A IMORTALIDADE

 

        A imortalidade nunca será um problema científico, mas um pressuposto de fé. Parece que muitas pessoas, no seu íntimo, têm uma impressão forte ou apenas intuitiva de que são imortais. Aliás, Freud já dizia que “no inconsciente todos nós estamos convencidos de nossa própria imortalidade”. Os estudos antropológicos, no entanto, evidenciam que nem todos os povos e nem todas as pessoas se preocupam com a imortalidade.

        É o desejo de sobrevivência um mito perpetuado por várias culturas desde eras i­memoriais ou uma informação arquetípica da continuidade do ser depois da morte de sua estrutura orgânica? Ou, em outras palavras: a consciência da morte física e o medo dela decorrente levaram o homem a ansiar pela sobrevivência post-mortem, ou a informação genética de sua sobrevivência o fez acreditar nela?

        Os seres humanos desejam ardentemente a imortalidade, a juventude eterna, a abolição do trabalho, a liberdade, a saúde permanente e a felicidade. Poderá haver coisa pior do que ser a mesma pessoa eternamente? Como Sócrates poderia ser Sócrates por toda a eternidade? Essa ansiada imutabilidade do ser não seria prêmio, mas maldição.

        Se estamos sempre a mudar, nada há quem sobreviva após um longo período. As­sim, não há ontem a preservar, pois a memória de ontem é invenção do presente. Morrer é mudar. Morremos porque não mudamos. Porque pensamos que mudar é morrer e, inutil­mente, lutamos para não mudar. Porque queremos ser sempre o que somos, deixamos de ser. Não há morte, nem perdição, nem salvação, mas eterna transformação.

        Quando uma forma de vida esgota sua potencialidade, a morte é a sua renovação em outra forma. Se há um estado diferen­te do nosso estado atual, ele não pode ser descrito, nem compreendido, sendo, portanto, não comprovável, mas apenas crível.

        Morrer é uma bênção, quando a velhice ou a doença aprisiona o fluxo da vida e ex­tingue a alegria de existir. Morrer para sempre ou morrer para ser outro. Jamais morrer para repetir-se.

        A morte é a virtualização do corpo. Corpo é um conjunto de programas integrados atuando no espaço e nele se movimentando. Assim como um desses programas montou o organismo, ele (ou outro programa) um dia, o desmontará. Por isso, não podemos especular para onde vai essa programação integrada porque ela não mais ocupa qualquer lugar no espaço.

        Nascer é passar do virtual ao físico. Morrer é passar do físico ao virtual.