Os Olhos da Solidão

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Somente na solidão

A sinceridade não é perigosa.

 

Árvores, parentes vegetais.

Por isso, essa alegria verde,

Quando estou entre elas.

 

Nas catedrais das certezas

Sou, às vezes, iconoclasta.

 

Cada poeta é herdeiro

De todos os poetas mortos.

Dispensa-se o inventário.

 

Cada poeta é herdeiro

De todos os poetas mortos.

Dispensa-se o inventário.

 

Mais do que conhecimentos,

Acumulei dúvidas.

 

A televisão é o circo

Da festiva mediocridade.

 

Mesmo nas árvores velhas

Se abrigam

Os passarinhos,

 

Há quem viva esse contraste:

Corpo em roupas de luxo,

Alma coberta de traste.

 

O amor tem medida:

Comporta poucas pessoas.

 

De Ícaro ao avião,

O sonho de voar

Não foi em vão.

 

No jardim do mosteiro

As plantas parecem

Monges vegetais.

 

A mão se abriu

Como uma flor desabrochando

No galho do braço.

 

Sexo fácil.

Amor difícil.

Paixão “fast-food”.

 

Com as palavras,

Criamos o nosso mundo.

O Paraíso era ágrafo.

 

Sentia-se ignorado

Com a planta que nasceu

No canto escuro de uma parede.

 

A procissão desfila pelas ruas.

Uma enorme serpente,

Feita de pessoas de fé.

 

A alma se alimenta

De tudo o que ama.

 

Os álbuns guardam

Os que já fomos

E os que já foram.

 

Não confie demais

Nos seus trilhos.

Os trens descarrilham

 

É melhor a justa fúria

Do que a inútil lamúria.

 

A luz do Sol me alumbra;

Mas meu misticismo

Aflora na penumbra.

 

A dúvida nos liberta

Do cárcere da certeza.

 

 

Somos temporais.

Não podemos saber

O que não é tempo.

 

Será que, no futuro,

As pessoas serão apenas

Quimicamente felizes?

 

Se, um dia, houver autoclonagem,

O novo corpo levará o velho

Saudosamente para o cemitério.

 

Não há agasalho

Para uma alma

Nua de afetos

 

A semente sonha a árvore

Que, um dia, será.

A árvore sonha a semente

Da qual ressuscitará.

 

A terra – a anti-mãe –

Devora seus filhos mortos.

 

O milagre é o acaso disfarçado.

 

Andam sempre de mãos dadas.

O amor os tornou xifópagos.

 

Um dia, jovens, se encontraram.

Namoraram, noivaram, casaram.

Tiveram filhos, netos, bisnetos.

Envelheceram e morreram.

Ninguém se lembra mais deles.

 

Jesus, braços abertos,

No Corcovado,

Não o triste Jesus

Crucificado.

 

Só há gurus

Para os guris.

 

Como será, no futuro,

O amor de uma máquina,

E o amor a uma máquina?!

 

Há momentos em que nossos sorrisos

Nos fazem parecer uma criança feliz

Escutando o som de guizos.

 

Procuro ser muitos

Para não me cansar

De ser um só.

 

A ardente paixão derrete

A alma, como se ela fosse

De espermacete.

 

O peixe no aquário

Sonha oceanos.

 

A morte não tem dó.

Transforma tudo o que é vivo

Na igualdade do pó.

 

 

A arte não explica o mundo:

Embeleza-o.

 

Do amor que me tinhas

(Sempre soube)

Era tão imenso

Que em mim não coube.

 

A Lua Cheia sua

Sua luz sobre a rua.

 

Árvore do Universo, onde

Começa a tua fronde?

 

No êxtase da música,

Não penso em Paraíso:

Estou nele.

 

No mais profundo silêncio,

Podemos escutar

O vozerio dos átomos

E o diálogo das galáxias.

 

Os vivos e os mortos,

Juntos no mesmo álbum.

Nunca estão sozinhos.

 

Um mundo melhor: uma promessa milenar.

Será, um dia, cumprida?

Até hoje, profetas e salvadores se enganaram.

Ou nos enganaram?

 

Utopia – imaginário lugar

Dos desesperados do mundo.

 

O vilão é tão famoso quanto o herói.

E, às vezes, mais admirado.

 

Serão sempre os gênios

As luzes dos milênios.

Mas o povo é cego.

 

Quase sempre faltam pregos

Para crucificar tantos egos.

 

Nem sempre temos escolhas:

A ventania do acaso

Nos arrasta como folhas.

 

Moderno Prometeu,

O tempo nos acorrentou

Nos relógios.

Quem nos libertará

Do abutre de cada dia?

 

O mais implacável ateu

É aquele que, um dia, creu.

 

A dor nos ensina. Colhei-a,

Mesmo que seja a dor alheia.

 

Das paixões, as brasas

Queimam as nossas asas.

 

A morte come

O corpo, o nome

E o renome.

 

O TALVEZ sempre no muro:

Não decide ser sim,

Não decide ser não.

 

Pietá: um amor de mãe

Feita de mármore.

 

Na fúria da ventania,

A árvore chora folhas.

 

A interminável gangorra:

A vida sobe, a morte desce,

A vida desce, a morte sobe.

 

Alice, onde é a porta do espelho?

Estou preso na realidade.

 

A presença de tua ausência

Irreversível

Não me abandona.

 

Às vezes preciso

Fincar-me em mim

Para não sair do agora.

 

A liberdade nunca deve ser maior

Do que o que podemos fazer com ela.

Liberdade que sobra é inútil.

 

Ainda não vi o rosto

De um santo sorridente.

Sorrir é pecado?

 

Para preservar

O patrimônio do meu passado,

Tombei algumas memórias.

 

As lágrimas represadas

Apodrecem na alma.

 

O voo pequeno

Das aves na gaiola.

Asas frustradas.

 

No cemitério, o cão

Vigia a cova do dono.

Espera a ressurreição?

 

Os sonhos são como os cabelos,

Mesmo cortados,

Crescem de novo.

 

Na Natureza, não há sucatas:

Nós é que inventamos o inútil.

 

O cacto sempre armado

De espinhos.

Paranoia vegetal.

 

Este luar...

Este silêncio...

Perdi o endereço do meu corpo.

 

Ninguém paga

Pelo que faz em seus sonhos.

Eles prescrevem

Quando acordamos.

 

A gente nunca deveria

Desaprender de ser criança.

Ser adulto, dói.

 

Quando não me penso

Como corpo,

Sinto-me infinito.

 

Os medíocres escolhem

Ídolos para adorar.

Sem eles, nada são.

 

A guerra converte

A ferocidade em heroísmo.

O nacionalismo aplaude.

 

A mediocridade é um molde,

A que se ajusta

A maioria das pessoas.

 

Autores vivos e mortos

Moram nos seus livros

No condomínio das bibliotecas.

 

Desculpem-me os melancólicos,

Os saudosistas crônicos:

Não tenho vocação para ser triste.

 

Um novo dia

Nem sempre é um dia novo.

Pode já nascer velho.

 

Os braços querem ser asas.

Mas, os pés não entendem

Essa ambição.

 

A nossa espontaneidade

Pode aborrecer os outros

Que nos querem previsíveis.

 

Se a vida tem enredo

Sejamos, ao menos,

Um bom ator.

Afinal, a responsabilidade

É do autor.

 

Seria insuportável

Uma felicidade indivisível.

Bom são os pedacinhos delas

Espalhados em cada dia.

 

O caos urbano nos viciou.

Não suportamos mais

Uma vida tranquila.

Ficamos entediados 

Por carência de barulho.

 

Há pessoas com as quais

Não se pode dialogar:

Estão programadas

Como um computador.

 

A mídia fabrica medíocres

E é sustentada por eles.

 

Não precisamos de universos paralelos:

Já vivemos vidas paralelas.

 

O que a fama nos melhora?

Ela apenas incha o eu.

 

Anjos e demônios que conheço

Habitam a Terra.

 

A beleza embriaga:

Sou viciado nela.

 

Cada nova geração

Outra humanidade.

Nem sempre a melhor.

 

Só o presente tem chão.

O passado e o futuro não têm onde.

 

Uma árvore feliz

Está plena de folhas,

Flores e frutos...

E passarinhos.

 

Os pirilampos

São sonhos de estrelas,

Voando na escuridão.

 

O canto de um pássaro à janela:

Música com asas.

 

Imaginar é também

Uma forma de turismo.

Não necessitamos de guias.

 

O gênio é um erro

Na linha de produção

Das pessoas comuns.

 

Os pés do andarilho

Comandam o corpo.

 

Sou mais ilha do que continente.

O oceano me isola e protege.

Às vezes, me faço península.

 

Andar sem destino

É um modo de escolher

Lugar nenhum.

 

Gosto de brincar

Com paradoxos e absurdos.

A lógica é enfadonha.

 

O balouçar de um barco:

A sensação de esquecido berço.

 

O gênio é invisível

Aos olhos dos medíocres.

 

Tenho opiniões, não certezas.

Sinto-me livre para mudar.

 

Arriscar impossíveis.

A imaginação cria o inédito. 

 

Com as palavras

Fabricamos impossíveis.

 

Os átomos são deuses pagãos:

Estão em tudo

E não param de criar.

 

Doce pecado.

Salgada virtude.

Um causa diabete,

A outra, hipertensão.

 

Decepciono-me

De ainda me decepcionar

Do ser humano.

 

A Vida, qual Penélope,

Desfaz à noite

Tudo o que fez no dia.