Jornal do Commercio. 3 de junho de 1984.

 

O tóxico visto por dentro

 

Com esta reportagem, encerramos mais um capítulo de nossa luta em favor da sociedade. O convívio pelo espaço de quatro semanas com o leitor interessado, que acompanhou   todos   esses depoimentos, emitidos pelas personalidades mais expressivas do nosso mundo social, deixou-nos no espírito um saldo positivo: a certeza do dever cumprido  É que não é mais possível silenciar diante do mundo aflito ou desorientado que está diante dos nossos olhos, simplesmente por comodismo ou receio de participa.

Participar por participar também não adianta. Tem que haver a devoção à causa, o amor à verdade, o critério e a honestidade na abordagem do as­sunto, que é, sem dúvida, da maior importância.

Concluída a missão, sentimos como se fosse um grande e gratificante alívio, nascido    dos abismos mais profundos da consciência, ali onde radicam nebulosos ainda, os nossos deveres.

 

O REPÓRTER

Valter da Rosa Borges

 

PROFESSOR DE DIREITO CIVIL E ESCRITOR.

 

"Preliminarmente, é preciso indagar o significado da droga na sociedade em que vivemos. por que as pessoas ingerem seda­tivos, tranquilizantes, antidepressivos e alucinógenos. Antes, por­tanto, de discutir medidas de prevenção e de repressão às dro­gas necessitamos compreender por que tantas pessoas procu­ram, paradoxalmente, a libertação através da dependência.

A alteração química do cé­rebro pela utilização de substâncias tóxicas não é produto exclusivo de nossa civilização. Em culturas primitivas, fazia parte de um elaborado ritual religioso, proporcionando ao indivíduo uma experiência pessoal de auto-trancendência e de comunhão com as suas divindades, constituia, assim, uma morte transitó­ria do "eu", dissolvido, metafisicamente no Todo Universal.

Para o homem angustiado e confuso da sociedade ocidental, a droga pode representar uma panaceia terapêutica, uma desesperada solução mágica, embora de efeito temporário, para enfatizar os problemas que o afli­gem. A paz, a felicidade e o amor encontraram nas drogas psicodélicas os seus sucedâneos químicos, gerando a perigosa ilusão de que os sentimentos nada mais são do que substâncias suscetíveis de controle farmacológico. Acredita-se, assim, no mila­gre da droga, como se a atividade psíquica, superior nada mais fosse do que uma resultante de complexas atividades bioquímicas do cérebro. A droga, portanto, tornou-se um caminho, uma alternativa para o homem ocidental que, na sua confusão e angústia, tenta libertar-se de algo que ele mesmo não sabe o que seja. O problema, assim, não é a droga mas a fascinante fantasia que se criou a seu respeito.

Ora, se a droga se tomou um mito, é mister, antes de mais nada, conhecer-lhe o con­teúdo, evitando o combate frontal que apenas redundaria no fortalecimento do seu prestígio. A atmosfera natural do mito é o mistério. E o mito, uma vez explicado, perde o seu poder de fascínio e morre por inanição. Quando o homem compreender que o que ele procura na droga já existe nele mesmo, poderá lucidamente solucionar os problemas mais fundamentais de sua existência”.

 

Participaram desta última entrevista: Ladislau Porto, médico, professor e escritor; Audálio Alves, poeta, jornalista e advogado; Luiz Pinto Ferreira, jurista, professor e escritor; Mauro Fonseca Filho, delegado especial de polícia; Maria Helena Barreto Campelo, advogada e professora universitária; Luiz de Freitas Lima, consultor jurídico, escritor e professor de Direito; Valter da Rosa Borges, professor de Direito Civil e escritor.