Comentário

Só a Busca é Definitiva

Lançamento do livro “Só a Busca é Definitiva”, em 1983, na UNICAP, sendo saudado pelo Reitor daquela Universidade, Pe. Amaral Rosas.

 

Sobre o livro, o escritor e membro da Academia Pernambucana de Ciências, José Rafael de Menezes, escreveu artigo Pensamento e Síntese que foi publicado no  Jornal do Commercio, de 20 de novembro de 1983.

Exorbitamos e viciamo-nos literariamente, entre a erudição mais complicada e o ficcionismo menos original. Aspiramos exibir saberes, por citações e teses hirsutas, ou por inovações insólitas, em novelas, contos, poesias. Limitamo-nos na capacidade de pensar profundo e de expres­sar com clareza. São portanto raros os livros que se    realizem por uma metodologia do ensaio mais pessoal, a condu­zir um “pensamento sintéti­co”,  para uma tal literatura, nem sempre há leitores,   nem notícias nas páginas especializadas, nem pareceres críticos. É o que prevemos na carreira bibliográfica de “Só a Busca é Definitiva”, uma modesta edição da FASA, vinculada à UNICAP, com assinatura de Valter da Rosa Borges. Líder cultural, professor convicto, realizador por uns dez anos, do mais audível e credenciado programa cultural na televisão, o “Grande Júri”, Rosa Borges é um espiritualista, de senso prático para liderar e se comunicar como um apóstolo, como um poeta, como um filósofo. Seu livro recente adensa-se com todas essas virtualidades. Se na primeira parte da publicação predominam os aforismos, com a força sinté­tica do psicólogo, extensionam-se depois algumas teses. Entre as frases que realçam soltas, ocupando cada página, e os períodos largos, da proposição argumentada, evidencia-se o mesmo intelectual a pensar com profundidade, sem complicar por amparos eruditos, simplíssimo na estilização embora sempre convicto. “Ex­traordinário é o homem que conseguiu ser natural” —   eis uma amostra da força do analista, em dominada frase.

Cumpre-se didaticamente:  “É sempre necessário o sacrifí­cio do aprendizado para se alcançar a satisfação da com­petência" (pág. 37). E alcan­ça ou melhor expressa uma sabedoria de um filósofo orientalista em paralelos desse al­cance: “Há pessoas que fazem de sua virtude uma arma para agredir seus semelhantes, um homem assim, na verdade, tem virtude, porém não é virtuoso”  (pág.  36).

Em textos mais largos, períodos franqueados ao descobrir, ao comparar e ao propor Valter da Rosa Borges não perde a capacidade sintética, nem deixa de ser claro. Usu­fruamos de seu filosofar em “Só a Busca é Definitiva”: “Conhecer-se a si mesmo não é encontrar algo estático em si mesmo, algo definitivo que se possa dizer: isto sou eu.  Conhecer-se a si mesmo é ser plenamente o que se é agora. Estar todo no seu agir. O ser é a sua ação. Se eu não estou todo no meu agir, estou me negando, estou me ocultando e, sem me revelar a mim mesmo, não posso me conhecer. Pensar sobre si é pensar naquilo que já não se é. Se ajo espontaneamente a minha ação me revela:    conheço-me no meu agir. Mas se ajo se­guindo um determinado modelo, este agir condicionado oculta e violenta o meu ser. Ação é visibilização total do ser. Até o repouso é ação, quando se quer repousar” (pág.  72). Admirável texto...
Profissional esmerado, homem de ação, como Promotor Público, como líder espiritualista e cultural, Valter da Rosa Borges situa-se com equilíbrio, na maturidade dos seus compro­missos. E o seu livro é um testemunho dessa alegria ponderada, de ser, de viver e conviver, como um cavalheiro e como um idealista, sem se atemorizar e sem se render na dura circunstância por onde se faz um peregrino lúcido. Se por vezes se individualiza quase orgulhoso: “A paz é a consciência, de que, essencialmente, só somos necessários a nós mesmos” - as tensões e preocupações sociais e até socializantes do seu pensamento, flagram-se no ensaio com empatia e convicção. O simples gesto de escrever, com seriedade, de investir tempo e recursos financeiros para um» edição sem garantias de retor­no, é um ato de generosidade. De um crente: “Ter fé é apostar no impossível”.  a convi­vência é sempre difícil, a  se conquistar pela fé.  Se Sartre viu nos outros, o inferno, é porque era demasiadamente cético. “A fé é a maior aven­tura existencial” — é uma conclusão de Rosa Borges nesse belo livro destinado a se conduzir com leveza, para se aliviar esclarecido, o leitor, na sua existencialidade dramá­tica e traumática.