EVENTOS ACADÊMICOS

Saudação aos novos membros da Academia Pernambucana de Ciência na ocasião de sua posse, em 2003,  no auditório da Federação das Indús­trias do Estado de Pernambuco - FIEP)

 

UMA REFLEXÃO SOBRE A CIÊNCIA

 

      Já quase a completar 25 anos de existência, a Academia Pernambucana de Ciências, fundada em 8 de janeiro de 1978, renova a sua vitalidade sempre que acolhe novos acadêmicos em seus quadros. Por isso, toda solenidade de posse se reveste de um significado especial, como um simbolismo do processo renovador da natureza. Pela circunstância de eu ser o fundador da instituição, o Presidente Dr. Waldecy Pinto, mais uma vez, me incumbiu de saudar os novos acadêmicos, expressando a honra e a alegria de tê-los como companheiros. E, com o propósito de fugir à rotina das saudações convencionais, entendi mais pertinente fazer uma breve reflexão sobre o extraordinário desenvolvimento da ciência, notadamente no século passado, e suas consequências para o destino da humanidade.

      A ciência, constituída, a rigor, no século XVII, é um sistema de conhecimento que se fundamenta em hipóteses experimentais de conformidade com um modelo operacional denominado de método científico. Por trabalhar com hipóteses e não com verdades, o conhecimento científico se caracteriza por sua extrema vulnerabilidade, apesar sua eficácia e operacionalidade, quando convertido nas mais diversas modalidades tecnológicas. Ela se fundamenta na experimentação como teste permanente às suas hipóteses, corroborando-as ou invalidando-as.

      A ciência pressupõe que a realidade é, no seu todo ou em parte, cognoscível pela mente humana. E que a realidade é uma ordem, embora se apresente, em várias ocasiões, com manifestações aleatórias.

      Mário Bunge afirmava que “a pesquisa científica está permeada de um certo número de idéias filosóficas”. Aliás, a hipótese científica é uma espécie de crença que, diferentemente da crença religiosa, é suscetível de comprovação experimental. Assim, em alguns casos, postulações filosóficas podem ser objeto da investigação científica.

      Paul Davies vai mais além, sustentando que “a física moderna apresenta um forte sabor místico”. E Fritjof Capra apontou significativas convergências entre a física e o misticismo oriental.

      A busca de algo indestrutível não é apenas uma postulação de natureza religiosa. Lavoisier já asseverava que, na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. No século XIX, James Prescott Joule ampliou esse entendimento, teorizando o princípio da conservação da energia. E no século XX, na década de 70, foi obtida a unificação da força eletromagnética com a força fraca, formando uma só força - a força eletrofraca.

      A ciência, de certo modo, é uma atividade de dessacralização do mundo. Em alguns casos, as descobertas científicas entram em conflito com as postulações esotéricas, religiosas e filosóficas. É falsa, por exemplo, a analogia do microcosmo com o macrocosmo. O que está embaixo não é como o que está em cima, como ensina o ocultismo. Para os filósofos gregos, o círculo e esfera eram símbolos de perfeição, o que resultou na concepção de que os corpos celestes descrevem movimentos circulares e uniformes. Kepler, com o movimento em elipse dos corpos celestes, derrubou a concepção da circularidade que gerou a crença no eterno retorno, no tempo cíclico. O aparecimento de uma nova estrela, de 1572 a 1574, pôs em cheque a concepção da imutabilidade do céu.

      Dionísio, o Areopagita (Século I d.C.) ensinava que os corpos celestes  eram movidos por anjos segundo a sua hierarquia. João Filoponos (Século VI d.C.) negou os motores angélicos, substituindo-os pela hipótese do impetus. Refutando Aristóteles, assegurou que o impetus dispensava o continnum da matéria para a transmissão de ações físicas.

      Newton substituiu os motores angélicos pelo princípio da gravitação universal, tornando-se o fundador da mecânica clássica. Mas, arraigado em seu misticismo, ele asseverou que Deus permanece no controle de sua imensa máquina – o universo – nela interferindo quando necessário.

      O século XX se caracterizou pelo surgimento de ousadas teorias científicas e pelo desenvolvimento explosivo da tecnologia. Para uma breve reflexão, faremos referência as que podem ser tidas como as mais importantes.

      A primeira revolução do século começa com a teoria da relatividade geral de Einstein (1906-1916) que invalidou o paradigma newtoniano do tempo e do espaço absolutos. Ele demonstrou que a gravidade não é uma força, mas a resultante da curvatura do espaço-tempo. O arqueamento do espaço-tempo e da luz causado, respectivamente, pela massa do sol e pelos campos gravitacionais evidenciou que a gravidade não é mais uma força, mas resultado da geometria.

      A outra revolução, a da mecânica quântica, na década de 20, invalidou o princípio da causalidade, apresentando o universo microcósmico regido pelo princípio da incerteza, formulado por Heisenberg. Heisenberg estabeleceu as relações de indeterminismo e formulou o princípio de incerteza, o qual jamais foi aceito por Einstein, sob a alegação de que Deus não joga dados. Mesmo em nível macrocósmico, o filósofo Hume  já havia asseverado que a causalidade é um hábito.

      A realidade quântica é probabilística e se comporta segundo o modo de observação do observador. Por isso se afirma que, no nível subatômico, a realidade não é observada, mas criada pela imaginação dos físicos.

      Nas relações entre a física clássica ou newtoniana e a física quântica o determinismo e livre-arbítrio, diferentemente da filosofia, não se excluem, porque se situam em domínios diferentes. O determinismo é inerente ao universo macrocósmico e o livre arbítrio, representado pelo comportamento aleatório das partículas, é característica essencial do universo  microcósmico.

      A ambigüidade onda/partícula fere o princípio da não-contradição.

      V. Oparin apresentou uma hipótese sobre a origem da vida, afirmando que foi o metano e não o bióxido de carbono o elo primeiro com que se forjaram as cadeias de moléculas orgânicas.

      Na década de trinta, Alan Mathison Turing inventa uma máquina, denominada máquina de Turing, que possibilita o estudo da computabilidade, decompondo um problema numa sequência de problemas elementares bastante simples.

      No campo da matemática, Kurt Gödel, em 1931, demonstrou que, mesmo num sistema de axiomas puramente abstrato, como o de Euclides, é possível formular teoremas cuja verdade ou falsidade não se pode demonstrar. Comprovou que sempre haverá teoremas matemáticos cuja demonstração é impossível através da lógica. Essa descoberta ensejou a invenção de sistemas lógicos não-aristotélicos, baseados no dualismo verdade-falsidade, possibilitando o surgimento do “sistema lógico trivalente”, no qual uma afirmação pode ser verdadeira, falsa ou meramente possível. Segundo Gödel, qualquer sistema lógico é incapaz de demonstrar sua própria consistência lógica.

      Na astronomia, a teoria cosmogônica que causou maior impacto foi a do big-bang, mediante a qual universo, então em um estado infinitamente contraído denominado de singularidade, expandiu-se numa grande explosão. Essa teoria guarda significativa analogia com a cosmogonia religiosa da Índia do “ovo primordial” e do Dia e Noite de Brahma. Em 1934, Georges Lemaître já apresentara sua hipótese cosmogônica da explosão do super átomo ou “átomo primordial”.

      Em virtude disso, reacendeu a velha proposição de Agostinho que, repetindo Platão, afirmou que o mundo não foi criado no tempo, mas com o tempo. O mundo não existia antes do tempo e nem tempo houve antes da criação. Hoje, os mais renomados cientistas esposam essa mesma ideia, reconhecendo que o tempo começou com o big-bang. Anos mais tarde, em 1965, Arno Penzias e Robert Wilson captaram uma irradiação isótropa, isto é, uma radiação vinda de todas as partes do universo, parecendo tratar-se do resíduo da explosão inicial.

      O computador, na década de 40, iniciou a era da informática, aproximando pessoas, mas intensificando os choques culturais, ensejando fantasias sobre a inteligência artificial e o futuro predomínio da máquina sobre o ser humano, não mais como suas próteses ou extensões e, sim, como seu sucedâneo. E enseja o aparecimento de um novo tipo de realidade – a realidade virtual. Com o advento da informática nasceu uma nova forma de experimentação – a simulação que é, na verdade, a virtualização da experiência. Aliás, Galileu já houvera realizado experiências imaginárias como alternativa à experimentação real.

      Inicia-se a época dos antibióticos.

      Em 1944, Schrödinger ousadamente afirmou que a vida pode ser explicada por um “código genético”, inscrito nas moléculas no interior de uma célula, insurgindo-se contra a persistente teoria do vitalismo.

      Ossip K. Flechteim, em 1945, criou a palavra futorologia, significando o estudo sistemático e crítico dos problemas do futuro dentro de uma abordagem interdisciplinar. O seu objetivo era pesquisar  as consequências da revolução científica e tecnológica, assim como prever e propor modelos e alternativas (futuríveis) para uma escolha, a qual seria necessariamente de natureza política. Na verdade, a ciência não quer dominar apenas o espaço, mas também o tempo, especificamente o futuro, porque prever é controlar. Se a precognição em alguns casos é possível, como vem constatando a investigação parapsicológica, por que não submeter a investigação do futuro ao controle tecnológico, prevenindo acontecimentos naturais, como vulcões, furacões, terremotos, condições atmosféricas, assim como fatos políticos, sociais e econômicos?

      Em 1948, o físico Dennis Gabor apresentou a teoria holográfica, argumentando que não apenas as partes estão contidas no todo, mas que o todo está contido nas partes. A sua teoria só foi confirmada no início da década de 60 com o surgimento do laser, que possibilitou a fotografia em três dimensões – o holograma. Observou-se que, cortando-se um holograma ao meio, a unidade da imagem é reconstituída em cada pedaço. Essa descoberta confirmou o princípio defendido pelo hermetismo de que tudo está em tudo.

      Karl Pribam, com base na teoria holográfica, definiu o cérebro como um holograma, afirmando que cada neurônio contém informações sobre o cérebro como um todo. Ousadamente, asseverou que o próprio universo é um holograma e, portanto, uma grande ilusão, o que lembra a concepção do maya da filosofia indiana.

      Na década de 50, floresceu um novo ramo da Matemática, a Topologia, que estuda as propriedades que permanecem inalteradas quando as formas se modificam em decorrência de dilatações, torções ou compressões.

      James Gleyck definiu, elegantemente, a Topologia como “a geometria com formas de borracha”.

      H. G. Urey demonstrou que a atmosfera primitiva da Terra deveria ter sido construída de metano, amoníaco, vapor d'água e hidrogênio livre. Juntamente com Miller obtém a síntese dos aminoácidos por descarga elétrica em condições que reproduzem a atmosfera primitiva da Terra.

      Aparecimento da teoria da informação, também chamada de teoria da comunicação ou ainda de teoria da informação e da comunicação como uma teoria estatística e matemática, decorrente da pesquisa de Claude Ellwood Shannon e Warren Weaver nas áreas de telegrafia e telefonia. Estuda as mensagens emitidas por seres vivos ou mecânicos.

      No campo da biologia, o grande acontecimento ocorreu em 1953, quando James Deway Watson e Francis Harry Compton Crick propuseram um engenhoso modelo para estrutura do ADN, o que resultou no nascimento da genética molecular.

      Geoffrey Chew, na década de 60, propôs a teoria do bootstrap (cadarço de botas), segundo a qual a matéria não é constituída de elementos fundamentais, mas que o universo consiste numa “teia de eventos inter-relacionados”, sendo sua estrutura formada pela coerência total de todas as suas inter-relações.

      Lyn Margulis, em 1967, formulou a teoria simbiótica da evolução celular, onde argumenta que a cooperação desenvolveu um papel muito mais importante do que a competição. Segundo ela, a vida evoluiu porque, há mais de meio bilhão de anos, grupos de bactérias se uniram em relações simbióticas para formar organismos mais complexos. Essa idéia teve seu corresponde no campo da sociologia, quando Bronislaw Malinowski sustentou que a essência da vida social é a cooperação.

      A idéia do evolucionismo começou com Erasmo Darwin, que propôs uma hipótese de evolução semelhante a de Lamarck, porém acrescida da noção de que os organismos evoluíam em razão da competição entre si na busca dos meios de subsistência ou pela conquista das fêmeas de sua espécie. Ele acreditava no progresso (progresso e evolução como sinônimos) como os primitivos teoristas do laissez-faire – Adam Smith (1776) no campo da  economia e Jeremias Bentham (1789) em filosofia moral. Roberto Malthus (1798), no entanto, utilizou a idéia da competição entre os indivíduos para provar a impossibilidade do progresso. A idéia de Malthus forneceu a Charles Darwin as bases do seu mecanismo de evolução biológica, asseverando que os organismos entram em competição pela disputa de restritos suprimentos alimentares e aqueles que apresentam variações favoráveis sobrevivem e reproduzem as suas qualidades. Herbert Spencer estendeu à sociedade humana a teoria da seleção natural, afirmando que a sobrevivência do mais apto não era apenas um mecanismo da evolução orgânica, mas o modo de progresso da humanidade.

      Lynn Margulis demonstrou assim que a evolução não é apenas produto da competição, onde prevalece a sobrevivência do mais apto, mas também resulta da colaboração entre os indivíduos.

      A era da globalização, precognizada por Marshall McLuhan com o nome de “aldeia global” coincide significativamente com as tentativas de unificação  das hipóteses científicas, reunidas sob a sigla de teorias do tudo. Anteriormente, em 1850, James Clerck Maxwell já havia realizado a unificação do magnetismo e da eletricidade em um só campo – o campo eletromagnético. Acirra-se o debate sobre compreensão da realidade pelo reducionismo ou pelo holismo.

      Alvin Toffler cunhou a expressão “choque do futuro” para descrever a esmagadora tensão e desorientação experimentada pelas pessoas, submetidas a uma carga de mudanças excessivas dentro de um tempo demasiadamente curto.

      Em 1972, René Thom apresentou a sua teoria das catástrofes, ramo da matemática que trata de certos modos de mudança descontínua chamados catástrofes.

      Stephen Hawking sugeriu a existência dos “buracos negros”. E, em 1973, foi descoberto o primeiro “buraco negro”, denominado de Cygnus X-1, ensejando audaciosas especulações sobre a existência de mundos paralelos.

      Em 1975, Benoit Mandelbrot inventou uma nova Geometria, a Fractal, que consiste na réplica de um ser em escalas cada vez menores de si mesmo. Segundo Mandelbrot, a geometria dos fractais está mais próxima das formas da natureza do que das figuras da geometria euclidiana.

      Conforme observa James Gleyck, a palavra fractal “passou a representar uma maneira de descrever, calcular e pensar sobre formas irregulares e fragmentadas, recortadas e contínuas – formas que vão das curvas cristalinas dos flocos de neve até as poeiras descontínuas das galáxias”.

      Essa revolução contra formalismo convencional começara em 1907 com o Cubismo de Pablo Picasso e Georges Braques, entre outros, rompendo com as formas clássicas e contestando a visão do mundo, fornecida pelos sentidos.

      Edward O. Wilson fundou, em 1975, uma nova ciência – a Sociobiologia -, a qual visa estudar a base biológica do comportamento social, explicando valores morais, religiosos e políticos em função de princípios biológicos e não socioculturais.

      Richard Dawkins, em 1976, admitiu que os genes podem ser as mais antigas entidades auto-reprodutoras ou replicantes do planeta. E postulou a existência de  um novo replicante emergindo na Terra – as idéias -, cujas unidades ele denominou de memes em substituição aos genes para explicação da evolução cultural.

      Na Inglaterra, em 1978, o nascimento do primeiro “bebê de proveta”, a menina Louise Brown, representou o primeiro grande passo para a geração de seres humanos fora do procedimento biológico convencional.

      Em 1979, James Lovelock, juntamente com Lynn Margulis, concebeu a Terra como um organismo vivo, dando à sua hipótese o nome de Gaia. Arthur Eddington, em oposição ao mecanicismo cosmológico advertiu que o universo se assemelhava mais a uma grande mente do que a uma grande máquina.

      Na década de 80, Rupert Sheldrake propôs a existência de uma espécie de memória inerente em cada espécie, a qual denominou de campos morfogenéticos, responsáveis pelo fenômeno da vida e de outros da natureza. Esses campos são comparáveis a outros campos da Física, como o magnético e o gravitacional, possuindo um caráter não-local e capazes de agir fora do tempo e do espaço.

      Segundo Sheldrake, à medida que o tempo passa, cada tipo de organismo forma um gênero específico de memória coletiva cumulativa, concepção essa que, de certo modo,  muito se assemelha a ideia do inconsciente coletivo de Jung.

      David Bohm ao teorizar a existência de uma ordem implícita ou implicada e uma ordem explícita ou desenrolada guarda semelhança com a ontologia de Parmênides e o mundo das idéias de Platão.

      Ilya Prigogine postula a existência de um princípio de auto-organização nos organismos vivos, mediante o qual, embora interajam com o meio ambiente continuamente, são relativamente autônomos. Ou seja: essa interação com o meio ambiente não é a causa da sua organização como sistema. Eles, na verdade, se auto-organizam.

      As estruturas dissipadoras são os sistemas abertos. Quanto mais complexa é uma estrutura química ou humana, maior quantidade de energia terá que despender para manter todas as conexões envolvidas.

      A teoria das supercordas teoriza a existência de dez dimensões espácio-temporais.

      Finalmente, a década de 90 caracterizou-se pela explosão da Internet, da engenharia genética e das pesquisas sobre a consciência, ensejando o aparecimento das ciências cognitivas. Na tentativa de explorar o cérebro humano, os cientistas estão tentando mostrar que neurônios individuais são capazes de desenvolver-se sobre chips de silício. Em 1996, Richard Potomber, da John Hopkins University, conseguiu induzir os neurônios de ratos bebê a crescer numa superfície de silício, pintada com certos peptídeos. É o sonho da fusão da mente com a máquina. O Projeto Genoma Humano, a clonagem da ovelha “Dolly” e a tentativa de clonagem de órgãos humanos para a prevenção de doenças genéticas, a abolição dos transplantes, aumentando a longevidade do homem e a preservação de sua saúde importam na reengenharia do corpo humano ocasionam o envelhecimento das populações, afetando o mercado de trabalho e a previdência social.

      A conquista do microcosmo começou com a invenção do microscópio no século XVIII, culminando com o advento da nanotecnologia. Recentemente, a nanotecnologia iniciou a fabricação de motores infinitesimais ou máquinas moleculares, que podem melhorar os atuais processos de manufatura e a medicina. Weihong Tan, professor de química da Universidade da Flórida, que construiu um "nanomotor" com uma única molécula de DNA, informa que este dispositivo é tão pequeno que centenas de milhares caberiam na cabeça de um alfinete.

      A conquista do macrocosmo que se iniciou com a modesta luneta, expandiu o conhecimento do universo com o telescópio Hubble, as estações orbitais, as sondas e as viagens espaciais, culminando, em 1969, com a chegada da Apolo XI à Lua e com a caminhada histórica de Neil Armstrong em solo alienígena.

     A conquista da interioridade humana, com os raios x, a tomografia computadorizada, a cintilografia, as endoscopia, a colonoscopia, a ressonância magnética, investigando a intimidade orgânica e procurando encontrar no mapeamento cerebral a resposta para o mistério da consciência.

      Os exageros do intervencionismo predatório do homem, consumindo os limitados recursos do planeta vem sofrendo o combate sistemático e, por vezes radical, do movimento ambientalista. O crescimento incontrolável das megalópoles e a escalada das mais variadas formas de poluição ambiental, produzem um gradativo divórcio do homem e da natureza, ensejando a favelização das comunidades carentes e o aumento dos índices de violência difusa e da criminalidade.

      O que está o homem contemporâneo, principalmente dos países do primeiro mundo, fazendo de si mesmo, do seu potencial econômico, científico e tecnológico? Estará brincando de Deus, comendo o fruto do conhecimento proibido, abrindo irresponsavelmente a caixa de Pandora? Até onde pretende ir, hipnotizado pelo poderio bélico e cognitivo, sem conhecer limites ou saber limitar-se para o bem de si mesmo?  Até onde o homem pode e até onde deve fazer tudo o que pode? Há uma nova moral emergente e a necessidade de uma reconceituação do que é lícito e ilícito? É a ciência uma atividade cognitiva destituída de conteúdo ético? E o que é pior, é lícito ao cientista estar a serviço dos interesses empresariais e militares, mesmo que isso importe na degradação da natureza e da própria dignidade humana? É a ciência uma bênção ou uma maldição?

      Em face de tudo isso, torna-se relevante o papel de uma instituição científica, no caso a Academia Pernambucana de Ciências, como cadinho dos avanços científicos e das conquistas tecnológicas, discutindo e avaliando as suas conseqüências para o destino da humanidade. E quanto maior for o número de cientistas das mais diversas especialidades, engajados em um mesmo propósito, maior será a consciência de cada um quanto ao seu compromisso com a sociedade e com a própria dignidade como pessoa humana. Platão já dissera que a sociedade deveria ser dirigida por filósofos. Em nossa época, poderemos postular que a sociedade deveria ser orientada por cientistas, não no que diz respeito às questões administrativas, mas às aplicações das conquistas tecnológicas, evitando o seu desvirtuamento por parte dos que detêm o poder em nome do poder e de seus interesses particulares. A Academia Pernambucana de Ciências pretende ser, em nosso Estado, o ponto de convergência das atividades científicas, tecnológicas e culturais como um todo, visando precipuamente contribuir, de maneira efetiva, para a melhoria de qualidade de vida dos nossos conterrâneos. Meus caros novos companheiros, sejam bem-vindos a nossa instituição que, a partir de agora, também lhes pertence.

 

 

 

Saudação à nova Diretoria e aos novos aca­dêmicos da Academia Pernambucana de Ciênci­as, por ocasião de sua posse, no dia 16 de fevereiro de 2000, no auditório da Federação das Indús­trias do Estado de Pernambuco - FIEP)

 

      A Academia Pernambucana de Ciência, nesta noite especial, comemora dois even­tos de fundamental importância para a sua história: a posse de sua nova Diretoria, reeleita pela confiança de seus Acadêmicos, com base nos trabalhos que realizou na ges­tão anterior, e a posse dos novos membros da sociedade, que, por certo, enriquecerá ainda mais o seu património científico e cul­tural.

      A Academia Pernambucana de Ciênci­as, fundada em 1978, é a afirmação da capa­cidade intelectual do homem de Pernambu­co, capaz de superar barreiras, aceitar desa­fios e obter vitórias e conquistas, mesmo nas condições mais adversas. Assim, o que parecia uma ousadia utópica, um mero ca­pricho ocasional, se transformou em realidade para o gáudio daqueles que insisten­tes e persistentes acreditaram na viabilida­de de seu ideal.

      A reeleição da nova diretoria da APC, tendo a frente, mais uma vez, a figura de seu dinâmico e arrojado Presidente, Dr. Waldecy Fernandes Pinto, é a afirmação e a continui­dade de um trabalho que vem projetando a instituição no cenário científico e cultural de Pernambuco. E a posse de novos Aca­démicos é a certeza da continuidade da atividade científica da Academia, no seu propósito de contribuir para alavancar o progresso científico e tecnológico de nos­so Estado.

      Conhecer o futuro para controlar o pró­prio destino sempre foi, é e continuará sen­do uma das grandes aspirações do género humano. Elas resultam das expectativas de um mundo melhor ou de um outro radicalmente diferente do atual, seja por­que acreditamos num progresso inter­minável, seja porque o sistema atual do mundo é indesejável e deve ser modifi­cado ou completamente destruído. Por isso, o homem se fez profeta para inven­tar o seu próprio futuro.

      A ciência tem transformado o que antes parecia especulações visionárias em realizações ou probabilidades con­cretas. Assim, o cientista é um profeta singular que, ao invés de procurar en­tender os planos de Deus, cria os seus próprios projetos e tenta viabilizámos. Di­ferentemente das pitonisas do passado, ele não aspira os gases oriundos da terrã para augurar o futuro, mas se inspira nas ideias oriundas das profundezas do seu in­consciente, buscando construir para a hu­manidade, não apenas futuros possíveis, mas, principalmente, desejáveis. O seu otimismo em relação ao futuro se direciona no sentido de uma melhoria tecnológica da vida para o homem, embora nem sempre re­sulte em melhoria da qualidade de vida. En­tre essas visões progressistas do futuro a ciência se propõe à construção de cidades auto-suficientes nos oceanos e no espaço; à instalação estratégica de defesas bélicas contra possíveis choques do nosso plane­ta com asteróides; às teleportações de coi­sas e pessoas, minimizando o obstáculo do espaço; às viagens no tempo; à conquista do espaço exterior com a colonização de pla­netas do sistema solar e também de outros sistemas dentro da nossa galáxia e até fora dela; à extinção de todas as doenças e ao aumento indefinido da longevidade, com a manutenção da saúde e o retardamento ou mesmo a abolição do envelhecimento; à ins­talação de próteses ampliadoras das fun­ções do corpo; à utilização de memória su­plementar em chips implantados no cérebro; à ampliação funcional do vestuário à condi­ção de nicho ecológico individual; à alimen­tação sintética, reduzindo a dependência do homem aos alimentos naturais, o que po­derá resultar em alterações da fisiologia hu­mana; à expansão, em nível inimaginável, da inteligência artificial, substituindo as atividades rotineiras do ser humano; à re­construção genética, visando a melhoria biológica da espécie humana; à clonagem de órgãos, abolindo a necessidade de trans­plantes e próteses; à felicidade química e à abolição da dor física; à realidade virtual como sucedâneo, em certas situações, da realidade física.

      Porém, a ciência sem consciência, pode­rá reverter toda essa perspectiva otimista, ensejando a desilusão e o desespero, de­correntes dos conflitos sociais resultante da mudança de normas e valores, a dissolu­ção dos costumes, com o incremento da li­cenciosidade, da corrupção do poder, da escalada da desonestidade, do arrefecimento do sentimento religioso, da busca exa­cerbada dos bens materiais, do agrava­mento da pobreza, da fome, e do aumento insuportável da violência, desencadeando o aumento da criminalidade, dos conflitos sociais e das guerras.

      O futuro da humanidade é, de certo modo, um constructo do psiquismo huma­no. Os futuros temíveis ou desejáveis po­dem se tornar prováveis, pois o homem, por sua capacidade de pensar as possibilida­des do acontecer, é suscetível de ser vítima ou beneficiário do conhecimento científico e de suas aplicações tecnológicas.

      Uma Academia de Ciências não deve ser apenas uma congregação de pessoas, selecionadas pelo seu mérito, mas uma oportunidade de permuta contínua de experiên­cias e conhecimentos, na busca de um sa­ber cada vez mais enciclopédico, porém centrado na melhoria da qualidade de vida da humanidade. O cientista não deve ser um gênio solitário, embora faça da sua soli­dão o cadinho de suas descobertas e inventos. O laboratório jamais deve ser um cemitério, mas uma sementeira para o culti­vo de ideias oriundas das mais diversas áre­as do conhecimento humano. A ciência não pode ser um sistema fechado, uma espécie de feudo epistemológico, mas um espaço tão amplo e limitado como o universo exteri­or, a fim de evitar o engessamento e a estratificação do paradigma da realidade. A natureza intrínseca da ciência é a provisoriedade do seu próprio conheci­mento, em permanente compasso com a mutabilidade de todas as coisas. A fé na ciência é a consciência de sua própria inciência, pois como dizia Karl Popper, "o co­nhecimento é limitado, mas a ignorância é infinita". Na verdade, quanto mais pensa­mos saber, mas nos conscientizamos das nossas limitações e do tamanho, cada vez maior, da nossa ignorância. Quanto mais adentramos a pesquisa da matéria, mais nos deparamos com a sua fundamental insubs-tancialidade. Quanto mais questionamos so­bre a vida, mais nos apercebemos da insufi­ciência do seu paradigma biológico. E quanto mais ampliamos os nossos conhecimentos sobre a bioquímica e a anatomia cerebral mais nos conscientizamos do mistério da nossa consciência.

      Entende a Academia Pernambucana de Ciência que o conhecimento científico não deve ser partilhado apenas entre profis­sionais de uma mesma área acadêmica, mas também entre os demais cientistas, numa atividade intensa de interdisciplinaridade, proveitosa para o enriquecimento da pró­pria ciência como um todo. Além do mais, a Academia Pernambucana de Ciências pro­clama que o conhecimento científico não deve ficar adstrito e restrito à privacidade dos laboratórios e às discussões entre ci­entistas, em sessões privadas, mas que deve ser levado à comunidade para que dele tam­bém se beneficie, melhorando a própria qualidade de vida.

      Assim como a ciência ainda não encon­trou o átomo no seu verdadeiro sentido etimológico, também ainda não se desco­briu o homem em si, pois ele não é apenas a sua circunstância, como dizia Ortega y Gasset, mas também a sua relação. Assim, a nossa individualidade é a nossa relação com, o que resulta na constatação de que a solidão não faz parte da essencialidade do ser. Na verdade, fundamentalmente nenhum homem vive exclusivamente para si, enfeudado em sua privacidade inexpugná­vel, mas também para os outros, apesar dos outros e até contra os outros. Por mais que não nos queiramos resignar, o mundo é necessana-mente o nosso an­verso, a nossa contra-parte. Aliás, hoje se postula que o uni­verso é uma rede de interconexões de todas as coisas, onde tudo interage com tudo, o que importa na inadmissibilidade de ter o ho­mem o privilégio de ser a única exceção.

      Não se pode fugir ao truísmo denunciatório de uma sociedade em acelerada tran­sição que mais se assemelha, notadamente no ocidente, ao processo entrópico de uma civilização em rumo equivocado, embevecida, no entanto, pelo brilho hipnó­tico das lantejoulas tecnológicas. A bem da verdade, de tanto cotejar a filosofia consumista, na orgia aquisitiva de bens e de valores transitórios, o homem perdeu o seu próprio endereço existencial, acometi­do de colapso amnésico de sua identidade transcendental.

      Se, de um lado, o progresso científico e as comodidades tecnológicas aceleram, cada vez mais, o processo de irreversível planetarização, denominado por McLuhan de "aldeia global", numa interação peri­gosamente homogeneizante das culturas mais díspares, por outro lado o espírito hu­mano vem sofrendo um persistente abas­tardamento de seu ideário humanístico pe­las facécias e falácias da mídia enlou­quecida, na promoção da vulgaridade, do deboche, do estímulo à criminalidade, onde o filão do escândalo constitui a ratio essendi do marronismo jornalístico.

      Preservar-se incólume do contágio mediocrizante como cidadela inexpugnável do sanitarismo cultural é uma virtude ape­nas encontrável em veneráveis instituições - entre as quais se destaca a Academia Per­nambucana de Ciências - cuja missão con­siste na custódia dos valores excelsos do espírito humano.

      Meus caros novos colegas, termino aqui essas aligeiradas e breves reflexões e, em nome da Academia Pernambucana de Ciên­cias, tenho a honra e a emoção de saudá-los e afirmar a minha certeza de vê-los como futuros baluartes da instituição e a conti­nuidade do ideal que ela representa.

 

 

DISCURSO E POSSE NA ACADEMIA DE LETRAS E ARTES DE PERNAMBUCO

 

Panegírico Acadêmico: um Ritual de Passagem (*)

 

Valter da Rosa Borges

 

 

            O homem é o único ser biológico capaz de descobrir e de inventar realidades. Talvez porque acredite que foi feito à imagem e semelhança de Deus. Talvez porque, mais ousadamente, se declare sócio minoritário do monopólio empresarial divino. Talvez porque Deus simplesmente o fez assim.

            Cientistas, filósofos, artistas e escritores constituem uma especialização biológica do gênero humano e se caracterizam, quase a totalidade, pela sua capacidade visionária e idealismo quase patológico. Deslocados psiquicamente do seu tempo, são apenas inquilinos do presente e, na verdade, trânsfugas do futuro. Daí, porque excêntricos e nada práticos, incompetentes no trato das rotinas, desatentos dos ritos sociais, olham sempre através ou mesmo além do mundo onde se encravam.

             Ser um ser desta espécie é duro fardo. É quase masoquismo consentido pela própria condição de ente mutante, aclimatado à força, pelo império das coerções sociais. Estes seres obstinados jamais desistem de expor ao mundo o próprio sonho, como proposta alternativa à realidade. E atraídos por vínculos invisíveis, se congregam em associações e confrarias como única opção de sobrevivência contra a homogeneizante geléia cultural. Claro que existem os solitários, zelosos de sua própria solidão e do seu destino singular. Mas há também e, em maior número, os que se buscam no convívio societário e mantêm relações nem sempre fáceis, porque são seres plenos de si mesmos.

            Somos assim e paradoxalmente seres ímpares entre pares, num convívio polêmico de desafins, porque de afins somente a semelhança da nossa indiferença ao trivial. Afinal, neste final de século, marcado pela globalização e pela clonagem, onde a velocidade das mudanças tecnológicas não é acompanhada de uma madura reflexão filosófica, a dolorosa conquista da individualidade deve ser preservada a qualquer custo. Se, hoje, fabricamos robôs que parecem homens, estamos, em contrapartida, modelando  homens à semelhança de robôs na oficina perversa da mídia irresponsável.

            A Academia não é apenas o depositário fiel das tradições culturais e das conquistas científicas, mas o ambiente propício ao exercício do diálogo e da reflexão, visando o desenvolvimento sempre crescente do potencial humano. O homem, como dizia Sartre, é o  que ele faz de si mesmo e, portando, destinatário final de suas próprias ações. O seu destino e missão se modelam na oficina do seu cotidiano, onde o passado se faz matéria prima na confecção do presente com vista aos desafios do futuro.

            Chego até vós, senhores acadêmicos, por vossa vontade e pleito meu, principalmente pela indicação de um de vós que, por emérito, me cedeu seu lugar em condomínio. Daí, o meu dever, não apenas estatutário, mas fraterno, de saudá-lo em meu ingresso neste sodalício.

            Nicolino Limonji, hoje na década dos oitenta, conserva o mesmo vigor intelectual dos anos da juventude. Acostumamo-nos, ele e eu, aos passeios matutinos e peripatéticos no parque da Jaqueira, em busca de uma permanente oxigenação dos nossos corpos e dos nossos espíritos. Afinal, toda a existência não passa de um caminhar por estradas nem sempre físicas e por veredas invisíveis ao prosaico caminheiro.

            Médico formado em 1940, Nicolino se fascinou não apenas pelos mistérios do organismo humano, mas, notadamente, pelas peculiaridades de seu processo de crescimento, o que o levou a dedicar-se à Puericultura e à Pediatria. Talvez, porque, no íntimo, Nicolino preservou intacta a singeleza da criança, como uma espécie de anjo da guarda ou guia espiritual, nas suas relações com o mundo atribulado e competitivo dos adultos. Daí, por certo, a explicação de sua higidez física e intelectual, do seu paladar aguçado pelos sabores da vida.

            Embora servidor federal, não se deixou burocratizar, mesmo assumindo cargos de direção, pois via no serviço público a oportunidade de aproximar-se não do homem metafísico, mas do homem concretamente biológico, sensorialmente social e tão densamente real. Do homem gemente e sofredor à míngua de um gesto de compreensão para o alívio de seus males, além da prescrição de convencionais analgésicos.

            O seu arraigado espírito associativo o levou ao convívio acadêmico de instituições literárias, artísticas e científicas, como a Sociedade de Pediatria de Pernambuco, a Sociedade Brasileira de Pediatria, a Sociedade de Higiene de Pernambuco, a Sociedade de Medicina de Pernambuco, a Academia Pernambucana de Ciências, a Academia de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro e a Academia de Artes e Letras de Pernambuco.

             Escritor e poeta, Nicolino é ainda um profundo conhecedor da música clássica e, embora casado, conserva um ar monástico e um espaço físico pessoal para se dedicar diariamente ao seu ofício de esteta.

             Ávido pelo saber, Nicolino sempre procurou conciliar a rigidez do conhecimento científico com a sabedoria dos ensinamentos espirituais, numa simetria perfeita que caracteriza a sua personalidade.

            Rejubilo-me, por isso, em sentar-me à cadeira sodalícia que, de fato e de direito, a ele pertence e principalmente de saudá-lo na presença dos companheiros da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, a que passo, nesta solenidade, formalmente a pertencer,  assumindo, o compromisso de batalhar, até o limite da minha força e competência, pelo engrandecimento cultural de Pernambuco.

            Finalmente, resta-me saudar o patrono da cadeira, o poeta Antônio Carlos de Medeiros, autor de dois livros inéditos, intitulados “Plenilúnio” e “Enigmas do Tempo e da Distância”, onde revela a sua preferência e sua força criativa maior na composição do soneto. Alguns de seus trabalhos foram publicados esparsamente no “Jornal do Commercio”, “Folha da Manhã” e “Correio do Povo”.

            Antônio Carlos, especializado em Contabilidade Mercantil, trabalhou na firma Leon Cherpack e, mais tarde, tornou-se proprietário da Movelaria Nobre, então situada à rua do Aragão, no bairro da Boa Vista. Conciliava, assim, a pragmática do comércio das coisas materiais com o exercício penoso e gratuito das construções estéticas. Devoto de Hermes ou Mercúrio, o deus do comércio, também era adepto das Musas e zeloso guardião do seu culto, de onde recolhia a inspiração necessária para o desempenho de atividades tão contraditórias. Foi diretor de “A Flâmula”, um periódico literário que, em 1921, circulou no bairro da Encruzilhada.

            Nicolino Limonji, que lhe traçou o perfil psicológico, o descreve como um homem tímido, simples, intuitivo e de decisões rápidas, gentil no trato, mas de uma franqueza, às vezes, contundente.

            Antônio Carlos era também um adepto da música erudita, tendo em Schumann, Bach e Mozart os seus compositores prediletos e, ainda, leitor assíduo de livros de Mitologia, de História Antiga, de Sociologia e de Filosofia.

            Falecido precocemente de edema pulmonar aos 51 anos de idade, Antônio Carlos de Medeiros imortalizou-se como patrono da cadeira no 7 da Academia de Artes de Letras de Pernambuco como prêmio póstumo de reconhecimento pela sua dedicação à cultura em geral e à literatura, notadamente a poesia, em especial.

            Este duplo panegírico não constitui apenas uma exigência protocolar e estatutária, mas um reconhecimento explícito do valor pessoal dos homenageados. Se Deus reservou a imortalidade a cada ser humano em particular, as Academias se reservaram ao direito de conceder uma segunda imortalidade, agora de natureza formal, a cada um de seus membros, transubstanciando-lhe a carne em símbolo para preservá-los incorruptíveis na  memória das gerações vindouras.

 

(*) Discurso de posse, proferido na Academia de Artes e Letras de Pernambuco, no dia 18/03/98.

 

 

 

UMA BREVE HISTÓRIA DA ACADEMIA PERNAMBUCANA DE CIÊNCIAS

Valter da Rosa Borges

 

 

A idéia da fundação da Academia Pernambucana de Ciências – APC - nasceu, basicamente, do programa "O GRANDE JÚRI", que criamos, produzimos e apresentamos, na TV Universitária Canal 11, da Universidade Federal de Pernambuco, no período de 1968 a 1981 e reunia semanalmente os expoentes da intelectualidade pernambucana, debatendo as questões mais polêmicas no campo da ciência, da tecnologia, da filosofia e religião.

 

            O êxito do programa, que alcançou todas as classes sociais, nos motivou a fundar uma instituição científica que, como seu sucedâneo, tivesse uma amplitude maior e congregasse permanentemente personalidades de destaque nas mais diversas áreas do conhecimento científico. Levamos, então, a nossa proposta aos mais assíduos participantes de “O Grande Júri” e a outras pessoas de prestígio científico e cultural, muitas das quais a ela aderiram. Assim, no dia 7 de janeiro de 1978, às 16 horas, na sede do Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas – IPPP -, na rua da Concórdia, 372, salas 46/47, bairro de São José, foi fundada a Academia Pernambucana de Ciências, constituída de trinta e quatro (34) sócios: Valter da Rosa Borges, Nélson Chaves, Aluízio Bezerra Coutinho, Oswaldo Gonçalves Lima, João de Vasconcelos Sobrinho, Orlando Parahym, Berguedoff Elliot, Amaro Quintas, Pe. Nércio Rodrigues, Áureo Bispo Santos, Ivo Cyro Caruso, Reynaldo Rosa Borges de Oliveira, Roberto Oliveira de Aguiar, Geraldo Mariz, Luiz Pinto Ferreira, José Xavier Pessoa de Moraes, Ozita de Moraes Pinto Ferreira, Oswaldo Santos de Melo, Aloízio de Melo Xavier, Aécio Campelo de Souza, Paulo de Albuquerque Jungman, Édison Duarte de Souza, Walter Wanderley Barros, Fidias Teles, Roberto Mauro Cortez Motta, Ayrton Fernandes da Costa, José Lourenço de Lima, Sebastião Vilanova, Othon Bastos Filho, João Beltrão Neto, Francisco Ivo Dantas Cavalcanti, Wandick Nóbrega de Araújo, Geraldo Pereira de Arruda e Atílio Dall’Olio. Na ocasião, foi eleita, por aclamação, a primeira Diretoria da Academia que ficou assim constituída: Presidente – Valter da Rosa Borges; Vice-Presidente – Berguedof Elliot; 2º Vice-Presidente – Osita Pinto Ferreira; Secretário Geral – Fídias Teles; 1º Secretário – Roberto Motta; 2º Secretário – Áureo Bispo; Tesoureiro – Ivo Cyro Caruso. Diretor do Departamento Científico – Atílio Dall’Olio. Conselho Científico: Aluízio Bezerra Coutinho, Oswaldo Gonçalves de Lima, Nelson Chaves, João Vasconcelos Sobrinho, Orlando Parahym, Luiz Pinto Ferreira e José Xavier Pessoa de Moraes.

 

            Para dar divulgação à criação da Academia Pernambucana de Ciências, realizou-se uma sessão solene, no dia 28 de janeiro de 1978, nas dependências da TV Universitária Canal 11, na Avenida Norte, s/n, bairro da Boa Vista, e, em seguida, no programa “O Grande Júri”, com a participação de cientistas, professores, intelectuais e autoridades, tendo como oradores os acadêmicos Orlando Parahym, Ivo Dantas e Pessoa de Moraes. A solenidade contou com a presença do Diretor Geral da TV Universitária Canal 11, Sadock Souto Maior e do Deputado Estadual Nivaldo Machado, representando a Assembléia Legislativa do Estado. Fizemos uma breve exposição sobre os objetivos da Academia, destacando a sua diferença em relação às academias tradicionais por não conferir o título de imortal aos seus membros e nem adotar numeração de cadeiras com respectivos patronos. Era uma instituição com um mínimo de formalidade e mais preocupada com o convívio permanente de pessoas com interesses multidisciplinares e dotadas de espírito associativo e participativo.   

Em seu discurso, Orlando Parahym enfatizou que a nova instituição era constituída de “homens de todos os saberes”, enquanto Ivo Dantas complementou que ela objetivava a integração de todos os saberes. Pessoa de Moraes ressaltou a originalidade da Academia Pernambucana de Ciências em razão da preferência do pernambucano pelo literário e não pelo científico, comparando esse pioneirismo com os tempos de Tobias Barreto e da Escola do Recife.

           

O entusiasmo dos fundadores era contagiante. Roberto Mota, em artigo intitulado “Torno-me Acadêmico” e publicado no Diário de Pernambuco, na edição de 28 de janeiro de 1978, manifestou o seu orgulho de pertencer a Academia.

 

Em 17, 19 e 22 de fevereiro de 1978, o Diário de Pernambuco, o Jornal do Commercio e o Diário da Manhã, respectivamente, noticiaram a fundação da nova instituição. E, no dia 2 de abril, Fídias Teles, concedeu uma longa entrevista de página inteira à jornalista Ladjane Bandeira, do Jornal do Commercio, onde destacou a proposta interdisciplinar da Academia, visando a integração das mais diferentes áreas do conhecimento.

 

Em maio, o Jornal Universitário, da Universidade Federal de Pernambuco, sob o título “Nasce Academia de Ciências”, nos entrevistou a respeito das finalidades da instituição.

 

Durante todo o ano de 1978, a Academia passou a participar semanalmente dos debates de “O Grande Júri”. Não possuindo sede própria, como ainda hoje acontece, realizava as sessões administrativas no Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofisicas, e as sessões culturais no auditório da TV Universitária Canal 11.

 

Graças ao prestígio de “O Grande Júri”, iniciamos, em 5 de junho de 1979, uma série de programas científicos na TV Universitária Canal 11, intitulado “TV-U Ciência”, sob a responsabilidade da APC, com a nossa supervisão e coordenação de Atílio Dall’Olio e Roberto Mota. Embora o programa tivesse tido uma curta duração, realizou o seu objetivo, levando ao público entrevistas e debates de natureza científica.

 

Em 10 de dezembro de 1980, a Academia Pernambucana de Ciências, a  Universidade Federal de Pernambuco e a União Colégio e Curso, tendo como interveniente o Núcleo de Televisão e Rádio da Universidade Federal de Pernambuco, representados respectivamente por Valter da Rosa Borges, Geraldo Lafayette Bezerra, Salomão Jaroslavski e Edson Magalhães Bandeira de Mello assinaram um convênio de colaboração cultural para a gravação e divulgação de programas de elevado índice educacional e cultural, integrado ao programa “O Grande Júri”.

 

            De 1981 a 1988, as sessões culturais da Academia passaram a realizar-se no Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas.

 

Roberto Motta, em artigo intitulado “O Espírito da Academia”, publicado no Diário de Pernambuco, na edição de 24 de março de 1984, assim resumiu o clima das sessões culturais.

“Da academia a que pertenço, a Academia Pernambucana de Ciências, eu faço um elogio que gostaria muito de estender a todas. A alta qualidade do convívio. O aborrecimento de viver, as preocupações do quotidiano, o medo da pressão alta e da inflação, as competições, as frustrações, tudo isso se acaba na porta de nossa sala de reuniões, na rua da Concórdia, onde somos hóspedes do Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas.”

 

Algumas sessões culturais da Academia foram realizadas no auditório do Teatro Valdemar de Oliveira, gentilmente cedido pelo acadêmico Reinaldo de Oliveira.

 

De 1989 a 1995, a Academia entrou em estado de recessão nas suas atividades administrativas, culturais e científicas, dando a impressão de que caminhava para a sua extinção. Porém, a partir de 1996, ela voltou às atividades normais, passando a realizar, mensalmente, as suas sessões culturais no Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas. O Deputado Geraldo Barbosa apresentou à Assembléia Legislativa do Estado de Pernambuco, um projeto para reconhecer a Academia como de Utilidade Pública Estadual. O projeto foi aprovado e se transformou na Lei 11.345, de 14 de maio de 1996. Ainda neste ano, a Academia Pernambucana de Ciência e a Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco - FIESP-, representadas respectivamente por Valter da Rosa Borges e Armando Monteiro Neto, assinaram um convênio de parceria com a finalidade de elaborar um programa de desenvolvimento econômico e cientifico  para o nosso Estado.              

            Em 1997,  a Academia passou a realizar as sessões culturais, no primeiro sábado de cada mês, no auditório do Centro de Teologia e Ciências Humanas (CTCH), da Universidade Católica de Pernambuco, na rua do Príncipe, 526, bairro da Boa Vista, onde continua até hoje.

 

            A Academia, cujo número de sócios ultrapassa uma centena, é constituída de personalidades consagradas no mundo científico e de jovens cientistas talentosos, unindo e reunindo, assim, gerações diferentes, mas identificadas no mesmo propósito. Ela é a afirmação da força de um ideal, capaz de superar barreiras, aceitar desafios e obter vitórias e conquistas, mesmo nas condições mais adversas. Assim, o que parecia uma ousadia  utópica, um mero capricho ocasional, se transformou em realidade para o gáudio daqueles que insistentes e persistentes acreditaram na viabilidade de seu ideal.

 

 

 

ELOCUÇÃO ACADÊMICA (*)

 

VALTER DA ROSA BORGES

 

A Academia Pernambucana de Ciência, nesta noite especial, comemora dois even­tos de fundamental importância para a sua história: a posse de sua nova Diretoria, reeleita pela confiança de seus Acadêmicos, com base nos trabalhos que realizou na ges­tão anterior, e a posse dos novos membros da sociedade, que, por certo, enriquecerá ainda mais o seu património científico e cul­tural.

A Academia Pernambucana de Ciênci­as, fundada em 1978, é a afirmação da capa­cidade intelectual do homem de Pernambu­co, capaz de superar barreiras, aceitar desa­fios e obter vitórias e conquistas, mesmo nas condições mais adversas. Assim, o que parecia uma ousadia utópica, um mero ca­pricho ocasional, se transformou em realidade para o gáudio daqueles que insisten­tes e persistentes acreditaram na viabilida­de de seu ideal.

A reeleição da nova diretoria da APC, tendo a frente, mais uma vez, a figura de seu dinâmico e arrojado Presidente, Dr. Waldecy Fernandes Pinto, é a afirmação e a continui­dade de um trabalho que vem projetando a instituição no cenário científico e cultural de Pernambuco. E a posse de novos Aca­démicos é a certeza da continuidade da atividade científica da Academia, no seu propósito de contribuir para alavancar o progresso científico e tecnológico de nos­so Estado.

Conhecer o futuro para controlar o pró­prio destino sempre foi, é e continuará sen­do uma das grandes aspirações do género humano. Elas resultam das expectativas de um mundo melhor ou de um outro radicalmente diferente do atual, seja por­que acreditamos num progresso inter­minável, seja porque o sistema atual do mundo é indesejável e deve ser modifi­cado ou completamente destruído. Por isso, o homem se fez profeta para inven­tar o seu próprio futuro.

A ciência tem transformado o que antes parecia especulações visionárias em realizações ou probabilidades con­cretas. Assim, o cientista é um profeta singular que, ao invés de procurar en­tender os planos de Deus, cria os seus próprios projetos e tenta viabilizámos. Di­ferentemente das pitonisas do passado, ele não aspira os gases oriundos da terrã para augurar o futuro, mas se inspira nas ideias oriundas das profundezas do seu in­consciente, buscando construir para a hu­manidade, não apenas futuros possíveis, mas, principalmente, desejáveis. O seu otimismo em relação ao futuro se direciona no sentido de uma melhoria tecnológica da vida para o homem, embora nem sempre re­sulte em melhoria da qualidade de vida. En­tre essas visões progressistas do futuro a ciência se propõe à construção de cidades auto-suficientes nos oceanos e no espaço; à instalação estratégica de defesas bélicas contra possíveis choques do nosso plane­ta com asteróides; às teleportações de coi­sas e pessoas, minimizando o obstáculo do espaço; às viagens no tempo; à conquista do espaço exterior com a colonização de pla­netas do sistema solar e também de outros sistemas dentro da nossa galáxia e até fora dela; à extinção de todas as doenças e ao aumento indefinido da longevidade, com a manutenção da saúde e o retardamento ou mesmo a abolição do envelhecimento; à ins­talação de próteses ampliadoras das fun­ções do corpo; à utilização de memória su­plementar em chips implantados no cérebro; à ampliação funcional do vestuário à condi­ção de nicho ecológico individual; à alimen­tação sinté-tica, reduzindo a dependência do homem aos alimentos naturais, o que po­derá resultar em alterações da fisiologia hu­mana; à expansão, em nível inimaginável, da inteligência artificial, substituindo as atividades rotineiras do ser humano; à re­construção genética, visando a melhoria biológica da espécie humana; à clonagem de órgãos, abolindo a necessidade de trans­plantes e próteses; à felicidade química e à abolição da dor física; à realidade virtual como sucedâneo, em certas situações, da realidade física.

Porém, a ciência sem consciência, pode­rá reverter toda essa perspectiva otimista, ensejando a desilusão e o desespero, de­correntes dos conflitos sociais resultante da mudança de normas e valores, a dissolu­ção dos costumes, com o incremento da li­cenciosidade, da corrupção do poder, da escalada da desonestidade, do arrefecimento do sentimento religioso, da busca exa­cerbada dos bens materiais, do agrava­mento da pobreza, da fome, e do aumento insuportável da violência, desencadeando o aumento da criminalidade, dos conflitos sociais e das guerras.

O futuro da humanidade é, de certo modo, um constructo do psiquismo huma­no. Os futuros temíveis ou desejáveis po­dem se tornar prováveis, pois o homem, por sua capacidade de pensar as possibilida­des do acontecer, é suscetível de ser vítima ou beneficiário do conhecimento científico e de suas aplicações tecnológicas.

Uma Academia de Ciências não deve ser apenas uma congregação de pessoas, selecionadas pelo seu mérito, mas uma oportunidade de permuta contínua de experiên­cias e conhecimentos, na busca de um sa­ber cada vez mais enciclopédico, porém centrado na melhoria da qualidade de vida da humanidade. O cientista não deve ser um gênio solitário, embora faça da sua soli­dão o cadinho de suas descobertas e inventos. O laboratório jamais deve ser um cemitério, mas uma sementeira para o culti­vo de ideias oriundas das mais diversas áre­as do conhecimento humano. A ciência não pode ser um sistema fechado, uma espécie de feudo epistemológico, mas um espaço tão amplo e limitado como o universo exteri­or, a fim de evitar o engessamento e a estratificação do paradigma da realidade. A natureza intrínseca da ciência é a provisoriedade do seu próprio conheci­mento, em permanente compasso com a mutabilidade de todas as coisas. A fé na ciência é a consciência de sua própria inci-ência, pois como dizia Karl Popper, "o co­nhecimento é limitado, mas a ignorância é infinita". Na verdade, quanto mais pensa­mos saber, mas nos conscientizamos das nossas limitações e do tamanho, cada vez maior, da nossa ignorância. Quanto mais adentramos a pesquisa da matéria, mais nos deparamos com a sua fundamental insubs-tancialidade. Quanto mais questionamos so­bre a vida, mais nos apercebemos da insufi­ciência do seu paradigma biológico. E quanto mais ampliamos os nossos conhecimentos sobre a bioquímica e a anatomia cerebral mais nos conscientizamos do mistério da nossa consciência.

Entende a Academia Pernambucana de Ciência que o conhecimento científico não deve ser partilhado apenas entre profis­sionais de uma mesma área acadêmica, mas também entre os demais cientistas, numa atividade intensa de interdisciplinaridade, proveitosa para o enriquecimento da pró­pria ciência como um todo. Além do mais, a Academia Pernambucana de Ciências pro­clama que o conhecimento científico não deve ficar adstrito e restrito à privacidade dos laboratórios e às discussões entre ci­entistas, em sessões privadas, mas que deve ser levado à comunidade para que dele tam­bém se beneficie, melhorando a própria qualidade de vida.

Assim como a ciência ainda não encon­trou o átomo no seu verdadeiro sentido etimológico, também ainda não se desco­briu o homem em si, pois ele não é apenas a sua circunstância, como dizia Ortega y Gasset, mas também a sua relação. Assim, a nossa individualidade é a nossa relação com, o que resulta na constatação de que a solidão não faz parte da essencialidade do ser. Na verdade, fundamentalmente nenhum homem vive exclusivamente para si, enfeudado em sua privacidade inexpugná­vel, mas também para os outros, apesar dos outros e até contra os outros. Por mais que não nos queiramos resignar, o mundo é necessana-mente o nosso an­verso, a nossa contra-parte. Aliás, hoje se postula que o uni­verso é uma rede de interconexões de todas as coisas, onde tudo interage com tudo, o que importa na inadmissibilidade de ter o ho­mem o privilégio de ser a única exceção.

Não se pode fugir ao truísmo denunciatório de uma sociedade em acelerada tran­sição que mais se assemelha, notadamente no ocidente, ao processo entrópico de uma civilização em rumo equivocado, embevecida, no entanto, pelo brilho hipnó­tico das lantejoulas tecnológicas. A bem da verdade, de tanto cotejar a filosofia consumista, na orgia aquisitiva de bens e de valores transitórios, o homem perdeu o seu próprio endereço existencial, acometi­do de colapso amnésico de sua identidade transcendental.

Se, de um lado, o progresso científico e as comodidades tecnológicas aceleram, cada vez mais, o processo de irreversível planetarização, denominado por McLuhan de "aldeia global", numa interação peri­gosamente homogeneizante das culturas mais díspares, por outro lado o espírito hu­mano vem sofrendo um persistente abas­tardamento de seu ideário humanístico pe­las facécias e falácias da mídia enlou­quecida, na promoção da vulgaridade, do deboche, do estímulo à criminalidade, onde o filão do escândalo constitui a ratio essendi do marronismo jornalístico.

Preservar-se incólume do contágio mediocrizante como cidadela inexpugnável do sanitarismo cultural é uma virtude ape­nas encontrável em veneráveis instituições - entre as quais se destaca a Academia Per­nambucana de Ciências - cuja missão con­siste na custódia dos valores excelsos do espírito humano.

Meus caros novos colegas, termino aqui essas aligeiradas e breves reflexões e, em nome da Academia Pernambucana de Ciên­cias, tenho a honra e a emoção de saudá-los e afirmar a minha certeza de vê-los como futuros baluartes da instituição e a conti­nuidade do ideal que ela representa.

 

(*) Saudação à nova Diretoria e aos novos aca­démicos da Academia Pernambucana de Ciênci­as, por ocasião de sua posse, no dia 16/2/2000, no auditório da Federação das Indús­trias do Estado de Pernambuco - FIEP)

 

 

                                                                 ACADEMIA E COMUNIDADE

 

Discurso pronunciado na sessão solene da Academia de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro, no dia 18 de janeiro de 1980, no auditório da FAFIRE.

 

      A Academia de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro, num gesto altamente significativo, homenageia, com a concessão do título de acadêmico emérito, os presidentes da Academia Pernambucana de Letras, da Academia Olindense de Letras, da Academia Pernambucana de Medicina, da Academia de Artes e Letras de Pernambuco e da Academia Pernambucana de Ciências, respectivamente os acadêmicos Mauro Mota, Barreto Guimarães, Fernando Figueira, Ferreira dos Santos e Valter da Rosa Borges, em solenidade que não se exaure na própria homenagem, mas que simboliza, acima de tudo, a integração da intelectualidade pernambucana.

      No decantado século das comunicações, nenhuma Academia desta natureza pode dar-se ao luxo de permanecer em obstinado isolacionismo, como um sistema fechado ou espécie de mosteiro intelectual, produzindo, exclusivamente, para o seu consumo. A vida é um incessante processo de permutas com a finalidade precípua de garantir a homeostase orgânica, na metabolização permanente da matéria-prima e experiência adquirida.

      Via de regra, as Academias literárias e científicas reúnem a nata dos mais expressivos valores culturais de uma comunidade. Por isto, mister se faz que elas funcionem como um sistema aborto, um laboratório experimental do espírito, sempre em busca de novas fórmulas e opções, objetivando o enriquecimento existencial da humanidade. Ninguém é solitário por vocação. A misantropia é um estado patológico da natureza humana. E disto, já se apercebera Aristóteles, quando asseverou: "Não se pode imaginar um homem feliz na solidão, porque o homem nasceu para viver em comunidade".

      O acadêmico não pode repetir o equívoco de Narciso na obsessiva contemplação de si mesmo, escravo do próprio isolamento e da fascinação exclusivista do seu grêmio. O elitismo intelectual é um insidioso narcótico, capaz de alienar as melhores inteligências do contato direto com a realidade de sua época. A solidão obstinada, à semelhança de um poderoso psicotrópico, é, freqüentemente, responsável por todas as fantasias e excentricidades de que são vítimas até as inteligências mais privilegiadas.

      O acadêmico, assim, tem a indeclinável obrigação de ser intensamente contemporâneo, um dinâmico operário do progresso, comprometido, de maneira indissolúvel, com o destino do seu povo. Administrador e não simples depositário de parcela significativa do patrimônio cultural da humanidade, a ele compete aplicar, diligentemente, os talentos recebidos, atento à recomendação evangélica de que "a quem muito é dado, muito lhe é pedido".

      O homem não é mero produto da realidade, mas um transformador da realidade. E, também, um fazedor de realidades, construindo e construindo-se, numa febricitante inquietação artesanal, para se multiplicar em suas próprias obras. A sociedade humana não é apenas uma tentativa, como apregoava Nietzsche mas o exercício e aprimoramento de uma genética espiritual, em permanente enriquecimento cromossômico, graças à atividade fecundante dos grandes gênios da humanidade. Porque a espécie humana não se perpetua apenas pela hereditariedade física, mas também pela continuidade metafísica da genealogia do conhecimento.

      Na verdade, não se pode conceber a convivência acadêmica como um processo de mumificação intelectual, mas, sim, como oportunidade sempre renovada de desenvolvimento crescente da capacidade criadora, através do indispensável diálogo, num procedimento dialético altamente produtivo.

      Academiar-se não é acomodar-se, mas incomodar-se com as alternativas da realidade do seu tempo. Não há criação na inércia, mas nas crises e nos desequilíbrios, pois a vida é movimento, é mudança e o próprio êxtase do santo é resultado de uma intensa atividade espiritual.

      É mister que o acadêmico seja dotado de um espirito universalista, capaz de interessar-se por todas as áreas do conhecimento humano. Isto não importa dizer que ele possua uma cultura enciclopédica, mas que, ao menos, revele um mínimo interesse autêntico por outros setores da atividade intelectual, além daquele a que se dedicou ou no qual se especializou. Aliás, a especialização é uma imposição de conteúdo pragmático e não uma necessidade espontânea do espírito humano, sempre ávido de crescimento em todos os níveis. Por isto, não mais se compreende, na era das comunicações, a vocação pelo intelectualismo monástico, a profissão do monólogo, o monopólio setorial do conhecimento.

      Mais do que nunca, o estilo da vida moderna está a exigir das pessoas um permanente estado de alerta e uma aguçada sensibilidade crítica. Vivemos, intensamente, o sentimento e a experiência do transitório. Nada nos parece sólido e confiável, mas fluido, impermanente, duvidoso. Habitamos o século do descompromisso, da probabilidade, do indeterminismo, da relatividade. A epistemologia entra em colapso, pois a única certeza que o conhecimento científico nos dá é a incerteza do próprio conhecimento. Então, o homem, a contra gosto, começa a sentir a compulsão de se acostumar a conviver com a insegurança e pressente que a fé não é, fundamentalmente, um sistema de dogmas, mas uma atitude madura perante a perplexidade do existir. Viver se torna um ato de fé, pois a razão é apenas instrumento hábil para estabelecer relações pragmáticas com a realidade imediata e não para conhecê-la. A competência epistemológica do homem é, assim, limitada e a sua atividade jurisdicional está restrita, em última análise, ao próprio fenômeno humano. E, assim, ele compreende a inutilidade de dar ou procurar respostas, esmerando-se, ao contrário, no exercício de fazer perguntas adequadas, pois é nessa atitude de permanente questionamento, equivalente á dúvida metódica cartesiana, que ele se torna, cada vez mais, ciente e consciente da fascinante complexidade da vida. É esta consciência lúcida do mistério que faz da existência uma aventura sempre renovada que levou Albert Einstein, misto de cientista, filósofo e poeta, a asseverar: "O mais belo dos sentimentos que podemos experimentar é o do mistério. É a emoção fundamental que surge no berço da verdadeira arte e da verdadeira ciência. Aquele que não a conhece e que não mais consegue maravilhar-se, não mais assombrar-se, está praticamente morto, como uma vela apagada". O assombro do cientista perante o mistério da vida corresponde ao alumbramento do poeta ante o impacto da beleza. Corresponde, em outro nível, ao êxtase do santo, embriagado de Deus. A ciência é a arte do conhecimento provisório e a arte é a ciência instantânea da beleza. Só o homem medíocre é insensível ao processo de renovação da vida, de transformação de todas as coisas, porque, como bem o define Ingenieros, ele "só tem rotinas no cérebro e preconceitos no coração".

      O acadêmico, afeito ao estudo e à observação, de inteligência treinada e aguda sensibilidade, é uma importante testemunha do seu tempo. Ele participa dos impasses e das angústias de sua geração e sente, mais profundamente, o drama urbano da solidão, do anonimato desindividualizante, da massificação, em todos os níveis, na convivência diária das megalópoles, num processo, talvez irreversível, de entropia social e psicológica. Ele pressente, em clima de depressão, que o mero somatório do conhecimento científico e tecnológico, em vez de produzir libertação, constituí uma gradativa subtração da felicidade. E constata que o conhecimento e o controle do universo exterior não resolvem, por si só, os complexos problemas do espirito humano. Por isto, observa, impotente, a inversão teleológica dos valores, onde o homem, na alucinada conquista do mundo material, perdeu as coordenadas do seu próprio destino, passando a servir as coisas e não a servir-se das coisas. Tal constatação faz lembrar a oportuna advertência de Erich Fromm: "Fazemos máquinas que agem como homens e produzimos homens que agem como máquinas". Esta, por certo, é a verdadeira idolatria, encontrável, infelizmente, em todos os tempos e lugares. Quando o homem presta culto e se submete a algo que ele mesmo construiu, seja uma ideia ou seja uma estátua, comete crime de idolatria. É um blasfemo da própria condição humana.

      A sociedade, portanto, é o instrumento mais adequado para o homem desenvolver as suas potencialidades. E se ao contrário, ela mutila ou atrofia personalidades, a culpa não lhe cabe, mas, sim, aos próprios homens que ainda não sabem, adequadamente, conduzir-se em seu relacionamento recíproco. Sociedade e liberdade não são expressões antinômicas, mas a sua conciliação é um permanente desafio à inteligência e ao bom senso. Por isto, Krishnamurti enfatiza a necessidade de "ajudar o homem a ser livre e a compreender o problema do ajustamento ; ajudá-lo a obedecer, sem ser escravo da sociedade... mantendo sempre aquele extraordinário espirito de liberdade". O estado natural do homem é o de comunhão com o seu semelhante. Daí, porque, por mais paradoxal que pareça, ele prefere o conflito da vida social à estéril tranquilidade de um isolamento definitivo. Tinha razão, portanto, Espinoza quando asseverou que "nada existe mais útil ao homem do que o próprio homem".

      A Academia é uma das mais produtivas formas societárias, pois congrega, geralmente, os espíritos mais cultos, lúcidos e criativos da comunidade, favorecendo o intercâmbio permanente de ideias entre os seus membros. Contudo, é necessário que as Academias não realizem um trabalho isolado ou que apenas estabeleçam, entre si, relacionamentos formais e esporádicos. Creio, porém, que o encontro desta noite constitui, historicamente, o marco inicial de um programa integrado de ação acadêmica, resultando na ampliação das atividades culturais do nosso Estado.

      Assim, ao encerrar este breve discurso, penso eu, em tempo hábil, quero parabenizar a Academia de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro, na pessoa do seu dinâmico presidente, Dr. Nicolino Limongi, pelo êxito deste empreendimento e agradecer em meu nome pessoal e em nome de todos os homenageados os diplomas de acadêmicos eméritos com que fomos distinguidos.

 

 

ENTREVISTA

 

O  INFORMATIVO APC solicitou um encontro  com o ACADÉMICO VÁLTER DA ROSA BORGES - o fun­dador da APC e seu primeiro Presiden­te - e fomos por ele recebidos, na sua biblioteca particular. Na ocasião, pres­tou-nos a seguinte ENTREVISTA:

1   - O INFORMATIVO: Senhor acadêmico Válter  da Rosa Borges, quais os motivos e ideais que o levaram a fun­dar a Academia Pernambu­cana de Ciências?

VÁLTER: O permanente fascínio pela universalidade do saber. O ideal de reu­nir pessoas das mais diversas áreas do conhecimento para um proveitoso diá­logo interdisciplinar. O reconhecimento de que o homem é essencialmente um ser solidário e que faz, algumas vezes, da própria solidão uma oportunidade de reflexão sobre a natureza humana.

2 - O INFO: Quais os critérios utilizados pelo senhor, na época, para escolher os in­telectuais que formaram o corpo de associados da Academia Pernambucana de Ciências?

VÁLTER: Não apenas o critério da competência, mas também do espírito associativo e, principalmente, do seu interesse de permuta de informações e experiências com outros profissionais das mais diversas áreas do conhecimento científico, tecnológico e humanístico. Por isso, os fundadores da APC não foram apenas as figuras consagradas intelectualidade pernambucana, mas também as personalidades em proces­so de consagração, representando o próprio futuro da instituição.

3  - O INFO: a Academia Per­nambucana de Ciências nunca recebeu subvenções e auxílios do governo, se­quer para se estabelecer em sede própria. por quê?

VÁLTER: Fazer ciência, no Brasil, é uma atividade quase quixotesca. Os nossos governantes, até agora, sempre olharam as atividades científicas como marginais, dando ênfase desmedida ao lazer e ao esporte. Somos um país à deriva do acaso e da improvisação, ali­mentando a fé ingênua de que, no fim, tudo dará certo. Subvenção só para entidades recreativas das mais diver­sas naturezas, porque elas representam um forte contingente eleitoral e eleitoreiro. Afinal que interesse pode despertar uma instituição científica para a nossa política de natureza clientelista? A nossa Academia é uma das vítimas desta mentalidade estreita e pragmática que se constitui, na verdade, numa doença crônica do espírito brasileiro.

4 - O INFO: A Academia Per­nambucana de Cências constitui um fórum de de­bates sobre assuntos cien­tíficos. como os resultados dessas discussões chegam á sociedade, em forma de be­nefícios? de que modo a co­munidade participa?

VÁLTER: Desde que a APC foi fun­dada, tem sido esse o seu propósito. Não apenas ciência com consciência, mas também serviço à comunidade. In­felizmente, até o momento, os nossos esforços não têm logrado o êxito espe­rado, visto que não dispomos de meios, na mídia, para chegar à sociedade como um todo. A imprensa local é insensível às atividades científicas e oferece ina­balável resistência a inserção de maté­ria desta natureza em seus noticiários.

Isto, porém, não nos intimida, nem nos desanima. Pelo contrário, tempera o aço de nossa disposição e fortalece os cava­leiros da instituição para a continuidade do embate. Ao menos, nesta luta, pode­mos preservar a altivez do nosso espíri­to contra a epidemia de vulgaridade que assola todas as regiões do nosso país.

5 - O INFO: A Academia Per­nambucana de Ciências, desde sua fundação até hoje, tem sido um órgão profícuo, que correspon­deu e continua correspon­dendo às suas expectivas, seu fundador e primeiro presidente?

VÁLTER: Acima de tudo sou um obs­tinado, um idealista crônico, um sonha­dor irrecuperável. Creio na APC, como creio em todas as outras instituição que idealizei e fundei em companhia de ou­tros companheiros de idêntica teimo­sia. A APC é mais do que uma simples instituição: é um desafio. É também um exercício saudável de cidadania no seu sentido mais amplo. Por isso, não serão as procelas que abaterão o ânimo, a coragem, a competência e a determi­nação dos argonautas modernos que dirigem a nossa heróica embarcação.

Por isso, podemos dizer como o poeta: "os fortes combates que os fracos aba­te, aos fortes e aos bravos só pode exal­tar".

6 - O INFO: A Academia Pernambucana de Ciências, na sua opinião, resistirá ao tempo?

VÁLTER: O tempo é o homem. O tem­po é o que o homem o faz. O ideal é o antídoto contra o tempo. Enquanto acre­ditamos no que fazemos, o fazer não envelhece. A APC resistirá sempre ao tempo enquanto os homens que a com­põem acreditarem no seu objetivo. Aí estão, como fiadoras da minha afirma­tiva, as instituições científicas e literári­as seculares. Elas não envelheceram. E, por certo, continuarão jovens e ro­bustas enquanto o espírito que as infor­ma se perpetuar na sucessão contínua dos homens que a sustentam. Para que o sonho continue, é preciso acreditar no idealismo dos nossos sucessores.