A LIBERDADE

 

Valter da Rosa Borges 

 

A liberdade é a possibilidade de fazer o que se quer e de não fazer o que não se quer. Não somos livres para querer ou não querer. Subjetivamente, a liberdade é o poder de escolha entre as opções desejadas. Objetivamente, é a possibilidade de escolher entre as oportunidades da vida social, sejam elas permissíveis ou proibitivas.

Oscilamos entre a liberdade e a segurança. O ideal é sermos livres com segurança. Mas a realidade nos compele a escolher entre a liberdade e a segurança. A aspiração constante do ser humano é aumentar, cada vez mais, o seu grau de liberdade. Mas, em situações específicas, prefere diminuí-lo em troca de maior segurança.

A liberdade exterior depende da sociedade em que vivemos com as suas normas rígidas ou flexíveis de conduta. Assim, a nossa liberdade se exerce dentro dos limites traçados pela lei, pelos costumes e pela moral.

Nem sempre podemos fazer o que queremos. No entanto, segundo o momento histórico em que vivemos, podemos conformar nossa conduta às normas sociais, ou lutar para que sejam substituídas por outras mais condizentes à realidade social.

A nossa liberdade interior é ilimitada, pois pensamos, sentimos e queremos sem qualquer censura, a não ser a nossa, como decorrência dos nossos condicionamentos culturais e religiosos. Ela nos permite ver, com lucidez, as limitações de nossa liberdade exterior. Porém, no momento em que explicitamos nossos pensamentos, sentimentos e desejos estaremos sujeitos a sofrer punições se eles estiverem em desacordo com as normas sociais e jurídicas.

A liberdade interior consiste: a) na consciência, cada vez maior, do que se é a cada momento; b) na consciência dos condicionamentos socioculturais; c) na modificação dos condicionamentos inadequados e criação de condicionamentos mais compatíveis com as nossas reais necessidades; e d) na fidelidade permanente a si mesmo.

A liberdade de cada ser é aferida pela quantidade de opções de que dispõe em cada situação específica.

É difícil o homem saber o que ele realmente é, pois está soterrado numa confusão de normas e valores, que o tornam um autômato social. Por isso, para ser livre interiormente, importa que ele descubra quem ele é para buscar ser o que é. Ele é aquilo de que necessita e nada pode fazer para mudar suas necessidades reais e, sim, compatibilizá-las, quanto à sua satisfação, ao contexto sociocultural onde vive.

A sociedade é uma hipnose coletiva e, para conhecermos os nossos condicionamentos, é preciso estarmos atentos a esse processo sugestivo.

Não podemos mudar as nossas necessidades biológicas, mas impedir sua manifestação ou realizá-las vicariamente. Assim procedendo, limitamos a nossa liberdade, que é a livre expressão de nossas necessidades. No entanto, podemos interferir nas necessidades impostas pela cultura e que influenciam as nossas decisões.

O fato de sermos conscientes de nossas necessidades não nos torna livres. Pelo con- trário: sentimos mais profundamente o tolhimento dessa liberdade, seja por nossa iniciativa, seja por motivos alheios a nossa vontade.

Não queremos ser livres das necessidades, mas livres, sempre que possível, para o exercício delas. Por isso, só sentimos desejo de liberdade quando as nossas necessidades não são satisfeitas.

Quem se conscientizou de que tudo são convenções sabe como agir sem se opor desnecessariamente a elas. Afinal, a quase totalidade das pessoas necessita de convenções para viver socialmente em harmonia.

Somos o que somos. Ninguém é livre para ser o que não é. Somos livres para fazer ou não fazer em acordo ou em desacordo com as normas e valores da sociedade. Assim, podemos fazer ou não fazer o que nos é permitido, ou fazer ou não fazer o que nos é proibido. Nem tudo o que pensamos que somos, somos, pois muito do que somos é decorrente dos nossos condicionamentos culturais e do que nos foi dado pela natureza. Assim, podemos mudar o que parecemos ser e não o que verdadeiramente somos. O autoconhecimento nos habilita a devolver-nos o que somos, libertando-nos dos padrões que nos foram impostos, embora externamente pareçamos os mesmos por motivo de mera conveniência. Somos livres na proporção em que podemos agir segundo somos e não somos livres para deixar de ser realmente o que somos.

Não há sociedade sem regras de conduta e, portanto, inexiste liberdade externa plena onde há o social. Porém, a liberdade interior pode ser plena, se o indivíduo estiver, a cada dia, consciente de seus condicionamentos, das motivações dos seus atos e de seus sentimentos. E essa liberdade interior é uma conquista cotidiana, porque, como tudo está em permanente mudança, essas mudanças também alcançam a nossa subjetividade.

Se a nada nos obrigarmos interiormente, nenhuma obrigação externa será capaz de escravizar-nos. A liberdade é o estado de emancipação contínua de todas as formas de escravidão. Não é algo estático, mas dinâmico. É o exercício permanente da autenticidade de se ser o que se é.

Pior do que a perda da liberdade é o condicionamento à escravidão.

Quem é livre, não pensa em liberdade. Só os escravos pensam em liberdade, embora não saibam o que ela é.

A liberdade é conquista permanente, nunca definitiva, e acontece a cada momento em que estamos cônscios das nossas reações às circunstâncias.

A liberdade é a possibilidade de escolha. Quanto maiores essas possibilidades, maior o grau de liberdade do ser. Não há, pois, sentido em se falar de liberdade absoluta, mas em graus de liberdade cada vez maior.

A liberdade não é originariamente um direito, mas um fato. Ao viverem em sociedade, os homens fizeram da liberdade um direito, opondo-lhe, no entanto, a obrigação de obediência às normas sociais. A responsabilidade é a conseqüência das relações sociais.

Liberdade não é fazer tudo o que se quer, mas tudo o que se pode e o que se deve. A liberdade não está na vontade em si, mas no exercício da vontade segundo as conveniências e as circunstâncias.

Ser o que se é, é um grande risco. É o preço da autenticidade, da liberdade interior. Mas, é necessário que não se converta em liberdade exterior ilimitada, para não resultar em conflitos desnecessários.

A liberdade é o resultado da compreensão dos nossos condicionamentos, o que nos permite agir ou não agir segundo as conveniências do momento e do contexto cultural em que vivemos.

O livre pensador é aquele que é livre de suas próprias idéias.

A liberdade consiste também na livre obediência. Obediência porque se quer obedecer e não porque se é obrigado a obedecer. A obediência compulsória não passa de sujeição, de escravidão. A obediência voluntária, ao contrário, é um ato de liberdade.

A liberdade é risco. É espírito de aventura. É aceitação das mudanças, a convivência madura com a insegurança.

Há pessoas que preferem mais segurança do que liberdade e outras que preferem mais liberdade do que segurança. Não existe nem liberdade nem segurança absolutas.

Para muitas pessoas, a liberdade é um fardo. Preferem a segurança anestesiante aos sobressaltos do risco, da aventura criativa.

A liberdade às vezes intimida, porque é difícil lidar com ela.

Temos a vocação natural de escolher somente o que pensamos ser um bem para nós. Todo ser está programado para agir sempre em seu benefício. É o que se denominou de instinto de conservação. Somos, assim, impulsionados a fazer o bem a nós mesmos, embora, em nível consciente, nem sempre saibamos o que é o nosso bem.

Queremos ser livres de tudo o que nos causa mal e queremos ser livres para alcançar tudo aquilo que julgamos ser o nosso bem.              

Antes acreditávamos que o destino nos era imposto pelo capricho dos deuses. Hoje, pensamos que ele é determinado pela programação genética. Antes, tentávamos mudar o nosso destino com súplicas aos deuses. Hoje, tentamos modificá-lo intervindo no código genético.

Poderá, no futuro, o homem programar os seres humanos, dotando-os de novas aptidões, modificando o seu programa original, tornando-os mais flexíveis às necessidades emergentes e, portanto, com maior flexibilidade e grau de liberdade para reagir às circunstâncias mais diversas? O novo homem criado pelo próprio homem será, por certo, o maior acontecimento no complexo processo da evolução.