O Ser, o Agora, o Sempre

 

Textos selecionados

 

SOLIDARIEDADE

 

O ungüento da mão afetuosa

seda melhor a dor e acalma o medo

do que todo arsenal da medicina.

 

O amor substitui todas as técnicas.

 

Estar ao lado é o melhor dos tônicos

e sedativo em todos os tormentos.

INCÓGNITO

 

Quem morre não é, está onde

não existe qualquer lugar.

 

Deixou de ser quando e como

e do seu ser não se sabe

além do que antes foi.

 

Quem morreu, saiu do tempo:

não foi, não é, nem será.  

PAUSA

 

O moribundo é o maior

de todos os seres vivos.

 

Iniciou-se na morte.

 

Pontífice de dois mundos,

todo seu ser é discurso,

de intraduzíveis segredos

de coisas que nunca soube.

 

Seus olhos agora enxergam

Como jamais enxergaram.

 

Mais que homem, é pausa

Entre o  ser e o não-ser.

Um deus nascendo da morte

Da crisálida humana.

 

E, de repente, o mistério

do não-ser invade o quarto

 

Só existe agora o corpo

Como estação solitária.

 

O QUE SABES?

 

Se sabes o que é a vida,

sabes o que é a morte

 

Se sabes o que é a morte,

sabes o que é a Vida.

 

Qual das duas tu sabes?!

 

INESPERADA

 

Um dia, ela virá e nos veremos,

como se há muito já nos conhecêssemos.

Íntima de mim a cada instante,

embora oculta em todas minhas montes,

nos meus pequenos egos celulares.

Eu que a temo, pois não a conheço

(seu rosto é vario nos amigos mortos)

talvez não me amedronte à sua vinda

e até me agrade deste encontro único,

onde o tempo, de súbito, se acaba.

 

PLENAMENTE

 

A morte sábia deve ser total

para que a vida nova seja plena:

a borboleta que jamais conserva

o mínimo resquício da lagarta.

 

 

TEMPOS

 

Há um tempo de fazer,

um tempo de desfazer,

um tempo de procurar,

um tempo de desistir.

 

Há um tempo de crescer,

outro de diminuir,

um tempo de se apegar,

outro, de restituir.

 

Há um tempo de ser mais

e outro de não mais ser.

AQUI

 

Na ausência, o amor aumenta

a presença dos ausentes:

o longe se faz aqui.

 

Mas o aqui dos desamados

é mais longe que as galáxias.

 

OS QUE NÃO FUI

 

Disponho-me a recolher

as opções que não fui,

fantasmas que me perseguem

nos corredores do tempo:

os mortos que não nasceram,

as sombras dos que não fui.

DORMENTES

 

Para muitos, a vigília

é uma forma de dormir.

 

Quem acordar, verá.

 

INCOMPLETUDE

 

O homem não acontece

completamente no mundo:

só pouco do que ele quis

e  muito do que não quis.

 

O que de nós não se fez

lateja como um tumor.

TRAJETÓRIA

 

Do pouco que me resta fica o rosto,

agonizando em luz no meu poente.

Tantos caminhos que eram labirintos

marcaram-me de rugas a epiderme.

 

De tudo o que não fui e o que já fui

inventario cinzas. Onde o sonho

que crepitava na fogueira antiga

do corpo inconsumível como a sarça? !

 

Trocar o sol por múltiplas estrelas!

Pupilas dilatadas pela noite

á procura da luz que já não é.

 

Creio na alvorada em meio às sombras.

Ancoro em minha cama. Entro no sono

e descubro que nunca estive aqui.

MATINAL

 

Gosto de ouvir bem alto este silêncio.

O domingo servido como pão

claro e quente na mesa de madeira.

O saciado olhar nas coisas simples.

A estrada é mais humana sem ninguém.

O amor é mais total sem objeto.

Encontro coisas se não as procuro.

Enxergo muito quando apenas olho.

Fico completo quando estou sozinho.

Na solidão conheço meu espaço,

as fronteiras reais do próprio ser.

Nada me falta quando sou eu mesmo

na vastidão da minha pequenez.

O PALCO

 

Máscaras de Deus só existimos,

enquanto Deus em nós se representa.

 

O Bem e o Mal são condições do palco

e cessam ao término do espetáculo.

 

O pecado é pensar que existimos

nos papéis que nos foram destinados.

 

No pior vilão, no excelso herói,

o mesmo Deus se exalta como ator.

  

 

ILUMINAÇÃO

 

Quando penso que sou eu,

esqueço-me de que sou Deus.

Mas, quando me acordo Deus,

descubro que nunca fui.

DEMIURGO

 

Ocasional Demiurgo,

invento o tempo, extraído

da massa da Eternidade.

 

Do espaço, que é minha carne,

brotam sóis e galáxias.

 

Mas permaneço infinito.

BOLHA

 

O ar dentro da bolha.

O ar fora da bolha.

 

Separação ilusória.

 

Quando a bolha estourar,

que ar deixou de ser ar?

NIRVANA

 

Sou o êxtase de um rochedo

que contempla a Eternidade. 

SOLIPSISMO

 

Os outros são nossa imagem

nos espelhos do real.

 

Nunca vemos os outros...

ARANHA

 

Segrega seu território

na teia onde se alonga.

 

Conquista sobre o vazio.

 

A aranha é também a teia

e a consciência da teia.

INVENTÁRIO

 

Tudo quanto sou inventario

e descubro que os bens que nunca tive

são o melhor de mim. No meu espolio,

o mundo é sempre o herdeiro necessário.

A todos quanto amei deixo em legado

a parte disponível do que sou:

lotes do tempo, espaço da saudade,

o passado vivido em condomínio

das velhas afeições indivisíveis.

Sou homem procurando a sua causa,

o ser sem equinócio e solstício,

num mundo solitário, viajando

ruma ao ápex do Desconhecido.

HERANÇA

 

Somos dádivas e dúvidas:

domínio, posse ou empréstimo?

 

O que realmente somos?

 

O que somos além de herança?

 

SOLIDÃO

 

Não juntos: em paralelo.

Substancialmente sós,

apenas aglomerados

na apertada solidão.

 

Não unidos, mas prensados

em pegajosa paixão.

 

Fundidos e confundidos

nos êxtases mais solúveis,

algo de nós permanece

em pertinaz solidez.

INTROVERSÃO

 

Quanto mais só, mais eu sou:

os outros me enfraquecem.

 

Na solidão, eu sou pleno.

Na convivência, eu sou parte. 

COSMOS

 

Essa transmigração intergaláctica,

gerando cromossomos estelares.

No berço espaço-tempo se ouve o choro

do Salvador nascido entre as estrelas.

A música inaudível das esferas

ecoando nas órbitas celestes,

farol intermitente dos pulsares

- um coração de luz pulsando o Cosmos.

Argonautas sem rumo, navegando

à deriva da faixa de asteróides.

O tempo evaporado nos relógios

congela o viajor na Eternidade.

ESCATOLOGIA

 

 

Que novo Prometeu roubou dos deuses

o segredo do fogo mais terrível?!

A fusão e a fissão, irmãos nascidos

do estupro dos átomos, se fizeram

anjos radioativos, vingadores.

Descendo à Terra, invadiram lares,

ceifando não somente os primogênitos.

Ai, dos sobreviventes que comeram

o pão ázimo em Páscoa inesperada

da dor em Hiroshima e Nagasaki.

Quem libertou Titãs aprisionados

e abriu, de novo, a caixa de Pandora?!

Perfilam-se as ogivas nucleares

e os mísseis fálicos no orgasmo bélico.

Em quantas naves ao espaço iremos,

testemunha orbital do Apocalipse,

transformados, depois, em poeira cósmica

de deuses loucos que morreram homens.

 

 

 

 

ODE ÔNTICA

 

Decodificação de estranhos símbolos,

imprestáveis canais, falsas semióticas:

o amor fugindo ás leis da cibernética,

a vida - simples expressão da heurística.

O homem perdido no infinito dédalo

dos campos e das linhas magnéticas

alonga a solidão dos telescópios,

navegante ocular do mar galáctico.

Onde encontrar a curvatura cósmica

final do mundo que se fecha em círculo?!

É necessário convocar Parmênides,

pois a aparência dá razão a Heráclito.

Onde encontrar o intransponível átomo,

a unidade do tempo irresolúvel?!

Tudo se esvai em turbilhão dialético

na provisoriedade, na emergência.

Nada mais resta, agora, da matéria,

mera aparência em turbilhão dinâmico,

um breve evento de impressão sensória,

condicionada, no capricho empírico,

pelas programações de cada cérebro.

Exorcizemos o fantasma entrópico,

que nos ameaça com a morte térmica,

pois a ciência tem as suas fábulas

para explicar os fatos e os mistérios.

Fragilidades epistemológicas

esbarram sempre nas muralhas ônticas.

Falham as estratégias da genética,

porque o Ser é de si hereditário

e não se explica por funções endócrinas

ou especiosas compulsões mecânicas.

Na autoconsciência de seu senso crítico

é da própria Razão o Primogênito.

 

 

ODE PAGÃ

 

A nostalgia da ausência

dos nossos antigos deuses...

 

O cotidiano nos pesa,

 

Porque o céu está deserto

A Terra se encheu de angústia.

 

Inútil o psicotrópico.

A fé não é conseqüência

do funcionamento endócrino.

 

O mistério é o oxigênio

do nosso espírito asmático.

 

Reconstruamos altares...

Queimemos, de novo, incensos...

 

Talvez os deuses retornem

FRANCISCANAMENTE

 

Sou grato a tudo o que amo:

o amor me faz melhor,

me exige em todo meu ser,

faz-me total no que faço.

Esvazia-me de mim,

derramando-me ao redor

das coisas cotidianas.

Enriquece-me a rotina,

de novo ativando as cores

dos gestos já desbotados.

E me põe nu frente ao mundo

como Francisco de Assis.

 

MOSTEIRO

 

Neste silêncio se escuta

a respiração de Deus.

 

A eternidade entedia...

 

Aqui, a fuga é fechar-se.

 

O TECELÃO

 

Nós somos feitos dos fatos,

das urdiduras, das tramas,

em nossa memória têxtil.

Nós somos o tecelão

que a si mesmo se tece

no seu invisível tear.   

ORBITAL

 

Não há iguais. Há momentos

em que órbitas se cruzam.

Somos astros solitários

em nosso viver elíptico.

Na nossa rota não há

dois astros, apenas nós

e a cósmica solidão

do nosso próprio infinito.

ZEN

 

Nós inventamos o fora...

Nós inventamos o dentro...

Nós inventamos a porta.

 

 

OS ESCRAVOS

 

Quem é livre não discute

sobre o que é liberdade.

São as correntes que geram

o palrear dos escravos.

LIBERDADE

 

Liberdade é mover-se

em todas as direções...

 

Onde estão as direções?!

ANTIGUIDADES

 

Não falemos de coisas tão suspeitas

tais como o amor e a paz, velhas receitas

que não aviam mais os boticários

e em breve morrerão nos dicionários.

CREPÚSCULO

 

É nostálgico o crepúsculo

de quem não soube ser Sol

ao meio-dia.