A INVENÇÃO DO ALÉM (*)

 

Valter da Rosa Borges

 

O homem não apenas criou Deus á sua imagem e semelhança mas também inventou o Além à imagem e semelhança da vida terrena.

 

As revelações do Além, em qualquer de suas modalidades, são, em sua quase totalidade, revelações das necessidades humanas, refletindo o contexto cultural de cada povo e de cada época.

 

Os anjos, símiles do deus mensageiro Hermes da mitologia grega, eram todos do sexo masculino, refletindo a dominância do homem sobre a mulher.

 

Nunca ninguém ouviu falar de anjo femininos a não ser na linguagem coloquial afetiva e nos arroubos poéticos.

 

Também não se conhece qualquer artista que tenha pintado um anjo fêmea, fato facilmente comprovável face ao comovente nudismo angelical. E todos anjos eram brancos e rechonchudos, nenhum esbelto, negro ou asiático. Usavam asas para voar, embora alguns estudiosos entendam que as asas não passam de símbolo da espiritualidade.

 

Os espíritos, seres mais modernos, não necessitam de asas. Eles se deslocam - até com a velocidade da luz - aos mais distantes lugares apenas impelidos pela força do pensamento.

 

No Livro de Daniel os anjos padroeiros de cada nação, usando os artefatos bélicos da época, lutavam entre si, ajudando os homens nos combates entre seus países, numa réplica do partidarismo dos deuses do Olimpo que se intrometiam nos combates entre gregos e troianos.

 

Os demônios mesopotâmicos eram terríveis e viviam nos desertos, nas áreas estéreis e nos espaços vazios, atacando as pessoas nas mais diversas situações. Se uma pessoa cometia algum pecado, o seu espírito protetor a abandonava e ela ficava à mercê dos demônios. Nas transgressões morais, no mundo moderno, as pessoas se tornam vítimas fáceis de obsessores do Além que se mostram, em tais circunstâncias, mais influentes do que os espíritos protetores ou guias espirituais.

 

Os demônios egípcios, embora menos poderosos do que os mesopotâmicos, eram enviados pelos grandes deuses à Terra para disseminarem a doença e a morte. Assim como os demônios da Mesopotâmia,  eles agiam em grupos de sete ou de múltiplos de sete ou, ainda, em sete grupos. Na experiência da Umbanda, é sempre um grupo formado de sete exus que exerce uma ação maléfica sobre determinadas pessoas, afetando-lhes a saúde física e mental inclusive com repercussões em sua atividade profissional e afetiva.

 

Os demônios eram causadores de enfermidades físicas e mentais e também da morte. Hoje, os espíritos desencarnados atrasados e vingativos são os sucedâneos funcionais dos desprestigiados demônios, os quais também sofrem a concorrência dos turbulentos exus dos terreiros da Umbanda. A ciência, a cada dia, vem tratando exitosamente as doenças orgânicas e psíquicas, situando suas causas nas alterações fisiológicas e funcionais, produzidas ou não pela ação dos micróbios ou ainda pelos problemas existenciais resultantes da complexidade da vida moderna.

 

Se o Além dos povos antigos era a reprodução de sua vida cotidiana, variando em alguns aspectos de conformidade com as suas características culturais, as modernas comunicações mediúnicas evidenciam que os mundos espirituais não passam de cópias melhoradas ou pioradas da vida terrena, segundo sejam habitados por espíritos superiores ou inferiores.

 

Não há relatos de cidades modernas, com concepções arquitetônicas e urbanísticas arrojadas, como sói acontecer nas ficções futuristas das produções cinematográficas, demonstrando uma lastimável carência de imaginação e criatividade. A vida no Além nos é mostrada sob a forma de um bucolismo romântico do passado, perpetuando a continuidade da vida familiar, onde cada pessoa mantém o mesmo papel que desempenhava na vida terrena. Será que o Além vai mudar, quando ficar legalizado, na Terra, o casamento de homossexuais?

 

As revelações do Além pouco falam sobre o futuro e, quando o fazem, quase sempre erram, observando-se ainda que jamais superaram as concepções dos nossos melhores filósofos e as descobertas e invenções dos cientistas.

 

Não pretendemos afirmar, com estas breves considerações, que o Além não existe. Porém, se existe, não é, por certo, como o imaginamos e nem constitui fonte de conhecimento confiável para o progresso material da humanidade.

 

            (*) Artigo publicado no jornal Ponto de Encontro na sua edição de abril/ maio de 1997