A CONFUSA HISTÓRIA DO PARAÍSO

 Valter da Rosa Borges

 

Ninguém sabe quando isso aconteceu, porque, segundo dizem, na eternidade não há tempo. Logo, não há quando. E também não se sabe como algo pode acontecer na eternidade, pois o acontecer pertence ao tempo.

 

Mas, tudo bem. Deixemos de lado essas minúcias ou especulações teológicas tão do agrado dos especialistas em mistérios da religião.

 

Dizem que Deus criou os anjos, ninguém sabe se antes ou depois da criação do mundo. Também não se sabe exatamente para que eles foram criados e o que fazem, pois não parece provável que fossem ociosos de nascença.

 

Depois de criar o mundo, Deus plasmou Adão da argila, soprou nele e deu-lhe vida e espírito. Então mandou que Adão nomeasse as coisas e os seres, seja porque quis dar o primeiro emprego ao homem, seja porque se esquecera de fazê-lo. E mandou Adão tomar conta do mundo, porque ele, Deus, não tinha tempo para cuidar dessas coisas já que a eternidade dá um trabalho enorme. Aliás, segundo afirmou Santo Agostinho, repetindo Platão, o mundo e o tempo nasceram juntos: são portanto irmãos univitelinos.

 

Um belo dia (por certo um dia de verão), Deus inventou o pecado e, chamando Adão, lhe admoestou que ele poderia comer do fruto de todas as árvores do Éden, menos o da árvore do bem e do mal. Como bom psicólogo, Deus sabia que o proibido é sempre atrativo e, portanto, mais tempo ou menos tempo, Adão não resistiria à tentação. E não resistiria mesmo, porque antes, Deus clonara Eva de uma costela de Adão e, mediante um milagre genético, fez com que Eva fosse uma mulher e não um Adão II.

 

Deus, algumas vezes, tem lapsos de onisciência, mas parece que, dessa vez, ele sabia que Adão e Eva pecariam, principalmente, segundo dizem, pela congênita curiosidade da mulher. Adão era, porém, um ingênuo e contou essa proibição divina a Eva que, maliciosamente, inventou que uma certa serpente lhe havia informado que Deus mentira e que a ingestão do fruto da árvore proibida lhe daria o conhecimento do bem e do mal, pois ignoravam o que isso fosse. Então comeram o fruto proibido (até hoje desconhecido) e, de repente, viram que estavam nus, o que, até então, não tinham observado. E viram que eram diferentes. Talvez, a partir daí, tenha começado a tumultuosa história da nossa sexualidade.

 

O resto da história, todo mundo sabe. O casal, depois de levar um sermão de Deus, (que, apesar de sua onisciência, somente soube do fato porque os viu vestidos com folhas de parreira), foi expulso do Paraíso, e perdeu a sagrada ociosidade. Deus impôs a Adão o ônus do trabalho para ganhar o pão com o suor do seu rosto. O que é interessante é saber que o casal comia pão embora não houvesse padaria. Hoje, apesar disso e em virtude de ambientes refrigerados, o homem já não sua em seu trabalho, e consegue muito mais do que pão, saboreando tantas e tantas coisas que nunca se ouviu falar que existissem no Paraíso. Eva, que nunca parira no Éden, experimentou as dores do parto, porque, naquele tempo, não havia qualquer assistência ginecológica e obstétrica. Hoje, porém, com a medicina moderna, a mulher não tem mais tanta dificuldade em parir, inclusive sem dor.

 

Ou Deus implicitamente aboliu o pecado original, ou a ciência o fez.