O instante sem fim

 

 

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Somos células que nascem,

que morrem e que renascem

em círculo interminável

no corpo imortal de Deus.

 

                                                                                                 

Há momentos em que

a solidão intimida,

porque dela pode brotar

o que tememos ser... ou não ser.

 

 

Que infinito tédio seria

se tudo fosse imutável,

a eternidade do sempre,

a condenação do nunca,

a dor de uma paz estéril,

o cruel silêncio imortal.

 

 

O homem é o momento

em que Deus se faz consciência

na Sua onisciência.

 

Não desperte ninguém de seu sonho.

Como você sabe que seu sonho

é real e não o dele?

 

 

Em cada célula há

a memória do universo,

as rotas hereditárias,

os rumos da evolução.

Quem é o bibliotecário?

 

 

Somos algo acontecendo

entre as múltiplas possibilidades

do acontecer.

 

 

Uma folha que cai

desarruma o universo.

O respiro de uma ave

afeta o clima da Terra.

O balançar de uma teia

de aranha afeta a galáxia.

Uma criança que nasce

muda o destino do mundo.

Cada gesto de amor

             salva toda a humanidade. 

 

 

Saudade há que dura um corpo:

é chaga pra toda a vida.

Sangra quando lembrada

e nunca mais cicatriza.

 

 

Todos somos assim:

sem por que e para que.

As plantas e os animais

estão simplesmente aí

em total inserventia

apenas sendo o que são.

 

 

A consciência sustenta

o corpo, o tempo e o espaço.

O que sustenta a consciência?

 

 

Onde o sonho não é possível

começa o território do vazio,

o oco do ser, o chão do nada,

a despercepção e a  desmemória.

 

 

 

Se as trevas se acabarem,

tudo então será luz

e nela nada veremos

no escuro de tanta luz.   

 

 

O vento tudo carrega

a lugares aleatórios.

Pólen, poeira, memórias,

quem sabe para onde vão?

De onde vem, aonde vai

tudo o que nós pensamos?

 

 

O tempo oxidante escoa

na ampulheta do vazio.

O que fazer de nós

se a eternidade

às vezes pesa

por um momento

nos ombros frágeis dos dias?

 

 

O tempo é a eternidade

que se perdeu de si mesma.

 

 

Já que duvido que sei

de tudo o que aprendi,

olho o mundo e sinto o espanto

da criança que renasci.

 

 

Não existe sedativo

para uma dor cultivada

que não morreu quando devia.

 

 

O tempo nem sempre apaga

as nódoas do já vivido,

principalmente o sofrido

e as fundas marcas do amado.

 

 

Nenhuma bebida ativa

o coração moribundo,

dopado no próprio tédio.

Sem o estímulo do amor,

a vida é vivida em coma.

 

 

Nem o ácido do tempo

dissolve a dura saudade

em que o amor se tornou.

 

 

Tudo não para de viver,

tudo não para de morrer

Eis a imortalidade!

 

 

O esquecimento é maior que a morte,

porque termina o que a morte começou.

 

 

Um dia, volveremos ao infinito.

Onde estaremos? E o que seremos?

O nada do infinito não responde,

pois não há ninguém para escutar.

 

 

De tudo somos possuídos:

coisas, pessoas e ideias.

Mas só a morte nos possui de vez.

 

 

Quem morre não sonha mais:

agora é sonho dos outros.

 

 

O vento sabe todos os caminhos,

mas não deixa seus rastros nas areias.

 

 

Tudo o que não fomos são abortos.

Nem fantasmas serão, pois não viveram.

 

 

Só Deus suporta a onipresença,

porque não tem aonde ir.

Só Deus suporta a onisciência,

porque não tem o que aprender.

 

 

O máximo de liberdade

ocorre na solidão.

A liberdade menor

é partilhada com os outros.

Mas, sem eles de que serve

a máxima liberdade

estéril da solidão?

 

 

O infinito é possível:

  o agora não tem tamanho. 

 

 

A gente experimenta a eternidade

quando perde a noção do tempo.

Se Deus é eternidade,

ele nem sabe que existe.

 

 

Milhares de pessoas

morrem todos os dias.

E a humanidade

não pára de crescer.

Que importância nós temos?

 

 

O cadáver é a paz dos organismos.

 

 

Lembrança é ressurreição.

Cuidado! Nem tudo o que está morto

deve ser ressuscitado.

 

 

Já disseram que somos deuses.

O que é ser um deus?

Nem mesmo sequer sabemos

o que é ser humano!

 

 

Uma forma sutil de escravidão:

a opinião dos outros.

 

 

Ninguém deixa de amar:

o amor é que muda de objeto.

 

 

Apesar de tudo,

no pesar de tudo

e pesando tudo

sempre resta um pouco

que não é pesado.

 

 

Eu sou serei definitivo

quando morrer.

 

 

A felicidade não se guarda:

é para consumo imediato.

 

 

Dói pensar no infinito.

Dói pensar na eternidade.

Masoquismo cognitivo,

obsessão incurável

que o tempo não alivia

e só na morte se acaba.

 

 

O elogio é um sedativo,

ou um estimulante.

De qualquer jeito vicia. 

 

 

Uma paixão fulminante

e súbita como um infarto:

nunca existe prevenção

e nem, às vezes, recuperação.

 

 

Outrora, essa rua era

um enorme e denso silêncio.

Muitas árvores. Poucas pessoas.

Porém, o rio do barulho urbano

invadiu a rua e as casas.

E o silêncio se foi na correnteza

para nunca mais ser escutado.

 

 

No mar, não há vazio.

O mar é espaço espesso.

 O vento é o espaço que se move.

 

 

O instante sem fim

é aquela experiência

que enquanto dura parece

ser o êxtase da eternidade.