O GRANDE JÚRI

 

Participantes


Destacadas personalidades da vida cultural e científica de Pernambuco participaram de “O Grande Júri” como Aluízio Bezerra Coutinho, João Vasconcelos Sobrinho, José Pessoa de Moraes, Roberto Aguiar, Berguedoff Elliott, Roberto Motta, Reinaldo de Oliveira, Othon Bastos Filho, Padre Nércio Rodrigues, Fídias Telles, Attílio Dall’Olio, Ivo Cyro Caruso, Nilzardo Carneiro Leão, Everardo Luna, Nelson Saldanha, Armando Souto Maior, Aluízio Xavier, Ivo Dantas, José Rafael de Menezes, Fernando Figueira, Adônis Carvalho, Orlando Parahym, Geraldo Mariz, Geraldo Muniz, Geraldo Arruda, Leonardo Sampaio, Rui dos Santos Pereira, Salustiano Lins, Waldecy Fernandes Pinto, Hélio Teixeira Coelho, Frederico Pernambucano de Melo, Waldemar de Oliveira, Manuel Correia de Andrade, Fernando Pio dos Santos, Vanildo Campos Bezerra Cavalcante, André Freire Furtado, Jayme Cesar Figueirêdo, Jamesson Ferreira Lima, Jônio Lemos, Rinaldo Azevedo, Rubem Franca,  Ladislau Porto, Hermilo Borba Filho, Antônio Brito Alves, Olímpio Bonald, Pe. Carlo Borghi, Jaime Queiroz, José Luiz Mota Menezes, Waldemir Miranda, José Lourenço de Lima, Roberto Oliveira de Aguiar, Sebastião Vilanova, Fernando Gonçalves, Fernando Pio dos Santos e Luiz Siqueira Carneiro, entre outros.

 

Temas


Entre os temas abordados em “O Grande Júri” (1968-1981) se destacaram: a inseminação artificial, a violência urbana, o vestuário e a moral, reforma do ensino, acidentes de trabalho, o sexo e o mundo de hoje, a mulher e o sexo, a mulher e o trabalho, a prostituição, planejamento familiar, o adultério, o menor abandonado, o crime e a pena, a eugenia, a morte perante as religiões, para onde caminha a agricultura nordestina, o julgamento do homem, a televisão brasileira – suas virtudes e seus defeitos, a verdade, a colonização portuguesa, Freud e a psicanálise, o divórcio, crise  na Igreja, vida em laboratório, acidentes de trânsito, Deus e o homem de hoje, música popular brasileira, o problema da dor, o enfarte, o átomo, os alucinógenos, o câncer, o uso pacífico da energia nuclear, obesidade & diabetes, a urbanização do Recife, turismo e desenvolvimento, a cremação, a arte nos cemitérios, o homem e a tecnologia, a educação sexual, a religião e o homem moderno, a pena de morte, o teatro brasileiro, superstições, o bem e o mal, o homicídio, a eutanásia, a hipnose, a poluição, a reencarnação, o Apocalipse, a agressividade humana, a automação, a cibernética, a cirurgia plástica, o suicídio, o cinema brasileiro, o folclore, a juventude no mundo de hoje, os problemas das megalópoles, a defesa do meio ambiente, a literatura e as artes no mundo atual, a família contemporânea, os preconceitos, a velhice, o sonho, a explosão demográfica, a criança no mundo atual, a educação e os meios de comunicação, o sobrenatural, os problemas de habitação, problemas da saúde pública, a cosmologia, os discos voadores, a emancipação da mulher, a ioga, a acupuntura, a homeopatia. Alguns desses temas foram repetidos a pedido dos telespectadores.

 

Em 1978, Valter da Rosa Borges recebeu o Título de Melhor Produtor da Televisão de Pernambuco do Ano de 1977, concedido pelo Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusão e Televisão de Pernambuco. 

 

JORNAL UNIVERSITÁRIO, da Universidade Federal de Pernambuco

Julho de 1977

O GRANDE JÚRI

Vem a Televisão Universitária Canal-11, de há muito, oferecendo uma opção aos telespectadores mais exigentes, notadamente em matéria de nível cultural: o Pro­grama o Grande Júri, sob a coorde­nação do Dr. Walter Rosa Borges, igualmente o seu idealizador. Ini­cialmente levado ao ar às sextas­-feiras, agora é aos sábados, a par­tir das 21 e 30 horas, mudança que veio, certamente, atender à expectativa da maioria dos seus telespectadores.

Trata-se, indubitavelmente, de uma boa opção, posto que a Coor­denação do Programa tem sabido escolher com acerto os temas e respectivos debatedores. Impõe­-se o Grande Júri como grande contribuição no que concerne ser uma tribuna de debate e análise de temas relevantes, de interesse da comunidade pernambucana, mormente a universitária - a par do seu elevado nível, encaixando­-se por isso mesmo dentro das perspectivas - de uma televisão ver­dadeiramente educativa.

Dizer-se, aliás televisão educa­tiva, parece redundância, pois, a ri­gor, todo canal de televisão deve ser concebido como tal, sob pena de desviar-se dos seus reais obje­tivos. Infelizmente, no Brasil ocor­re exatamente o contrário. A maio­ria das televisões - para não di­zer quase todas - pouco ou quase nada contribui para melhorar o ní­vel educacional do povo. Muito pe­lo contrário, deseducam, dissemi­nam a violência, mantém progra­mas de baixo nível, proliferam as tentadoras, novelas, etc.

Fazer jogadas mirabolantes, de forma a bater o concorrente, ca­minho pelo qual se atraem os grandes patrocinadores - consis­te no faturamento o grande sonho e conquista desses canais de co­municação social -, eis o que im­porta, mesmo que tal procedimen­to implique, como de fato implica, no baixo nível e mau gosto da maioria dos programas. O que afasta dos vídeos considerável parcela da população - os que conseguiram atingir certo nível cultural. Entre estes, estão os as­síduos telespectadores do Canal­-11, principalmente os do Grande Júri. Ficam, mesmo assim, restri­tos a essa única opção.

Assim é que programas como o Grande Júri merecem apoio e aplausos de todos. Não tem o Dr. Walter Rosa Borges medido esfor­ços no sentido de focalizar temas relevantes e reunir, em torno de­les, nomes de destaque, em todos os setores do conhecimento e ati­vidades, quer de Pernambuco, quer de outros Estados da Federação. Embora relacione também assun­tos de caráter técnico, científico, religioso e até mesmo filosófico, grande parte dos temas discutidos pelo Grande Júri pode ser assimila­do pelo público em geral - e para isto os debates e informações são conduzidos em linguagem acessí­vel, dentro mesmo dos padrões que caracterizam um canal de co­municação social.

Mesmo assim, mantém-se o princípio de fazer com que o teles­pectador menos esclarecido, ou menos preparado nesse ou naque­le assunto, ascenda ao nível do Programa, e não ao contrário, o que conflitaria com os objetivos que de­vem nortear os programas e metas dos veículos de comunicação so­cial, principalmente os chamados, segundo Marshall Mcluhan, “ca­nais frios”. E a televisão está in­cluída nessa relação, na concep­ção mcluhana.

Tem reunido o Grande Júri pro­fessores, estudantes, dirigentes universitários, técnicos, cientistas, autoridades governamentais. Cada um oferecendo sua contribuição pessoal, quer no esclarecimento, quer manifestando pontos de vis­ta acerca de assuntos de interesse geral. Para se ter uma idéia, ultimamente, temas como divórcio, enchentes do Capibaribe, seguran­ça do trabalho, entre outros, foram levados à tribuna do Grande Júri, suscitando debates empolgantes. Sob a coordenação segura e inteli­gente - e por que não dizer ver­sátil - do Dr. Walter Rosa Borges.

Serve, portanto, de exemplo, para que os responsáveis pelos canais de televisão procurem, na medida do possível - e isto é possível - melhorar o nível dos programas. Enganam-se os que pensam ser o povo brasileiro um povo de mau gosto em matéria de televisão. É como dizem: macaco só gosta de banana porque só lhe dão banana...

 

 

REFERÊNCIA EM LIVRO

 

Berguedof Elliot, no seu livro “O Homem e a Circunstância” (1975) fez o seguinte comentário sobre a sua participação em “O Grande Júri”:

“A despeito dos episódios anteriormente mencionados, passei a ser convidado, insistentemente, pelo meu colega Valter Rosa Borges para participar de programas de debates, sob a designação de O Grande Júri, na TV Universitária.

Assim é que fiz parte dos júris em que foram discutidos os mais variados temas como sejam: emancipação da mulher, concubinato, o tabu da virgindade, divórcio, abandono da família, controle da natalidade, eutanásia, amor grupal, cremação e vários outros de que não me lembro.

Em todos eles, me foi garantida absoluta liberdade de expressão, sem qualquer restrição. No debate de temas altamente polêmicos, to­mei, quase sempre, posição contrária aos preconceitos e às convenções sociais predominantes. Nenhuma advertência me foi feita no sentido de reduzir a veemência com que tratei aqueles assuntos ou de modificar a orientação adotada. É claro que sempre tive o necessário senso de responsabilidade para não criar problemas à Estação, que gentilmente colocava o seu microfone e as suas câmeras à minha disposição.

Nessa oportunidade, pude verificar o alto poder comunicativo da televisão. Passei a receber na rua os cumprimentos de pessoas que nun­ca tiveram comigo qualquer aproximação, mas apresentavam nos semblantes uma expressão cordial de quem me havia recebido na intimidade de seus lares. Muitos tomavam a liberdade de externar as suas opiniões, algumas contrárias ao meu ponto de vista.

Certa feita, um deles, após um programa sobre a eutanásia, a que não prestara a devida atenção, me perguntou com evidente inocência:

— Quem é essa mulher?

Informado de que se tratava do chamado homicídio piedoso, insis­tiu em perguntar-me se poderia batizar uma sua filha com o nome de Eutanásia.

 

DÉCADAS DEPOIS

 

REINALDO DE OLIVEIRA (*)

            A Televisão tem sua magia. Seu poder. Tanto pro­move um artista como o enquadra no reino da mediocri­dade. A força dos diretores das emissoras e a influência do público telespectador podem ditar o destino de um pro­dutor, apresentador ou programa. Os que atingem o gosto dos amantes da TV, perduram. Os que não conseguem prender a atenção desaparecem mais cedo do que se ima­ginava.

            Se recuarmos no tempo para 20 anos atrás, vamos encontrar o telespectador que gostava de Cultura, ligado ao Canal 11, da TV Universitária, às sextas-feiras, para assistir a O GRANDE JÚRI. O programa tinha como criador e apresentador, Valter da Rosa Borges, ligado às coisas do Direito e, principalmente, aos poderes da mente e da inte­ligência. Escolhido o assunto, passava a convidar expoen­tes intelectuais de nossa cidade para compor a Mesa do Júri na qual o assunto era esmiuçado, debatido e, final­mente, exposto nos seus resultados, tal e qual uma sen­tença de jurados. A habilidade com que era conduzido, exigindo dos debatedores o máximo de suas argumenta­ções, prendia o público cativo que já esperava pela outra semana no sentido de se enriquecer mais. O GRANDE JÚRI assumia um papel de seminário, onde cada um dos seus componentes abordava a questão escolhida, sob sua óptica, formando, ao final, um mosaico explícito, facil­mente captável pelo telespectador.

            Advogados, médicos, psicólogos, engenheiros, tea­trólogos, escritores, folcloristas, pensadores, filósofos, bo­tânicos, técnicos, professores, políticos, sentiam-se honra­dos em poder participar de um programa cultural daquela categoria. Quantas vezes vimos depoimentos de um Or­lando Parahym, de um Valdemar de Oliveira, de um Val­demar Valente, de um Mário Souto Maior, de um Lourival Vilanova, de um Vasconcelos Sobrinho, de um Potyguar Matos, de um Alfredo de Oliveira, de um Hermilo Borba Filho, de um Bezerra Coutinho, de um Pessoa de Morais, de um Berguedoff Elliot, de um Roberto Mota, de um Othon Bastos, de um Nelson Saldanha, de um José Lou­renço de Lima, de um José Rafael de Menezes, de um An­tonio Brito Alves, de um Salustiano Lins, de um Fernando Pio dos Santos de um Vanildo Cavalcanti, de uma Maria do Carmo Tavares de Miranda, de um Paulo Maciel e, até mesmo, de mim, quando solicitado, para valorização de meu currículo. Eram duas horas inteiras, quando não se estendia, a pedido do público, por mais tempo, de exibi­ção de conhecimentos e de sagacidade dos jurados. Ali foram julgados assuntos antigos e da atualidade de então, com julgamento de pessoas ou personagens da História, de peças ou filmes. Foram analisados crimes, decisões gover­namentais, atitudes pessoais de autoridades nacionais ou estrangeiras, com a participação telefônica do povo que se sentia importante ao intervir. O entusiasmo dos debatedo­res exigia o pulso firme do condutor para serenar os mais exaltados, em benefício do telespectador.

Foram quase 12 anos de sucesso. Já dizia Oscar Wilde que “é fácil simpatizar com os sofrimentos de um amigo. Simpatizar com os seus triunfos, exige um coração muito nobre”. Foi essa nobreza que faltou aos dirigentes da TV Universitária. O sucesso do programa começava a incomodar e, sendo de cultura, maioria de razões para que fosse, aos poucos, desativado. O público da cidade foi surpreendido, sem entender como se podia tirar de audi­ência certa, a aula semanal que O GRANDE JÚRI se cons­tituía.

            Fui um mero participante e telespectador privilegi­ado. Porém fui, também, uma vítima da inaceitável atitude de encerrar o programa, tirando-o do ar. Do ar e da terra, onde os acostumados ao vício do bom, se viram privados do belo hábito.

            Sei que Valter da Rosa Borges está organizando um livro sobre a memória de O GRANDE JÚRI. Quem sabe, com a prova em mãos, ou nos olhos, os atuais dirigentes da TVU não se reanimam a promover a reentrada de O GRANDE JÚRI na sua grade de programação? Seria muito bom para os que são obrigados a padecer diante das pro­gramações de baixo nível impostas, compulsoriamente, ao público, em novelas ou apresentações medíocres.

            O GRANDE JÚRI fixou o seu nome na história da TV pernambucana, colocando seu criador e apresentador, Valter da Rosa Borges, no patamar invejável de sua inteli­gência.

 

NIVALDO MULATINHO (*)

 

Frank Sinatra é um crápula! Foi o que disse o professor universitário, bem conhecido na TV Universitária, quase agarrando o meu pescoço, depois de ver as imagens coloridas da gravação. Ele não tinha aprovado O Grande Júri sobre o cantor norte-americano, programa do qual participei ao lado de Aírton Cavalcanti, Geraldo Casado e outros sinatrófilos. Era o final da década 70, uma época em que o programa de Valter da Rosa Borges, com uma forma mais livre, consolidava o seu prestígio, sua audiência, sua singularidade. O professor, que gostava de falar alemão e de participar dos debates na emissora da Universidade Federal de Pernambuco, tinha muitos ciúmes e inveja do programa. Outros também tinham.

Certos livros valem toda uma Literatura. Certos programas de TV são o registro ímpar de uma luta por renovações culturais - que são, por sua natureza, sempre lentas - renovações processadas em uma área onde ainda imperam, sem dúvida, infelizmente, a mediocridade, a imitação, os apelos comerciais espúrios. Poderemos ter uma televisão melhor, mais digna e mais criativa (aberta ou paga, pública ou comercial), acompanhando a história, registrando as fases e os contratempos de um programa como O Grande Júri, embora, a meu ver, este programa só tenha existido, principalmente na época em que existiu, em razão da personalidade do seu criador e apresentador.

Valter da Rosa Borges – poeta, filósofo, jurista – era capaz de reunir os talentos mais diversos (especialistas, professores, artistas) e estimular os debates e as reflexões, sem fazer direcionamentos ideológicos. E tudo no programa começava (e terminava) na principal virtude do seu produtor e apresentador: a honestidade intelectual.

Sem imitar ninguém, com o seu estilo e a sua liberdade de pensador, Valter exercia o comando ao mesmo tempo erudito e democrático do programa, como bem registrou Roberto Mota, um dos seus melhores debatedores.

Com ele, e em razão dele, todos os temas relevantes podiam ser debatidos. Seriamente, exaustivamente, com o sabor do saber.

Frederico Pernambuco de Mello trouxe iluminações para todos em O Grande Júri sobre o já fascinante e com-plexo tema dos cangaceiros e do banditismo no Nordeste. E o professor José Rafael de Menezes estava em um dos seus melhores momentos de reflexão política quando fez audaciosas colocações, em um dos programas de mais intenso e empolgante debate, sobre as pequenas vitórias e os bem largos fracassos da emblemática Revolução Francesa.

Todos têm os seus programas preferidos, na bela e singular trajetória de O Grande Júri. Seu criador, que tinha uma paixão viva no comando de todos eles, merece a nossa justa homenagem, a nossa gratidão.

(*) Nivaldo Mulatinho é Juiz de Direito.