Só a Busca é Definitiva

 

Textos Seletos

 

Não garanto a certeza, mas apenas a sinceridade do que afirmo.

Creio no que digo agora, mas não comprometo o amanhã com a minha mais firme convicção de hoje.

Temos o dever de respeitar tudo o que não é como nós.

E temos o direito de preferir tudo o que é como nós.

A pobreza do homem não está no pouco que possui, mas na quantidade de coisas de que necessita.

Pobre é aquele que de muito necessita

Não existe o fato puro. Todo fato está carregado de significado.

Um fato só existe para o universo hominal quando se reveste de significado. 

A utopia não é só a negação de um sistema vigente: pode ser também uma antecipação do futuro.

A utopia força o futuro, ampliando as opções existenciais.

Muitos fatos concretos são filhos de uma mãe abstrata - a imaginação.

A fé é a mãe do fato.

Os fatos do universo humano - aqueles que pareciam impossíveis - são filhos da fé dos homens geniais.

Ninguém se sacrifica por fazer o que gosta.

Sofrer é fazer o que não se quer.

Para quem faz o que não quer, até uma flor é pesada

 Casamento: duas pessoas que vivem juntas na ilusão de que ainda são as mesmas.

Por que alguém nos deve fazer felizes?

Se não nos fizermos felizes, ninguém mais no mundo poderá fazê-lo.

É sempre necessário o sacrifício do aprendizado para se alcançar a satisfação da competência.

 Poucos resistem ao fascínio de obter sucesso e ao fascínio do sucesso, quando obtido.

 Eu não procuro o meu lugar no mundo: o meu lugar sou eu.

 Quem procura um lugar ao sol, assume o risco de projetar uma sombra ao seu redor.

Termos inimigos é inevitável.

Porém de nós depende não ser inimigos de ninguém.

           Extraordinário é o homem que conseguiu ser natural.

Amamos o saber ou, na verdade, amamos o poder que o saber nos dá?

Fazemos coisas pequenas, porque temos medo de tentar fazer as coisas grandes. E, muitas vezes, elas não são grandes para nós. Nós é que, deliberadamente, diminuímos para elas.

A História ensina que, raramente, os homens lutam por verdadeiras causas, mas, sim, por simulados pretextos, rotulados de causas.

O egoísmo não se destrói - é o instinto de conservação do ser.

O altruísmo não é a negação do egoísmo, mas a sua expansão. Prorrogamos o nosso instinto de conservação para os seres que amamos e até mesmo para a própria humanidade.

O egoísmo é o viver mínimo para si.

O altruísmo é o viver máximo com os outros.

Só somos contraditórios quando agimos agora de maneira diversa do que pensamos ou sentimos.

Nunca somos contraditórios quando agimos agora de maneira diversa do que agimos ontem.

A incoerência não é a diversidade entre o ontem e o hoje, mas o divórcio entre o ser e o agir em cada situação concreta.

Nem sempre é possível libertarmo-nos dos fatos, mas, sim, das idéias que temos sobre eles.

O mundo não é só como o percebo, mas como penso.

Na verdade, não vejo o mundo, mas vejo-me no mundo.

O meu interior também está lá fora.

A nossa experiência externa nos enriquece por dentro.

Nós nos alimentamos do mundo.

Os nossos deslocamentos espaciais são oportunidades de semeadura íntima.

O exterior enriquece o interior e este se projeta sobre aquele, revestido e revestindo-o de novas significados.

O mundo externo é o mundo dos fatos, e o mundo interno, o dos significados. Só os fatos traduzidos ou interpretados se tornam realidades para o homem.

O real é sempre novo.

O passado é que envelhece o nosso olhar.

O real é sempre hoje: nós é que somos ontem.

Há coisas que não podem ser explicadas, mas vividas sem explicação.

A explicação apenas nos dá a ilusão de desfazer o mistério e nos priva do encanto de saborear o mistério.

Uma coisa inexplicável se torna cada vez mais confusa quanto mais tentamos explicá-la.

Aceitar que uma coisa é inexplicável é ver claramente a sua inexplicabilidade.

           Afinal, quem é livre dos outros?

Se em nada nos seguramos, nada nos segura.

Todo o visgo está em nós.

A liberdade real é o desapego à segurança.

            A mão que segura deixou de ser livre.

Não se obrigar a se obrigar.

Não se obrigar a não se obrigar.

            Há duas formas de escravidão: a escravidão às coisas e a escravidão às idéias.

Livre pensador é aquele que está livre até de suas próprias idéias.

O apego é a maior escravidão.

Aquele que se apega, renunciou ao direito de liberdade.

Pregamos o desapego aos bens materiais, mas permanecemos apegados aos livros e às idéias.

Apenas trocamos um apego pelo outro.

Ou melhor: trocamos um apego que classificamos de inferior por outro que chamamos de superior, porque essa forma de apego gratifica a nossa vaidade.

Renunciar não é privar-se das coisas, mas desapegar-se delas.

O mundo do homem não é dos fatos, mas dos significados.

Os fatos, como tais, nada são para os homens.

Os fatos são ocasiões para os significados.

Podemos viver sem fatos. Não podemos viver sem significados.

Os mitos substituem os fatos de que necessitamos.

O que chamamos de mundo objetivo nada mais é do que um acordo de subjetividades.

            Há pessoas que tratam os amigos como se fossem seus piores inimigos, tomando-lhes o tempo, o dinheiro, as alegrias e fazendo-os depositários de seus problemas, amarguras, frustrações e ressentimentos.

Fé é certeza subjetiva. É confiança na existência daquilo que não se vê.

Fé é a confiança que dispensa provas

A fé é a maior aventura existencial.

Para os fracos, ela constitui abrigo, segurança.

Para os fortes, a fé é uma aposta, uma aventura arrojada, um mergulho no Desconhecido.

A fé do fraco é acomodação às circunstâncias, sujeição ao que se julga imutável.

A fé do forte é a certeza da superação de todas as circunstâncias, de algo maior do que as limitações do presente, a antecipação de um futuro aparentemente improvável.

Tem razão Kierkegaard: “Sem risco não há fé e quanto maior o risco tanto maior a fé”.

A fé não é a afirmação do absurdo, mas a conscientização de que o absurdo é não ter fé.

A lógica é tautológica, pois procura provar o que, implicitamente, já provou.

A lógica é o metro do próprio homem.

Por isso, não pode medir o que ultrapassa a condição humana.

A lógica pode representar um instrumento de controle da realidade, satisfazendo, ao mesmo tempo, a nossa necessidade intelectual de segurança.

Por isso, o inédito nos perturba: abala a nossa confiança na onipotência da lógica e no domínio que pretendemos impor à própria vida.

A ciência é um tipo especial de fé.

Nós acreditamos na ciência, apesar de todos os seus erros e mudanças.

Saber é um faz de conta, um como se. É um jogo que, inadvertidamente, levamos a serio.

Inventamos o jogo do saber, criamos suas regras e queremos que a vida se sujeite ao nosso jogo.

A ciência também pode ser um ópio, quando acreditamos que ela possa solucionar, mais cedo ou mais tarde, todos os problemas da humanidade.

A ciência parte da dúvida, se constrói na dúvida e duvidosamente permanece nas suas conquistas mais sólidas.

A essência da ciência é a dúvida permanente do conhecimento e a certeza provisória dos seus postulados.

A ciência é inconclusa.

A religião parte da certeza. E permanece na certeza no meio de todas as incertezas.

A fé afirma no meio de todas as negações. Não vive da comprovação de fatos, mas do exercício de valores. Jamais duvida. Age sempre.

A ciência dogmatiza pela dúvida, porque acredita na instabilidade dos fatos.

A religião dogmatiza pela fé, porque acredita na perpetuidade dos valores.

O amor é como a religião: precisa de rituais e de mistérios.

Amamos nos outros mais aquilo que pensamos que eles são do que aquilo que realmente eles são.

O tempo vale pelo que se faz nele.

A vida vale pelo que se faz no tempo.

Nem sempre o que pensaremos amanhã é necessariamente melhor do que o que pensamos hoje.

O tempo nada transforma: o tempo é transformação.

O tempo nada muda: o tempo é a própria mudança.

Só sentimos o tempo quando relacionamos nossas mudanças com as mudanças de outros seres e de outras coisas. Assim, o tempo comum é o resultado da relação entre unidades de mudança - seres e coisas.

Devagar e depressa só existem na comparação entre dois sistemas e suas mudanças, dado um referencial de mudança.

Quem vive o presente não tem esperança. Esperança é a espera de um lugar para quem perdeu o seu lugar no presente. É a substantivação do verbo esperar: a expectativa de uma ação.

Quem é feliz não tem esperança. Quem é feliz ocupou o presente. O presente é o reino dos céus: não tem tempo, nem espaço. O reino dos céus nunca virá, nem veio - ele é.

A felicidade é a conquista do presente. O presente plenamente ocupado é a felicidade: não há esperança, não há medo, não há expectativa, não há sofrimento, porque não há tempo. O reino dos céus é a negação do tempo.

Quem perdeu a esperança se desespera, porque perdeu o que julgava, um dia, factizar-se.

Quem não tem esperança jamais se desespera, porque não pode perder o que nunca teve.

            A paz é a consciência de que, essencialmente, só somos necessários a nós mesmos.

            Crer em Deus é afirmar, definitivamente, a nossa fundamental incapacidade de compreendê-Lo.

             Não creio porque é absurdo, mas porque é absurdo provar o que está infinitamente acima da minha compreensão.

A razão é impotente para provar a existência ou a não existência de Deus.

Aquele a quem couber, numa aposta, fazer essa prova, perdeu a aposta.

Nunca viver além da conta.

Morrer na medida exata.

Enquanto a vida de um homem é necessária, ele tem o dever de evitar, por todos os meios, a sua morte.

Quando, porém, a morte se faz necessária, ele nada deve fazer para lutar pela vida.

O que chamamos de ato de coragem pode ser, algumas vezes, uma disfarçada tentativa de suicídio. O suicida, assim, procura valer pela morte aparentemente heróica o que nunca conseguiu valer durante a vida.

A morte nada significa: ela é a extinção de todos os significados.

Eu sobrevivo na transformação e não na continuação do que sou.

Não há busca para algo definitivo.

Só a busca é definitiva.