Meditações do Entardecer

 

Textos selecionados

 

DESPERTAR (?)

Um dia, morreremos

(ou acordaremos?).

 

E se acordarmos,

o que seremos?

 

CIRURGIA

 

A nossa razão cirúrgica

divide o indivisível,

separa o inseparável,

busca o vivo repartido,

mas só encontra o cadáver.

 

 

O corpo nada mais é

do que pó organizado.

 

O homem é pó pensante.

Sai do pó e volta ao pó.

 

Aonde vai o pensamento

se a alma não for o pó?

 

MISTÉRIO

 

Por que Deus criou o tempo

em sua eternidade?

O que é essa mistura

de tempo e eternidade?

Como entender o eterno

se somos apenas tempo

consciente de si mesmo

e preso na eternidade?

 

 

VISÃO

 

A visão é maior que os olhos:

o real é mais do que o visto.

 

Os olhos nos prendem à vida,

que é nosso modo de ver.

 

Na morte, a visão são olhos

de ver em outro lugar.

 

SAUDADE

 

Qual o peso e o tamanho

da saudade que sentimos?

 

Que distância é a saudade

entre as pessoas ausentes?

 

Qual o tempo da saudade

para doer na perda

das afeições mais queridas?

 

Qual o peso da saudade

no coração solitário?

 

CONTÁGIO

 

O que somos contamina.

Não existe vacinação

contra o contágio dos outros.

 

Somos seres incuráveis

sem defesa imunológica

contra o ódio, contra o amor

e as diárias infecções

das mais várias emoções.

 

FLOR

 

Sentimos a flor conforme a vemos

não pelos átomos que a compõem.

 

Quem disseca a flor, não vê a flor.

 

É procurar o homem no cadáver.

 

UNIVERSO

 

A Terra vai em direção a Vega.

Mas, para onde Vega vai?

 

Tudo gira e nada cai

e, se cair, onde cai?

 

E, em girando, tudo anda,

para onde tudo vai?

 

Se o universo é infinito,

onde o chão e onde o teto,

onde as paredes do mundo?

 

ILUSÃO

 

Um dia, todos seremos

um dos bilhões de esquecidos

que tinham a ilusão

de continuarem lembrados.

 

GUERRA

 

As armas não garantem a paz.

 

O poder enlouquecido

também mata o poderoso.

 

A paz depois da guerra

é o silêncio dos mortos

e o espanto mudo dos vivos.

 

O GUERREIRO

 

O que será do guerreiro

se ninguém quiser lutar?!

 

CONSCIÊNCIA

 

A consciência é o instante

e também o lugar

de onde vimos e aonde vamos

até não haver instante,

nem consciência e lugar.

FOLHA

 

Liberdade de uma folha

girando solta no ar,

nas circunstâncias do vento,

o vento que é sem caminho

embora seja caminho

onde vaga o seu voar.

 

Se o vento é que nos dirige

por que, folha, nós queremos

dirigir nosso voar?!

 

ESPERA

 

Todo sonho é um fato

que ainda falta acontecer.

 

ESPÍRITO

 

O espírito é um sonho

que, um dia, se fez carne

e pensou que era carne,

até voltar a ser sonho.

  

DÚVIDA

 

A quem devo invocar se já não creio

em tudo o que foi dito e revelado.

 

A dúvida é forte como a fé

e se sustenta no seu próprio vácuo.

 

E nem creio sequer em minha dúvida,

porque tudo o que é crido é construído

dos nossos medos e fragilidades.

 

Deus não é a dor justificada,

o prêmio e o castigo além do túmulo,

mas tudo o que não pode ser descrito

e nem humanamente compreendido.

 

Ser humano que sou, não sei que humano

possa exceder à sua condição

e revelar mistérios que não passam

de criações da carne atormentada.

 

AFLIÇÃO

 

Se estamos onde pensamos,

o que fazemos no corpo

tão lerdo e tão pesado?!

 

Que gravidade nos prende,

se somos feitos de vácuo?!

 

Se, pensando, somos corpo

aéreo e ilimitado,

por que este corpo de carne

segurando as nossas asas?!

 

O PÓ E A CARNE

 

O pó sonha ser carne.

A carne teme voltar ao pó.

 

 

A crença é a ilusão

que nos sustenta no mundo

e sustenta o próprio mundo.

 

Tudo é um ato de fé.

 

E a fé que tudo sustenta

é também insustentável

alicerce assentado,

sobre o solo do vazio.                 

 

Onde está o chão do mundo?

 

NÓS

 

O mundo é feito por nós.

 Nós somos os nós do mundo

e em tudo estamos atados.

 

O eu sem nós não existe.

 

A morte é o eu desatado.

  

DOR REAL

 

Não me dói o que perdi,

pois tive o prazer de ter.

 

Dói-me tudo o que não tive

e o quanto não pude ser.

 

OS POSSÍVEIS

 

Há muitos mundos possíveis.

 

Há muitos de nós possíveis:

só esperam acontecer.

PIOR

 

Pior que o amor perdido

é o amor que não foi dado

e tudo o que não foi gasto

no tempo que era devido.

 

VERSÕES DO VAZIO

 

O que é o vento senão

o vazio em movimento?

 

O que é o espaço senão

o vazio parado?

IMORTAL

 

Falamos do que não sabemos,

porque a morte nos espanta

e dói a mortalidade.

 

O que é ser imortal?

SE

 

Se, um dia, nós soubermos

a verdade do que somos,

o que será do que somos?

REPRESSÃO 

 

A alma é feita de surpresa.

Sua virtude é o inédito.

 

A sociedade a tornou

previsível e monótona.

 

ENVELHECER

 

Envelhecer é cultivar adeuses

e empobrecer em cada despedida.

 

Os afetos morrendo com os mortos.

 

Lembrar é praticar necromancia.

 

O que fazer de tudo o que já foi,

mas fica latejando em nossa vida?

 

É o incurável câncer da saudade:

o que passou matando o ainda vivo.

 

FASES

 

Na infância, os olhos límpidos

vêem o mundo claramente

sem a catarata do tempo.

 

A fé no visto e no sonho.

 

A vida maior que a morte.

 

O corpo livre do peso

do vivido e não vivido,

do perdido e do não gasto.

 

Na velhice, os olhos turvos,

a opacidade do mundo,

a fé no que não se vê,

a morte maior que a vida,

recordações (e não sonhos),

algumas já desbotadas

ou outras reinventadas,

e as sensações prazerosas,

que o corpo já esqueceu.

 

RETORNO

 

A carne é sonho transitório.

Quando dormimos, voltamos

à nossa essência onírica.

Quando morrermos, seremos

o sonho definitivo

que, um dia, foi um homem

que pensava ser real.

 

OS MORTOS

 

Só os mortos não mudam.

Deserdados do futuro,

exilados do presente,

são imagens estéreis

que não mais se reproduzem.

Só os vivos são férteis,

gerando suas imagens

constantemente no mundo.

ETERNIDADE

 

Se o eterno é imóvel,

se o eterno não muda,

a eternidade entedia.

 

Somente Deus é que agüenta

essa insossa eternidade.

IRMÃOS SIAMESES

 

Onde eu termino e começa o mundo?

 

Onde eu começo e termina o mundo?

 

Quem poderá separar

esses irmãos siameses?

 

 

SOLIDÃO

 

O homem e a solidão,

inseparáveis xifópagos.

 

A solidão é o eco

do silêncio que se esconde

entre as dobras dos diálogos.

 

A solidão não tem rosto

e é vista em todas as faces.

 

É o abismo que separa

as pessoas entre si,

o impreenchível vazio

intercalado entre os corpos

mesmo nos atos de amor.

 

Só o amor anestesia

a incurável solidão.

 

INTROSPECÇÃO

 

Há mais mistérios na mente

do que em toda a extensão do universo.

 

 

ALMA E VAZIO

 

O vazio, alma da forma.;

 

O vazio é qualquer forma.

 

A alma é o vazio

que cria todas as formas.

 

ASAS

 

Não há maior liberdade

do que ter asas.

 

Voar

é conhecer todos os caminhos.

SAUDADE

 

Saudade do que fiz.

Saudade do que não fiz.

Não sei qual delas dói mais.

VIDA

 

Vivemos, mas não sabemos

o que é viver

e para que viver.

 

O que fazer do viver,

senão viver sem saber?

 

A vida é essa ânsia de respostas.

A morte cessa todas as perguntas,

porque ela é a última resposta

dada a quem agora já não é.

 

SOLIDÃO

 

A solidão procurada.

A solidão consentida.

A solidão imposta

e aberta como ferida.

A solidão com tantos.

A solidão sem ninguém .

A solidão, companhia

para o mal e para o bem.

A solidão que estimula.

A solidão que amofina.

A solidão construção.

A solidão só ruína.

 

LIBERDADE

 

Odeia-se aquele que é livre,

porque perturba o descanso

das pessoas rotineiras.

 

O louco é insuportável,

porque vive perdido

na liberdade total.

 

CARNE E SONHO

 

Misto de sonho e carne,

somos carne que sonha

ou sonho que se fez carne?

 

O sono é que nos divide

em dois seres paralelos.

 

Qual deles é o ser real?

 

COSMOGONIA

 

Cansado de eternidade,

Deus fez-se tempo e espaço,

e explodiu em átomos e galáxias

no infinito de si mesmo.

 

SEGURANÇA

 

Todos vigiam e são vigiados.

Eis o que é segurança.

 

E a liberdade?

INVENÇÃO

 

O homem inventou a igualdade.

Na natureza tudo é desigual.

 

A perfeição é invenção geométrica.

 

A ordem do mundo é o caos mutante.

 

A criação é sempre nova:

só acontece uma vez.

 

Se você aprender a ver

nunca mais dirá que o mundo

é o mesmo o tempo todo.

CONSCIÊNCIA

 

Consciência é aquilo

que não sabemos o que é

e, no entanto,

explica tudo mais.

 

 

 

CAOS E ORDEM

 

Inventamos a linha reta

e queremos que nossa vida

seja uma linha reta.

 

A Vida não é geometria,

mas uma farra de formas.

 

Há coisa mais monótona do que o corredor?

Ele é ótimo para as correntes de ar e os fantasmas.

 

A vida é um labirinto cheio de passos e de impasses.

 

A vida é o caos que o homem tenta

inutilmente disciplinar.

 

Só o caos é criativo.

 

A ordem produz rotinas

e é repressora do inédito.

 

Quando o caos se cansa, vira ordem.

 

MILAGRE

 

O milagre acontece

quando o homem,

cansado de rotinas,

percebe as mesmas coisas,

de modo diferente.

 

EGOÍSMO

 

Quando, enfim, reconhecemos

que somos também egoístas,

podemos compreender

o egoísmo dos outros.

 

A TESTEMUNHA DE DEUS

 

Se nenhum ser individual existisse,

quem testemunharia Deus?

Ele seria uma infinita solidão.

 

SOLIPSISMO

 

Os solipsistas se reuniram

para decidir

qual deles era real.

E chegaram à conclusão

de que não houve reunião,

porque ninguém estava lá.

APOIO

 

Quem se apóia no vazio,

não precisa mais de apoio.

 

EXPANSÃO

 

Queremos sempre crescer

pouco importa para onde.

Crescer para além de nós,

para além da Terra e do cosmos,

e até para além da morte.

SEM IMPORTÂNCIA

 

Um dia, pensávamos

que fôssemos importantes

e vivíamos como se fôssemos.

 

E essa importância ilusória

era o sentido da vida

de seres sem importância.

 

Como é importante saber

que não somos importantes

a não ser para nós mesmos!

 

A TESTEMUNHA

 

Tem o universo memória

de todos os seres mortos

desde o início da vida?

 

Quem guardará a memória

daqueles que já morreram

se o recordante é mortal?

 

Que testemunha imortal

lembrará todos os mortos?

  

ENVELHECIMENTO

 

Aquele que envelheceu,

não sonha mais impossíveis.

Conformado e conformista,

o mundo é o seu cansaço.

Ele é o que já foi

e o futuro será igual.

O passado que não existe

habita o presente morto.

Envelhecemos quando o que fomos

é maior do que o que somos.

 

OLHANDO O TEMPO

 

Se o tempo corre

para onde corre?

Se o tempo passa

onde ele passa?

Ou será que o tempo

é o espaço passando?

O FUTURO

 

O futuro é o próximo ato,

o próximo passo,

o próximo fato.

Ele existe enquanto não existe

e morre logo que se torna hoje.

 

SOLIDÕES

 

O tempo vazio.

O espaço vazio.

O coração vazio.

Um oco que não tem fim.

A solidão sem fronteiras.

Um silêncio surdo-mudo

é testemunha do nada.

 

ANATOMIA

 

Os olhos constroem o espaço.

A memória cria o tempo.

Que órgão ou função do corpo

segrega a eternidade?

VENENO

 

O tempo é o veneno

que ingerimos todos os dias

e contra o qual não há antídoto

e nem imunização.

Doenças nada mais são

que infecções do tempo.

A BENGALA

 

Porque ainda somos cegos

tateamos deuses falsos.

 

A bengala é falso guia.

 

A fé devolve a visão

e permite ver o mundo

além do mundo trilhado

pela bengala dos cegos.

 

CIDADES

 

A cidade são cidades sucessivas,

ainda que nelas permaneçam

os mesmos prédios, ruas e jardins.

 

Cidades de tempos diferentes

povoam a memória dos idosos,

que como pré-fantasmas ainda habitam

na cidade e entre pessoas desconhecidas.

 

Um vento de saudade varre as ruas

espalhando a poeira das lembranças.

 

Visões e sonhos defuntos se misturam

com o cotidiano da cidade.

 

Tempos se cruzam como transeuntes

esbarrando em fantasmas conhecidos

e em pessoas que fomos e morreram.

 

A LINHA

 

Estamos além dos átomos

e de todas as galáxias.

Somos a linha ilusória

que separa em dois o infinito

 

LEMBRETE

 

Esqueça de que serás sempre lembrado,

porque os que te lembram são mortais

e tudo se desfaz na Eternidade.

 

ENFADO

 

O tempo

é devaneio da eternidade,

quando cansa de si mesma.

 

O VENTO

 

O vento sopra impetuoso,

vergando a copa das árvores.

 

As folhas caem no chão:

folhas secas, folhas verdes.

 

Por que não somente as secas?

  

A DANÇA

 

O que fazemos no mundo?

O que o mundo nos faz?

O que nós fazemos juntos

(nós e o mundo), um mesmo nó

numa ciranda sem fim?

Como saber a ação

que iniciou o universo

e seu cósmico bailado?

Se o movimento é eterno,

quem pode parar os átomos

e imobilizar as galáxias?