ROSA BORGES: MÍSTICOS PREJUDICAM MÉDIUM

 

Diário de Pernambuco, 17 de abril de 1983.

 

Entrevista concedida ao jornalista Jones Melo.

 

O parapsicólogo Valter da Rosa Borges, presi­dente do Instituto Per­nambucano de Pesquisas Psicobiofísicas e autor do livro "Introdução ao Paranormal", conceitua a mediunidade, do ponto de vista do Espiritismo e da Parapsicologia, e explica que os médiuns não devem ser coagidos, embora de­vam ser rígidas as medidas de controle para se evitar a mínima possibilidade de fraude".

 

Nesta entrevista ex­clusiva, Valter Rosa Bor­ges afirma "ser sempre recomendável que o médium fique sob a orientação e o controle de pesquisadores experimentados, a salvo de leigos e de místicos, que, pelo despreparo científico - e também por fanatismo religioso - poderão ocasionar-lhe sérios prejuí­zos físicos e psicológicos".

 

DP. - O Espiritismo e a Parapsicologia empregam a mesma palavra: médium. Para  ambos,   ela  tem  o mesmo significado?

 

RB. - Não. Para o Es­piritismo, o médium é um intermediário entre os vi­vos e os mortos. É uma espécie de ponte, de corredor entre dois universos fenomenicamente diferentes. O médium, assim, é a condi­ção indispensável para a manifestação paranormal, cuja causa é atribuída aos espíritos desencarnados.

A Parapsicologia, até prova em contrário, em cada caso concreto, explica o fenômeno paranormal pela ação do inconsciente do próprio médium. As­sim, o médium não é con­dição, mas causa desse fenômeno. Na verdade, sob o ponto de vista estrita­mente psicológico, o mé­dium é uma pessoa extre­mamente predisposta a es­tabelecer um relaciona­mento mais amiúde e os­tensivo entre os dois uni­versos ontológicos da cons­ciência e da inconsciência.

 

DP. - Qual a definição de médium?

RB. - Poderíamos de­finir o médium como uma pessoa que, habitualmente, em sua presença, se produzem fe­nômenos paranormais. A habitualidade, portanto, é a marca característica da atividade paranormal numa determinada pessoa.

 

DP. - Todas as pes­soas são médiuns?

 

RB. - A doutrina espírita diz que sim. Os fa­tos, no entanto, têm de­monstrado o contrário. Mesmo que se afirme que, potencialmente, a mediunidade seja um patrimônio comum da humanidade, estaríamos, ainda assim, no terreno da especulação filosófica e, não, no da ex­perimentação científica.

A experiência tem evi­denciado que, de fato, pou­cas são as pessoas efetivamente dotadas de faculda­des paranormais. No en­tanto, é incontável o nú­mero de pessoas que, ao menos uma vez na vida, passaram por uma experiência paranormal. Acon­tecimentos episódicos, to­davia, não indicam a exis­tência dessa faculdade em determinados indivíduos.

 

DP. - Como é possível se saber se uma pessoa é médium? Há algo que in­dique a existência da fa­culdade paranormal numa pessoa?

 

RB. - Não há qual­quer indício físico ou psico­lógico para determinar a paranormalidade de uma pessoa. Só a experimenta­ção poderá esclarecer a procedência da suspeita inicial decorrente de uma manifestação inusitada, em cada caso concreto.

 

DP - É possível desen­volver a mediunidade de uma pessoa?

 

RB. - Sob o ponto de vista estritamente parapsicológico deveremos substituir a palavra mediunidade pela expres­são paranormalidade. A mediunidade, conforme a doutrina espírita, é a apti­dão que uma pessoa possui de estabelecer contato com os espíritos desencarnados. Assim, para a Parapsicolo­gia, ao menos até o mo­mento, a mediunidade é uma hipótese. Ao con­trário, a paranormalidade é um fato comprovado ex­perimentalmente, de­monstrando a capacidade de que certas pessoas são dotadas para produzir fe­nómenos insólitos, os quais, na quase totalidade dos casos, fogem inteira­mente do seu controle.

Assim, se se entender por desenvolvimento da fa­culdade paranormal o gradativo controle da manifestação fenomênica e não o processo compulsório do seu hipotético cresci­mento, a minha resposta é naturalmente afirmativa. Na verdade, como bem ob­servou J.B. Rhine, a facul­dade paranormal não é suscetível de aprendizado, sob o ponto de vista de um procedimento estereoti­pado. Diria mais: cada mé­dium, empiricamente, aprende uma maneira toda particular de produzir uma manifestação paranormal. Ele desenvolve uma téc­nica, descobre um "jeitinho" de liberar os seus po­deres latentes, anulando, momentaneamente, os condicionamentos e a cen­sura do seu consciente. Assim, com o passar do tempo, a sua faculdade vai, gradativamente, ad­quirindo autonomia de ação e reduzindo os fatores impeditivos de sua mani­festação.

Hoje, na União Sovié­tica, alguns médiuns, em certas circunstâncias, já conseguem, voluntaria­mente, realizar fenômenos Psi-Kapa. Por conse­guinte, em futuro próximo, o médium poderá tornar-se o senhor de sua faculdade paranormal, utilizando-a em seu benefício e até mesmo da própria huma­nidade.

 

DP. - O médium, en­tão, é uma pessoa espe­cial?

 

RB. - Ele é uma pes­soa tão especial como qual­quer outra dotada de uma aptidão especial. É essa es­pecialidade de aptidão que o distingue do comum dos indivíduos.

A paranormalidade, portanto, é também uma aptidão. Não é um dom, não é um carisma, não é um privilégio. É uma apti­dão. E se toda aptidão é um privilégio, os médiuns não são as únicas pessoas privilegiadas.

 

DP. - Muitos mé­diuns, ao menos no pas­sado, fraudaram. Essa cir­cunstância não deve, em tese, tornar suspeitos todos os médiuns?

 

RB. - Em princípio, qualquer fenômeno inusi­tado não deve ser, de logo, classificado ou admitido como paranormal. Cada caso concreto deve ser pes­quisado, minuciosamente, em todos os detalhes, a fim de se evitar, o quanto possível, a possibilidade de fraude.

Aliás, conforme acen­tuei no meu livro "Introdu­ção ao Paranormal", o êxito de toda e qualquer pesquisa, no campo da pa­ranormalidade, está na de­pendência da observância de certas e determinadas regras. Assim, não raro, o insucesso das experiências é devido mais à incompe­tência e à inabilidade de pesquisadores improvisa­dos ou mal preparados do que mesmo às deficiên­cias do próprio médium. Na verdade, uma das re­gras básicas da pesquisa é não se exigir do médium a produção de fenômenos incompatíveis com o tipo de sua paranormalidade. Por outro lado, é funda­mental estimular a auto­confiança do médium nos seus poderes, mantendo elevada a sua motivação pelas pesquisas, as quais deverão ser realizadas em ambiente tranquilo e con­fortável e num clima de bom relacionamento entre todos os participantes das experiências.

Importante, também, é evitar-se toda e qualquer forma de coação sobre o médium, o que não im­porta o relaxamento de rí­gidas medidas de controle para se evitar a mínima possibilidade de fraude. Por isso, é sempre reco­mendável que o médium fique sob a orientação e o controle de pesquisadores experimentados, a salvo de leigos e de místicos, os quais, por seu despreparo científico - e também por fanatismo religioso - pode­rão ocasionar-lhe sérios prejuízos físicos e psicoló­gicos.

É de suma importân­cia, ainda, esclarecer o mé­dium a respeito da natu­reza de sua faculdade pa­ranormal, evitando ou combatendo as naturais manifestações do seu narcisismo, decorrente da falsa ideia de que ele é um ser privilegiado. A partir do momento em que o médium é afetado pela doença do "estrelismo", torna-se refratário a qual­quer tipo de investigação científica dos seus poderes, com o receio, consciente ou inconsciente, de compro­meter o seu status mediúnico.