MÚLTIPLOS SABERES

 

Diário de Pernambuco, 12 de janeiro de 1992

 

Ciência & Tecnologia

 

Manoel Barbosa


Grupos e pessoas estão trabalhando no Recife na disseminação de um novo tipo de saber. É um movimento não institucionalizado. Nem sequer tem consciência de que é um movimento ou uma corrente de pensamento. Caracteriza-o uma abertura incondicional e desmedida, sem limites; não há proselitismos, doutrinações, personalismos. Todo esforço enquadra-se no que a pensadora norte-americana Evelyn Ferguson chama de “conspiração de Aquarius”; uma gigantesca corrente transcultural, transnacional, anarco/espiritualista e holística e onde cada pessoa (independente de idade, ideologia ou crença) contribui à sua maneira e de forma natural sem ter a menor consciência de estar participando de uma revolução conceitual.

Um dos núcleos onde esse novo tipo de saber informal, mas real, vai ser exposto de forma mais sistemática é o Seminário dos Múltiplos Saberes. É uma ideia do parapsicólogo Valter Rosa Borges, criador e presidente do Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas. Ele teve esse pensamento ao constatar uma brecha no ensino acadêmico que, entregue aos seus próprios problemas estruturais, não tem tido fôlego para abarcar a ampla variedade de novos conceitos derivados dos desdobramentos de pesquisas em várias áreas.

“É uma ideia que, agora, estamos consolidando” revela Valter. Seu propósito é promover palestras e cursos com especialistas e estudiosos de diversos campos. Está pretendendo, por exemplo, desencadear o processo em fevereiro, programando, entre outras, palestras com o professor Attilio Dall’Olio sobre o tema “Física e Sociedade” e o médico Fernando Antônio que vai abordar “Morte - Uma Nova Abordagem Médica”.

 Por “múltiplos saberes”, Rosa Borges entende o conhecimento não especializado, empírico e fundamentado nas novas realidades da sociedade. Isso o ensino formal não tem explorado em função de suas limitações e filosofia. Nos seminários, os palestrantes serão pessoas integradas ao saber acadêmico, porém com uma visão mais eclética - holística. E esses especialistas, que têm muitas vezes inibições na cátedra, amarrados aos enquadramentos curriculares, poderão soltar-se e dar um curso mais livre às suas ilações, embora sem derivar para especulações exóticas.

Participa ainda do projeto o parapsicólogo Ivo Caruso, também do Instituto. Assim como Valter Rosa Borges, ele tem se esforçado para depurar a pesquisa do paranormal de todo conteúdo mágico, mesmo sem deixar de estudar a magia como fenômeno psicossocial.

Entendo que esse movimento pode ser a partida para eventos de grande envergadura. Pernambuco tem compensado sua fragilidade econômica com uma atividade intelectual muito rica, a ponto de se impor, por esse aspecto, nacional e internacionalmente. Nas vésperas do Terceiro Milênio e no contexto de uma nova conjuntura, com a mudança de paradigmas em praticamente todas áreas - na ética/comportamental, inclusive -, estão rompendo-se as barreiras das disciplinas científicas e do conhecimento, impondo-se um saber mais abrangente e fortemente interdependente. E o Estado não deve ficar à margem dessa aventura da informação.

Pernambuco já pagou muito caro pelo acervo da cultura dos bacharéis. Os tempos são outros, qualitativamente diferentes. O conhecimento tende a ser o produto de maior valor, tomando o lugar do brasão acadêmico formal. Reunir as cabeças mais afinadas com os novos tempos e, a partir delas, gerar correntes de pensamento identificadas com o mundo de amanhã, certamente terá reflexos positivos na formação da massa crítica indispensável a uma sociedade moderna.
O Seminário dos Múltiplos Saberes tem uma credencial toda especial: é uma iniciativa particular, forjada pelos mais salutares propósitos e impulsionada pela dinâmica do ideal. Como respaldo, há o currículo dos que estão à frente do empreendimento."