A CERTEZA DE ALGO ETERNO

 

 Valter da Rosa Borges

 

Algo, que não sabemos o que é, é necessariamente eterno, porque nada pode se originar de nada.

Afirmar-se que há potencialidades no nada, porque o nada não é vazio, é reconhecer que o nada não é nada, porque nele existem potencialidades das quais tudo se originou. Este algo, por ser eterno, não foi criado, porque sempre existiu. E, deste algo incriado, começou a criação de tudo.

O que se discute é se esse algo criou tudo de uma vez e deixou de criar, ou se continua criando.

Se criou tudo de uma vez, indaga-se se o que ele criou é imutável, ou se muda segundo as circunstâncias. Ora, como as coisas mudam (ou evoluem), nada foi criado para ser imutável. Logo, criação houve e continua havendo, mas tudo se modifica. E a isso se dá o nome de evolução.

Não há evolução do que não foi criado. Não há, portanto, evolução sem criação anterior. Tudo o que foi criado se comporta segundo padrões ou programas, mas neles há variações que são anomalias, denominadas de mutações. E essas mutações quase nunca são melhores do que os padrões originais. Alguns pensadores asseguram que são erros da natureza. Talvez, no entanto, se trate das limitações cognitivas do ser humano, incapaz de descobrir um outro padrão por trás dessas anomalias.

De todo o exposto, se conclui que não há evolução sem criação anterior, e não há criação sem evolução como a experiências nos mostra. Também fica evidenciado que os padrões não são imutáveis e que a natureza às vezes se comporta de maneira aleatória.

E o que é esse algo eterno do qual se originam matéria, energia, vida e consciência?  E porque age como ordem, mas também como caos, na multiplicidade ilimitada de formas, com seus padrões específicos, mas sujeito a mudanças?

Foge-nos à compreensão a complexidade dessa ordem e a emergência de eventos aleatórios. Denominamos os padrões habituais de leis da natureza e as variações nesses padrões de erros da natureza.

A lógica, e não a fé, me deu a certeza desse algo eterno, e pouco me importa o nome que lhe dão os materialistas e os espiritualistas. Tudo é feito de matéria, tudo na sua essência é divino são formas diferentes de afirmar a mesma coisa: a unidade de tudo. Assim, segundo a óptica de cada pensador, pode-se dizer: tudo sai da matéria e volta à matéria, tudo sai de Deus e volta a Deus ou, de uma forma neutra, tudo sai do Todo e tudo volta ao Todo.

            E não me perguntem o que esse algo eterno é, porque não sei, e ninguém o sabe. Assim, tudo o que escrevi ou escreverei ainda sobre esse algo eterno sob o nome de Deus, não passa de um exercício intelectual lúdico para me distrair com a minha ignorância. E também (por que não dizer?) com a ignorância dos outros.