Jornal de Brasília

 

Domingo, 10 de julho de 2011

ANDRESSA ANHOLETE

 

Previsões são improváveis

 

Borra de café e lógica

 

Nascida na antiga Iugoslávia, a vidente Lidija Milovic, aprendeu a técnica da cafeomancia com a mãe. Hoje, chega a atender 12 clientes por dia, no Café da Linda, na 409 Norte. O preço da consulta é R$ 30. Linda prepara um café turco, que o cliente deve tomar lentamente. Em seguida, faz movimentos circulares com a xícara e a coloca de cabeça para baixo no pires. “São cores, movimentos, imagens, letras e energia que podem ser percebidos. Não é uma ciência, é pura lógica”, diz.

Dona Dayane cobra um pouco mais caro pela consulta. A mulher alta, traços fortes, atende em sua casa, na Asa Sul. É num quarto apertado, escuro e incensado, que o cliente é recebido. No centro da mesa, um tabuleiro com búzios já lançados. O diagnóstico vem rápido: “Vejo que está carregado. Tem dificuldades em tudo o que faz.” Dona Dayane pede que o cliente vá até o supermercado e compre quatro velas de sete dias, e dois pacotes de velas normais. “Serve como uma bênção, mas é preciso desfazer a macumba que foi feita”, continua. Para tanto, é necessário um trabalho com uma vela de um metro e meio de altura, que custa R$ 200. “Estou cobrando só o material.”

Para a artesã Gicelda Machado, 47 anos, que se consulta eventualmente, é preciso ter cuidado. “Existem pessoas que não têm capacidade de racionalizar sobre a previsão”. E acabam acreditando que não há livre arbítrio”, opina.

 

ENTENDIMENTO

 

A psicóloga Cathana Oliveira, 30 anos, estuda o assunto e considera o tarô e outros uma forma de compreender o momento vivido. “É importante que a pessoa trate o tarô como uma forma de entender o que está acontecendo em sua vida, o mundo e, a partir disso, busque as saídas. Não como previsão, ou algo determinante, pois não é”, diz.

A taróloga e atriz Alessandra Vieira, 30 anos, estuda o assunto. Ela também faz consultas na casa do cliente, e cobra R$ 80, por sessão. “A combinação das cartas, somada à energia que consigo absorver, me levam a identificar o momento do consulente”. Assim, é possível prever possibilidades futuras”, diz.

Segundo ela, é preciso ter muito cuidado com aquilo que é dito ao cliente. “A pessoa, geralmente, está muito vulnerável. Por isso, há uma responsabilidade grande em tudo aquilo que falamos”, conta. Ela também acredita que exista charlatanismo nesse meio. “Há quem manipule a fé alheia, como em outras profissões. Mas isso não retira a

validade do tarô, como oráculo.

Quem contamina o meio são os que fazem mau uso. Acho que Em entrevista ao Jornal de Brasília, padre Quevedo, fundador do Centro Latino Americano de Parapsicologia (Clap) e estudioso dos fenômenos paranormais, disse considerar improváveis as previsões para o futuro. “Os fenômenos parapsicológicos existem, mas está demonstrado que são casos espontâneos, incontroláveis e perigosos”. Ninguém domina fenômeno parapsicológico, nem o mais frequente, que é a adivinhação.”

“Quem faz isso ou é louco, ou é sem vergonha. Em grande parte dos casos, sabem que estão enganando, fazem truques, falam generalidades, usam da intuição e de sugestões para impressionar. São espertalhões, com culpa ou sem culpa”, continua padre Quevedo, que aponta um perigo resultante desse tipo de previsão. “A pessoa pode não lutar para vencer as previsões, modificá-las. Ou ainda quando a pessoa acredita que foi vítima de feitiços, e não tem forças para lutar”, completa.

O parapsicólogo Valter da Rosa Borges, do Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas (IPPP), reforça a avaliação de padre Quevedo. “Búzios, tarô, borra de café, constituem meros indutores que levam o ‘vidente’ a um estado alterado de consciência, no qual ele, dizendo-se assistido por seres espirituais, ou utilizando os seus recursos divinatórios, faz previsões sobre o futuro dos seus consulentes, quase sempre errôneas ou simplesmente óbvias. Não há nenhuma técnica para se adivinhar o futuro. É simples questão de sorte.”

 

ASTÚCIA

 

“Quem consulta adivinhos, geralmente acredita que eles são capazes de adivinhar o seu futuro. E fornece pistas sobre o que deseja, deixando-se levar pela astúcia e manipulação deles”, diz Rosa Borges, acrescentando que os temas das consultas são sempre os mesmos. “Mulheres que querem saber se os maridos as estão traindo, homens cujos negócios não estão indo bem e outros tipos de problemas que os adivinhos conhecem muito bem, já que são rotineiros, e sempre dão soluções que agradam seus clientes. Quem está de bem com a vida, pensa racionalmente, não consulta videntes.”

 

PSICÓLOGOS PRÁTICOS

 

De acordo com ele, há muita enganação nesse meio. “Em muitos casos, os adivinhos agem de boa fé, acreditando ter o poder de conhecer o futuro”. E, porque acham que estão certos, enganam involuntariamente a sua clientela. Pela experiência de lidar, anos a fio, com as pessoas crédulas, eles se tornam excelentes psicólogos práticos e sabem manejar, com habilidade, as emoções alheias.”

Sobre os feitiços anunciados por videntes, ele diz que “tudo isso não passa de fantasia. Quem acredita em feitiço, já está enfeitiçado. E sofre as consequências psicológicas e orgânicas de sua superstição.”