GRUPO PESQUISA SONS DE OUTRO MUNDO

 

Diário de Pernambuco, 12 de julho de 1992

 

CIÊNCIA & TECNOLOGIA

 

Parapsicólogos do Recife estão trabalhando com transcodificação: os ruídos dos universos paralelos

 

Captar vozes ou simples ruídos de outros mundos é a pesquisa que vem sendo realizada por uma equi­pe do Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas — IPPP, sob a orientação do parapsicólogo Walter Rosa Borges, considerado um dos mais sérios e respeitados do país em sua especialidade. Esse tra­balho despertou algum interesse dos investigadores pernambucanos há seis anos, mas só agora é reto­mado de forma sistemática.

Tecnicamente chamada de ‘transcodificação”, a escuta de si­nais de outros níveis de existência é um trabalho paciente e metódico, conforme explica o professor Rosa Borges. No Brasil, os trabalhos mais. conhecidos são de Hilda Hisrt, que chegou a apresentar gra­vações de supostas vozes de pesso­as já mortas em alguns programas de televisão.

“Nosso projeto inclui a cons­trução de uma câmara de vácuo pa­ra colocação de gravadores inteira­mente isolados de ruídos. Desse modo, qualquer som eventualmente captado não poderá ser confundido com sons comuns”, diz o pesquisa­dor.

A transcodificação, apesar de difícil, é uma área recente e das mais fascinantes da parapsicologia atual. Defendida algum tempo por um grupo de parapsicólogos, ela foi buscar na física quântica argu­mentos técnicos para viabilizá-la. Dentro da linha defendida por Walter Rosa Borges, o trabalho em rea­lização no IPPP não está voltado para contatos com espíritos de pes­soas já falecidas ou mensagens de civilizações extraterrestres. A in­tenção é captar sons produzidos em outro nível de existência ou, talvez, num patamar paralelo da matéria formal algo como os universos pa­ralelos já admitidos pela ciência atual como existindo simultaneamente ao nosso numa quantidade ainda não estabelecida — alguns fí­sicos falam de 20, outros de 110, alguns de um número infinito.

‘Temos de caminhar com mu­ita paciência e, acima de tudo, critério científico”, pondera o presidente do IPPP que. pelo seu trabalho desenvolvido em mais de 20 anos, acaba de ser eleito presidente nacional da entidade de parapsico­logia que considerou Pernambuco, no momento, o centro de pesquisas mais importante do Brasil nessa área. "Lidamos com muitas difi­culdades, pois não dispomos de instrumental sofisticado e sofremos uma carência crônica de recursos. Custeamos nossas pesquisas com sacrifício pessoal, com toda a equi­pe empregando muito do seu tempo por puro amor ao conhecimento."

Conforme a norma rígida se­guida até hoje por Rosa Borges, ele não afirma se há, ou não. universos paralelos ou se é possível captar no nível de existência humana vozes de pessoas já mortas num entrecruzamento entre matéria e não maté­ria. Apenas investiga, armado com um ceticismo implacável e prepara­do para desmascarar qualquer misti­ficação ou identificar possíveis er­ros de interpretação. Tanto é assim que diz ter conseguido captar, já alguns ruídos estranhos, "algo co­mo um arrastar, um arranhar de al­guma coisa", mas não se anima a emitir qualquer opinião otimista.

"Há muito trabalho pela fren­te. Esse campo de pesquisa, real­mente fascinante, ainda é recente e precisamos reunir bastantes infor­mações para chegarmos a alguma conclusão", observa ele.

A transcodificação é uma das novas linha de pesquisa do IBPP. Seu presidente é de opinião que as formas tradicionais de procurar o paranormal estão superadas e já não oferecem muitas novidades, pois estabeleceram apenas que há, de fato,  poderes e aptidões adormecidos nos seres humanos e que po­dem ser dominados quando desmistificados. Outro trabalho em andamento é a captação dos processos paranormais em sessões espontâneas e não programadas. onde os sujeitos da pesquisa não serão obrigados a se submeter a qualquer norma ou metodologia e nem mesmo ficarão sob obrigação de exibir, seus dons.

"Nosso objetivo, com isso, é identificar os processos naturais da paranormalidade em situações nor­mais, tirando da pesquisa aquele| caráter de exibição, às vezes capazes de provocar inibição ou de falsear todo potencial do dom porventura existente", define Rosa Borges.

CREDIBILIDADE

ABSURDO É NORMAL PARA CIÊNCIA

Rosa Borges: seriedade para desmistificar a paranormalidade no Brasil

 

Manoel Barbosa

Falhas no “tecido da realida­de, fissuras momentâneas que nos permitem um breve vislumbre da ordem imensa e unitá­ria subjacente a tudo na natureza”, é como o físico F. David Peat ex­plica alguns fenômenos inexplicáveis de contato entre o que Michael Talbot (ver o livro Universo Holográfico. Editora Best Seller, preço Cr$ 53.000,00) chama de a sinto­nia humana e “outras frequên­cias”. Tecnicamente, para os físi­cos quânticos, não é mistério algum entrar em contato com outra reali­dade. Priban, um neurofisiólogo, e Bohm, um físico quântico altamen­te politizado, acham que o cérebro e o universo funcionam como holo­gramas onde cada parte contém o todo. Logo, irrealidade contém rea­lidade, como no claro está o escuro potencial, a dor está no prazer e o negativo é o positivo invertido.

Nada espantoso, pois, com as tentativas de Walter Rosa Borges e seu grupo de captarem vozes e sons de outros mundos. Grof, em suas pesquisas com LSD, vê a realidade humana como uma espécie de aventura sensorial em meio a uma enxurrada de eventos — o univer­so. A realidade — ou as realidades de cada um, tidas também como ilusões ou delírios holográficos na­da diferentes das tão em moda rea­lidades virtuais — é um vórtice. Ou uma cadeia de redemoinhos. Grof, que é psicólogo transpessoal, e sua mulher Cristina, desenvolveram uma técnica baseada no virtualismo das realidades bizarras discernidas em pacientes sob efeitos do LSD a que chamaram “terapia holotrópica”. Trata-se, em resumo, de um treinamento para habilitar as pesso­as a transitar sem maiores transtor­nos pelas suas múltiplas realidades, permitindo-lhes idas e voltas pacífi­cas e toleráveis — e isso seria, na verdade, pacificar o terror esquizo­frênico e harmonizar, como queria Laing, o suposto louco com sua loucura.

Espantosas, sim, são as pesqui­sas do professor de Ciências Ae­roespaciais da Universidade de Princeton, Robert G. Jahn, citado por Talbot em seu trabalho. Antigo consultor da NASA e do Departa­mento de Defesa norte-americano, autor de importantes trabalhos na propulsão do espaço profundo, esse cientista, em colaboração com Brenda Dunne, enveredou pela pes­quisa paranormal depois de consta­tar uma espécie de lei na anormali­dade. Ele chegou a alguns concei­tos parecidos com os de Bohm, Priban e outros físicos quânticos quanto à natureza da realidade e da matéria. Por exemplo: segundo o entendimento de Jahn, a consciên­cia humana seria um padrão, um fluxo — como um laser — com a propriedade de produzir um holo­grama — a realidade ou as realida­des — quando em cruzamento com outros padrões de frequência, o que ocorre a todo momento. Estaría­mos, dessa forma, a produzir cen­telhas de realidade em meio ao caos de confrontos de padrões.

Esse pensamento caminha para um conceito maior: nada existe iso­ladamente, todas as ideias e teorias seriam apenas meras metáforas, as partes são apenas núcleos de infor­mação bits do Grande Todo. No lu­gar de elétrons, prótons, nêutrons, quarks e toda infinidade de partícu­las e subpartículas, sistemas. Tudo se cruzando num Agora Infinito. Então, seguindo essa linha de ra­ciocínio da moderna ciência, conclui-se que o universo é um Todo composto por informação maciça, inter-relacionada, sistêmica, interli­gando-se em frequências variadas, onde Morte/ Vida, Ser/ Não Ser. Existência/ Não Existência e Fim/ Começo são alguns dos vórtices das frequências infinitas.

Quando Walter Rosa Borges e seus companheiros tentam captar sons não produzidos em nosso uni­verso material estão apenas tentan­do sintonizar uma dessas frequên­cias, no caso usando o espectro ele­tromagnético. Há quem considere o método rudimentar e veja no cére­bro humano — desde que devida­mente capacitado, silenciado, livre das inquietações e apegos — um instrumento muito mais eficiente para captar essas frequências. Grof suspeita que está adormecida na consciência humana toda história do universo — e não é por mera coincidência que as filosofias orien­tais buscam exatamente o “desper­tar”, pois é esse o caminho para a descoberta da verdade.