FANTASMAS

 

Reclamo, Nº 3 – Janeiro de 1986

 

Caso do Paris era paranormal

 

Chegou-se a pensar em maus espíritos. Foram várias sessões de quebra misteriosa de vidros no edifício Paris, em Santo Amaro. Chamaram o padre da igrejinha da Piedade. Quem desvendou o mistério foi um parapsicólogo.

 

 

Eram 15 horas do dia de Na­tal (25.12.85), quando os mo­radores do edifício Paris, na avenida Cruz Cabugá, em Santo Amaro (próximo ao centro do Recife), notaram que algo estranho se passava no local. E que vidros de remédio e garrafas apareciam e estouravam por todos os lados do prédio, sobretudo, no apartamento, 301, onde a quebra a quebra desses objetos era extrema.

Espantada com o que acontecia, a dona do apartamento 301, conhecida apenas por “dona Toinha”, 73 anos, procurou os vizinhos do terceiro andar e perguntou o que eles poderiam fazer. A partir daí chamaram a polícia para olhar se algum desordeiro jogava objetos no prédio. Depois de  remexer todo o local e não achar explicação para o caso, a polícia que viu muitos vidros se quebrarem à sua frente. “lavou as mãos” e foi embora.

Ao aumentar a intensidade do quebra-quebra, a família de dona Toinha, que, segundo os vizinhos, é católica e mui­to praticante, chamou o padre Guedes, da igreja da Pie­dade, no mesmo bairro. O pa­dre Guedes rezou e jogou água benta em vários locais “para espantar os maus espíritos”. A essa altura, grande parte dos moradores do edifício já havia visitado o apartamento e a área externa do prédio e constatado que se tratava de algum mistério.

Já perto da meia-noite, vendo que o problema não es­tava solucionado, os seis mo­radores do 301 deixaram o apartamento e foram dormir em  outro, no sexto andar, onde mora  a nutricionista Lúcia  irmã de dona Toinha. Foi quando, segundo os moradores do 302 e do 303, o barulho parou e todos puderam dormir um pouco. Foi uma noite meio chata, porque não sabíamos o que poderia ocor­rer até as seis horas. Quem sa­be um vidro não poderia se quebrar no nosso corpo e cortar” — contou Maria Cris­tina, do 302.

Walter da Rosa Borges tranquilizou a família afetada utilizando a parapsicologia

Quando os moradores acor­daram, na quinta-feira, tudo continuava calmo, até que a família de dona Toinha vol­tou ao 301 e a quebra de vi­dros recomeçou. Até aí a im­prensa não estava informada do caso, mas o radialista Samir Abou Hana, que mora no edifício Paris e tem um pro­grama na Rádio Globo pela manhã, divulgou a notícia e curiosos e repórteres dos mais diversos meios de comunica­ção foram para o local.

Os repórteres da Rádio Globo e do jornal O Globo foram dos primeiros a chegar e conseguiram se "refugiar" nos corredores do edifício pa­ra registrar o fenômeno. Ven­do que o prédio estava sendo totalmente ocupado por re­pórteres, a família de dona Toinha pediu aos porteiros e ao síndico que não permi­tissem mais a entrada de jor­nalistas e fizessem os que es­tavam nos corredores aban­donar a área, pois não queria nenhuma divulgação sobre a que estava acontecendo.

O pacato edifício Paris viu, no apartamento 301, fenômenos que lembram Poltergeist.

O padre foi chamado no novamente ao 301 e, trancado com os moradores do apar­tamento, que não recebiam mais ninguém, rezou outra vez, mas o quebra-quebra continuou. Ao deixar o local, o padre Guedes não quis dar entrevista e disse que não tinha visto nada, mesmo al­guns vidros aparecendo mis­teriosamente aos seus pés e se quebrando.

Vendo que o problema continuava, a presidente do Sindicato dos Médicos de Per­nambuco, Léa Correia, que é amiga dos moradores do 301, levou o parapsicólogo Walter da Rosa Borges para conver­sar com a família e conven­cê-la de que o fenômeno não tinha nenhuma relação com a morte da filha adotiva de do­na Toinha, ocorrida há dois meses. A menina, de três anos, foi atropelada na praia de Maria Farinha, em Paulis­ta, deixando sua família bas­tante traumatizada.

Enquanto o parapsicólogo conversava com os morado­res, um deles — Manoel Bor­ges — deixou o apartamento e desceu pela escada, sendo acompanhado por dois repór­teres. Manoel Borges, que ves­tia calça azul e camisa branca, não quis pronunciar uma só palavra, mas estava chorando e acenou para quatro pessoas que estavam na portaria do edifício.

Por volta das 15 horas espírita Maria Nazaré Rapo, que pertence ao Núcleo Espírita Centelha de Jesus, chega ao edifício para rezar e oferecer ajuda à família do 301 mas a sua colaboração não foi aceita. De acordo com ela problema que estava atingindo os moradores só seria solvido através do espiritismo o que contrariou a opinião Léa Correia, que achou se tratar de um problema causado por fatores parapsicológicos. Mesmo assim, a espírita disse ainda na portaria, que se for necessária a sua ajuda, poderiam procurá-la.

Depois de conversar por mais de quatro horas com família de dona Toinha. Walter da Rosa Borges deixou apartamento. O quebra-quebra parou após as 18 horas tudo voltou ao normal.

Segundo o parapsicólogo, a quebra de objetos é um fenômeno paranormal, causado pela liberação de uma energia do próprio organismo de um dos moradores do apartamento. Ele disse que o fenômeno se apresenta em várias modalidades, podendo também ser maléfico ou benéfico. No caso do apartamento, o fenômeno foi classificado como benéfico, por não ter causado maiores danos materiais.

“Esse fenômeno é classificado de psicocinesia espontânea recorrente e ocorre em pessoas no período da puberdade; apesar de ser normal não é muito comum. Na fase da puberdade, os jovens passam por uma profunda transformação hormonal e um desequilíbrio orgânico, mas geralmente pouco duradouro" explicou Walter da Rosa Borges.

Para ele, quando se localiza o epicentro (pessoa que está causando o problema) deve-se evitar fortes emoções. No caso do apartamento 301 do edifício Paris, o epicentro era uma menina de 12 anos, cujo nome ele não quis revela mas garantiu que o mistério acabou e a família poderá ficar sossegada.