VALTER ROSA BORGES E A CIÊNCIA DO MISTÉRIO

Jornal Universitário, da Universidade Federal de Pernambuco. Outubro. 1976.

 

Há 20 anos, precisamente, um fenômeno estranho marca­va a vida de um estudioso pernambucano, motivando-o definiti­vamente a palmilhar os caminhos da Parapsicologia: durante reunião doméstica, com pessoas de sua absoluta confiança, teve a oportunidade de examinar, minuciosamente, à claridade de uma lâmpada de luz vermelha, uma mão completamente materializada. Esta peça anatômica, surgida do nada, apertou-lhe a mão e, a seu pedido, suspendeu, a quase meio metro do solo, uma pesada mesa de jantar.

Trata-se de Valter da Rosa Borges, promotor público da Capital pernambucana, criador e apresentador do programa O Grande Júri, da Televisão Universitária Canal 11 e presiden­te do Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas do Recife, que se destaca, atualmente, como um dos mais sérios estudiosos da Parapsicologia no Brasil, e que se apresenta mar­cado por uma concepção monística do Universo, de bases espiritualísticas, não ortodoxas nem ligadas, portanto, aos grandes troncos religiosos vigentes tanto no Oriente como no Ocidente.

Ele concedeu ao JORNAL UNIVERSITÁRIO a seguinte en­trevista:

P. — Acha que a Parapsicologia, confinada co­mo está a um modelo oficial das ciências, possa traduzir, para o seu próprio código, mensagens que escapam ao processo científico habitual?

R. — Se a Parapsicologia adotar unicamente, o método quantitativo-estatístico-matemático da escola norte-americana, não poderá investigar, adequa­damente, todos os fenômenos da paranormalidade. É mister que o procedimento científico não amesquinhe o objeto da pesquisa, mas possua suficiente elasticidade conceitual e a necessária versatilidade experimental para lidar com a riqueza e a complexidade de tais  fenômenos.

Não há, pois, de se cogitar de um método sui generis para a Parapsicologia, mas sim, da adoção deste ou daquele processo científico habitual, de conformidade com o tipo de fenômeno parapsicológico a ser pesquisado.

P. – No seu esforço como cientista dedicado ao estudo dos fenômenos parapsicológicos, a sua fé está centrada nos fenômenos enquanto tais ou na suposta capacidade da Parapsicologia para  explicá-los?

R. — A minha fé está centrada numa cosmovisão monística do universo, onde os fenômenos paranormais se ajustam, operacionalmente, em seu nível específico.

Nem tudo a ciência pode provar e mesmo as provas científicas estão sujeitas a revisões e emen­das. Aliás, o conhecimento científico não é dog­mático, mas provisório. E muitas "provas cien­tíficas" nada mais são do que brilhantes hipóte­ses de trabalho.

A fé não depende do fato e nem todo fato merece fé, pois sempre é possível que a sua obser­vação tenha sido insuficiente ou distorcida. A fé não se prova necessariamente com fatos, nem um conjunto de fatos, racionalmente ordenados, pode validar a fé. Porém, em determinadas situa­ções, os fatos podem sugerir a procedência de um postulado filosófico ou religioso.

P. – Qual o lugar que ocupa a cosmovisão kardecista em sua explicação dos fenômenos ditos parapsicológicos?

R. – Kardec foi quem primeiro sistematizou a fenomenologia paranormal e a sua cosmovisão é ainda válida, em quase todos os aspectos, para um entendimento geral e unificado destes fenômenos O que acontece é que as obras da codificação kar­decista são mais elogiadas e criticadas do que lidas e meditadas. Tudo o que ele escreveu, com o bom senso que sempre o caracterizou, vem sen­do repetido pelos parapsicólogos modernos, talvez com mais precisão, graças a uma nomenclatura e uma conceítuação mais adequadas.

P. – Você encara a reencarnação como um dado tão filosófico quanto o da imortalidade?

R. – Não. A hipótese da reencarnação é pas­sível de abordagem experimental, o que não ocorre com a da imortalidade. Ademais, não se deve confundir imortalidade com sobrevivência. É pos­sível provar que o homem sobrevive, mas não que ele seja imortal. O próprio J. B. Rhine é um dos que reconhecem que os fenômenos paranormais sugerem fortemente a sobrevivência. Resta, porém, saber o que sobrevive do homem e como ele sobrevive.

Por outro lado, os casos de memória extracerebral, notadamente em crianças, pesquisados pelo Prof. lan Stevenson, reforçam, de maneira posi­tiva, a hipótese palingenésica.

 

P. – Apesar da falta de indícios, nos termos da ciência oficial, em torno da reencarnação, acha, por isso, que a impossibilidade de confirmá-la elimine o problema filosófico colocado por ela?

R. – Mesmo que a reencarnação seja, um dia, provada cientificamente, não resolverá o problema filosófico de sua origem. Ampliará, isto sim, os horizontes conceptuais da realidade, exigindo uma nova reformulação dos postulados científicos e filosóficos e até mesmo um novo modelo para o Universo.

P. – Acha, ainda, que a reencarnação seja in­compatível com o dogma cristão da ressurreição da carne?

R. – Depende da extensão do conceito de ressurreição da carne. Talvez a expressão menos conflitante fosse ressurreição na carne, pois o que ressurge é o espírito em novo corpo material. Po­rém, como a ressurreição só ocorrerá no Juízo Final, é evidente que este dogma é incompatível com a hipótese da reencarnação.

P. – Depois do seu recente livro "Introdução ao Paranormal", você pretende colocar, em alguma obra posterior, os fenômenos paranormais dentro de um âmbito filosófico?

R. – Possivelmente sim, tudo dependendo de cir­cunstâncias favoráveis para a publicação dessa nova obra. Aliás, é meu intento escrever monografias sobre os temas já abordados, de maneira global e perfunctória, no "Introdução ao Paranormal".

P – Qual foi o fato primacial de sua vida, de conteúdo quer sentimental, quer religioso, que moveu o seu espírito na direção dos fenômenos metapsiquicos?

R. – O fato que influiu, na decisão de dedicar-me ao estudo e à pesquisa dos fenômenos paranormais, ocorreu há cerca de vinte anos, quando, em reunião doméstica e com pessoas de minha absoluta confiança, tive a oportunidade de examinar, minuciosamente, à claridade de uma lâmpada de luz vermelha, uma mão materializada. Esta peça anatômica apertou vigorosamente a minha mão e, a meu pedido suspendeu, a quase meio metro do solo, uma pesada mesa de jantar.

P. – Existe alguma diferença filosófica na análise dos problemas paranormais entre a Metapsíquica e a Parapsicologia? Qual a definição mais abrangente para a explicação de tais fenômenos?

R. — A Metapsíquica se propôs a realizar o que a Parapsicologia, hoje, está fazendo: pesquisar à luz da metodologia científica, os fenômenos paranormais. Logo, não há qualquer diferença filosófica entre elas, porque não se constituem movimentos filosóficos, mas, sim, disciplinas científicas perseguindo os mesmos objetivos.

Por outro lado, se os fenômenos paranormais são, em sua maioria, produzidos por uma causa inteligente, a sua explicação mais abrangente seria a de que eles são operados pela mente em um nível funcional ainda desconhecido pelas ciências oficiais.

P. — Qual o papel que desempenha a religião na sua vida? E por que a religião, mesmo excluindo aspectos sentimentais, não se constitui num elemento fundamental para a análise dos fenômenos ditos parapsicológicos?

R. – Sou um religioso sem ser filiado a qualquer credo religioso. Religião, no meu entender, é o sentimento de unidade do homem com um Ser ou  Sistema que lhe é infinitamente superior. É o amor incondicional ao Eterno Desconhecido e a busca infatigável de modelos, cada vez mais amplos, do existir. É a participação plena em todos os níveis possíveis do Ser. No momento em que o homem toma partido, ele se parte, se secciona e se enquista, desligando-se, quase que completamente, do próprio Todo.      Ganhou  uma religião, mas perdeu a religiosidade.

A religião, portanto, descerrando novos setores da realidade para o homem, pode servir de poderoso adjutório para a pesquisa e a compreensão dos fenômenos paranormais.