UMA COISA DO OUTRO MUNDO?

 

Jornal do Commercio. 17 de dezembro de 1986.

 

Valter da Rosa Bor­ges, em entrevista para o JORNAL DO COMMERCIO, explica, em linhas gerais, as ba­ses dessa ciência  fascinante e ainda   desconhe­cida por muitos.

P — Existe alguma diferença entre a Para­psicologia e o Espiritis­mo?

R — A Parapsicolo­gia é uma ciência, nasci­da oficialmente em 1953, e tem por objeto a inves­tigação dos fenômenos paranormais.

O Espiritismo, por sua vez, é uma doutrina que segundo seu fundador Allan Kardec, trata da natureza, destino e origem dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal. A Parapsicologia es­tuda os fenômenos ex­traordinários da mente humana como telepatia, clarividência, precognição e psicocinesia e, portanto, lida tão so­mente com o homem vi­vo. Assim não é de sua competência discutir as questões ligadas à sobrevivência, à comunicação entre vivos e mortos e à reencarnação. O parapsicólogo, por conseguinte, pode ser espírita, católi­co, protestante ou mate­rialista. O que ele não po­de é misturar suas con­vicções religiosas ou filo­sóficas com as pesquisas parapsicológicas.

P — Dizem que o homem só está utilizando 30% dos seus poderes mentais. O que se deve fazer para que ele desen­volva a totalidade destes poderes?

R – Inicialmente  é preciso que se esclareça que esta afirmação não tem qualquer base cientí­fica. Não sabemos qual a capacidade total da men­te humana e, em conse­quência, é rematada toli­ce estabelecer percen­tuais sobre a utilização de suas potencialidades.

Não sabemos os li­mites da mente humana, o que não quer dizer que o nosso psiquismo tenha poderes ilimitados. O que nos cabe fazer é uti­lizar, pragmaticamente, as nossas potencialidades psíquicas, mediante treinamento dirigido e siste­mático, nos moldes dos melhores laboratórios de Parapsicologia. Essas técnicas, porém, variam de conformidade com o tipo de paranormalidade apresentado pela pessoa e também na conformidade de suas característi­cas psicológicas.

P — Sabe-se que a Parapsicologia está muito desenvolvida em países como os Estados Unidos e a União Soviética. E no Brasil, como está a Parapsicologia?

R — No Brasil, a Parapsicologia ainda en­contra sérios obstáculos aos seu desenvolvimento, principalmente em razão do entranhado misticismo do nosso povo. Mas, ape­sar disso e de outros fatores mais específicos, já se começa a formar uma comunidade científica de parapsicólogos, espalha­das em institutos de pa­rapsicologia em  alguns Estados do Brasil, notadamente Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Per­nambuco. A Associação Brasileira de Parapsicolo­gia — ABRAP — congre­ga os melhores pesquisa­dores da paranormalidade em nosso País e a Fede­ração Brasileira de Parapsicologia – FEBRAP – reúne importantes instintutos do género, entre eles o Instituto Pernam­bucano de Pesquisas Bio­físicas — I.P.P.B. — o qual, em outubro deste ano, no Clube Internacio­nal do Recife, promoveu com êxito o V Congresso Brasileiro de Parapsicologia e Psícotrônica, com a participação de estudio­sos e interessados de quase todos os Estados do Brasil.

P — Como é que se sabe que uma pessoa é médium. Todas as pes­soas possuem esse dom?

R — Não há crité­rios objetivos para se de­terminar se uma pessoa possui talentos paranormais a não ser mediante a experimentação. É certo que todo ser humano é passível de passar por experiências paranormais. Mas, raros são aqueles que, frequentemente, manifestam esses fenômenos. Por isso, a pesquisa parapsicológica só demonstra resultados satisfatórios quando rea­lizada com pessoas que apresentam alto índice de manifestação desses fenômenos. E tais pessoas constituem uma dolorosa exceção.

P — Ouvimos falar maravilhas sobre deter­minados médiuns. Eles realizam prodígios difí­ceis de se acreditar. Não é possível que alguns desses fenômenos não passam de mistificação?

R — Infelizmente, quase todos os famosos médiuns fraudaram ou foram suspeitos de práti­cas fraudulentas. Muitos foram pegos em flagran­te delito. Outros proce­deram de modo a justifi­car dúvidas sobre a au­tenticidade de seus fenômenos. Poucos foram os médiuns que se deixaram submeter ou foram sub­metidos a rigoroso e ir­repreensível controle ex­perimental. O saldo, porém, é altamente positivo. A pesquisa parapsicológica demonstrou que a mente humana é capaz de obter conhecimentos do mundo exterior por processos extra-sensoriais, alterando os parâ­metros habituais de tem­po e espaço e também pode agir sobre seres vi­vos e a matéria em geral, modificando as suas pro­priedades, por afetar as suas estruturas molecula­res.

P — Sabemos que o Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas foi considerado pelo parapsicólogo Karl W. Goldstein, como um dos três melhores institutos de parapsicologia do Bra­sil. O que é que faz o I.P.P.P.?

R — O Instituto Per­nambucano de Pesquisas Psicobiofísicas foi funda­do em 1973 e é uma so­ciedade civil, de natureza científica, sem fins lucra­tivos, que tem como fi­nalidade o estudo e a pes­quisa dos fenômenos paranormais e o desenvolvi­mento da Parapsicologia em Pernambuco. Como representante no Nordes­te da FEBRAP, o I.P.P.P. já realizou vários con­gressos de Parapsicolo­gia e promove regular­mente cursos básicos de parapsicologia. Breve­mente, o I.P.P.P. estará concluindo um convênio com a Universidade Ca­tólica de Pernambuco pa­ra ministrar, no próximo ano, naquela Universida­de, um Curso de Exten­são em Parapsicologia, destinado, exclusivamen­te, aos portadores de diploma universitário. Além disso, o I.P.P.P. realiza investigações de fenômenos paranormais es­pontâneos, como o famo­so caso do "poltergeist" do edifício Paris, na Avenida Cruz Cabugá, e sub­mete a experimentação de laboratório as pessoas que se dizem portadoras de faculdades paranormais. O Departamento de Psicoterapia do I. P. P. P. assessora o Departa­mento Científico nas pes­quisas parapsicológicas, provendo o reajustamen­to emocional e psicológi­co das pessoas que estão passando por experiên­cias paranormais. Tam­bém brevemente, o Insti­tuto estará firmando con­vênio com a Secretaria de Educação do Estado para assistência ao super­dotado e, especialmente, ao superdotado paranormal.

P — A faculdade paranormal tem alguma uti­lidade?

R — É o mesmo que perguntar: o talento ar­tístico ou literário tem alguma utilidade a não ser o prazer estético que proporciona? O homem não se mede pelos resul­tados econômicos de suas atividades. A paranormalidade, no entanto, não é apenas uma ocasião de deleite como apelo às ne­cessidades do maravilho­so que existe em cada pessoa. O seu alcance é ainda maior, pois descor­tina, para o homem novas perspectivas de domínio sobre a natureza. Uma pessoa assim dotada é ca­paz de, em certas oca­siões, tomar conhecimen­to de fatos distantes não apenas no espaço — cla­rividência — mas tam­bém no tempo — precognição. Pode, em contato com objetos pertencentes a pessoas desaparecidas, descobrir o seu paradei­ro. Ou, de posse de uma localizar veios  d’água ou jazidas de minérios. Pode, ainda, sob diversos mo­dos, agir sobre a matéria e, com isto, sob certos aspectos, substituir instrumentos e ferramentas convencionais. Infelizmente, esses extraordinários poderes da mente humana são passíveis de destinação inadequada, ameaçando a liberdade e a segurança das pessoas, visto que podem ser utilizados — como vem ocor­rendo nos Estados Uni­dos e na Rússia –  para finalidades militares. Agora que homem, pelas pesquisas parapsicológicas, descobriu que a men­te não age sobre a maté­ria utilizando apenas re­cursos materiais, mas pode fazê-lo diretamente, afetando o universo atô­mico, com reflexos ime­diatos nos complexos moleculares e celulares, pas­sa a compreender a ne­cessidade de se autoconhecer cada vez mais para melhor controlar os seus poderes. Porque, em certos aspectos, muito mais perigosa do que a guerra termonuclear, se­rá, ao menos teoricamente, uma guerra psíquica, cujas dimensões talvez ultrapassem as mais arro­jadas ficções científicas. Os mais belos sonhos da humanidade às vezes se tornam pesadelos. Inven­tos e descobertas que pa­reciam uma esperança para a melhoria do pró­prio homem se tornaram ocasiões de terríveis so­frimentos coletivos. Santos Dumont suicidou-se porque o avião não se li­mitou à aproximação pa­cífica dos povos. Seria, então, indesculpável in­genuidade pensar que o homem, no estágio moral em que se encontra, so­mente utilizará os seus poderes paranormais para o benefício da humanidade.