POLÍCIA CAÇA FANTASMAS

JORNAL do Commercio, 29 de maio de 1989

 

O projeto de mobilizar policiais em busca dos fantasmas, que parecia suspenso depois da exonera­ção do general Evilásio Gondim, será retomado agora pelo secretário de Segurança Almeida Filho. Já há uma equipe técnica estudando o projeto e logo sairá um parecer conclusivo. O repórter Kaike Nanne caiu em campo e ouviu o cientista Valter Rosa Borges (ex-materialista, ex-Rosa-Cruz, ex-espírita e agora promotor público). Borges está certo de que é tudo papo furado. "Não há mortos fazendo assombrações, mas pessoas vivas; não tem Satanás nem espírito querendo se comunicar". Mas que a po­lícia vai trabalhar no tema, vai. (Última Página)

 

Gasparzinho, Pluft e toda raça de fantasminhas estão com os dias contados. Agora, até os tiras estão de olho neles.

Kaíke Nanne

Não consta que o general Evilásio Gondim costu­masse caçar fantasmas. É certo, porém, que seu interesse por "assombrações" superava os limites da mera curiosidade. Preocupado como deveria pro­ceder a Polícia Civil caso um maldoso fantasminha fosse pego e autuado em flagrante delito — o que seria, ao mesmo tempo, uma complicada questão para a Justi­ça — o então secretário da Segu­rança Pública resolveu tomar sé­rias medidas. Da sala 8 X 8 no segundo andar da SSP, que ocu­pou de março de 87 a janeiro deste ano, Gondim expediu cir­cular às delegacias, determinan­do que "todos os casos de as­sombrações, fantasmas ou coisas semelhantes, fossem investiga­dos por especialistas".

Nem tão distante assim do tempo da "caça às bruxas", o general resolveu instituir a caça aos fantasmas, a partir de um projeto elaborado pelo Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas, o IPPP. "Os poli­ciais simplesmente não sabiam o que fazer quando chegavam nu­ma casa e viam garrafas voando e se espatifando na parede ou cadeiras se mexendo sozi­nhas...", revela a doutora Olga Câmara, assessora de ensino da Academia de Polícia Civil, que analisou o projeto do IPPP e o apresentou ao general Gondim.

A proposta de capacitar agentes de polícia a extermina­rem com os mal assombros, deixou entusiasmado o general. Pouco tempo depois, a equipe do Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas dava palestras a dele­gados, peritos e agentes, expli­cando que o “capiroto” não sai­ria dos seus cuidados, no Infer­no, para atormentar ninguém por aqui. Os parapsicólogos, então, contraindicaram a prática a que os policiais habitualmente recorriam: a recomendação de que pessoas envolvidas no caso procurassem um centro espírita ou um terreiro de umbanda.

Ficou estabelecido qualquer fantasma/arruaceiro seria notificado às delegacias de plantão que, por sua vez, acionariam Os Caça-fantasmas. Poli­ciais treinados tomariam as pro­vidências imediatas - "os pri­meiros socorros" - até que os especialistas do IPPP chegassem.

O Projeto de Investigação e Treinamento em Parapsicologia nas Atividades de Polícia previa, ainda, a realização de uma bate­ria de testes com agentes, bus­cando identificar aqueles que ti­vessem aptidões paranormais. Esses indivíduos seriam prepara­dos para utilizarem seus recursos parapsicológicos na investigação alternativa de crimes misteriosos e na localização do paradeiro de pessoas desaparecidas.

"Fenômenos paranormais como a Psicometria — que é a capacidade, de, apenas, tocando um objeto, fornecer detalhes sobre a pessoa que o possui - ou a precognição - habilidade para pre­ver acontecimentos — seriam ferramentas a mais nas investi­gações, quando utilizados por policiais treinados", explica o presidente do IPPP, o parapsicólogo Valter da Rosa Borges, 55. "Os serviços secretos dos Esta­dos Unidos e da União Soviéti­ca, a Cia e a KGB, já há muito tempo recrutam paranormais pa­ra utilizarem suas habilidades a serviço da espionagem internacional. No Brasil, nosso projeto — que propunha um convênio com a Secretaria da Segurança Pública - é pioneiro", orgulha-se Borges, para logo depois lamentar o fato de o projeto encontrar-se, atualmente, empoeirado em algum armário da SSP.

Borges revelou que o gene­ral Gondim teve que superar muitos entraves, dentro do Go­verno, para dar o pontapé ini­cial do que seria, posteriormente, um convênio entre a insti­tuição científica e a Secretaria. O Instituto iria entrar com os re­cursos técnicos e o Governo com as despesas operacionais. O en­tusiasmo era tanto, que até a as­sessora de ensino da Academia de Polícia, Olga Câmara, ingres­sou no curso de pós-graduação em parapsicologia ministrado pe­lo IPPP. "Mas aí o general Gondim foi exonerado do cargo e o projeto estancou", lembra Bor­ges.

Entretanto, sem usar de precognição, é possível prever a breve concretização do projeto Caça-fantasmas e Investigações Parapsicológicas. É que o atual secretário da Segurança Pública, o deputado Almeida Filho, mos­tra-se tão interessado quanto o general Gondim: "Nós já temos uma equipe técnica que está es­tudando o projeto e deverá emi­tir parecer tão logo concluam as avaliações", disse Almeida Fi­lho, que pode vir a ser mais um caça-fantasma.