Comentário

Os Cinco Dedos

 

Lançamento do livro “Os Cinco Dedos”, em coautoria, no dia 25 de junho 1981, no Salão Nobre do Clube Internacional do Recife.

 

O Acadêmico José Lourenço de Lima publicou no Diário de Pernambuco, 1º de julho de 1981, um artigo intitulado “Os Cinco Dedos”.

O Salão Nobre do Clube Inter­nacional do Recife foi pe­queno para acolher as cente­nas de pessoas que ali acorreram para uma festa diferente: o lançamento de uma obra literária; festa diferente, muito diferente das reuniões famosas que  se  têm  realizado  no  suntuoso salão.
Aos nomes dos autores lançados, naquela noite de 25 de junho último, por si sós valiosos, acrescentou-se o do nosso sempre presente e sempre lou­vado Waldemar de Oliveira, patrono do Teatro que ele fundou, o Teatro de Amadores de Pernambuco, que lhe perpetua a memória adotando-lhe o nome, que o Brasil inteiro conhece e respeita, e Pernambuco conhece, res­peita, venera e ama. A renda dos livros adquiridos "será revertida para a re­construção do Teatro Waldemar de Oliveira," dizia o convite.
Este Diário na manhã daquele dia, no seu caderno Viver, trouxe infor­mações sobre "Os Cinco Dedos", isto é seus cinco autores: Everaldo Moreira Veras, Reinaldo de Oliveira, Waldênio Porto, Valter da Rosa Borges e Nicolino Limongi, com destaque para seus títulos profissionais; três médicos, um engenheiro e um jurista e psi­cólogo, que fazem literatura como suave lazer para seus espíritos a outros misteres oficialmente consagrados.
Coube-me por excessiva gentileza dos "Cinco Dedos", presidir a soleni­dade daquele lançamento e fazer a apresentação oficial da obra e de seus atores, do que pretendo, resumida­mente, falar nestas colunas, embora não haja sido tão breve, como prometi, nas considerações orais.
O lançamento de obras literárias, nesses tempos de quase exclusiva preocu­pação com a tecnologia e as ciências exatas, suscita admiração e aplausos a seus autores, sejam eles consagrados ao ofício das letras, sejam eles seus de­votos cultores nas horas de lazer.
Aludi ao pronunciamento de Cí­cero sobre a perenidade e a excelência das letras, na defesa que fez do poeta, seu antigo mestre, Arquitas, a quem se pretendia negar o título de cidadão ro­mano. Bastava-lhe ser mestre de Re­tórica e Poética, em Roma, para lhe ser, com justiça, outorgado o título co­biçado e contestado, assegurou o prín­cipe dos oradores romanos.
Acrescentei que as obras literárias são de todos os tempos e de todos os lu­gares, e que seus autores, do passado mais longínquo ao presente mais atual, são cidadãos do mundo, para o que ci­tei Lamartine a propósito da univer­salidade do escritor: "Je suis concitoyen de tout homme qui pense" — eu sou concidadão de todo homem que pensa.

E Horácio não poderia faltar com o seu "exegi monumentum aere perennius" — ergui um monumento mais duradouro do que o bronze — frontispício de tudo o que escreveu. Mais ainda: os escritores, prosadores ou poe­tas, de todos os tempos, afiguram-se nossos contemporâneos; temos a impressão de que vamos encontrá-los em um ponto qualquer da cidade, tão presentes se fixam em nossos espíritos.
Evidentemente, nem eu que falava, nem os meus amigos — "Os Cinco Dedos" — ali presentes, a pa­ciente e corajosamente me escutarem, pensávamos no mesmo pedestal de consagração dos autores mencionados, modelos eternos, que o mundo con­sagrou como clássicos. Seria precipita­ção; mas o amanhã é rico de surpresas e de imprevistos. "Domani sara altro giorno ..." E quem sabe se um da­queles "Cinco Dedos", ou todos eles, não repetirá, ou repetirão, o verso fa­moso de Horácio, atrás mencionado? Benza-os Deus!
Lembrei Albert Camus, quando afirmou, ao receber o Prêmio Nobel, que a "Literatura é a mais nobre ocu­pação do espírito do homem". A esta destinação não escapou Everaldo Veras, engenheiro civil que, insatis­feito com as fórmulas e os cálculos matemáticos, deriva brilhantemente para as formas de expressão, equacionando-as em contos nacionalmente conhecidos, e muitos deles premiados; nem escaparam Rei­naldo de Oliveira e Waldênio Porto, cirurgiões ambos, contistas ambos; aquele, rico da versatilidade e leveza que o palco (é ator de méritos excep­cionais) lhe deu; este, a manejar um vocabulário rico, denunciador de suas profícuas leituras na tessitura de seus contos. Um e outro, hábeis para mim no manuseio do bisturi, nos centros cirúrgicos, e da pena, no recesso de seus gabinetes de estudos científicos, dulcificados com a boa literatura; nem escapou Valter Rosa Borges, jurista e parapsicólogo, com um ensaio filosó­fico, em bom estilo, que exige leitura meditada, pela sua densidade, e não uma simples leitura em
"dolce far niente"; nem escapou o médico pe­diatra e poeta Nicolino Limongi, fiel cultor e mestre do soneto à Petrarca — forma poética que, por mais que agourem, não conhecerá ocaso. Tenho para mim (atrevido?) que a história da repulsa ao soneto lembra a "Raposa e a Uva" do fabulário do fabuloso Fedro... Tenho razão? Nicolino compareceu também com dois excelentes poemas modernos, notadamente o inspirado no "Menor abandonado".
Um destaque: "João Só", conto de Reinaldo de Oliveira, constante de "Os Cinco Dedos", foi teatralizado "sur place" pelo autor-ator. O Salão Nobre quase desabou com os aplausos da as­sistência, de pé.
Waldemar de Oliveira ficaria feli­císsimo com aquela festa consagrada à sua memória se ali estivesse. Esti­vesse? Estava, naquela que foi o complemento essencial de sua vida, a verdadeira metade de sua alma, para citar, ainda, Horácio: Dona Diná, ou simplesmente, Diná. Ocupou, à mesa, uma cadeira que não poderia haver fi­cado vazia, sob calorosos aplausos da assistência. Saudando-a, disse-lhe, entre outras coisas, que aquela festa tão bela "era uma alegria eterna", lembrando Keats. "Os Cinco Dedos" tiveram uma noite triunfal; não res­tam dúvidas.