DIARIO DE PERNAMBUCO

 

Recife, sexta-feira, 19 de março de 1982

 

Pesquisa investiga a paranormalidade dos pernambucanos

 

Fernanda d'Oliveira

 

Você é um paranormal? Há pes­soas que, uma vez na vida, passaram por uma experiência extraordinária e que marcou, profundamente, a sua personalidade. No entanto, em virtude de suas crenças religiosas, por medo do ridículo, ou por outros motivos quaisquer, jamais contaram, até mesmo aos amigos mais íntimos, o que lhes sucedeu. Alguns acharam que tudo não passou de alucinação, de mera coincidência, de produto da ima­ginação excitada. Outras, por sua vez, acreditaram que foram vitimas de um eventual acesso de loucura, passando, então, a temer a repetição de tão insólito fenómeno.

No entanto, há pessoas em que tais acontecimentos fantásticos pas­saram a ser uma rotina, uma parte fa­miliar de sua própria existência. Elas convivem com esses fenômenos, e nem por isso se julgam diferentes dos seus semelhantes. Tais pessoas são denomi­nadas de "médiuns”, e apenas se dis­tinguem dos indivíduos normais por uma espécie de sensibilidade especial de perceber aspectos incomuns e inédi­tos da realidade. O “médium” não é um ser incomum, mas uma pessoa que se familiarizou com o incomum e, por isso, já não se perturba ante a manifes­tação de fenômenos inabituais que se produzem por seu intermédio.

É bom, porém, que se esclareça que o fenômeno paranormal não é de natureza patológica. Ele apenas se constitui a revelação de que o homem é muito mais complexo do que se possa imaginar e que, portanto, possui certas faculdades ainda desconhecidas pela ciência. A verdade é que o grande pú­blico ainda permanece desinformado a respeito da fenomenologia paranormal, e muito pouco sabe a respeito da ciên­cia que tem por objeto e estudo desses fenômenos — a Parapsicologia.

Dos testes às pesquisas

Em Pernambuco, a única socie­dade científica que se dedica á pes­quisa parapsicológica é o Instituto Per­nambuco de Pesquisas Psicobiofísicas, fundado no dia 1* de janeiro de 1973, e filiado à Associação Brasileira de Parapsicologia — ABRAP. O I. P. P. P. tem a direção científica do seu funda­dor, o promotor público Valter da Rosa Borges, e é constituído por um grupo selecionado de pesquisadores, entre os quais Aécio Campello de Souza, Ivo Cyro Caruso, Geraldo Fonseca Lima, Selma Rosa Borges, Aderbal Pacheco e Arismar Lobo. O Instituto promove cursos de Parapsicologia, constando de aulas práticas e teóricas, além de cur­sos de meditação cora a finalidade de desenvolver as potencialidades do psi­quismo humano. Na última sexta-feira de cada mês são realizadas palestras públicas, com o propósito de promover a aproximação das pessoas interessa­das no assunto.

O I. P. P. P. realiza testes com pessoas desejosas de averiguar se são portadoras de faculdades paranormais ou “mediúnicas”, e pesquisa os casos que sugerem a emergência de fenôme­nos dessa natureza. Investiga, por­tanto, as ocorrências de “aparições”, ligadas ou não a locais ou casas "mal assombradas”, ou casos de “obsessões” e "possessões”, assim como os de “lembranças de vidas pretéritas”, e tantos outros fenômenos incomuns, mas que perturbam, física e psiquica­mente, as pessoas porventura neles en­volvidas. E, por fim, o Instituto oferece orientação de apoio terápico nos casos de perturbações decorrentes da emer­gência descontrolada de certos tipos de manifestação paranormal. Semanal­mente, o Instituto realiza, em caráter privado, sessões experimentais de de­senvolvimento psíquico programado, treinando médiuns e pesquisadores na utilização e no controle dos fenômenos parapsicológicos.

Conhecimento do futuro

Segundo informa o diretor cientí­fico do I. P. P. P., a faculdade paranor­mal não deve ser avaliada como "um capricho psíquico ou uma atividade su­pérflua do espírito humano. Ela tam­bém apresenta um caráter pragmático, podendo ser utilizada como instru­mento auxiliar de pesquisa, em certas circunstâncias especiais. Médiuns como Gerard Croiset e Peter Hurkos, quando esgotados todos os recursos convencionais, são solicitados pela política para descobrirem o paradeiro de pessoas desaparecidas, com resulta­dos positivos na maioria dos casos”. Lembra, ainda, que um melhor conhe­cimento do mecanismo da telepatia pode ensejar a sua utilização, em situa­ções específicas, quando imprestáveis os recursos materiais de comunicação, como ficou exemplificamente de­monstrado na célebre experiência do astronauta Edgard Mitcheel, da nave Apoio XIV, em 1971.

“O conhecimento antecipado do futuro, isto é, a precognição, pode sal­var muitas vidas, principalmente se se trata de acontecimentos da natureza. O extraordinário telepata Wolf Messing, deixando-se guiar por forte pres­sentimento, cancelou todos os espetá­culos que ia realizar na cidade de Ashkhabad, a qual, dias depois, foi destruída por um terremoto, que ma­tou cinquenta mil pessoas. Messing teve esse pressentimento quando cami­nhava pelas ruas da cidade si­nistrada”.

Além desse exemplo, Rosa Borges conta que a grande vidente Jeanne Dixon previu, com anos de antecedência, os assassinatos de John Kennedy, Ro­bert Kennedy e Martin Luther King. Por causa de fenômenos como estes foi fundado, em 1967, em Londres, para coleta de informações premonitórias. o British Premonitions Bureau e, no ano seguinte, uma entidade similar foi criada na cidade de Nova Iorque. No Recife, o Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas criou o seu Departamento de Precognição, com a finalidade de não apenas registrar e constatar os fatos precognitivos, mas também de analisar as peculiaridades de sua incidência.

Paranormalidade em Pernambuco

Por isso, o I.P.P.P. iniciou uma ampla pesquisa pública com a finali­dade de realizar um levantamento es­tatístico da geografia paranormal do Estado de Pernambuco, e principal­mente, do Grande Recife. "Ê preciso — enfatiza Rosa Borges — que as pes­soas que apresentam talento paranor­mal se conscientizem da necessidade de utilizar este seu potencial para fi­nalidades altamente práticas e criati­vas. A mente humana não está limi­tada ao apriorismo tempoespacial. E o homem, até o momento, só vem utili­zando a sua inteligência a nível super­ficial, reduzida ao estado altamente seletivo da vigília. Por isso, é neces­sário ampliar o território da nossa ati­vidade mental, hipertrofiando a área da nossa consciência pela assimilação de certas atividades psíquicas muito próximas da orla dos processos cons­cientes”.

A pesquisa do Instituto se reveste, assim, de suma importância para a Parapsicologia no Brasil, principal­mente agora, às vésperas do III Congresso Nacional de Parapsicologia e Psicotrônica, a se realizar no próximo mês de julho, no Rio de Janeiro, e para o qual, mais uma vez, o I.P.P.P. foi convidado a participar, representado por seus diretores, Valter da Rosa Bor­ges e Ivo Cyro Caruso. “Se o leitor qui­ser colaborar nessa pesquisa — ressalta Rosa Borges — basta responder o ques­tionário abaixo, precisando, sempre que possível, o local, ano, mês, dia e hora, como também as circunstâncias em que ocorreram os fenômenos ali descritos, enviando a correspondência para a sede do Instituto, na rua da Concórdia, 372, salas 46 e 47. É possí­vel, leitor, que você seja um paranor­mal, um médium, e ainda não saiba”.

Eis os itens da pesquisa pública para posterior preenchimento:

Nome, idade, profissão e en­dereço.

1) Você é capaz de adivinhar o que uma pessoa vai dizer, antes mesmo que ela fale o que você pensou?

2) Você é capaz de sentir o que se passa com uma pessoa de suas rela­ções, seus pensamentos, seu estado de saúde, suas emoções, mesmo que ela se encontre ausente?

3) Você é capaz de adivinhar o que lhe vai acontecer?

4) Você é capaz de adivinhar o que vai acontecer a outras pessoas?

5) Você é capaz de adivinhar os fa­tos naturais que irão acontecer, tais como terremotos, furacões, erupções vulcânicas, etc?

6) Você já teve sonhos de aconte­cimentos, os quais, depois de algum tempo, se tomaram reais, como se você tivesse sonhado com o futuro?

7) Você, ao menos uma vez, já , teve a forte impressão de que já viveu " antes?

8) Você, ao menos uma vez, já passou por lugares ou viveu situações que lhe deram a forte impressão de uma experiência repetida?

9) Você já foi “tomado” pela per­sonalidade de uma pessoa já falecida, passando a falar, a sentir, enfim, a se comportar como se fosse essa pessoa?

10) Na sua infância, notadamente até aos 7 anos de idade, você  apresentou fenômenos incomuns e que chamavam a atenção de seus pais e fa­miliares?

11) Você já viu alguma "apari­ção”, seja de pessoa morta ou seja de pessoa viva e ausente?

12) Você já se viu "como se” esti­vesse fora do seu corpo? Como se a sua consciência estivesse em outro corpo, em quase tudo semelhante ao corpo físico?

13) Você é capaz de, mesmo in­voluntariamente, exercer uma ação fi­sicamente inexplicável sobre seres vi­vos, afetando a saúde das pessoas, fa­zendo adoecer animais domésticos ou destruindo a vitalidade das plantas, murchando-as, como se possuísse uma “força”, popularmente conhecida pelo nome de “mau olhado”?

14) Você é capaz de, ao menos aparentemente, curar pessoas e até animais, utilizando-se de meios não con­vencionais, como aplicação de "pas­ses” ou recitação de “reza forte”?

15) Você é capaz de, psiquica­mente, mover objetos ou deformá-los?