Prêmio Lyra e Cesar

 

Valter da Rosa Borges, vencedor do Prêmio "Lyra e César, da Academia Pernambucana de Letras – 1995.

A Comissão Julgadora do “Prêmio Lyra e César de Poesia, da Academia Pernambucana de Letras, versão 1995, em seu parecer sobre esse livro assinala que ele se caracteriza “por um alto nível de conteúdo e beleza em forma, contenção e síntese admiráveis” e que o seu autor revela possuir “espírito culto, profundo e de grande lucidez”.

 

Valter da Rosa Borges discursa na sessão solene da Academia Pernambucana de Letras em nome de todos os demais premiados.

ENCONTRO COM OS IMORTAIS (*)

Valter da Rosa Borges

            Investido da prerrogativa de agradecer, em nome dos laureados com os prêmios de literatura de 1995, à Academia Pernambucana de Letras, assim como aos patrocinadores dos concursos, sinto-me, ao mesmo tempo, honrado e emocionado por esta designação.

            Embora avesso, por formação, às filigranas da retórica e ao tom formal do discurso pertinente em tais solenidades, prometo, em preliminar, brevidade e concisão no exercício do agradecimento.

            Não-militante, porém observador atento das lides literárias do nosso Estado, não poderia deixar de registrar, nesta oportunidade, o papel histórico e de inegável liderança da Academia Pernambucana de Letras na condução da vida intelectual de Pernambuco, numa invejável demonstração de coerência programática, consubstanciada no zelo de seus postulados tradicionais. Esta longeva e sólida fidelidade dos valores culturais que completa 95 anos de idade é o atestado de vitalidade de uma instituição que soube, com invejável pertinácia, preservar-se, sempre incólume, das insídias e perfídias do tempo.

            Não se pode fugir ao truísmo denunciatório de uma sociedade em acelerada transição que mais se assemelha, notadamente no ocidente, ao processo entrópico de uma civilização em rumo equivocado, embevecida, no entanto, pelo brilho hipnótico das lantejoulas tecnológicas. A bem da verdade, de tanto  cotejar a filosofia consumista, na orgia aquisitiva de bens e de valores transitórios, o homem perdeu o seu próprio endereço existencial, acometido de colapso amnésico de sua identidade transcendental.

            Se, de um lado, o progresso científico e as comodidades tecnológicas aceleram, cada vez mais, o processo de irreversível planetarização, denominado por McLuhan de “aldeia global”, numa interação perigosamente homogeneizante das culturas mais díspares, por outro lado o espírito humano vem sofrendo um persistente abastardamento de seu ideário humanístico pelas facécias e falácias da mídia enlouquecida, na promoção da vulgaridade, do deboche, do estímulo à criminalidade, onde o filão do escândalo constitui a ratio essendi do marronismo jornalístico.

            Preservar-se incólume do contágio mediocrizante como cidadela inexpugnável do sanitarismo cultural é uma virtude apenas encontrável em veneráveis instituições - entre as quais se destaca a Academia Pernambucana de Letras - cuja missão consiste na custódia dos valores excelsos do espírito humano.

            A literatura não é uma atividade lúdica ou passatempo diletante, mas o exercício da criatividade comprometida com a dinâmica existencial. Não é apenas imitação, mas simulação das complexidades subjetivas afetando as relações sociais. Imitação é a replicação de situações preexistentes e, em tais circunstâncias, se diz que a arte imita a vida. Simulação é a experimentação de possibilidades tal como ocorre nos jogos de computação, e, neste caso, se espera que a vida imite a arte. O escritor, sob esta óptica, é o cientista empírico do que é e também do que pode ser, lidando, por conseguinte, não só com a realidade fática, mas ainda com a realidade virtual. O escritor é o seu próprio laboratório, pois ele é a matéria-prima de onde se extraem as complexidades da natureza humana. E as academias literárias constituem o referencial físico do reconhecimento comunitário de seu trabalho, simbolicamente representado no convívio de seus pares. O escritor é uma espécie de médium do milenar espírito humano, em todos os tempos e em todos os lugares. Por isso, há romances e poesias que são oráculos, extraídos das fendas do tempo, onde se assenta a trípode pitônica da criatividade estética.

            Cuido, porém, que conquanto no convívio de imortais, urge estar atento às solicitações inadiáveis do temporal, o que me leva à compulsão do término da oratória. Reitero em meu nome e em nome dos demais laureados o nosso agradecimento à Academia Pernambucana de Letras pela premiação dos nossos trabalhos e aos patrocinadores dos concursos pelo apoio material do evento, na esperança de que a atividade intelectual se transforme na alavanca arquimediana capaz de mover, mas, principalmente, de direcionar o mundo para um futuro promissor.

            (*) Discurso pronunciado, em 26 de janeiro de 1996, na Academia Pernambucana de Letras, na solenidade de entrega dos Prêmios Literários de 1995.

 

Ciência e lirismo (*)

Parapsicólogo lança hoje seu segundo livro de poemas

Jacques Cerqueira

Subeditor do Viver

Quarenta e dois anos depois de ter publicado seu primeiro livro de poesias - Os Brinquedos - o parapsicólogo Válter da Rosa Borges ressurge como poeta. Às 17h de hoje, lança seu segundo livro de poemas no Espaço Cultural Livro 7 - O Ser, o Agora, o Sempre, que ganhou o prêmio Lyra e César, da Academia Pernambucana de Letras, ano passado. Diferentes das suas poesias de quatro décadas atrás, marcadas pelo lirismo de influência parnasiana, as poesias do novo livro ganham linguagem telegráfica, quase hai-kais, mas misturando elementos da Mitologia grega, religiosa e até científicos.

"Para ler Os Brinquedos, hoje, eu devo me transportar até 1954. Mesmo assim, eu sancionaria alguns poemas da fase lírica, mas que já carregavam em si toda  preocupação filosófica", argumenta Rosa Borges. Numa análise cuidadosa das suas poesias de hoje, admite que algumas "cheiram a hai-kai", mas só no sentido sintético e não formal. Para se ter uma idéia do que o autor quer dizer, basta ler Crepúsculo -"É nostálgico o crepúsculo/de quem não soube ser Sol/ao meio-dia".

Neste segundo livro de poesias, Rosa Borges se descobre "poeta conteudista, com a síntese do pensamento". De um jeito que lembra até Fernando Pessoa. "O poeta português tinha a mesma preocupação com essa forma", compara. No intervalo de 42 anos entre seus dois livros de poesia o parapsicólogo publicou cinco livros científicos dentro de sua área. Ao longo de todo esse tempo, foi dando novas estruturas a alguns dos poemas "cometidos bissextamente". Mais sintéticas e marcadas pela emoção estética. Mitologia - Apegado à métrica, escreve sempre em decassílabos ou redondilhas. Nada absolutamente solto. "Nunca consegui me libertar da métrica', revela. Na sua avaliação, "a Mitologia é muito forte na vida humana; faz parte dos arquétipos comportamentais'. Por isso, talvez, suas poesias estejam povoadas de figuras mitológicas como Prometeu e Caronte.

Deus, Céu, Morte e Vida também estão sempre presentes nos poemas de Rosa Borges. Com muita razão. O poeta vagou e divagou por várias religiões. "Comecei pelo Catolicismo e fui espírita muitos anos, até descobrir que o movimento de Allan Kardec estacionou no século XIX", argumenta. Hoje, se define como um místico, um livre pensador, "aquele homem que é livre de suas próprias idéias".

Em “Iluminação”, escreve: "Quando penso que sou eu/Esqueço-me de que sou Deus/Mas, quando me acordo Deus/descubro que nunca fui". Esse jogo de palavras é uma constante no trabalho de Rosa Borges. "Isso é minha criatividade pessoal, coisa que ninguém ensina", teoriza. Ao contrário de outros poetas, que costumam estimular condições facilitadoras, como parte do processo criativo, o parapsicólogo-poeta deixa tudo acontecer. Naturalmente. "Às vezes, estou lendo um livro que não tem nada a ver com nada e, de repente, surge uma poesia", conta.

           No livro O Ser, o Agora, o Sempre - editado pela Associação de Parapsicólogos de Pernambuco/Novo Tempo - Rosa Borges dispensa "orelhas", apresentação, prefácio, homenagens. "Não vejo por que ter padrinhos de livros. Para que servem padrinhos? A poesia não precisa disso", argumenta. Bastou o parecer da Comissão Julgadora da Academia Pernambucana de Letras, que lhe concedeu o Prémio Lyra e César: "Este livro se caracteriza por um alto nível de conteúdo e beleza em forma, contenção e síntese admiráveis, no qual o autor revela possuir espírito culto, profundo e de grande lucidez".

Para chegar à premiação, Rosa Borges foi estimulado pelo acadêmico Amílcar Dória Matos a concorrer com os originais inéditos dos 95 poemas, que acabaram distribuídos pelas 104 páginas do livro O Ser, o Agora, o Sempre. Já inscrito no concurso, Rosa Borges passou a esperar um resultado positivo. "A gente sempre espera uma coisa boa quando concorre a alguma coisa. E logo eu que sou otimista", lembra. Não deu outra. Foi premiado.

Procurador de Justiça aposentado e parapsicólogo cada vez mais atuante, Rosa Borges resolveu fazer o lançamento do seu novo livro a partir das 17h. "Quero aproveitar a hora que meus amigos estão saindo do trabalho e estender esse reencontro por mais algum tempo", afirma. Se depender dos amigos, será um evento bastante concorrido. Afinal, tem muita gente querendo conhecer o lado poeta de um renomado parapsicólogo pernambucano.

 

(*) Diário de Pernambuco. 15 de abril de 1996