A FÉ

 

 Valter da Rosa Borges

 

O que é mais importante para o homem: é ter fé ou duvidar? Ambas são igualmente importantes, dependendo do contexto em que se situem. Logo, elas não se excluem reciprocamente desde que não sejam incluídas em um mesmo domínio cognitivo.

Fé não é acreditar em algo que sabemos ser absurdo, mas em algo que julgamos possível acontecer apesar de sua aparente impossibilidade. A fé não é a afirmação do absurdo, mas a conscientização de que o absurdo é não ter fé.

A fé é a energia que atualiza a possibilidade que o homem intensamente quer ver realizada. Quando uma comunidade crê em determinada coisa, ela acontece, mesmo que pareça impossível.

Crer é uma atitude espontânea como o ato de respirar. Ninguém é obrigado a crer e, se crê por obrigação, na verdade não crê.

Vivemos ou morremos pela força do que cremos. A nossa vida é conseqüência do que cremos. Por isso, dizia Kierkegaard:

A fé é a mais elevada paixão de qualquer homem.”

A fé, e não a razão, é o artífice do nosso destino. A fé cria suas próprias razões. E a razão se faz sua própria fé.

Alan Watts estabeleceu uma distinção entre crença e fé. A crença é “a insistência em que a verdade seja aquilo que se “preferiria” ou desejaria que fosse”. A fé é “uma abertura sem reservas da mente à verdade, qualquer que esta venha a ser”. A fé é “um mergulho no desconhecido”.

A fé é a certeza sem prova e até mesmo contra todas as provas. E qual o fundamento da certeza? É a prova do que se afirma? Mas, o que é provar, e qual o grau de confiabilidade da prova? Ou seja: a prova, antes de provar alguma coisa, deve ser previamente provada. E o que prova que o que prova a prova também merece confiabilidade e assim ad infinitum? A certeza, a rigor, não passa de uma crença que, por ser provada, adquiriu status de confiabilidade.

Fé é certeza subjetiva. É confiança na existência daquilo que não se vê. Ter fé é apostar no que nos parece impossível. A fé é a certeza que não depende da razão ou da comprovação experimental.

A fé é a maior aventura existencial. Para os fracos, ela constitui abrigo, segurança. Para os fortes, é uma aposta, uma aventura arrojada, um mergulho no Desconhecido. A fé do fraco é acomodação às circunstâncias, sujeição ao que se julga imutável. A do forte é a certeza da superação de todas as circunstâncias, de algo maior do que as limitações do presente, a antecipação de um futuro aparentemente improvável. Não há uma razão para a fé: ela é a sua própria razão. A fé o recurso extraordinário para resolver problemas que a razão não consegue.

Se fôssemos absolutamente racionais, ficaríamos praticamente imobilizados. Teríamos, a cada momento, de analisar todas as probabilidades referentes ao nosso próximo ato. E a cada momento decidir quais as mais prováveis de acontecer e, entre estas, aquela que seria a melhor para nós.

Crer é uma atitude receptiva. A crença facilita a interação com o objeto em que se crê. A descrença ou a indiferença elimina a interação, porque não há com o que interagir. Nem tudo o que se crê, existe. Mas, se existe, a crença facilita e estabelece a interação. A crença, assim, é prontidão psíquica, estado receptivo que só funciona quando há algo com que interagir.

Felizmente, a maioria das pessoas tem a crença geral e sólida de que nada lhe acontecerá e que tudo funcionará em seu benefício e de acordo com os seus propósitos. Essas pessoas têm fé no bom funcionamento do corpo, no comportamento previsível da natureza, na ausência de catástrofes, no equilíbrio social e relações interpessoais e em tudo o que fazem sozinhas ou com os outros.

Confiar é expor-se aos outros sem restrição porque vê nos outros versões de si mesmo. Por isso, a confiança nos torna desprevenidos na presença daqueles em que confiamos. É o momento em que a pessoa se expõe com a máxima autenticidade. Os que, geralmente, não confiam nos outros nem sequer têm momentos em que possam florescer em toda plenitude, mesmo quando sozinhos.

O significado e a percepção do mundo se modificam, quando, por motivos diversos, mudamos a nossa crença sobre ele.

Devemos desconfiar da nossa confiança e também da nossa desconfiança. Pensar é um permanente estado de alerta em relação ao que cremos e o que não cremos. Ele nos permite viver segundo as coisas nos parecem e enquanto assim parecem, o que nos faz aptos a mudar quando elas mudarem de aparência. Só percebemos aparências. Quem conhece o núcleo das coisas, se é que há núcleo?

O que é a esperança, senão a fé de que tudo melhore e volte ao normal, de que consigamos o que queremos e não aconteça o que não queremos?

Há uma fé automática, ligada ao cotidiano, na prática de cada um dos nossos atos, e que, por isso, nos passa despercebida. E há uma fé emergente nas situações de desespero, de aflição, de perturbação, de enfermidades graves, como se fosse um apelo extraordinário a tudo o que excede à condição humana.

O importante é viver além da crença e da descrença. É saborear o essencial mistério da vida. Porque a lógica não passa de um jogo que o homem inventou e depois acreditou que era a própria verdade.

A fé não evita o sofrimento, mas pode torná-lo suportável. Sob o ponto de vista estritamente psicológico, ela funciona como um excelente psicotrópico para a solução dos problemas existenciais.

Adoecemos quando acreditamos que estamos enfermos. Aceleramos nossa morte quando acreditamos que estamos morrendo.

O homem é um criador de fatos, sejam eles sociais ou físicos. Porém, para a realização de certos fatos, não é necessária apenas a vontade, mas a fé. Nesse caso, não basta querer, mas acreditar no que se quer. A fé é o exagero da vontade.

 Fatos extraordinários tidos como milagres renovam a força da fé. Quando eles escasseiam, a fé enfraquece e torna-se crença.

A fé baseada no testemunho alheio, por maior que seja a autoridade da testemunha, não tem a força da fé de quem testemunhou o que julgou ser um milagre. Uma única experiência do transcendental pode durar a vida inteira e contagiar a posteridade por tempo indeterminado. Mas a sua continuidade necessita de uma nova intervenção do insólito.

Queremos controlar as coisas e nos encastelar em um universo previsível e rotineiro. Por isso, deixamos de perceber o espetáculo diário do inédito e do novo.

Nem tudo o que pensamos compreender podemos dominar. O sentimento de segurança em momentos de incertezas e de ameaças é, psicologicamente, uma atitude de fé.