JÁ NÃO SE FAZ ASSOMBRAÇÕES COMO ANTIGAMENTE

 

JORNAL BANDEPE, Maio, 1988 – Nº 83

 

Texto de Gilson Oliveira

 

 

 

Quem tem medo de lobisomem ou papafigo?

Pelo menos nas cidades grandes, é bem provável que ninguém. Nem as crianças, cujos sustos e arrepios estão sintonizados, com exclusividade, nos monstros televisivos. Na verdade, pouco apavorantes, pois todo pirralho que se preza sabe a senha dos superpoderes: “Eu tenho a força!" Muitos meninos sequer ouviram falar naqueles seres de outro mundo - e tempo -, que se aproveitavam das sombras para sugar sangue no pescoço de moça bonita ou comer o fígado de criancinha rosada. Os adultos, por sua vez, estão mais ligados nas assombrações do dia-a-dia, como a inflação, os assaltos e o fantasma de uma guerra nuclear. O próprio crescimento urbano se encarregou de espantar para lugares que talvez lhes parecessem mais sossegados (o mundo mal-assombrado de. onde saíram) os entes fantásticos que durante séculos fizeram do Recife uma das cidades mais ricas em histórias sobrenaturais em todo o mundo. Afinal, qual a mula-sem-cabeça que teria a ousadia de enfrentar o trânsito da avenida Conde da Boa Vista? Eram seres “sem-cabeça”, mas não tanto assim...

 

 

Embora não viva assom­brado por lobisomens, papafigos e outras figuras de­moníacas, o homem de hoje não deixou de sentir-se encantado por histórias relacionadas com esses seres. E não apenas com eles, se interessando cada vez mais - como que tomado por crescente e dialética ten­dência mística - por tudo que cheire a sobrenatural, como cartomancia, espiritismo e as­trologia. Até um dos símbolos do pragmatismo norte-americano, Ronald Reagan, não toma qualquer decisão importante sem antes fazer uma fezinha junto aos astrólogos, como de­monstrou o noticiário recente. Os europeus não ficam atrás, e Paris foi considerada, em estu­do realizado anos atrás, uma cidade onde o interesse pelo sobrenatural é uma coisa sobrenormal. A explicação dos sociólogos é o enjoo que as pessoas estão sentindo pelo racionalismo e a lógica que co­mandam as sociedades moder­nas.

Não faz muito tempo, o diabo esteve na moda, retirado das profundas do esquecimento pelo filme O Exorcista (há pou­cos dias reapresentado no Re­cife), baseado no romance ho­mônimo de William Peter Blatty. Para assisti-lo, as pessoas en­frentaram filas infernais, de tão longas, ou se submeteram à exploração dos cambistas, que, seja quem for o artista principal, sempre cobram um preço dos diabos. Mas valia a pena o sa­crifício: na saída do cinema, rostos de assustada alegria, as pessoas pareciam dizer umas às outras: “Quer apostar que minhas pernas tremeram mais que as suas?"

Por falar em perna, a car­reira do Exorcista no Recife não foi tão soberana como em ou­tros lugares. O seu reino foi di­vidido com um original e curioso personagem, criada pela imagi­nação e senso de humor per­nambucanos: a Perna Cabelu­da. Como o próprio nome indica', a sobrenatural aparição era constituída, simplesmente, por um membro inferior, cheio de cabelos. Talvez a parte do cor­po perdida pelo Saci Pererê em remotas eras, a perna andou, em meados da década de 70, pelos jornais, rádios, televisões, literatura de cordel, bate-papos e medo de muita gente.

“POLTERGEIST"

Há pouco mais de dois anos, um fato assombroso - desta vez nem um pouco fictício - mexeu com os nervos do Re­cife. Conhecido como o “Caso do edifício Paris”, por ocorrer num prédio homônimo da Avenida Cruz Cabugá, quase no centro da cidade, o episódio chamou a atenção não apenas da população, mas da polícia, padres, pastores protestantes, espíritas, parapsicólogos e pais-de-santo. A solução do proble­ma - um invisível demônio que jogava pro ar e nas paredes tu­do que estivessem dentro do apartamento - foi atribuída a um representante da Parapsicolo­gia, Valter da Rosa Borges, presidente do Instituto Pernam­bucano de Pesquisas Psicobiofísicas (IPPP), das mais res­peitadas entidades brasileiras do gênero.

Assinala Rosa Borges, calejado e bem-sucedido caça­dor de fantasmas recifenses, que a assombração do edifício Paris era do tipo que o cinema erroneamente consagrou como Poltergeist, cuja tradução é “fantasma batedor”. O equívoco do termo, segundo o parapsicólogo, reside no fato de que as forças desencadeadas em tais situações nada têm a ver com alma do outro mundo, e sim deste que, em maior ou menor grau, todos conhecem.

O agente do terror no “parisiense” prédio da Cruz Cabu­gá, era, de acordo com o presi­dente do IPPP, uma adoles­cente de 12 anos, que estava atravessando a fronteira bioló­gica do estado de menina para o de moça. Como a mudança não se processava normal­mente - a menstruação estava atrasando e isto provocava for­tes tensões emocionais -, a adolescente extravasava as energias acumuladas na forma que os parapsicólogos denomi­nam Psicocinesia Espontânea Recorrente.

Provocadora do fenôme­no de projeção violenta de ob­jetos ou complicações outras, a Psicocinesia (ação extracorpórea conduzida pela mente) Espontânea (por se dar inde­pendentemente da vontade do agente) Recorrente (se repete) pode ser curada, nos casos simples, através de exercícios físicos. Foi a receita passada para a mocinha do Caso Paris. Outros adolescentes, protago­nistas de episódios que deram bem mais dores de cabeça (e também noutras partes do cor­po), andaram praticando mais exercícios que atletas em pre­paração para as Olimpíadas de Seul. É o caso de crianças muito reprimidas pelos pais. Al­guns chegam a tocar fogo na casa, sendo os genitores os principais alvos de suas in­conscientes incendiárias ações.

-           É claro - salienta Rosa Borges - que não bastam per­turbações ou atitudes repressi­vas dos pais para que ocorra o fenômeno. Se assim fosse, a todo instante estaria aconte­cendo casos de psicocinesia. É necessária a soma de vários fatores ainda não totalmente identificados pela Ciência.

Cena do filme O Exorcista, que reabriu a onda de filmes, livros e outras publicações de terror. O tema está sendo explorado com episódios novos e republicação de livros antigos. Recife, Olinda e numerosas cidades nordestinas são ricas de histórias fantásticas

A Parapsicologia explica

Analisados à luz da Pa­rapsicologia, muitos fenômenos tidos como sobrenaturais adqui­rem feições naturais, dese­nhando-se um rosto humano - embora de características pou­co comuns - na moldura do fantástico. Como no caso em que pessoas, na hora da morte, aparecem a outras localizadas em pontos geograficamente distantes. Na concepção de Rosa Borges, o que acontece é uma “alucinação telepática”. Isto é, um relacionamento psí­quico tão intenso (principal­mente entre pessoas que se gostam muito) que chega a ge­rar imagens e dar sensações fí­sicas.

Da mesma forma, lugares considerados mal-assombrados são, sob o enfoque dos para­psicólogos, apenas depositários de determinados tipos de ener­gia mental. Palco, na maioria das vezes, de crimes, neles fi­cam gravadas as energias des­pendidas pelas vítimas nos momentos de agonia. Para que essas forças sejam ativadas, evocando as imagens das ce­nas que as geraram - e provo­cando, assim, assombrações - basta que pessoas sensíveis ao fenômeno da gravação energé­tica no espaço, geralmente portadores de faculdades para- normais, tenham contato com o ambiente.

Fundamentando suas teo­rias em testes científicos, como os realizados na área da Psicofotografia - em que a mente humana tem se mostrado capaz de gravar imagens em películas fotográficas -, Rosa Borges sa­lienta, no entanto, que suas ex­plicações estão sujeitas a revi­sões, “pois toda hipótese cientí­fica é necessariamente provisó­ria”.

RECIFE VELHO

Valter Rosa Borges

Tratando as aparições sem preocupação científica, e sim da forma como eram vistas antigamente pelas pessoas, o sociólogo Gilberto Freyre es­creveu Assombrações do Recife Velho, onde desfila uma seleção de maus espíritos e episódios que, muitos anos atrás, abalaram o sistema ner­voso da capital pernambucana, dando a entender que no Impé­rio, muito mais que o imperador, imperaram em terras recifenses seres pra lá de satânicos.

Lançado em 1951 e atualmente na terceira edição, o livro fez muitos intelectuais olharem para Gilberto Freyre com cara de bicho-papão ou outro tipo de assombração, insatisfeitos com o passeio do mestre de Apipucos pelas ruas simples, sombrias e tortuosas da tradição popular voltada para sobrenatural. Antevendo os ur­ros de lobisomem letrado dos eruditos ortodoxos, Freyre co­locou na introdução da obra ob­servações que não apenas a justificam intelectualmente, mas explicam seu espírito: “Os mis­térios que se prendem à história do Recife são muitos: sem eles o passado recifense tomaria o frio aspecto de uma história natural. E pobre da cidade ou do homem cuja história seja só história natural”.

Assombrado por seres de toda natureza - árvores, bi­chos, luzes estranhas, sobra­dos, carros e até ruas inteiras - o livro apresenta figuras como o Boca-de-Ouro, misto de diabo e gente, que, apesar de ter pro­vocado carreiras também no Sul do país, é recifense de “nascimento”. Sua primeira apa­rição se deu no início deste sé­culo, perante um boêmio que, na verdade, estava atrás de mulher. À procura de alguém do outro mundo, mas no bom sen­tido. Abordado, de repente, por um estranho de chapéu panamá encobrindo parte do rosto, o ra­paz não se fez de rogado em atender ao pedido de fogo para acender o cigarro. Só que, ain­da mais de repente, a estranha figura encheu o ar da madruga­da com horripilante gargalhada e mostrou um rosto podre de defunto, meio comido pelos vermes. Da boca cheia de dentes de ouro, saía insuportá­vel cheiro de carniça. “Correu o infeliz aprendiz de boêmio com toda força de suas pernas azeitadas pelo suor do medo”, mas depois de longa persegui­ção com gargalhadas de demô­nio zombeteiro, “caiu zonzo, desmaiado na calçada”.

Foi socorrido, ao amanhecer, pelo preto do leite, “o primeiro a ouvir a história: e, falador como ninguém, o primeiro a espalhá-la”.

Mas a maioria das histó­rias de Assombrações do Re­cife Velho se passou em mea­dos do século XIX. Só de lobi­somem existem duas. Uma contada a Gilberto Freyre pela própria vítima do bicho, uma ne­gra velha chamada Josefina Minha-Fé, que, pela beleza, fora na mocidade conhecida como “Josefina Meu Amor” e até “Meus Pecados”. O “Minha-Fé” surgiu depois que ela escapou do lobisomem do Poço da Pa­nela, “um não-sei-quê alvacento ou amarelento, levantando areia e espadanando terra; um não- sei-quê horrível; alguma coisa de que não se pôde ver a forma; nem se tinha olhos de gente ou de bicho. Só viu que era uma mancha amarelenta; que fedia; que começava a se agarrar como um grude nojento ao seu corpo. Mas um grude com den­tes duros e pontudos de lobo. Um lobo com a gula de comer viva e nua a meninota inteira depois de estraçalhar-lhe o vestido”.

O segundo lobisomem, morador do bairro de Beberibe, era bebedor de sangue. Segun­do o livro, o bicho (que na inti­midade era um velhote extre­mamente branco, tão pálido que o apelidaram “barata descasca­da”) se curou bebendo leite de uma jovem mulata. Não no copo ou na garrafa, mas diretamente na fonte: os seios. Um caso as­sombroso até para o Recife no­vo...

PARAPSICOLOGIA

Quando há 32 anos Valter da  Rosa  Borges presenciou um suposto fenômeno paranormal, denominado psicocinesia e que identifica o movimento de objetos por força de energia mental, estava determinado o surgimento de um dos mais conceituados  parapsicólogos do Brasil

Mesmo tendo, posteriormente, obtido a gradua­ção como advogado e, atualmente, exercendo as fun­ções de Promotor de Justiça e professor de Direito Civil na Universidade Católica de Pernambuco, Val­ter da Rosa Borges nunca abandonou o estudo da parapsicologia e luta para que esta ciência seja re­conhecida em Pernambuco e seja elevada a nível acadêmico. Para isso, ele desenvolve um amplo traba­lho de conscientização e informação sobre o assunto, que inclui debates, palestras, seminários e demais atividades promovidas pelo Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas, sediado à rua da Con­córdia. 372. salas 46/47, do qual é o atual presidente.