Em Defesa do Superdotado

 

Jornal do Commercio, 9 de julho de 1987

 

Caderno C

 

Flávia de Gusmão

 

            “Muitos se lembram do "Caso do edifício Paris", na avenida Cruz Cabugá, onde, no ano passado, sem qualquer explicação aparente, garrafas, frascos de remédios, e outros objetos de vidro pipocavam no ar ou erguiam‑se movidos por uma força invisível e espatifavam‑se de encontro às paredes do apartamento.

            Poucos, entretanto souberam do desfecho do acontecimento. A imprensa e os curiosos foram mantidos a uma distância cautelosa pelos zeladores do prédio a pedido dos proprietários do apartamento afetado pelo fenômeno. Na verdade, o episódio que inicialmente tomou conotações sobrenaturais e trouxe no seu rastro exorcizadores, pais do santo, médiuns, padre e pastor evangélico foi resolvido por pesquisadores que descartam o além de tais acontecimentos e a eles se referem como fenômenos originados exclusivamente pela mente humana: os parapsicólogos

      Casos como este são encarados com seriedade científica pelo Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas‑ I.P.P.P ‑ fundado em janeiro de 1973 e declarado de utilidade pública através da Lei Estadual n° 9.714. 0 I.P.P.P. é uma sociedade civil de natureza científica e sem fins lucrativos, que tem por finalidade o estudo e a pesquisa dos fenômenos paranormais, como também a divulgação da Parapsicologia.

      Centros de interesse do Instituto, o paranormal e o seu dom são investigados cuidadosamente pelos pesquisadores. A paranormalidade, explica o presidente do I.P.P.P. Valter da Rosa Borges, pressupõe um talento inato para determinada(s) atividade(s) que quando bem orientado e aproveitado pode trazer inúmeros benefícios para o indivíduo e a sociedade de um modo geral.

     Pensando dessa forma, foi que o Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas firmou um convênio com a Secretaria de Educação de Pernambuco, ainda no governo anterior, no sentido de proporcionar condições, ao corpo docente da rede estadual de ensino, de identificar os alunos superdotados ou paranormais e, posteriormente, encaminhá‑los a uma orientação mais condizente com a sua característica.

     O projeto que chegou a nascer e vingar até a etapa referente a orientação dos professores, no entanto, se encontra estacionado no limbo típico de mudança de governo: a atual Secretaria de Educação, ainda não se posicionou quanto a continuação do curso durante o governo Arraes. Uma proposta também sem resposta, de ampliação deste serviço prestado pelo IPPP foi encaminhada à Secretaria de Trabalho e Ação Social, visando a conscientização da população de baixa renda, via CSUs, quanto a existência de eventual paranormalidade no seio da comunidade. O programa tentaria evitar práticas supersticiosas que poderiam trazer prejuízos, inclusive, à saúde do paranormal.

 

Paranormal ou Superdotado?

 

            Uma criança que aprende tudo com uma rapidez impressionante certamente é uma criança muito inteligente. Se ela é superdotada ou não, só testes específicos que medem seu coeficiente de inteligência poderão afirmar com total segurança. Na palavra "aprender" é que reside a diferença básica entre um superdotado e um paranormal. O paranormal não necessita de aprender nada. No seu inconsciente já reside toda a criatividade para, por exemplo, tocar "perfeitamente" um instrumento sem sequer ter aprendido as notas musicais, ou, pintar como um expert na primeira vez em que manuseia pincel e tintas. "É preciso ressaltar que a paranormalidade não é ter jeito para alguma coisa mas executar com perfeição uma atividade nunca antes desempenhada", destaca Rosa Borges. Por ser uma modalidade de superdotalidade, o paranormal é muito mais raro do que o superdotado propriamente dito. Crianças que parecem adivinhar fatos que realmente acontecem devem ser examinadas mais atentamente por seus mestres, completa o pesquisador.

     No caso específico da paranormalidade, a criança deve ser conduzida para encarar seu dom com naturalidade. A histeria e o pavor, principalmente por parte dos pais e familiares só servirá para aumentar o receio que geralmente acompanha estas experiências. Este potencial se não for trabalhado, adverte Rosa Borges, vai-se enferrujando com o tempo e, caso venha a se desenvolver, será feito de forma empírica e não científica.

            De uma certa forma, o projeto elaborado pelos pesquisadores do I.P P.P parece desaguar no nada. O reconhecimento e orientação dos paranormais e superdotados é, sem dúvida, um avanço na área educacional. No entanto, a identificação deve ser seguida de instalação da criança superdotada em uma  escola especializada, onde ela possa desenvolver em sua plenitude o seu potencial. Escolas deste tipo, explica Borges, requerem um material humano muito especial. Os professores para superdotados devem ter QIs altíssimos para que possam exigir e obter respostas de seus alunos que, por contingência de suas características específicas são crianças com um nível surpreendente de curiosidade, perspicazes ao extremo e que, sem dúvida, encurralariam um docente  menos preparado. Na opinião do presidente do I.P.P.P. esta escola  deveria funcionar extracurricularmente como complemento dos estabelecimentos normais de ensino, como uma forma de "gastar" o que não foi aproveitado pelas classes convencionais.

      Num país onde se luta para dar condições básicas como saúde, educação e moradia à grande parte da população, uma escola que abrigasse gênios  ou quase isso, poderia parecer utopia. No entanto, defende Borges, O Estado não pode desprezar um material humano de altíssima qualidade que é constantemente embotado pela falta de escolas adequadas. Estas mentes privilegiadas muitas vezes não estão nem num “corpore sano”, uma vez que este dom ocorre de forma aleatória sem distinção de raça, credo ou condições sociais dificultando, mais uma vez, aos menos favorecidos economicamente, a exploração de um potencial que a natureza lhe deu de graça.