra de fôlego como essa, em que a preocupação primeira do Autor, longe de ser com ele mesmo e suas ideias, é sobretudo com o leitor e suas perplexidades. Cuidamos também não existir no mercado livreiro trabalho que verse temas tão escorregadios, tão aptos a ferir melindres de conversos, convictos e sábios, sem que ao cabo se ergam barricadas heréticas e gritos de revolta. Valter vai caminhando tranquilo, equilibrado, inabalável por esses tortuosos caminhos. Porque seu compromisso é com a verdade. E não se pergunte o que é a verdade ou onde ela se esconde—os fatos ou os pseudofatos tecem a teia de sua estrutura, embora só a vejam os que têm olhos de ver.

Qual tupiniquim Krishnamurti, Valter não se assume rótulos. Seu livro é uma introdução, didática, relativamente simples, deve ter suas falhas por ser humano (humaníssimo) como o Autor, deve deixar descontentes alguns iniciados, que foram nele porventura procurar revolucionárias novidades. Mas cumpre sua finalidade. Porque é o próprio Valter Rosa Borges quem diz: O importante é prosseguir.”


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O Prof. Luciano Marinho, com o título do próprio livro Introdução ao Paranormal, escreveu, no Diário de Pernambuco, no dia 30 de maio de 1978, o seguinte artigo:

“Há indagações, especialmente de natureza filosófica, entre as de religião e ciência, que angustiam o espírito humano. São questionamentos  que se multiplicam através dos tempos e das culturas, nas variações mais díspares do pensamento. Os sentidos metafísico e cosmológico já se interpenetram, se relacionam e se completam.

Há, por outro lado, múltiplas respostas. São progressivas, não obstante, as dúvidas do homem, na medida em que novas hipóteses são formuladas. A solução de problemas acarreta novos problemas.

As perspectivas do conhecimento não são mais codificadas com facilidade. Uma ciência qualquer não pode ser estudada em toda sua extensão, a não ser subdividida em especialidades. A especialidade da especialidade se impõe haja vista o ecletismo científico ser uma ilusão. Diz-se, a priori, que isto é mau. Maritain advertiu dos perigos da especialização absoluta. A formação filosófica, religiosa, científica, artística, linguística, na sua integridade, é boa e vital. Não é mais possível, todavia. A consequência mais imediata disso é que o homem se despersonaliza. O “eu” se afoga em um “nós” amórfico, se não apocalíptico.

O ecletismo é gerador de ambivalências.

Acompanho com interesse o estudo e o trabalho, a pesquisa e a reflexão de quem se dedica sistematicamente a uma tarefa específica. Esta exclusividade pertence a uma minoria. A procura de grandes respostas estabelece a dimensão e a programação de trabalhos exaustivos, em oposição àquilo que Antônio Houaiss designara - a propósito de certos estudos literários - “ensaísmo circunstancial”.

Um desses pesquisadores mais sérios e honestos revelou-se o Dr. Valter da Rosa Borges, ao escrever o livro “Introdução ao Paranormal”, editado pelo Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas.

Uma vez que se trata de uma obra científica, a isenção de propósitos doutrinários vem sublinhar o valor do livro. A ciência - e a Parapsicologia é uma ciência - objetiva dos fatos experimentais, laborterápicos, mecanicistas, sob condições preformuladas. As intenções doutrinárias, se houvesse, evidenciariam o proselitismo natural das filosofias religiosas. Dr. Valter Rosa Borges organizou, didaticamente, um grande número de fenômenos paranormais. Esse didaticismo admirável, em obras de cunho não-pedagógico, traduz uma formação filosófica e científica do mais alto grau. Não há que obstar haja um embasamento complementar religioso: conotações teosóficas, kardequianas, e assim por diante.


Dir-se-á que a Parapsicologia não é ciência nem mesmo uma subdivisão das ciências psicanalíticas - e estas já estão contestadas pela Antipsiquiatria, há algum tempo. O ineditismo estrutural da obra justifica alguma omissão ou algum excesso.

Um outro aspecto válido é a bibliografia em que se veem, dentre tantas, obras de Jung e Huxley. Importante é a documentação, no relato dos casos, se bem que um ou outro não venha a induzir tanta veracidade, pelo menos científica. O Dr. Valter Rosa Borges conseguiu simplificar toda uma nomenclatura, ainda controvertida e difusa, usando de uma clareza e concisão raríssimas em obras congêneres.

A metodologia empregada pelo Dr. Valter Rosa Borges me parece surpreendente, no plano dos estudos parapsicológicos, nos quais se tem firmado como um dos grandes pioneiros e introdutores no panorama cultural brasileiro.

Acho, porém, que o sumário do livro devesse ter sido mais amplo, subdivididos os itens para identificação de determinados assuntos, numa espécie de índex remissivo. Do ponto de vista contextual, faço algumas sumárias restrições. A admissão, p.ex., de que o inconsciente é “uma instância superior ao consciente”. A praticidade do consciente deve prevalecer sobre a potencialidade do inconsciente. Ou não?

                Mas, sistematizando uma temática bastante complexa, o Dr. Valter Rosa Borges teoriza a partir dos conceitos, natureza e classificação dos fenômenos paranormais: a fenomenologia de Psi-gama, de Psi-kapa, de Criptomnésia, desenvolvendo do cap. V em diante as “Hipóteses”, em que aborda o problema não só expositivamente, mas também criticamente.
               
Há muito ainda para se dizer.”

 

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O sociólogo Pessoa de Morais escreveu no Diário de Pernambuco, 12 de setembro de 1976.

                                                             Um Livro e um Programa de TV

O livro Introdução ao Paranormal, que Valter da Rosa Borges publicou recentemente, é o resultado direto de suas velhas preocupações intelectuais e atividades culturais à frente do programa da TV Universitária - O Grande Júri, de excelente audiência. O livro estabelece uma diretriz di­dática facilmente compreensível concernente a vários as­suntos da parapsicologia que quase sempre nunca são en­feixados num volume accessível a um público mais amplo de leitores.

A própria nomenclatura introduzida por J. B. Rhine, em suas pesquisas parapsíquicas, desde os anos 30, na Universidade de Duke, Estados Unidos, e de repercussão mundial em torno da classificação geral desses fenômenos em psi-gama e psi-kapa, isto é, em fenômenos mentais pro­priamente ditos e fenômenos envolvendo repercussões físicas ou orgânicas mais diretas, é colocada como base de sua visão metodológica.

É verdade que essa diferenciação é ainda, ao meu ver, uma ambiguidade do próprio. Rhine, criador da parapsicologia nos moldes universitários hoje conhecidos. E isso porque tanto o fenômeno chamado psi-gama, mais vincu­lado à vida mental em sua feição específica, como o fenô­meno psi-kapa, envolvendo repercussões físicas ou fisioló­gicas, resultam de um dado ainda não elucidado. Ou me­lhor, de uma perspectiva genérica dos fenômenos mentais, cujas raízes epistemológicas até aqui jamais foram discer­nidas. O que levou, por isso mesmo J. B. Rhine, de saída, a cometer o vicio lógico de intentar fazer classificações sem nunca haver pesquisado ou se preocupado intelectualmente senão com um âmbito bastante limitado desses fe­nômenos e, em decorrência disso, comete vícios ao mesmo tempo tão implícitos quanto intransponíveis de abordagem.

No caso de Valter da Rosa Borges, há, em seu traba­lho na TV-U e no livro já referido, uma preocupação de ca­ráter menos fragmentado. Assim, Valter da Rosa Borges trata, no livro, dos mais variados temas da parapsicologia, informando, com inteligência, o leitor a respeito de toda uma multiplicidade de questões que constituem o assunto de maior curiosidade humana e intelectual de toda a época que estamos vivendo.

A introdução mesma das raízes do chamado psi-gama ou do chamado psi-kapa no tratamento didático do tema, como fez o autor de Introdução ao Paranormal, dentro dos moldes a que se propõe o livro, ou seja, mostrar uma visão geral da parapsicologia em termos de hoje, constitui, des­te ângulo, uma novidade sistemática e didática. Todo o trabalho de Rosa Borges é mesmo de organização concei­tual ou de exposição, tentando e conseguindo, dentro do que se propôs, dar uma bem elaborada sinopse dos estu­dos parapsicológicos, tais como são considerados até aqui. Nesse ponto seu livro alcança um sentido digno de menção, pois a estrutura de quase toda parapsicologia conhecida sofre, no livro, inclusive reconsiderações com interessantes aspectos didáticos, de exposição e conceitos.

Por cima é de se considerar que tanto o livro comen­tado como, aliás, o programa - O Grande Júri, da TVU, dirigido por Valter da Rosa Borges, representam um im­portante passo para uma nova mentalidade cultural no Nordeste. Esse programa, que está conseguindo levar real­mente a Universidade ao grande público, realizando o ideal sempre sonhado mas quase sempre jamais sequer iniciado, de conciliar as preocupações do saber com a comunidade, começa a produzir efeitos bastante promissores.

A discussão precisamente, pela vocação dos estudos de Rosa Borges, de temas ligados com as grandes interroga­ções que assumem conotação especial nesse quarto final de século, faz da TV-U e desse livro um marco na mentalidade regional. Valter da Rosa Borges, com o Grande Júri e a Introdução ao Paranormal, abre, ao meu ver, novo ciclo cultural de interesses. Consegue deslocar o primarismo da pura literatice (distingo visceralmente literatura de lite­ratice), de grande parte das vulgares preocupações inte­lectuais ainda dominantes para algo mais sério.
Daí a incontestável projeção, em toda a comunidade de Pernambuco e da Paraíba, por exemplo, do seu progra­ma na TVU. Fato que levou o reitor Paulo Maciel, na ver­dade um autêntico intelectual ocupando a reitoria, uma vocação de scholar, no sentido mais legitimo do termo, a considerar o trabalho de Valter da Rosa Borges, quando a­presentou o livro, tão obstinado quanto de evidente alcan­ce cultural.

Como colaborador dos programas da TV-U, discutindo eu, previamente tópicos de obra a ser, aliás, em breve, pu­blicada nos Estados Unidos e na Europa, constatei a enor­me repercussão desses meus estudos através do programa O Grande Júri. Sou procurado, com frequência, por inume­ráveis pessoas de todos os setores e condições sociais. ávidas de explicações em torno de enigmas humanos ou do Universo até agora nunca explicados.

O grande veículo disso é a TV-U, onde Rosa Borges, a­gora também com o livro Introdução ao Paranormal presta, assim, um grande serviço a Pernambuco e ao Nordeste, an­tecipando-se ao debate de assuntos que conciliam a Uni­versidade com a comunidade e com as mais genuínas in­terrogações de toda a Humanidade. E isso em torno dos intrigantes mistérios que cercam até hoje, a decifração da natureza e da vida humana.

 

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Sobre o livro “Introdução ao Paranormal, o Boletín del Circulo de Estudios Progreso Espírita, de Buenos Aires, Argentina, em setembro de 1977, publicou o seguinte artigo assinado por Natalio Ceccarini:

“Realmente un excelente trabajo es el libro entregado por el Prof. Da Rosa Borges.
Escrito con una claridad poco acostumbrada en obras de esta naturaleza, ofrece a todo estudioso del maravilloso mundo de lo paranormal, los elementos necesaríos y la información acabada y puesta al día, para habilitarlo e introducirlo en tan rico campo de experimentación.

De modo didáctico -como cabe aun buen profesor - enseña sobre los diversos fenómenos que conforman la dimensión paranormal, en sus fases espirítica y parapsicológica.

Una extensa y bien seleccionada bibliografía refuerza cada uno de los acápites en que esta dividida la obra, como los cinco capítulos están debidamente ensamblados, rematando com el último que trata de las hipótesis elaboradas para explicar los fundamentales hechos que en presente, vertebran toda una disciplina científica paranormal
.
Es de señalar entre la bibliografía utilizada, se encuentran casi la totalidad de los autores e investigadores espiritistas, y no, como ocurre con la mayoría de las obras de Parapsicología, Psicobiofísica, y Psicología Supranormal, en que se omiten deliberadamente a tales autores, evitando al máximo, toda referencia al fenomenismo espírita.

No caben sino felicitaciones para el Dr Walter Da Rosa Borges por este interesante, científico, y didáctico libro que nos ofrece, y esperar encuentre editor para su versión al castellano. De no ser, queda privado el mundo hispano-parlante de un valioso aporte en el estudio y comprensión de ese mundo extrafísico, que pone en evidencia la naturaleza profunda del ser y las potencialidades de que dispone para la provocación de hechos, que sólo son explicables ya, más allá de los sentidos materiales y de los límites de todo tiempo y espacio.

Oportuno y notable el libro que sinceramente, recomendamos.”

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Deolindo Amorim, que foi um dos mais destacados líderes espíritas, publicou, revista Estudos Psíquicos, de Lisboa, Portugal, em maio de 1977, o seguinte artigo sobre o meu livro “Introdução ao Paranormal”.

                                                   O ESPIRITISMO E O PARANORMAL


O que se chama, hoje, de paranormal, genericamente falando, é tudo quanto ultra­passe a esfera dos fenómenos normais ou triviais. É o inabitual, como preferia Richet. Sob a rubrica de paranormal, que é muito complexa, há diversas divisões e subdivi­sões, com terminologia muito específica. A Parapsicologia, por exemplo, tem uma no­menclatura toda especial, de acordo com as siglas de sua classificação: Psi x Psi-Gama x Psi-kapa. Dentro desta classificação abran­gente, objecto de uma literatura científica já bastante difundida internacionalmente, se enquadra toda a fenomenologia psíquica, devidamente agrupada, com os respectivos termos que lhe são atribuídos pela Parapsi­cologia. Premonições, telepatia, desdobra­mento da personalidade, acção a distância, etc., são fenômenos já estudados há muito tempo, mas recebem denominações novas no vocabulário parapsicológico. «Sensitivo», «sujeito paranormal» ou médium, o certo é que existem pessoas dotadas de faculdade especial. É a experiência que o demonstra.

Há, inegavelmente, nomes novos para fenômenos antigos, naturalmente à luz de critérios mais modernos, pois não seria mais possível continuar no empirismo ou na im­provisação de outros tempos. E, por isso mesmo, devemos acompanhar com interesse os estudos que se fazem nas áreas da Psi­cologia. Acontece, no entanto, que a desi­gnação de paranormal, por ser muito ex­tensa, pode levar a um equívoco, principal­mente quando no caso de pessoas que, tendo iniciado estudos de Parapsicologia sem qualquer conhecimento da literatura espirita, estão sujeitas a confundir o fenô­meno de comunicação de espíritos com os fenómenos inerentes ao psiquismo humano. São dois campos distintos, mas a noção de paranormal, entre os menos experimentados, pode abrir caminho para uma generalização inconveniente. Os parapsicólogos ou estu­diosos que já têm posição espirita sabem azer e fazem muito bem a necessária sepa­ração: certas categorias de fenómenos se explicam satisfatoriamente pelo próprio me­canismo psíquico do sujeito ou médium. É o que notoriamente se chama animismo na linguagem espirita. São fenómenos paranormais (adoptemos a nova nomenclatura) justamente porque estão fora do quadro ordinário de reacções e comportamentos. Cabe, aqui, com justeza, a indicação de para­normal, como poderia ser supranormal, se é questão de termos académicos
Mas o campo da fenomenologia paranormal é muito mais vasto, exactamente porque nele se inclui outra categoria de fenómenos, que transcende a organização psíquico-orgânica do «sujeito paranormal» ou médium, como se diz em Espiritismo. É a categoria mediúnica. A esta altura, uma vez transposta a linha divisória entre os dois domínios da investigação psíquica, já podemos falar em termos de comunicação de espíritos, embora alguns círculos da Parapsicologia não quei­ram admitir o intercâmbio entre o mundo humano e o espiritual. Para estes, os que se colocam radicalmente nesta posição, o que há é apenas desdobramento, projecção da mente etc., não a intervenção dos chamados mortos. Mas as provas existem. Justamente por isso, o Espiritismo divide acertadamente as duas ordens de fenómenos, e o faz com equilíbrio: assim como nem tudo é do «outro mundo», pois o ser humano tem potencialidades espirituais incalculáveis, também nem Tudo procede do médium, nem tudo é fruto do inconsciente. É a tese espirita. Já sabe­mos que há muita confusão, muita ingenui­dade e muita falta de senso crítico na selec­ção de comunicações mediúnicas. Mas a tese é válida, não sofreu abalo até hoje, o facto de haver «comunicações entre vivos» não significa que não haja comunicação entre «vivos e mortos».
Pouco importa que haja nomes diferen­tes. Neste ponto, calha inteiramente a judi­ciosa advertência doutrinária: podemos dar às coisas os nomes que quisermos, contanto que nos entendamos. «O Livro dos Espí­ritos» — questão 153. Didaticamente, a Para­psicologia usa siglas que encabeçam a dis­tribuição de suas categorias, mas uma sigla ou um termo novo não muda a natureza de um fenómeno. Consequentemente, tanto é útil o trabalho que se realiza nos laboratórios de Parapsicologia, voltado para o lado espi­ritual do ser humano, tanto faz com este ou aquele revestimento terminológico, como é útil a investigação mediúnica, sob as luzes do Espiritismo, igualmente voltada para a parte essencial do ser humano: o espírito.

Enquanto a Parapsicologia se atém aos fenó­menos, e é o que lhe cumpre fazer como disciplina científica, o Espiritismo parte da fase expirimental e deduz consequências filosóficas. O Espiritismo é uma doutrina, a Parapsicologia não o é. No campo experi­mental, entretanto, campo que o Espiritismo vem explorando há mais de um século, há muito ainda o que estudar e aprender.

Como diz Conan Doyle, Jackson Davis «deixou profunda mar­ca no Espiritismo». Convém lembrar que a Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Lon­dres teve um papel importante, na investi­gação provocada pela ocorrência de fenó­menos inusitados. A Sociedade é de 1882.Nin­guém até hoje disse nem poderia dizer a última palavra neste terreno. Justamente por isso, cremos que a Parapsicologia, como es­cola científica, poderá trazer subsídios valio­sos, reforçando ou enriquecendo as teses espiritas, embora já esteja dividida, uma vez que se identificam pelo menos três catego­rias de parapsicólogos: os de tendência materialista, que negam sistematicamente a comunicação de espíritos desencarnados; os de tendência espiritualista, que admitem uma realidade espiritual, e, por último, os poucos parapsicólogos que, sendo espiritas, porque já o eram antes, continuam sustentando as suas ideias com base nos princípios espi­ritas. Sejam, porém, quais sejam as diver­gências, os trabalhos relativos à Parapsico­logia devem interessar muito, porque trazem alguma contribuição válida, salvo quando se trata de obras de má fé, e existem algumas delas no mercado de livros. Infelizmente... Mas os livros desse tipo não têm significação científica. Não podemos ignorar o que se faz, em matéria de estudos sérios, tanto nas áreas da Parapsicologia, como noutras áreas onde haja realmente preocupação ver­dadeiramente científica com os fenómenos psíquicos e com os altos problemas do inter­câmbio com o mundo espiritual através de médiuns. Há inegáveis pontos de conflu­ência entre o Espiritismo e a Parapsicologia, no campo fenoménico. — Há livros, neste particular, que têm intenções ostensiva­mente demolidoras, mas a Parapsicologia em si nada tem que ver com isso, assim como o Espiritismo nada tem que ver com o despre-raro e a precipitação de certas pessoas. Outros livros, entretanto, merecem atenção especial, já pela seriedade, já pelo carácter instrutivo de que se revestem, É o caso, por exemplo, de Introdução ao Paranormal, do Prof. Valter Rosa Borges, do Recife, publi­cado pelo Instituto Pernambucano de Pes­quisas Psicobiofísicas. Livro didático, na for­ma e nos objectivos, encaminha o assunto metodicamente, e com uma riqueza inesti­mável de pormenores, criteriosamente dis­tribuídos e explicados. É um trabalho apre­ciável. Embora se perceba, passo a passo, que o Autor escreveu mais para os estudio­sos da Parapsicologia e, por isso mesmo, não teve a preocupação de fazer uma obra espirita, também se socorre necessariamente de fontes espiritas, entre as quais Allan Kardec, citado mais de uma vez.
Embora resumidas, as informações his­tóricas relativas ao Espiritismo (pg. 11) re­clamam esclarecimentos indispensáveis, o que o Autor levará em consideração em fu­tura edição, queremos crer. «O Livro dos Espíritos» é de 1857, e quem o preparou e publicou, como se sabe, foi Allan Kardec. Com a publicação de «O Livro dos Espíritos», enfeixando os ensinos do Alto, estava plan­tada a coluna central da Doutrina Espirita. É facto histórico. O que se deu em 1848 foi o episódio de Hydesville, com as irmãs Fox, nos Estados Unidos. Jackson Davis, grande médium norte-americano, nascido em 1826 e desencarnado com oitenta e quatro anos, em 1910, escreveu livros ,como «Filosofia Harmónica», «Revelações Divinas da Na­tureza», por exemplo.

Teve, ela, no começo, certa prevenção com médiuns. Antes dela, existiu na Inglaterra uma Sociedade do mesmo tipo (1875) — Sociedade Psicológica da Grã-Bretanha — mas encerrou definitivamente suas activi­dades com a desencarnação de Serjeant Cox. Mais tarde, porém, e por iniciativa de William Barrett, fundou-se uma sociedade nova, que se inaugurou a 20 de Fevereiro de 1882, com o nome de Sociedade de Pes­quisas Psíquicas. Tendo-se tornado muito intransigente, senão intolerante, a Sociedade criou um ambiente de antipatia em pouco e, por isso, diversos elementos de valor se afastaram. Mas alguma ficou, no campo da pesquisa como elemento positivo, e de inte­resse para a História do Espiritismo.
Não se pode, evidentemente, tentar um levantamento histórico do Espiritismo, na parte fenoménica, sem considerar criteriosa­mente o papel que tiveram algumas socie­dades científicas do passado, como a Socie­dade Dialética de Londres, a Sociedade Real, entre outras, a despeito de certas posições conflitantes. Na mesma ordem de sequência, devemos levar em conta a influência de Charles Richet, com a Metapsíquica, no co­meço de nosso século. É verdade que o autor do «Tratado de Metapsíquica» não formulou definição espirita. Mas o certo é que con­correu muito para «despertar» o meio cien­tífico, levantando pelo menos uma ponta do véu a respeito da fenomenologia hoje cha­mada paranormal. Richet reconheceu os fac­tos que coroboram as teses espiritas, mas não tirou dedução filosófica, não esposou a Doutrina. Deixou então uma ciência nova: a Metapsíquica, desde o momento em que, a partir de 1905, conseguiu a aprovação dessa palavra na Society for Psychical Research, segundo Pery de Campos, em artigo publi­cado na Revista «Metapsíquica», de S. Paulo, n.° 1, Abril-Maio de 1936. Antes de Richet, diz o mesmo comentarista, já Lutoslawski havia proposto o nome, porém foi Richet quem defendeu e obteve a aprovação, ape­sar das resistências. A Metapsíquica teve o seu momento, não há dúvida, e alguns meta-psiquistas terminaram espiritas. De onde veio Geley? Exactamente da Metapsíquica.

Se a Metapsíquica já é assunto histó­rico, a Parapsicologia é tema da actualidade. É bom notar, entretanto, que o estudo da faculdade psí, matéria de significação funda­mental na Parapsicologia, tem uma fonte ampla na obra de Allan Kardec. Falemos com isenção de ânimo. Que vem a ser a função psi, senão a própria aptidão mediúnica, por outras palavras? Nenhum tratado de Meta­psíquica nem de Parapsicologia até hoje su­perou «O Livro dos Médiuns», de Allan Kardec, no domínio da fenomenologia hoje chamada paranormal. Justamente neste ponto, depois de havermos lido cuidadosa­mente Introdução ao Paranormal, achamos que a referência a Allan Kardec (pg. 19) deveria ser mais explícita, pois o assunto comporta um desenvolvimento indispensável a fim de que possamos compreender, se for o caso, onde está realmente a improcedência da afirmação de Kardec, no enfoque da facul­dade psi-kapa. Teria Allan Kardec desconhe­cido as alterações fisiológicas a que estão sujeitos certos médiuns?... É um aspecto sugestivo no exame do assunto. Conviria, pois, uma explanação precisa neste sentido, notadamente porque se trata ,como já dis­semos, de um livro didático, destinado a principiantes, em parte.
Em seus cinco capítulos. Introdução ao Paranormal nos dá, nitidamente, uma visão global de todo o quadro fenomenólogico e das tentativas honestas neste mundo ainda em grande parte desconhecido, que é, de facto, mundo paranormal. Já se avançou bastante, quer no Espiritismo, quer na Para­psicologia, mas ainda se ignora muito e, por isso, é necessário observar, estudar, anali­sar sempre. É o sensato conselho que, impli­citamente, se colhe no trabalho do Prof. Valter da Rosa Borges, cuja capacidade rea­lizadora se coloca, hoje, na linha da frente dos espíritos desassombrados, porque não se conformam com as «verdades feitas» e querem rasgar novos horizontes no conhe­cimento do ser humano, que é corpo e espí­rito. Ao chegarmos ao fim do livro, pensando bem nos conceitos e no laborioso esforço do Autor, ficamos com a convicção, mais uma vez, de que o paranormal está dentro do Espiritismo. Precisamos continuar. E vem a propósito, para terminar, as últimas expres­sões de Introdução ao Paranormal: «A Para­psicologia, malgrado os seus ferrenhos detratores e adversários, mal ou bem intencio­nados, vem-se firmando, cada vez mais, como ciência de vanguarda, no estudo e na pesquisa dos fenómenos insólitos, nas fron­teiras do Desconhecido. Se pouco sabemos ainda acerca de tais fenómenos, é porque ainda estamos ofuscados pela luz que eles projectam, fazendo-nos entrever uma nova realidade para o homem e o universo. O im­portante é prosseguir». Muito bem!