O mais famoso poltergeist do Recife

 

O mais famoso dos “poltergeist” investigado por Valter da Rosa Borges aconteceu em dezembro de 1985, no apartamento nº 301, do Edifício Paris, na Avenida Cruz Cabugá, bairro de Santo Amaro, Recife. Durante alguns dias, garrafas vazias voavam pelo apartamento, caíam na área externa o prédio, apavorando os seus moradores. Em pânico, a família solicitou, sucessivamente, o auxílio de um padre, de um pastor, de um médium espírita e de uma mãe de santo, os quais, apesar de seus esforços, não conseguiram resolver o problema. O apartamento virou um verdadeiro pandemônio, inclusive com a presença constante da imprensa, tentando filmar o fenômeno. As emissoras de rádios e de televisão exploravam o assunto, como sempre de maneira sensacionalista, aumentando, ainda mais, a aflição da família, atormentada ainda pelas explicações sobre naturalistas dos religiosos.

Convidado pela Dra. Léa Correia, então presidente do Sindicato dos Médicos de Pernambuco, a tratar do caso, o parapsicólogo Valter da Rosa Borges atendeu a solicitação que lhe foi feita pela família, por intermédio daquela médica  e, no dia seguinte, em companhia de sua esposa Selma Rosa Borges, foi ao apartamento “mal-assombrado”. Valter, depois de examinar minuciosamente o local, entrevistou as moradoras do apartamento, Sras. Lúcia Jacelli e sua irmã, Antônia. Informado dos detalhes do poltergeist, desconfiou que o seu agente era uma garota de 12 anos que trabalhava como empregada doméstica da família. Enquanto falava com a garota, uma garrafa vazia voou da cozinha do apartamento até a sala, espatifando-se de encontro à parede. Era a prova da procedência de sua suspeita.

A família seguiu as orientações de Rosa Borges sobre como lidar com o fenômeno e, uma semana depois, o “poltergeist” cessou  definitivamente. Entusiasmadas pelo final feliz, Lúcia Jacelli e sua irmã Antônia, pouco depois do evento, fizeram um Curso Básico de Parapsicologia no IPPP.

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A mídia deu ampla divulgação ao evento

 

JORNAL DO COMMERCIO

29 de dezembro de 1985
 

MISTÉRIO EM EDIFÍCIO ATRAI ATÉ EXORCISTA

Os moradores do Edifício Paris, na av. Cruz Cabugá, bairro de Santo Amaro, viveram ontem, um dia de tensão e ex­pectativa, quando deze­nas de vidros de remé­dio começaram a estou­rar dentro do apt° 301 e ao redor do prédio. As pessoas apenas viram e constataram o fenô­meno, mas não souberam explicá-lo, nem tampou­co conhecem a proce­dência dos vidros.
Pensando que fosse alguma pessoa Jogando frascos e garrafas de ci­ma do edifício de 11 andares, os moradores cha­maram a Polícia que ter minou não encontrando ninguém fazendo desor­dens. Os policiais ficaram surpresos com o fa­to, pois quando estavam dentro do apt° 301 onde o barulho era maior vários vidros se quebra­vam junto aos seus pés. Eles terminaram indo embora sem nada resol­ver.
A partir daí os mo­radores chamaram o pa­dre Guedes, da igreja da Piedade, que fez ora­ções e jogou água benta nos cômodos do apt° 301. Mesmo assim, os vidros continuavam apa­recendo e se quebrando dentro e fora do aparta­mento. Sem acreditar no que acontecia, o sa­cerdote disse depois que não tinha visto nada, embora os vidros esti­vessem caindo junto de­le e espatifando-se ao seu lado.
Com o movimento de moradores aumen­tando nos corredores do prédio, a dona do apartamento, conhecida apenas por Antônia, 73 anos, fechou a porta e não consentiu que mais ninguém entrasse. Ela, que ficou com outras seis pessoas da família trancadas, pediu para os porteiros e os adminis­tradores não deixarem que nenhum repórter fosse para o 3º andar, ficando várias equipes de reportagem no térreo do edifício.
A essa altura, a re­portagem da sucursal de “O Globo” no Recife es­tava no apartamento vi­zinho (303) e pôde ouvir o quebra-quebra de vidros dentro do apar­tamento e, de vez em quando, fora dele. De­pois de ficar quase três horas sem sair ninguém do 301, o morador Ma­noel Borges desceu es­condido e correndo pela escada.
Já no térreo, Manoel que vestia camisa bran­ca e calça azul, foi abordado pelos repórteres que notaram a sua saída do apartamento e o acompanharam pela escada. Ele não falou nada, estava chorando e acenou para quatro pes­soas que estavam na portaria. Mesmo assim, os vidros continuavam se quebrando.
A médica Léa Correia, presidente do Sindicato da classe em Pernambu­co e amiga dos morado­res do apto 301, levou um parapsicólogo para analisar e conversar com a família de dona Antônia. Ela fez tudo em si­gilo, mas mesmo sem querer dizer o nome do parapsicólogo, aceitou ser entrevistada.

Ela disse que levou um parapsicólogo porque só ele poderia explicar o fenômeno e os mora­dores do 301 estavam apavorados sem entender nada. Informou que há quase dois meses uma filha adotiva de dona Antônia morreu atro­pelada e tinha apenas três anos, tendo o fato deixado a família bas­tante traumatizada.

— Não acredito em nada de espiritismo. Sei que a força da men­te é muito grande e ca­pas: de fazer coisas inexplicáveis. O cérebro tem muita força, disse a médica, acrescentando que tudo estava tranquilo àquela altura.       
Por fim, a espírita Maria de Nazaré Socorro chegou a portaria do edifício Paris com uEvangelho na mão, mas ao contactar com os moradores do aparta­mento, eles não aceitaram a aproximação da integrante do núcleo espírita Centelha de Jesus.

Maria Nazaré disse que esse fenômeno se trata de espiritismo e pode ser resolvido com facilidade, porque — se­gundo ela — os espíri­tos se "apossam’' das pessoas que têm atra­ção por eles.
— Eu sozinha não re­solvo, mas se quiserem trago alguns irmãos pa­ra fazermos um traba­lho e resolvermos o pro­blema. Parapsicólogos ou padres não resolvem isso de jeito algum — acrescentou ela — que terminou indo embo­ra, informando que os vidros voltariam a se quebrar a qualquer mo­mento.

Até às 16h, ainda se ouviu o barulho de al­guns vidros se quebran­do dentro do apt9 301, sendo que um deles caiu na parte de trás do edi­fício e tinha o rótulo do remédio Eritrex. 

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JORNAL DO COMMERCIO

Sexta-feira, 27 de dezembro de 1985

ASSOMBRAÇÃO

Notas Avulsas


NILO PEREIRA


Noticiam os jornais que há assombrações num certo edifício, à avenida Cruz Cabugá.
Vidros quebrados, garrafas pelo ar numa dança macabra, objetos jogados à grande dis­tância. Não faltou a bênção do apartamen­to, onde os fenômenos ocorrem.

Só havia uma solução: chamar um especialista para estudar o caso. O especia­lista só podia ser o Walter Rosa Borges cujo renome lhe é assegurado pelos livros publicados e pela experiência no ramo.
Logo o Walter classifica o fenômeno como Psicocinésia. Que quer dizer isso? A Psicocinésia Espontânea Recorrente __ tal como a chama o especialista _ é precisamen­te o que acontece no edifício Paris, centro de interesse científico de estudos ligados à matéria.

Antigamente, isso era mais simples. Cha­mava-se assombração. Fechava-se a casa mal-assombrada. E ninguém ousava enfrentar fantasmas. Mas tudo mudou. Falar em fantasmas é uma banalidade. É preciso que o fenômeno, à semelhança de certas doenças tenha um nome complicado.
                                                                                         _o_
Os fantasmas, desde Shakespeare com os seus castelos mal afamados, vinham de fora. Hoje _ pasme o leitor _ estão lá dentro e são pessoas residentes no lugar da assombração. Tal a conclusão a que chegou o Walter Rosa Borges, cuja palavra autorizada não pode ser contestada

Que é uma garrafa estilhaçada? Uma vidraça feita em pedaços? Uma janela que se abre numa ventania descompassada? Tu, leitor, não te espantes mais de nada. É psicocinético o espetáculo. Morou?

A partir de agora, caros amigos, quan­do ocorrer uma assombração na sua casa, pergunte:
_ Quem é o fantasma aqui? Apareça.

Pois que você está falando com ele ou com ela. É a pessoa que possui uma força extraordinária, chamada telergia, e que, sem poder conter a propulsão psicológica, desanda em coisas inverossímeis.


                                                                                                 _o_
Está, portanto, tudo explicado. Mas, a mim, um ignorante de marca maior, restaria uma pergunta: esse "fantasma", que está provocando tal balbúrdia, sempre morou nesse apartamento? Por que só agora, rebenta em fúria incontrolável?

Meus amigos e meus inimigos: o ano está terminando. Vamos varrer de nossas mentes todos os fantasmas.

Cada um de nós _ ou quase todos _ viveu já a sua visão ou abusão. Convém apurar quem tem essa força (telergia) capaz de acionar uma casa toda, deixando-a em polvorosa. Que horror, santo Deus!

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DIÁRIO DE PERNAMBUCO. 28 de dezembro de 1985

Parapsicólogo desvenda mistério em apartamento

É um fenômeno paranormal o que está ocorrendo no apartamento 301 do Edifício Paris, na Avenida Cruz Cabugá, onde vidros se espatifam e objetos são joga­dos de um lado para o outro sem intervenção de força hu­mana. A afirmação é do pa­rapsicólogo Válter Rosa Bor­ges. presidente do Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas e que investi­gou o fenômeno pessoal­mente por quatro horas no apartamento fechado, a cha­mado da família.

"Trata-se do que cha­mamos de Psicocinesia Es­pontânea Recorrente, cuja sigla em inglês é PRPK e é, às vezes, classificado errada­mente como Poltergeist” - afirma Rosa Borges, que pre­senciou a quebra de vidros e o estilhaçamento de uma garrafa.

Depois de reunir toda a família num local do aparta­mento para ter certeza de que todos os membros esta­vam sob sua observação, o parapsicólogo identificou o "epicentro” do fenômeno. Isto: as pessoas o provocam involuntariamente irra­diando energia - ou telergia, segundo o termo técnico da parapsicologia. São duas jo­vens as causadoras dos even­tos. Mas o parapsicólogo mantém reservas quanto aos nomes, alegando que a família está muito traumati­zada.

A  FORÇA

Segundo Válter Rosa Borges a telergia tanto pode desaparecer espontanea­mente - do mesmo modo como apareceu - como per­manecer por algum tempo, ou tornar-se permanente.

"No interesse da ciên­cia, seria bom que permane­cesse, pois trata-se de fenô­meno raríssimo. Mas, no in­teresse da família, é evi­dente que é conveniente o seu desaparecimento - diz Válter Rosa Borges.

Alguns interpretam a Psicocinesia Espontânea Re­corrente como Poltergeist. Mas. no entender do parap­sicólogo, é errado, porque "Poltergeist quer dizer fan­tasma batedor, o que não é o caso".

Na União Soviética - observa - estão sendo reali­zadas experiências no sen­tido de fazer o indivíduo controlar a energia espontâ­nea para torná-la perma­nente.

Esse tipo de psicocinesia ocorre em geral em jo­vens adolescentes em início de fase de menstruação, desa­parecendo depois. A pre­sença do parapsicólogo é ne­cessária para identificar nes­sas ocasiões, qual o epicen­tro, ou seja, a fonte irradia­dora de energia capaz de movimentar objetos.

NA CABUGÁ

Foi exatamente esse o papel desempenhado por Válter Rosa Borges no caso do apartamento do Edifício Paris. Uma médica amiga da família, ao tomar conheci­mento, do fenômeno, comunicou-se com o parap­sicólogo e o convidou a presenciá-lo.

- Quando cheguei - conta Rosa Borges - me cer­quei de toda cautela para sa­ber se tudo não poderia estar sendo causado por uma brin­cadeira de mau gosto ou algo assim. Reuni toda a família num só cômodo, de modo a que todos os outros ficassem vazios e todos estivessem sob as minhas vistas. Permaneci no local de 14h30m até às 18h30m e, então, por duas vezes, vi vidros se quebra­rem. Numa delas, em local afastado, uma garrafa se es­patifou completamente, como se alguém a tivesse jogado no chão com toda força. Passei, então, a tentar identificar o epicentro. E quando afastei determina­das pessoas, o fenômeno dei­xou de ocorrer. Com o tempo, fui ganhando certeza de que eram elas as fontes.

Observa, no entanto, que "com isso não quero di­zer que resolvi o problema”.

- Ele pode continuar, pode desaparecer. Ninguém sabe. Resta esperar”.

 

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FANTASMAS

        Revista Reclamo, Nº 3 – Janeiro de 1986

 
                                                          

Walter da Rosa Borges tranquilizou a família afetada utilizando a parapsicologia O pacato edifício Paris viu, no apartamento 301, fenômenos que lembram Poltergeist.

 

Caso do Paris era paranormal

 

Chegou-se a pensar em maus espíritos. Foram várias sessões de quebra misteriosa de vidros no edifício Paris, em Santo Amaro. Chamaram o padre da igrejinha da Piedade. Quem desvendou o mistério foi um parapsicólogo.


Eram 15 horas do dia de Na­tal (25.12.85), quando os mo­radores do edifício Paris, na avenida Cruz Cabugá, em Santo Amaro (próximo ao centro do Recife), notaram que algo estranho se passava no local. E que vidros de remédio e garrafas apareciam e estouravam por todos os lados do prédio, sobretudo, no apartamento, 301, onde a quebra a quebra desses objetos era extrema.
Espantada com o que acontecia, a dona do apartamento 301, conhecida apenas por “dona Toinha”, 73 anos, procurou os vizinhos do terceiro andar e perguntou o que eles poderiam fazer. A partir daí chamaram a polícia para olhar se algum desordeiro jogava objetos no prédio. Depois de  remexer todo o local e não achar explicação para o caso, a polícia que viu muitos vidros se quebrarem à sua frente. “lavou as mãos” e foi embora.

Ao aumentar a intensidade do quebra-quebra, a família de dona Toinha, que, segundo os vizinhos, é católica e mui­to praticante, chamou o padre Guedes, da igreja da Pie­dade, no mesmo bairro. O pa­dre Guedes rezou e jogou água benta em vários locais “para espantar os maus espíritos”. A essa altura, grande parte dos moradores do edifício já havia visitado o apartamento e a área externa do prédio e constatado que se tratava de algum mistério.

Já perto da meia-noite, vendo que o problema não es­tava solucionado, os seis mo­radores do 301 deixaram o apartamento e foram dormir em  outro, no sexto andar, onde mora  a nutricionista Lúcia  irmã de dona Toinha. Foi quando, segundo os moradores do 302 e do 303, o barulho parou e todos puderam dormir um pouco. Foi uma noite meio chata, porque não sabíamos o que poderia ocor­rer até as seis horas. Quem sa­be um vidro não poderia se quebrar no nosso corpo e cortar” — contou Maria Cris­tina, do 302

Quando os moradores acor­daram, na quinta-feira, tudo continuava calmo, até que a família de dona Toinha vol­tou ao 301 e a quebra de vi­dros recomeçou. Até aí a im­prensa não estava informada do caso, mas o radialista Samir Abou Hana, que mora no edifício Paris e tem um pro­grama na Rádio Globo pela manhã, divulgou a notícia e curiosos e repórteres dos mais diversos meios de comunica­ção foram para o local.

Os repórteres da Rádio Globo e do jornal O Globo foram dos primeiros a chegar e conseguiram se "refugiar" nos corredores do edifício pa­ra registrar o fenômeno. Ven­do que o prédio estava sendo totalmente ocupado por re­pórteres, a família de dona Toinha pediu aos porteiros e ao síndico que não permi­tissem mais a entrada de jor­nalistas e fizessem os que es­tavam nos corredores aban­donar a área, pois não queria nenhuma divulgação sobre a que estava acontecendo.

O padre foi chamado no novamente ao 301 e, trancado com os moradores do apar­tamento, que não recebiam mais ninguém, rezou outra vez, mas o quebra-quebra continuou. Ao deixar o local, o padre Guedes não quis dar entrevista e disse que não tinha visto nada, mesmo al­guns vidros aparecendo mis­teriosamente aos seus pés e se quebrando.

Vendo que o problema continuava, a presidente do Sindicato dos Médicos de Per­nambuco, Léa Correia, que é amiga dos moradores do 301, levou o parapsicólogo Walter da Rosa Borges para conver­sar com a família e conven­cê-la de que o fenômeno não tinha nenhuma relação com a morte da filha adotiva de do­na Toinha, ocorrida há dois meses. A menina, de três anos, foi atropelada na praia de Maria Farinha, em Paulis­ta, deixando sua família bas­tante traumatizada.

Enquanto o parapsicólogo conversava com os morado­res, um deles — Manoel Bor­ges — deixou o apartamento e desceu pela escada, sendo acompanhado por dois repór­teres. Manoel Borges, que ves­tia calça azul e camisa branca, não quis pronunciar uma só palavra, mas estava chorando e acenou para quatro pessoas que estavam na portaria do edifício.

Por volta das 15 horas espírita Maria Nazaré Rapo, que pertence ao Núcleo Espírita Centelha de Jesus, chega ao edifício para rezar e oferecer ajuda à família do 301 mas a sua colaboração não foi aceita. De acordo com ela problema que estava atingindo os moradores só seria solvido através do espiritismo o que contrariou a opinião Léa Correia, que achou se tratar de um problema causado por fatores parapsicológicos. Mesmo assim, a espírita disse ainda na portaria, que se for necessária a sua ajuda, poderiam procurá-la.

Depois de conversar por mais de quatro horas com família de dona Toinha. Walter da Rosa Borges deixou apartamento. O quebra-quebra parou após as 18 horas tudo voltou ao normal.
Segundo o parapsicólogo, a quebra de objetos é um fenômeno paranormal, causado pela liberação de uma energia do próprio organismo de um dos moradores do apartamento. Ele disse que o fenômeno se apresenta em várias modalidades, podendo também ser maléfico ou benéfico. No caso do apartamento, o fenômeno foi classificado como benéfico, por não ter causado maiores danos materiais.

“Esse fenômeno é classificado de psicocinesia espontânea recorrente e ocorre em pessoas no período da puberdade; apesar de ser normal não é muito comum. Na fase da puberdade, os jovens passam por uma profunda transformação hormonal e um desequilíbrio orgânico, mas geralmente pouco duradouro" explicou Walter da Rosa Borges.

Para ele, quando se localiza o epicentro (pessoa que está causando o problema) deve-se evitar fortes emoções. No caso do apartamento 301 do edifício Paris, o epicentro era uma menina de 12 anos, cujo nome ele não quis revela mas garantiu que o mistério acabou e a família poderá ficar sossegada.

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DIÁRIO DE PERNAMBUCO

5 de janeiro de 1986

Visagens e assombrações continuam a desafiar o homem do século XX


Poltergeist, o fantasma brincalhão


Severino Barbosa

Desde anteontem, véspera do Natal, que coisas estranhas, como vidros e garrafas jogados em todas as direções, vêm acontecendo no apartamento 301 do Edifício Paris, na Avenida Cruz Cabugá. Repórte­res, padres, pastores evangélicos, médicos, policiais, fotógrafos e curiosos que acorreram ao local, vendo garrafas, vidros de remédios e ou­tros vasilhames, sendo atirados de um canto a outro do apartamento, sem que ninguém notasse quem os fazia, e sem outra explicação para o fenômeno, passaram a atribuir-lhe caráter sobrenatural. Ninguém, por exemplo, soube explicar de onde vi­nham os vidros de remédios, “jogados não se sabe por quem”, a fazer trajetórias estranhas, como sair do terceiro andar e atingir um banheiro do quarto andar; nem como um des­ses vidros “voou” da sala e foi espatifar-se nas costas de uma das filhas de D. Antônia, proprietária do apartamento; nem como uma garrafa atingiu o ombro de um dos moradores do prédio, que se achava no banheiro do quarto andar. Che­gando ao local, padre Guedes, vi­gário de Santo Amaro, viu dois li­tros de água-benta se arrebentarem, “ninguém sabe como”, antes que desse início ao exorcismo, e um pastor da Assembleia de Deus, ante a barafunda inexplicável, não vaci­lou em tachá-la de “coisa de Belzebu”.

Mas não causou maiores atro­pelos, a notícia divulgada pelo DIÁ­RIO DE PERNAMBUCO, na sua edição de 27 de dezembro último, porque tais fatos, embora misteriosos e nem sempre comuns (os últimos aqui registrados, acon­teceram em outubro de 1979, na Fa­zenda Pelo Sinal, em São José de Mipibu, no Rio Grande do Norte; e em junho de 1981, no Sítio Aguas Brancas, em São Lourenço da Mata, Pernambuco), talvez não mereçam muito crédito por parte do público, já tão corrompido pela des­crença dos dias que correm.

Preocuparam-se mais os adep­tos dos cultos espiritualísticos, como a Federação Espírita e o Cen­tro Espírita Centelha de Jesus, que se dispuseram com invocâções e preces, “a acabar as perturbações daquela alma, que está deixando aflita a família”. Ganharam mais importância, porém, os fenômenos do Ed. Paris, com a visita do para­psicólogo Valter Rosa Borges, presi­dente do Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas, que deu ao caso as dimensões reais indispensáveis, qualificando-o como uma manifestação de Psicocinésia Espontânea Recorrente, cuja sigla em inglês é PRPK, e que é as vezes, segundo ele erradamente, classifi­cado como Poltergeist.

Depois de presenciar in loco o quebra-quebra de vidros e o voo de várias garrafas, e de reunir toda a família, “para ter certeza de que to­dos estavam sob sua observação, o parapsicólogo rechaçou as ideias “ultrapassadas” de assombração, coisa do outro mundo e almas pe­nadas, dizendo haver localizado o epicentro do fenômeno e que tudo não passava de uma manifestação evidente, embora bastante rara, de Telergia:           
“Os fenômenos são provocados por pessoas, que, involuntaria­mente irradiam energia, ou Telergia, segundo o termo técnico da Parapsicologia. São'duas jovens as causadoras do evento. Mas, achando-se‘a família muito trauma­tizada, é conveniente que se mante­nha sigilo sobre seus nomes. Na União Soviética estão sendo realiza­das experiências no sentido de fazer o indivíduo controlar a energia es­pontânea, responsável por tais fa­tos”.

E numa revelação que nos faz lembrar Os Demônios de Loudun (Vide Aldous Huxley), o parapsi cólogo esclarece que esse tipo de psi­cocinésia, ocorre em geral em jovens adolescentes em início da fase de menstruação. O que dá certamente aos leigos, além do mistério, um sa­bor de erotismo.


 FENÔMENOS
 
“É muito natural, e até dever nosso, duvidar da manifestação dos defuntos, desde que não se faça a prova. A nossa tendência é para considerar suspeitas, todas as nar­rativas ligadas a manifestações de mortos. A isso nos autorizam a im­probabilidade aparente e a raridade das provas. Não tenho, porém, a priori, mais razão para desconfiar de um fato psíquico, que de um sábio, de um professor, desde que o fato me seja provado. E são, em re­lação às manifestações dos mortos, inumeráveis os casos testemunha­dos e provados. Neste mopiento es­tamos a ver, pessoas ignorantes ou de má fé, pretenderem que todos es­ses relatos de aparições e comunica­ções de mortos, procedem de ele­mentos destituídos de valor intelec­tual. Poder-se-á tal coisa dizer de um Cícero, um Montaigne, um La Rochefoúcauld, um Goethe, todos, enfim, que tanto se preocuparam com este assunto?”.

 Justificando a realidade dos fenômenos, Camille Flammarion (“Les Maisons Hantées”) lembra Guilherme de Auvergne, bispo de Paris, falecido em 1249, segundo o qual, um Espírito batedor se havia introduzido numa casa do distrito de St. Paul, e atirava pedras que quebravam as vidraças: “Pedro Mamoris, professor de Teologia, au­tor do “Flagellum Maleficorum”, registra o mesmo caso. Certo Espírito atirava pedras, arrastava móveis, quebrava louças, chegava mesmo a atingir de leve as pessoas, sem que se pudesse saber como agia. A esse tempo, o Cura de St. Paul, Jean Delorme, chegara ao lo­cal munido de velas bentas, água benta e água gregoriana, percor­rendo os aposentos atingidos, re­zando e exorcizando, para espantar os demônios”.

Tal a veracidade dos casos re­latados e seu crédito perante a Jus­tiça, que Flammarion cita o caso do advogado Zingaropoli, defendendo a Duquesa de Castelpoto contra a Baronesa Laura Englen, em 1907, cujo fundamento era: “Se o loca­tário de uma casa infestada pelos Espíritos, tem direito a pleitear a rescisão do Contrato”. Não argu­mentava no vazio o causídico napo­litano, que acabou vitorioso, espo­sando tese do jurisconsulto Alfenus numa correspondência de Saint-Nicolas-du-Port, perto de Nancy, o “Paris-Journal”, publicou o se­guinte: “A criada da Taverne Parisien, nesta cidade, uma guapa cam­ponesa de suas dezoito primaveras chamada Germaine, quando descia à adega, foi atacada por uma verda­deira chuva de pedras. Nos dois dias seguintes, a coisa piorou, cho­vendo sobre Germaine, mal ela che­gava à adega, além de pedras, peda­ços de ferro, ganchos, pregos e cacos de vidros. Examinada a questão, em parecer do Dr. Boucher, a Socie­dade de Estudos Psíquicos de Nancy, concluiu que se tratava de um caso de mediunidade, provo­cado pelos espíritos que atuavam sobre Germaine. Tal diagnóstico, porém não convenceu a população, que julga tratar-se, talvez com certa razão, de manifestações diabóli­cas”.

Não precisa ir tão longe. Em 8 de dezembro de 1976, a “Folha da Tarde”, de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, contou a história de Claudir de Quadros, de 8 anos, que foi apedrejado e mordido por um fantasma. E o fantasma, segundo o semanário gaúcho, era o próprio Diabo.

POLTERGEIST
 
Como se pode concluir, a pala­vra é alemã (de Geist, espírito e Polterer, perturbador, dando Postergeist), aplicando-se às “as­sombrações”, tais como pancadas,(Digesto, Gotofred, 1857): “Si causa fuisset cur periculum timeret, quamvis periculum vere non fuisset, tamem non debere mercedem’’.

SATANISMO
 
Na Idade Média, a importância de tais fenômenos chegou ao exa­gero, em face da preponderância da literatura demonológica. Essas ma­nifestações misteriosas, distúrbios e prejuízos causados aos moradores de uma casa, aterrorizavam mais ainda pela convicção enraizada de uma origem satânica. Basta folhear os livros mais conhecidos da Demonologia, tais como o Malleus de Sprenger, O Formicarius de Nider, o Disquisitiones magicae do Padre Martinho del Rio, bem como os dos teólogos protestantes da época, a começar por Lutero, para ver até que ponto se acreditava nos poderes do diabo, responsável por todas as confusões, tragédias e malefícios.

Grimaldi Ginesio, em sua “Istoria delle leggi e magistrati del regno di Napoli”, publicada em 1857, anota como jurisprudência firmada: “Sucedendo que, na casa alugada, o locatário, levado pelo terror pânico, se julgue assaltado por espíritos malignos, chamados em Nápoles de Monacelli, permite-se-lhe a mudança isento de qualquer indenização”.

Mas tais fenômenos, tidos por satânicos, não ficaram apenas na Idade Média. Em 6 de abril de 1910, ruídos de serras, talheres, garrafas atiradas contra as pessoas, ou vi­dros que se espatifam sem que nin­guém saiba por quem, a não ser por espíritos malignos, segundo os exorcistas e por isso aparentados com o diabo; ou por “almas infeli­zes” e “penadas”, no dizer dos de­fensores da doutrina de Allan Kardec. Comuns nas lendas bávaras, ou entre os remanescentes teutões das margens do Báltico, ganharam dos alemães o apelido de Poltergeist, e a fama que os confunde com o Diabo.

Nos tempos modernos, milhões de teses, as mais esdrúxulas, têm sido evocadas para explicar os Fatos Inexplicáveis, como se per­cebe em “Human Personality and its Survival of Bodily Death” de F.W.H. Myers, e mais recente­mente, em “The Personality of Man” do Dr. G.N.M. Tyrell, onde os “mistérios” e “fenômenos”, têm simples definições materialísticas.

Por outro lado, falam os técni­cos em Energia Comprimida; e o Prof. A.R.G. Owen, de Cambridge, diz que, embora se trate de “mani­festações psíquicas”, os “fenôme­nos” resultam de “uma espécie de energia subconsciente”, em geral proveniente de um adolescente excitado”. Daí pregarem os sexólogos o “amor livre” e a masturbação (Kraft-Ebing, Masters-Johnson, Kinsey), como forma de extravasar essa “energia”. O que cheira a libi­dinagem.

“Os diabos saíram de cena diz Aldous Huxley, mas junto com eles (Magna est veritas legitir praevalebit) diluiu-se qualquer tipo de reflexão importante em relação aos fenômenos aos mesmos atribuídos. E lembra Urbano Grandier, o Monge Maldito, nos versos de Ronsard: “Quand au temple, nous serons les dévots pour louer Dieu. Mais quand au lit, nous seron les lacifs qui pratiquent folâtrements les draps mignardises”.

Dos Poltergeist dizem que, além dos quebra-quebras, também imitam os Íncubos e Súcubos que atacam à noite as donzelas desprevenidas. Daí ser bom antes dormir (para quem faz da virgindade uma virtude), lavar-se com água benta. E rezar com fé o Esconjuro de São Cipriano.

Afinal de contas, desde tempos milenares que os descrentes duvidam do poder de Satanás. Mas,  como disse Charles Baudelaire “La plus belle ruse du Diable, é de nous persuader qu’il n’existe pas”. (“A maior arma do Diabo é convencer que ele não existe”) Quem disso duvidar, que visite  Apartamento 301, do Ed. Paris.

Mas não esqueça de levar  consigo o Malleus Maleficarum. E um garrafão de água benta.

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PARAPSICOLOGIA, CIÊNCIA CONFUNDIDA COM BRUXARIA


                                                                     Reclamo. A Revista Nordestina.

         

Ano I, N° 11, outubro de 1986.


                                                                                          Ciência

A parapsicologia ou psicobiofísica é uma ciência ainda nos seus primeiros passos. Estuda os fenômenos paranormais e é frequentemente confundida com bruxaria ou espiritismo.


                                                               Parapsicologia: ciência confundida com bruxaria

Rosa Borges: são poucos os autênticos paranormais

O convidado chegou quan­do todos já estavam à me­sa do almoço. Ele apenas deu bom dia e imediata­mente os talheres se entortaram. A veracidade desta história pode ser confirmada pelo anfitrião do almo­ço, o industrial Duílio Cabral da Costa. O estranho hóspede era Thomas Green Morton, um mineiro de 39 anos, cujo nome é uma homena­gem ao descobridor da anestesia ge­ral. Ele já realizou tantas proezas que muita gente importante o esco­lheu para guru, a exemplo de Henfil, Baby Consuelo e Pepeu Gomes.

Na verdade, Thomas é um paranormal. Os fenômenos de paranormalidade se tornaram populares de­pois dos shows de Uri Geller pela TV americana e, logo depois, em to­do o mundo. Durante algum tempo depois do sucesso de Geller, muita gente tentava entortar coisas em casa, mas os frequentes fracassos acabaram por matar a novidade. De um modo geral as pessoas passam por experiências paranormais. O que não significa que sejam dotadas de tais poderes. O mais frequente dos fenômenos incomuns é a telepa­tia, sobretudo entre mãe e filho, mas ainda assim, eventual.

A curiosidade em torno do tema “parapsicologia” é grande, mas são poucos os que se dedicam a estu­dá-lo com seriedade. Neste mês, aqui no Recife, o Clube Interna­cional será sede do V Congresso Brasileiro de Parapsicologia e Psicotrônica, um encontro que promete variadas abordagens do assunto, mas sempre com preocupação cien­tífica. O presidente do Instituto Pernambucano de Psicobiofísica, Walter Rosa Borges, chama a aten­ção para o fato da comunidade cien­tífica internacional já haver reco­nhecido a parapsicologia como ciência, mas ainda assim ela é pouco compreendida. A maioria das pes­soas relega essa ciência ao campo da bruxaria ou do misticismo bara­to. O que ocorre com frequência, esclarece Walter, é que são poucos os autênticos paranormais, e muitas vezes, eles acabam por se envolver em mal-entendidos, atuam em am­bientes impróprios ou chegam mes­mo a cometer fraudes, para não per­der o prestígio ou para garantir o ganha-pão. O desprestígio maior da ciência corre por conta dos impos­tores que, aí sim, são muitos.

CIA E KGB

Nos países do chamado 1º Mundo, Estados Unidos e União Soviética por exemplo, a parapsicologia já al­cançou outro estágio de importân­cia, embora também sejam frequentes as fraudes.

Os serviços secretos americano e soviético, mais precisamente a CIA e a KGB, têm usado paranormais em suas missões. Eles se utilizam da manipulação da mente, espionagem por meio da clarividência, percep­ção de pessoas, objetos ou fatos fí­sicos independentemente dos senti­dos comuns. Um dos fatos mais marcantes da história da utilização dos paranormais aconteceu em Mos­cou. Stálin, ao saber que o polonês naturalizado russo Wolff  Messing era paranormal, propôs um teste definitivo: Wolff deveria roubar o banco central de Moscou e entrar no gabinete de Stálin sem a senha obrigatória. Wolff descontou um cheque em branco no banco e sim­plesmente apareceu no gabinete do líder soviético. Mais tarde explicou que o caixa do banco pagou o cheque submetido a uma alucinação telepá­tica. E os guardas do gabinete se convenceram de que ele, Wolff, era nada menos que Béria, na época o braço direito de Stálin.

Claro que nada disso vai aconte­cer no congresso. Mas certamente o público ficará muitíssimo mais informado a respeito de parapsico­logia. Ninguém vai chegar em casa e começar a entortar talheres, mas igualmente ninguém mais vai rezar o credo ao ver um paranormal.

(Moema Luna)

RECLAMO — n° 11 — Outubro/86


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JORNAL BANDEPE

Maio, 1988 – Nº 83

JÁ NÃO SE FAZ ASSOMBRAÇÕES COMO ANTIGAMENTE

Texto de Gilson Oliveira

Quem tem medo de lobisomem ou papafigo?

Pelo menos nas cidades grandes, é bem provável que ninguém. Nem as crianças, cujos sustos e arrepios estão sintonizados, com exclusividade, nos monstros televisivos. Na verdade, pouco apavorantes, pois todo pirralho que se preza sabe a senha dos superpoderes: “Eu tenho a força!" Muitos meninos sequer ouviram falar naqueles seres de outro mundo - e tempo -, que se aproveitavam das sombras para sugar sangue no pescoço de moça bonita ou comer o fígado de criancinha rosada.

Os adultos, por sua vez, estão mais ligados nas assombrações do dia-a-dia, como a inflação, os assaltos e o fantasma de uma guerra nuclear. O próprio crescimento urbano se encarregou de espantar para lugares que talvez lhes parecessem mais sossegados (o mundo mal-assombrado de. onde saíram) os entes fantásticos que durante séculos fizeram do Recife uma das cidades mais ricas em histórias sobrenaturais em todo o mundo. Afinal, qual a mula-sem-cabeça que teria a ousadia de enfrentar o trânsito da avenida Conde da Boa Vista? Eram seres “sem-cabeça”, mas não tanto assim...

Embora não viva assom­brado por lobisomens, papafigos e outras figuras de­moníacas, o homem de hoje não deixou de sentir-se encantado por histórias relacionadas com esses seres. E não apenas com eles, se interessando cada vez mais - como que tomado por crescente e dialética ten­dência mística - por tudo que cheire a sobrenatural, como cartomancia, espiritismo e as­trologia. Até um dos símbolos do pragmatismo norte-americano, Ronald Reagan, não toma qualquer decisão importante sem antes fazer uma fezinha junto aos astrólogos, como de­monstrou o noticiário recente. Os europeus não ficam atrás, e Paris foi considerada, em estu­do realizado anos atrás, uma cidade onde o interesse pelo sobrenatural é uma coisa sobrenormal. A explicação dos sociólogos é o enjoo que as pessoas estão sentindo pelo racionalismo e a lógica que co­mandam as sociedades moder­nas.

Não faz muito tempo, o diabo esteve na moda, retirado das profundas do esquecimento pelo filme O Exorcista (há pou­cos dias reapresentado no Re­cife), baseado no romance ho­mônimo de William Peter Blatty. Para assisti-lo, as pessoas en­frentaram filas infernais, de tão longas, ou se submeteram à exploração dos cambistas, que, seja quem for o artista principal, sempre cobram um preço dos diabos. Mas valia a pena o sa­crifício: na saída do cinema, rostos de assustada alegria, as pessoas pareciam dizer umas às outras: “Quer apostar que minhas pernas tremeram mais que as suas?"

Por falar em perna, a car­reira do Exorcista no Recife não foi tão soberana como em ou­tros lugares. O seu reino foi di­vidido com um original e curioso personagem, criada pela imagi­nação e senso de humor per­nambucanos: a Perna Cabelu­da. Como o próprio nome indica', a sobrenatural aparição era constituída, simplesmente, por um membro inferior, cheio de cabelos. Talvez a parte do cor­po perdida pelo Saci Pererê em remotas eras, a perna andou, em meados da década de 70, pelos jornais, rádios, televisões, literatura de cordel, bate-papos e medo de muita gente.

“POLTERGEIST“

Há pouco mais de dois anos, um fato assombroso - desta vez nem um pouco fictício - mexeu com os nervos do Re­cife. Conhecido como o “Caso do edifício Paris”, por ocorrer num prédio homônimo da Avenida Cruz Cabugá, quase no centro da cidade, o episódio chamou a atenção não apenas da população, mas da polícia, padres, pastores protestantes, espíritas, parapsicólogos e pais-de-santo. A solução do proble­ma - um invisível demônio que jogava pro ar e nas paredes tu­do que estivessem dentro do apartamento - foi atribuída a um representante da Parapsicolo­gia, Valter da Rosa Borges, presidente do Instituto Pernam­bucano de Pesquisas Psicobiofísicas (IPPP), das mais res­peitadas entidades brasileiras do gênero.

Assinala Rosa Borges, calejado e bem-sucedido caça­dor de fantasmas recifenses, que a assombração do edifício Paris era do tipo que o cinema erroneamente consagrou como Poltergeist, cuja tradução é “fantasma batedor”. O equívoco do termo, segundo o parapsicólogo, reside no fato de que as forças desencadeadas em tais situações nada têm a ver com alma do outro mundo, e sim deste que, em maior ou menor grau, todos conhecem.

O agente do terror no “parisiense” prédio da Cruz Cabu­gá, era, de acordo com o presi­dente do IPPP, uma adoles­cente de 12 anos, que estava atravessando a fronteira bioló­gica do estado de menina para o de moça. Como a mudança não se processava normal­mente - a menstruação estava atrasando e isto provocava for­tes tensões emocionais -, a adolescente extravasava as energias acumuladas na forma que os parapsicólogos denomi­nam Psicocinesia Espontânea Recorrente.

Provocadora do fenôme­no de projeção violenta de ob­jetos ou complicações outras, a Psicocinesia (ação extracorpórea conduzida pela mente) Espontânea (por se dar inde­pendentemente da vontade do agente) Recorrente (se repete) pode ser curada, nos casos simples, através de exercícios físicos. Foi a receita passada para a mocinha do Caso Paris. Outros adolescentes, protago­nistas de episódios que deram bem mais dores de cabeça (e também noutras partes do cor­po), andaram praticando mais exercícios que atletas em pre­paração para as Olimpíadas de Seul. É o caso de crianças muito reprimidas pelos pais. Al­guns chegam a tocar fogo na casa, sendo os genitores os principais alvos de suas in­conscientes incendiárias ações.

- É claro - salienta Rosa Borges - que não bastam per­turbações ou atitudes repressi­vas dos pais para que ocorra o fenômeno. Se assim fosse, a todo instante estaria aconte­cendo casos de psicocinesia. É necessária a soma de vários fatores ainda não totalmente identificados pela Ciência.

A Parapsicologia explica

Analisados à luz da Pa­rapsicologia, muitos fenômenos tidos como sobrenaturais adqui­rem feições naturais, dese­nhando-se um rosto humano - embora de características pou­co comuns - na moldura do fantástico. Como no caso em que pessoas, na hora da morte, aparecem a outras localizadas em pontos geograficamente distantes. Na concepção de Rosa Borges, o que acontece é uma “alucinação telepática”. Isto é, um relacionamento psí­quico tão intenso (principal­mente entre pessoas que se gostam muito) que chega a ge­rar imagens e dar sensações fí­sicas.

Da mesma forma, lugares considerados mal-assombrados são, sob o enfoque dos para­psicólogos, apenas depositários de determinados tipos de ener­gia mental. Palco, na maioria das vezes, de crimes, neles fi­cam gravadas as energias des­pendidas pelas vítimas nos momentos de agonia. Para que essas forças sejam ativadas, evocando as imagens das ce­nas que as geraram - e provo­cando, assim, assombrações - basta que pessoas sensíveis ao fenômeno da gravação energé­tica no espaço, geralmente portadores de faculdades paranormais, tenham contato com o ambiente.

Fundamentando suas teo­rias em testes científicos, como os realizados na área da Psicofotografia - em que a mente humana tem se mostrado capaz de gravar imagens em películas fotográficas -, Rosa Borges sa­lienta, no entanto, que suas ex­plicações estão sujeitas a revi­sões, “pois toda hipótese cientí­fica é necessariamente provisó­ria”.


Valter Rosa Borges

Tratando as aparições sem preocupação científica, e sim da forma como eram vistas antigamente pelas pessoas, o sociólogo Gilberto Freyre es­creveu Assombrações do Recife Velho, onde desfila uma seleção de maus espíritos e episódios que, muitos anos atrás, abalaram o sistema ner­voso da capital pernambucana, dando a entender que no Impé­rio, muito mais que o imperador, imperaram em terras recifenses seres pra lá de satânicos.

Lançado em 1951 e atualmente na terceira edição, o livro fez muitos intelectuais olharem para Gilberto Freyre com cara de bicho-papão ou outro tipo de assombração, insatisfeitos com o passeio do mestre de Apipucos pelas ruas simples, sombrias e tortuosas da tradição popular voltada para sobrenatural. Antevendo os ur­ros de lobisomem letrado dos eruditos ortodoxos, Freyre co­locou na introdução da obra ob­servações que não apenas a justificam intelectualmente, mas explicam seu espírito: “Os mis­térios que se prendem à história do Recife são muitos: sem eles o passado recifense tomaria o frio aspecto de uma história natural. E pobre da cidade ou do homem cuja história seja só história natural”.

Assombrado por seres de toda natureza - árvores, bi­chos, luzes estranhas, sobra­dos, carros e até ruas inteiras - o livro apresenta figuras como o Boca-de-Ouro, misto de diabo e gente, que, apesar de ter pro­vocado carreiras também no Sul do país, é recifense de “nascimento”. Sua primeira apa­rição se deu no início deste sé­culo, perante um boêmio que, na verdade, estava atrás de mulher. À procura de alguém do outro mundo, mas no bom sen­tido. Abordado, de repente, por um estranho de chapéu panamá encobrindo parte do rosto, o ra­paz não se fez de rogado em atender ao pedido de fogo para acender o cigarro. Só que, ain­da mais de repente, a estranha figura encheu o ar da madruga­da com horripilante gargalhada e mostrou um rosto podre de defunto, meio comido pelos vermes. Da boca cheia de dentes de ouro, saía insuportá­vel cheiro de carniça. “Correu o infeliz aprendiz de boêmio com toda força de suas pernas azeitadas pelo suor do medo”, mas depois de longa persegui­ção com gargalhadas de demô­nio zombeteiro, “caiu zonzo, desmaiado na calçada”.

Foi socorrido, ao amanhecer, pelo preto do leite, “o primeiro a ouvir a história: e, falador como ninguém, o primeiro a espalhá-la”.

Mas a maioria das histó­rias de Assombrações do Re­cife Velho se passou em mea­dos do século XIX. Só de lobi­somem existem duas. Uma contada a Gilberto Freyre pela própria vítima do bicho, uma ne­gra velha chamada Josefina Minha-Fé, que, pela beleza, fora na mocidade conhecida como “Josefina Meu Amor” e até “Meus Pecados”. O “Minha-Fé” surgiu depois que ela escapou do lobisomem do Poço da Pa­nela, “um não-sei-quê alvacento ou amarelento, levantando areia e espadanando terra; um não-sei-quê horrível; alguma coisa de que não se pôde ver a forma; nem se tinha olhos de gente ou de bicho. Só viu que era uma mancha amarelenta; que fedia; que começava a se agarrar como um grude nojento ao seu corpo. Mas um grude com den­tes duros e pontudos de lobo. Um lobo com a gula de comer viva e nua a meninota inteira depois de estraçalhar-lhe o vestido”.

O segundo lobisomem, morador do bairro de Beberibe, era bebedor de sangue. Segun­do o livro, o bicho (que na inti­midade era um velhote extre­mamente branco, tão pálido que o apelidaram “barata descasca­da”) se curou bebendo leite de uma jovem mulata. Não no copo ou na garrafa, mas diretamente na fonte: os seios. Um caso as­sombroso até para o Recife no­vo...

PARAPSICOLOGIA

Quando há 32 anos Valter da Rosa Borges presenciou um suposto fenômeno paranormal, denominado psicocinesia e que identifica o movimento de objetos por força de energia mental, estava determinado o surgimento de um dos mais conceituados  parapsicólogos do Brasil.

Mesmo tendo, posteriormente, obtido a gradua­ção como advogado e, atualmente, exercendo as fun­ções de Promotor de Justiça e professor de Direito Civil na Universidade Católica de Pernambuco, Val­ter da Rosa Borges nunca abandonou o estudo da parapsicologia e luta para que esta ciência seja re­conhecida em Pernambuco e seja elevada a nível acadêmico. Para isso, ele desenvolve um amplo traba­lho de conscientização e informação sobre o assunto, que inclui debates, palestras, seminários e demais atividades promovidas pelo Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas, sediado à rua da Con­córdia, 372. salas 46/47, do qual é o atual presidente.

 

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30 anos depois

REVISTA MALU

Julho de 2015
 

Fenômeno paranormal em um edifício na Avenida Cruz Cabugá


É muito comum que prédios antigos tenham sido o cenário de casos assombrosos. Geralmente, são lugares nos quais passam muitas pessoas, sejam moradores ou trabalhadores. Várias delas com histórias, crenças e energias diferentes. Em alguns casos, pessoas foram assassinadas brutalmente no local, incêndios ocorreram, entre outros fatores que acabam desencadeando uma onda de sofrimento na vítima e em seus entes querido. Estudiosos afirmam que essa é a receita principal que leva um lugar a ser assombrado.

No Edifício Paris, edifício relativamente antigo construído na década de 1970, aconteceu algo sinistro que até hoje é motivo de muita discussão entre quem já ouviu falar na história. Muito se especula sobre o caso, mas ninguém garante dados do desfecho. Enfim, nossa matéria só pôde ser originada através de muita pesquisa. Mesmo assim, o mistério paira no ar...

Neste fato que vamos citar, os eventos misteriosos foram presenciados por mais de uma pessoa, inclusive por profissionais da área de parapsicologia e líderes religiosos, conforme o link de uma matéria da revista VEJA e de um site sobre fenômenos paranormais, que vão ser disponibilizados ao final deste artigo.

Segundo consta nos links, em 1985, uma criança moradora do edifício, infelizmente, veio a óbito a partir de um atropelamento. Exatamente no dia 25 de Dezembro, fenômenos intrigantes começaram a acontecer. Isto mesmo: no natal! Vários frascos de remédio começaram a estourar, sem que ninguém os tivesse tocado. Isso aconteceu em todo o condomínio. Porém, em um determinado apartamento, os fatos eram mais intensos. Acreditando-se que talvez se tratasse de algum desordeiro, a polícia foi chamada. Logo, eles constataram que não havia baderneiros pregando peças e foram embora.

Em seguida, o Padre Guedes, da Igreja de Piedade em Santo Amaro, foi chamado para benzer o apartamento. Os moradores já estavam começando a entender que algo muito particular estava ocorrendo lá. Na manhã seguinte, os vidros voltaram a se despedaçarem sem qualquer influência física de ninguém. O radialista que morava no local, Samir Abou Hana, tratou logo de informar no rádio a notícia macabra e vários membros da imprensa foram parar no local. Os jornalistas da Rádio Globo e do Jornal O Globo conseguiram, inclusive, entrar e se instalaram nos corredores. A intenção, claramente, era registrar os fatos ocorrendo.

Só após uma nova visita do Padre, um pastor e uma mãe de santo, o parapsicólogo Walter Rosa Borges acabou chegando ao local, por um convite de uma amigo da família. Foi esse profissional que conseguiu realizar a resolução do caso. Borges é um dos fundadores do IPPP - Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas. Conforme matéria já publicada na VEJA, esse é o MAIOR CASO DE PERNAMBUCO que já foi estudado e registrado pelo Instituto de Pernambuco. Seguindo algumas instruções - que não foram relatadas no site do próprio parapsicólogo -, os fenômenos paranormais finalmente cessaram.

Sobre o que foi feito, o mistério permanece no ar...  

Links pesquisados:  REVISTA VEJA. SITE DE WALTER ROSA BORGES