DA SOLIDÃO E SEUS AUSENTES

 

Valter da Rosa Borges

 

Assim como a ciência ainda não encontrou o átomo no seu verdadeiro sentido etimológico, também não se descobriu o homem em si, pois ele não é apenas a sua circunstância, como dizia Ortega y Gasset, mas também a sua relação. Assim, a nossa individualidade é a nossa relação com, o que resulta na constatação de que a solidão não faz parte da essencialidade do ser.

Na verdade, nenhum homem vive exclusivamente para si, enfeudado em sua privacidade inexpugnável, mas também para os outros, apesar dos outros e até contra os outros. Por mais que não nos queiramos resignar, o mundo é necessariamente o nosso anverso, a nossa contraparte. Aliás, hoje se postula que o universo é uma rede de interconexões de todas as coisas, onde tudo interage com tudo, o que importa na inadmissibilidade de ter o homem o privilégio de ser a única exceção.

Existencialmente, no entanto, podemos experimentar o sentimento da solidão, o qual não resulta da ausência de contatos, mas na inadequação das relações interpessoais. Principalmente nos grandes aglomerados urbanos, nas regurgitantes avenidas das grandes metrópoles, na trepidação dos relacionamentos. Isto resulta na formação de um sistema defensivo alicerçado na desconfiança recíproca, pois cada pessoa se sente perdida e confusa no turbilhão das relações interpessoais. O homem urbano é um homem sem vizinho, compulsivamente próximo de outros homens, premido e espremido pela exigüidade espacial.

Vizinhança é mais um conceito afetivo do que espacial. Podemos ser vizinhos de alguém que mora em Paris e que não vemos, e não ser vizinhos de quem mora ao lado, embora o vejamos (será que o vemos mesmo?) todos os dias. Ver, sob este aspecto é mais uma experiência subjetiva do que um fato objetivo.

Nunca os próximos estiveram distantes e os distantes tão próximos. Que o digam os usuários da Internet. As pessoas tímidas, como por um passe de mágica, se tornam loquazes, exuberantes, comunicativas, varando madrugadas insones, em intermináveis diálogos com amigos invisíveis e desconhecidos. A Internet é uma espécie de sessão mediúnica entre vivos. As pessoas permutam opiniões, idéias, sentimentos, como jamais o fariam a alguém presente, visível, palpável. Dá-se uma cálida intimidade sem contato entre seres desconhecidos, mas que se assemelham a velhas afeições de tempos nunca vividos. A solidão urbana se resolve ante a tela de um monitor, sedando frustrações do contato cotidiano com pessoas sem face. O computador se assemelha, assim, a um médium, estabelecendo contatos com seres do Além, mas de um além humanamente espacial. Precisamos confiar. E como não mais confiamos nos presentes, endereçamo-nos aos ausentes sejam eles os espíritos ou os seres da Internet.

A explosão demográfica urbana vem cada vez mais, aproximando e estreitando corpos humanos em espaços cada vez menores. Mas os espíritos, esses, em razão do desespero da sufocan-te heterogeneidade, se sentem severamente dispnéicos à falta da oxigenação de seus símiles. Busca-se assim, um semelhante na massa amorfa cotidiana de seres dessemelhantes e desprovidos de rostos. Nunca além e alhures se tornaram Eldorados tão emergentes, visto que ruas e logradouros nada mais são que meros escoadouros de coisas e pessoas em condições de trânsito. Resta, então, a espera do anoitecer. O retorno tumultuado na cacofonia do tráfego ao monastério do apartamento, cumprindo, aligeiradamente, rituais de visibilidade com indiscerníveis condôminos nos encontros fortuitos em elevadores. E, uma vez recuperada a nossa privacidade, abrimos olhos e janelas para o mundo, contemplando a cidade e o céu iluminados e sentimos fundamente que homens e estrelas guardam a mesma distância para nós.

A solidão não é aliviada pela presença de pessoas, mas, em muitas ocasiões, é construída a partir delas. É a impassibilidade dos presentes que, com a proximidade de seus corpos, levantam muros em torno de nós, sufocando-nos em solidão. Por isso, paradoxalmente, fugimos das pessoas para não ficarmos sós. E, assim, estar sozinho é uma forma de não estar solitário. É neste estado de superficial isolamento que podemos invocar a presença dos ausentes a fim de que tomem os seus lugares no espaço da nossa solidão. Então, a partir deste momento, somos seres de novo restaurados na invisível e solidária rede de inter-relações do Universo.