UM INSTITUTO PESQUISA OS FENÔMENOS PARANORMAIS

 

Diário de Pernambuco, 30 de outubro de 1977.

 

Textos  e fotos Antônio Magalhães

 

Em duas salas conjugadas num prédio da rua da Concórdia (n9 772) se estudam os fenómenos Paranormais e suas implicações. O ambiente é claro, como o interesse dos 15 sócios do "Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas", não há mágicas, nem truques na sua metodologia. Predomina o "espírito científico", frisa sempre seu diretor, o advogado Valter Rosa Borges.

- E o único instituto no Recife a se interessar cientificamente pelos fenômenos paranormais -diz Rosa Borges -. Muitas vezes, quando as pes­soas sentem qualquer manifestação desse tipo procuram imediatamente os Centros Espíritas ou templos católicos para aconselhamento e não sa­bem que esses lugares podem apenas dar-lhes as­sistência espiritual. O lado científico do fenômeno não é esclarecido, exatamente o trabalho do nosso instituto.

Das muitas pessoas que procura­ram a entidade apresentando sinto­mas de paranormalidade, nada ficou constatado de excepcionalidade nas manifestações, segundo Rosa Borges, "ao contrário, psicoses, neuroses e problemas existenciais foram confun­didos com esses fenômenos. Desde 1973, quando o nosso grupo resolveu fundar o Instituto, não descobrimos nenhum fenômeno paranormal nos casos que consultamos."

Dois testes fazem parte do in­quérito inicial para detectar a paranormalidade: "Logo de início faze­mos uma entrevista com a pessoa que nos procurou para saber da possibili­dade ou não de uma investigação mais profunda sobre o caso. Passada a primeira fase, sem ficar constatado outros tipos de problemas que clara­mente interfeririam nas manifesta­ções paranormais, damos as condi­ções ambientais e psicológicas para que o fenômeno se manifeste. Para daí vir uma conclusão".

É médium ou não? Para Valter Rosa Borges o "médium não apre­senta características especiais, que o diferenciem das outras pessoas, e, em via de regra, é um ser normal. Alguns parapsicólogos admitem que todo médium é impressionável, o que não importa na recíproca de que toda pes­soa impressionável seja médium. Os grandes médium são raros. São como os gênios que aparecem, esporadicamente, na história da Humanidade. Por isso Robert Tocquet admitiu que o aparecimento dos grandes médiuns se acha submetido a uma espécie de ritmo, provavelmente suscitado ele próprio por ciclos terrestres e cósmi­cos". A ação paranormal, em regra, não resulta da vontade consciente do médium - esclarece Rosa Borges -Na quase totalidade dos casos ele re­vela uma intencionalidade e uma ca­pacidade operacional além das possi­bilidades humanas normais.

Como ocorre a ação Psi (mani­festação do fenômeno), segundo o diretor do Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas:

-  O agente ou médium pode es­tar em aparente vigília, sonhando, em transe, em iminente perigo de vida, em extrema debilidade orgânica ou sob  indução  psicométrica. Acontecendo, na sua maioria, na escuridão, certos fenômenos paranormais se tornam vulneráveis à arguição de fraude.

Porque tanto medo diante dos fenômenos paranormais ou parapsicológicos? Há sobrevivência de­pois da morte? Já existimos antes de nascer? Há fraude, há mentira, há o desconhecido?...

Para Valter Rosa Borges, não há porque relegar a sobrevivência extracorpórea a uma simples superstição. "O Homem não é apenas uma estru­tura biológica, é também uma estru­tura mental e não pode ser reduzido a uma simples manifestação fisioló­gica. O que há é um preconceito quanto à sobrevivência extracor­pórea, o medo do desconhecido. Pri­meiro, quero esgotar as explicações científicas, para me pronunciar sobre a sobrevivência extracorpórea"

DP - E a fraude?

VRB- É o cavalo de batalha daqueles que negam, totalmente, os fenômenos paranormais, ou que apenas admi­tem os que mais lhes convém e se ajustam melhor aos seus preconceitos filosóficos  e/ ou  científicos, acres­centa Rosa Borges.

E diz mais: "na verdade, as frau­des são mais alegadas do que prova­das. Para os negadores sistemáticos, basta a suposição de que um médium poderia ter escamoteado um determi­nado fenômeno desta ou daquela ma­neira, mesmo à míngua do menor indício que autorize tal hipótese, para que a prova da fraude fique in­discutivelmente estabelecida. Não há de negar: médiuns famosos fraudaram. Porém, nem todos fraudaram. E os que fraudaram, nem sempre o fize­ram todas as vezes, pois se fraudas­sem sempre, não seriam médiuns".

Segundo o estudioso em Parapsi­cologia, "Ochorowicz já advertia que o inconsciente é  amoral e inteira­mente fisiológico. Ele obedece às su­gestões e ordens recebidas     mesmo telepaticamente e se utiliza de todos os meios para lhes dar cumprimento. Tal comportamento do médium, sob a ação do seu inconsciente, é interpretado por pesquisadores neófitos ou inábeis como evidência de fraude. Tinha razão Gustave Geley,   quando asseverou que fraude inconsciente não é fraude, pois, em estado de transe, o médium é  suscetível de  aceder, automatica­mente, às sugestões verbais ou mentais dos pesquisadores".

E cita o caso do conhecidíssimo Uri Geller, médium milionário por suas exibições em todo o mundo:

- Não existem pessoas que ganham dinheiro com seu corpo. Nós não ganhamos dinheiros utilizando nossa mente? Por que Uri Geller não pode comercializar seus dons mentais e paranormais? Existe um precon­ceito religioso, castigando aqueles que usam esses dons que, segundo os crentes, são dons dados por Deus.

Outro acusador frequente de fraudes dos fenômenos paranormais, diz Rosa Borges, é o padre Quevedo, "que vê essas manifestações com uma ótica cristã radical".

"Para Quevedo, segundo Rosa Borges, os poderes paranormais se­riam resquícios do poder do Homem no Paraíso, antes de sua queda na Terra. O padre, como militante reli­gioso, está apenas querendo comba­ter o espiritismo de uma maneira passional. É uma atitude anticientífica".

É possível controlar os fenômenos paranormais?

VRB - E um fenômeno espontâ­neo, mas controlável até certo ponto. Por exemplo, a NASA - Centro de Aeronáutica Americano - utilizou a tele­patia nos vôos tripulados à Lua. O médium aprende a usar sua "ener­gia" na medida em que se conscientiza da sua força mental. O que falta ainda é que esses fenômenos sejam estudados nas escolas de Medicina e Psicologia, para situar os futuros psi­quiatras e psicólogos dentro do uni­verso da paranormalidade para não acontecer, como acontece agora, um total desconhecimento das manifestações paranormais, atribuindo sem­pre a problemas meramente psicoló­gicos e não parapsicológicos.

DP - Você disso antes que os fenômenos paranormais sugerem for­temente a sobrevivência extracorpórea. Por que não nos lembra­mos de existências anteriores à nossa admitindo-se a pré e pós existência?

VRB - Há uma separação entre a mente e o cérebro. Temos uma me­mória extracerebral que funciona como arquivo, mas sabe-se que a nossa memória é seletiva e só os fatos marcantes, com utilidade presente, ficam em nível consciente. Daí as pes­soas normais não terem consciência desses dados. Na criança, que pelo menos até aos sete anos vive mais fe­chada para o mundo, sem influências externas, pode acontecer fenômenos paranormais com mais frequência. Mas geralmente, quando isso acon­tece, ela é levada ao ridículo, em uma família católica, ou estimu­lada a fabulações de ordem mediúnicas – em uma família espírita. Nos dois casos são atitudes antagônicas e difíceis de estudar.

Valter Rosa Borges finaliza: "A Parapsicologia é uma nova abertura para o entendimento da realidade do Homem".

Valter Rosa Borges se interessou pe­los fenômenos paranormais ao ler o livro "Par­naso do Além-Túmulo" do médium Chico Xavier, aos 20 anos de idade. Hoje, aos 44  já leu todas as obras referentes ao assunto em português e boa parte em espanhol. Autor do livro "Introdução ao Paranormal" é também diretor do Instituto Per­nambucano de Pesquisas Psicobiofísicas.