ANIMAIS

 

Valter da Rosa Borges

 

            Por que os animais domésticos são, geralmente, dóceis e obedientes? Porque nós os escravizamos. Fizemos deles nossos dependentes. (Algumas pessoas, no entanto, se tornaram dependentes deles.) Tiramos a sua liberdade em troca de comida e paparicados. Há quem chegue ao absurdo de dizer que o cão é o melhor amigo do ser humano. Mas, na verdade o cão está dominado por ele. E os nossos amigos são independentes e nem sempre acatam a nossa vontade.

            Os que se dizem amigos (ou melhor: carcereiros) dos animais domésticos afirmam que nenhuma pessoa merece confiança. (Por certo, eles pensam que são a única exceção.) E, no entanto, confiam em seres de outras espécies, cujo comportamento pretendem conhecer. Ora, se nem sequer nos conhecemos, como podemos conhecer os animais?

            Vez por outra, animais de estimação (?) ferem e até matam os seus donos. Donos, não amigos, porque só os animais, dito selvagens, são livres e não dependem da proteção dos humanos.

            Há pessoas solitárias que escolhem um ou mais animais como companheiros. Trata-se, porém, de uma compensação emocional, para quem perdeu parentes e amigos e não sabe fazer novas amizades.

            Esses “amigos” dos animais os mantêm, quase todo tempo, em regime carcerário. Uns, como as aves, são engaiolados. Gatos e cães, às vezes, são castrados, para se tornarem dóceis e indiferentes aos folguedos sexuais. Asas de papagaios são cortadas para que não possam voar e adquirir a sua liberdade. Eles devem estar sempre à disposição de seus donos para a garantia de sua proteção (em caso de cães ferozes) e de seu lazer. Na verdade, os animais são peças vivas da residência de seus donos.

            Retira-se os animais de sua vida “selvagem” (quer dizer: livre) para “protegê-los”, seja em residências ou em zoológicos.

        Nenhum mestre espiritual aconselhou as pessoas a trocar o amor a seus semelhantes pelo amor a animais. Apenas recomendaram que respeitassem a vida em suas variadas formas. Os seres humanos jamais seguiram essa recomendação. Ferem e matam os animais em touradas, rinhas de galos ou de passarinhos. Divertem-se com o sofrimento deles e os cevam para servir-lhes de alimento. Cavalos servem ainda de transporte e trabalham diariamente, sem alimentação adequada, até adoecerem, envelhecerem e morrerem. Eles servem aos humanos na guerra e na paz.

            Alguns animais, apesar de tudo isso, recebem o reconhecimento e a honraria de seus donos felizes. Tornam-se artistas de cinema. São considerados heróis e lembrados pela História.

            Se queremos proteger os animais, deixemo-los em sua vida selvagem. Respeitemos o habitat em que vivem.

           Muitas espécies estão em extinção em virtude da pesca predatória e da comercialização de suas peles. Ou porque são caçados por mero prazer, para satisfazer o instinto matador de certas pessoas.

            Por que não escutarmos os cantos das aves livres em nossos bosques e em nossas praças? Por que não adentrarmos a mata para ver os mais diversos animais em seu ambiente próprio?  Por que tratá-los como deuses ou nossos ancestrais reencarnados como fazem certas religiões no curso dos séculos?

        Nada é sagrado, inclusive a espécie humano. Mas, tudo o que é vivo, merece o nosso respeito. Os animais, compulsoriamente urbanizados, causam-nos problemas, principalmente os de saúde.

            Pessoas há que gastam muito dinheiro com os animais de “estimação”, tratando-os com cuidados que nem sempre são dados aos seus semelhantes. Há cemitérios privativos de animais e, no entanto, existem pessoas que são enterradas na indigência. Segundo a revista Veja (22 de julho de 2009), cães e gatos são tratados como filhos em milhões de lares brasileiros, que gastam com eles 9 bilhões de reais por ano”. Tantas pessoas não passariam fome, se uma parte desta quantia fosse revertida para elas.

         Jesus ensinava a amar aos nossos semelhantes como a nós mesmos. Será que os animais são também nossos semelhantes? Às vezes, eles são mais amados do que o ser humano.