O Conhecimento

 

Valter da Rosa Borges

                

            A cognição é a aptidão do ser humano de recolher informações do mundo onde atua, transformando-a em conhecimento que torne inteligível a realidade, seja sob o ponto de vista religioso, filosófico ou científico.

 

            Conhecer cada vez mais é uma predisposição do ser humano. Queremos conhecer a realidade e o porquê de todas as coisas. Pouco importa que o objeto do conhecimento ultrapasse a nossa capacidade de compreensão. Essa obstinada atividade cognitiva, no entanto, nos dá a confortadora impressão de uma sempre crescente compreensão da realidade.

 

            Humberto Maturana e Francisco Varela foram mais longe e afirmaram categoricamente que “viver é conhecer”.

 

O conhecimento tem também um aspecto operacional, mediante o qual o homem pode intervir na natureza, modificando-a.

 

Dizemos que conhecemos quando o que julgamos conhecer se apresenta constantemente de acordo com o que declaramos ao seu respeito.Conhecer é um conduzir-se adequadamente em face às diversas situações em que nos encontramos nas relações com o que nos parece ser a realidade. O conduzir-se dos outros de modo semelhante ao nosso, nas mesmas situações específicas, constitui, para nós, uma evidência de que temos um conhecimento em comum, e que, por ser compartilhado, é, ao menos, pragmaticamente verdadeiro. Logo, o conhecer também é um compartilhar.

 

Quanto mais sabemos, mais queremos saber. E o homem não apenas aprende, mas aumenta sempre a sua capacidade de aprender. Ao menos na Terra, ele é o único ser vocacionado para o saber ilimitado.

 

Como as possibilidades são infinitas, não há como conhecer todas elas. Então, nos conformamos em lidar com as que conhecemos e nos parecem prováveis, relegando como impossíveis aquelas que, para nós, são logicamente improváveis.

 

O conhecimento é um conjunto de experiências sistematizadas, objetivando encontrar leis e princípios da natureza. Acontece que a natureza ou a realidade é um dinamismo em perpétua mudança, onde tudo é sempre novo a cada momento. Assim, as coisas aparentemente se repetem, porque não são iguais, mas apenas semelhantes. Por isso, o conhecimento é sempre inevitavelmente provisório.

 

O conhecimento nem sempre é cumulativo, porque ele é um processo e não um estado. As coisas mudam. O homem muda as coisas, porque ele é o único ser que produz alterações na natureza. E as mudanças exigem uma permanente reformulação do conhecimento.

 

            Já dizia Xenófanes que o conhecimento é um fazer, uma conquista progressiva do homem e não o resultado de uma iluminação divina.

 

O conhecimento é uma construção do homem e, por isso, ineficaz em relação ao Todo, o qual está além de nossa capacidade cognitiva. É uma tentativa de dar coerência às nossas relações com a realidade em que vivemos, buscando, em sua aplicabilidade, uma melhor qualidade de nossa existência.

 

Não podemos saber tudo. Só conhecemos o que podemos conhecer, e não sabemos até onde podemos conhecer. O homem não é apenas um ser que conhece, mas que sabe que conhece.

 

Se não podemos conhecer tudo a respeito de qualquer coisa, como podemos conhecer tudo a respeito de tudo? A moderna Teoria do Tudo não passa de mais uma crise de megalomania cognitiva que, vez por outra, acomete alguns cientistas e filósofos. Margareth Wertheim, no entanto, viu a questão sob outro ângulo. Disse ela:

 

          “O interessante, embora talvez não surpreendente, é que alguns físicos tentaram interpretar a própria “teoria de tudo” num sentido espiritual. Foi uma “teoria de tudo” que Stephen Hawking, numa passagem famosa, associou à “mente de Deus. E Hawking não é em absoluto o único a equiparar uma “teoria de tudo” a Deus; outros físicos estiveram fazendo o mesmo, entre eles, notadamente, Paul Davies e o físico das partículas ganhador do Nobel, Leon Lenderman. O que vem a ser exatamente o “Deus” dos físicos das “teorias de tudo” não é nada claro, parece não passar muito de um conjunto de equações. No entanto, assim como muitos não cientistas, esses físicos perceberam que, para muita gente hoje, uma imagem puramente fisicalista do mundo não é satisfatória. Tentando identificar sua visão hiperespacial com um “Deus”, esses homens estão tentando reintroduzir algum tipo de espiritualidade tanto na visão científica do mundo quanto no próprio espaço.”

 

Toda atividade cognitiva consiste em reduzir a ignorância. Nunca paramos de conhecer e o aumento crescente do conhecimento amplia a consciência da nossa ignorância e esta nos induz à necessidade de conhecermos cada vez mais. Por isso, o conhecer nunca termina.

 

Pensamos compreender, porque definimos. A definição não é a compreensão, mas conceituação. Quando a definição nos satisfaz, pensamos que compreendemos. Então nos acomodamos nos limites da nossa interpretação. Há, no entanto, ocasiões em que compreendemos sem definição, porque não há palavras para exprimir o que experimentamos.

 

Conhecer é conhecer sempre, descartando, a cada momento, o conhecido que se tornou ineficaz. Por isso, o conhecimento é dinâmico e está sempre a mudar, procurando amoldar-se às mudanças e modificar-se. Há, no entanto, conhecimentos mais duráveis do que outros, dando-nos a impressão de que são definitivos.

 

Se soubéssemos tudo, perderíamos o prazer do inédito, a emoção da surpresa. A consciência de nossa ignorância nos protege contra o tédio. A vida não seria mais um jogo, mas um resultado sempre previsível. Também não haveria a esperança e a expectativa de um milagre. Por isso, os filósofos de sistema procuram a segurança do casulo cognitivo onde pensam que podem controlar tudo e não ousam aventurar-se pelos descampados da insapiência.

 

O conhecimento são armadilhas inventadas pelo homem para aprisionar momentos da realidade. Mas, nem sempre são eficazes. A realidade é infinitamente maior do que todas as armadilhas.

 

Conhecimento é tudo o que passou. O conhecimento é passado. O presente é sempre novo e, nele, não há conhecimento. Quando muito, contemplação.

 

Há um modo científico, filosófico, religioso e artístico de perceber a realidade. Geralmente, escolhemos um deles. Algumas pessoas, no entanto, percebem a realidade sob todos esses modos e, quando isso acontece, um deles é o predominante.

 

É a força da crença em uma hipótese que nos dá a impressão de que ela é verdadeira. O que uma comunidade crê tem a aparente consistência de realidade. Por isso, sempre se encontra comprovação daquilo em que se crê. Mesmo as evidências em contrário não abalam ou destroem completamente uma hipótese. Ela fica apenas enquistada, como um pequeno feudo. E as novas evidências formam uma nova hipótese que, ou inclui a anterior, ou fica em paralelo com ela.

 

            Mais importante do que o conhecimento é a capacidade de aprender sempre. O conhecimento não passa de um mero resultado do aprender, embora, por sua vez, constitua a base do aprendizado. O estado de cognoscência prevalece sobre as produções cognitivas, as quais, por sua vez, servem de combustível para a atividade cognoscitiva.

 

Aprendemos porque temos uma estrutura inata para aprender além do que já sabemos em nível inconsciente. Não somos um sistema cognitivo fechado e acabado, mas aberto e sempre em construção.

 

            Aprender não é apenas saber cada vez mais e sim revisar criticamente o que se pensa que sabe. Por isso, Gaston Bachelard alertou que “conhece-se claramente aquilo que se conhece grosseiramente. Se se pretende conhecer distintamente, o conhecimento pluraliza-se, o núcleo unitário do conceito primitivo explode”.  

O conhecimento é conseqüência do aprendizado e é sempre provisório, porque, pelo contínuo aprender, novos conhecimentos são gerados, ampliando e/ou retificando os conhecimentos anteriores. Ele é o aspecto estático do aprendizado e o aprendizado, o aspecto dinâmico do conhecimento. O conhecimento estabilizado gera eficiência, mas não evolui. A automatização é a máxima expressão do conhecimento estabilizado.

 

O que é o conhecimento? É o que aprendemos nas nossas relações com o mundo exterior ou é nossa criação? É algo externo que cria o conhecedor ou é o conhecedor que cria o conhecimento?

 

O conhecimento geralmente se refere a algo fora do conhecedor. A observação cuidadosa e reiterada de um fenômeno é o primeiro passo para sua identificação, descrição, definição e explicação. Acontece, porém, que a observação e a descrição, consciente ou inconscientemente, são selecionadas, e a definição e explicação dependem do ponto de vista do observador.

 

Observador, observação e coisa observada formam uma unidade, existindo de momento a momento. Somos o que observamos, observamos segundo somos e a coisa observada é a síntese do observador e da observação. O conhecimento é a resultante dessa trindade.

 

Todo o conhecimento sofre a distorção do conhecedor, pois o conhecido conhece o conhecido segundo as necessidades e peculiaridades do conhecedor. Aliás, Boécio já havia afirmado que “tudo o que é conhecido não é compreendido segundo suas características, mas sim segundo a capacidade daqueles que procuram conhecer”. E, séculos depois, Tomás de Aquino enunciaria que o conhecimento está no conhecedor segundo o modo do conhecedor. Não podemos conhecer outros modos da realidade senão o modo como a conhecemos. Assim, segundo Kant, não podemos conhecer a essência das coisas, a coisa em si.

 

Francis Bacon assinalava que o conhecimento é poder, e essa assertiva vem se confirmando, cada vez mais, no mundo contemporâneo. Por isso, há os que querem o conhecimento para ter o poder de tudo dominar. Mas, quando o obtêm, se apercebem de que muito pouco podem dominar. O conhecimento nos dá a sensação de segurança como também de domínio sobre a coisa pretensamente conhecida.

 

O conhecimento é uma fonte de prazer, quando o conhecedor faz do conhecimento um fim em si mesmo.

 

Na Grécia clássica, uma das grandes questões filosóficas era de natureza gnosiológica: o conhecimento é inato ou adquirido?

 

Platão, em acordo com Sócrates, ensinava que o conhecimento é inato e, portanto, saber é recordar. Séculos depois, Gottfried W. Leibniz, embora admitisse as idéias inatas de Platão, advertia que elas se encontram em estado de virtualidade e apenas mediante a reflexão podem ser atualizadas.

 

            Para Aristóteles, todo conhecimento é adquirido. A mente é uma tabula rasa, onde todo conhecimento é inscrito. Por isso, “nada está no intelecto que não tenha passado antes pelos sentidos”.

 

O conhecimento adquirido é resultante da cultura e garante a nossa sobrevivência social, habilitando o indivíduo a viver segundo as normas e padrões da sociedade e obter informações de natureza científica, filosófica, religiosa e artística, dotando-o, assim, de habilidades especiais.

 

Todo e qualquer conhecimento adquirido se torna o background do inconsciente, como as experiências pessoais e os condicionamentos culturais.

 

Os seres vivos, porém, não são uma tabula rasa. Eles não aprendem com a experiência, porque já nascem dotados de um conhecimento específico segundo a natureza de cada um. Por isso, as células “sabem” o que devem fazer.  Cada órgão do organismo “sabe” o que deve fazer. Do mesmo modo, os micróbios, as plantas, os animais, os homens. Todos são dotados de um “conhecimento inato” a que se deu o nome de instinto. Assim, este conhecimento inconsciente, inato e biológico garante a sobrevivência do ser, porque lhe permite agir e reagir adequadamente no ambiente em que vive.

 

O conhecimento inato não é apenas constituído de programas biológicos, mas também do conhecimento da espécie a que pertence o indivíduo e segundo Stanislav Grof até de outras espécies, conforme diz ter comprovado em pessoas que participaram de experiências psicodélicas. É o chamado inconsciente coletivo de Jung e o mundo das idéias de Platão, acessível pela utilização do método da maiêutica de Sócrates.

 

Baruch Spinoza destacou três momentos do processo cognitivo: a) o conhecimento sensorial, que apenas nos fornece a multiplicidade dos seres; b) o conhecimento racional, que procura ordenar logicamente a multiplicidade das coisas; c) o conhecimento intuitivo, que é capaz de captar a ordem necessária e imutável, compreendendo a multiplicidade fenomênica na unidade da Substância.

 

Em relação ao seu objeto, o conhecimento pode ser postulado como verdade ou mera hipótese.

 

William James concebia o conhecimento como atividade pragmática e não como verdade. O conhecimento serve apenas para orientar o homem na realidade, mas não para conhecê-la.

 

O objeto do conhecimento pode ser: o mundo exterior, ou seja, o que se conhece do objeto; o próprio conhecimento, ou seja, como se conhece o objeto; o conhecedor, ou seja, quem conhece.

 

O conhecimento, em regra geral, é de algo fora do conhecedor. Refere-se a coisas e fatos percebidos pelo conhecedor, inclusive os outros seres vivos. É uma tentativa de apreensão, descrição e explicação da realidade.

 

O que ainda se discute filosoficamente é se existe uma realidade externa ao conhecedor. Se não existe, tudo não passa de solipsismo. Mas, se existe, o que é ela e de que é constituída? Parmênides entendia que se tratava de uma substância homogênea e Heráclito, de um processo ou vir-a-ser. Leucipo e Demócrito afirmavam que a realidade era constituída de partículas indivisíveis a que denominam de átomos.

 

            O conhecimento do mundo objetivo é objetivo quanto à sua percepção, mas subjetivo quanto à sua interpretação.

 

            A causalidade é um dos alicerces fundamentais do conhecimento sensorial. Parece uma lei férrea a relação causa e efeito, evidenciando um encadeamento necessário entre os acontecimentos. Causalidade é a propensão de dois ou mais fenômenos se sucederem. Não há causas, mas eventos justapostos.

 

Francis Bacon já observara:

 

“O intelecto humano, mercê de suas peculiares propriedades, facilmente supõe maior ordem e regularidade nas coisas que de fato nela se encontram. Desse modo, como na natureza existem muitas coisas singulares e cheias de disparidades, aquele imagina paralelismos, correspondências e relações que não existem”.

 

David Hume investiu contra o princípio da causalidade, argumentando que entre os fatos há sucessão constante e não conexão necessária. A idéia de causalidade é um mero hábito, uma ilusão psicológica, uma necessidade prática. Acostumamo-nos a converter seqüências constantes em seqüências necessárias e generalizamos essa relação fática, dando-lhe o nome de causalidade.

 

A experiência e o hábito determinam a noção de causalidade. E a experiência da contigüidade e da proximidade temporal induz o homem a pensar que os fenômenos estão submetidos a uma relação de causa e de efeito.

 

Todas as nossas percepções resultam do mecanismo de associação e do hábito. E a associação de idéias resulta dos princípios de semelhança, de contigüidade de tempo e de lugar, e de causa ou efeito. São esses os três princípios da conexão entre as idéias. Em relação ao princípio de causa e efeito, Hume esclareceu que “todo efeito é uma ocorrência distinta de sua causa” e, portanto, o nexo de causalidade não passa de um critério arbitrário. Assim, não se pode inferir acontecimentos futuros com base nas experiências do passado. O futuro não é, por conseguinte, uma resultante necessária do passado.

 

Advertiu Hume que, embora concluamos experimentalmente que “de causas que parecem semelhantes, esperamos efeitos semelhantes”, tudo, no entanto, “sucede de modo bem diverso”. Na verdade, toda a nossa crença no princípio de causalidade se fundamenta na conjunção habitual entre os objeto.

 

Hume fez uma oportuna advertência como preventivo contra a falácia empírica:

 

“Depois de vivermos alguns anos e de nos termos acostumados à uniformidade da natureza, adquirimos o hábito geral de transferir sempre o conhecido para o desconhecido e de conceber o segundo como semelhante o primeiro”.

 

Por isso, “todas as inferências derivadas da experiência são efeitos do costume e não do raciocínio”.

 

Montaigne já advertira que “o hábito retira-nos a possibilidade de um juízo sadio”. Os costumes, ou seja, os hábitos de uma cultura, condicionam o nosso modo de pensar.

 

Sabemos que nem sempre percebemos as coisas como elas são. Não há confiabilidade nos sentidos, pois estes podem ser afetados por fatores objetivos externos e internos, ou por fatores subjetivos.

 

Porque temos uma estrutura sensorial semelhante, percebemos o mundo de maneira semelhante, com pequenas diferenças resultantes de fatores culturais. Seres diferentes percebem diferentemente a realidade. Assim, cada espécie conhece a realidade de um determinado modo.

 

Hodiernamente, as extensões tecnológicas ampliam permanentemente a nossa capacidade perceptual.

 

Dada à inconfiabilidade da percepção e a sua correção pela razão, esta passou a ser a mais importante fonte do conhecimento, com a comprovação de que não conhecemos apenas o que percebemos, mas o que pensamos. A lógica, a ferramenta por excelência da razão, se transformou no nosso modo de perceber mentalmente a realidade.

 

Blaise Pascal já havia advertido da necessidade de se evitar dois excessos: excluir a razão e só admitir a razão. E sentenciou:

 

            “O último passo da razão consiste em reconhecer que há uma infinidade de coisas que a excedem; ela é fraca se não vai até ao ponto de reconhecer isso.”

 

O conhecimento racional também utiliza a analogia comparando atributos semelhantes entre seres ou sistemas diferentes. A compreensão do ser humano passou a ser entendido pela biologia de outros animais e, atualmente, pela comparação com as máquinas notadamente o computador.

 

Outras fontes do conhecimento são a experiência (conhecimento empírico) e a experimentação (conhecimento experimental), assim como a imaginação e a intuição.

 

Leonardo da Vinci dizia que a experiência é “a mestra de todos os mestres” e criticava os escolásticos e humanistas de sua época que “circulam por aí de peito todo inchado, com toda a pompa e circunstância, vestidos e adornados com trabalhos que não são frutos de seu próprio esforço, mas do esforço de outros”. E afirmava que “prova-se por meio da razão e confirma-se por meio da experiência”.

 

Francis Bacon procurou determinar os fatores (ídolos) responsáveis pelos erros cometidos na investigação experimental e os classificou em quatro categorias: a) os ídolos da raça (idola tribus) – que resultam da tendência de se generalizar idéias com base nos fatos que a  favorecem, omitindo aqueles que lhes são contrários; b) os ídolos da caverna (idola specus) - que resultam da educação e dos costumes; c) os ídolos da vida pública (idola fori) - que se originam do uso inadequado da linguagem; d) os ídolos da autoridade (idola teathri) - que decorrem da irrestrita subordinação à autoridade, por exemplo, a de Aristóteles.

 

Baruch Spinoza advertiu que o conhecimento racional, conquanto necessário, não é suficiente para a compreensão da realidade, porque “o nosso julgamento da ordem das coisas e do nexo das causas... é fundado antes na imaginação do que na realidade”. Só o conhecimento intuitivo é o momento supremo do processo gnosiológico, porque a unidade da Substância está além da razão humana e só a intuição é competente para entendê-la.

 

Disse Einstein:

 

“Não existe nenhum caminho lógico para a descoberta das leis elementares do Universo – o único caminho é a intuição”.

 

E enfatizou:

 

“O mecanismo do descobrimento não é lógico e intelectual – é uma iluminação subitânea, quase um êxtase. Em seguida, é certo, a inteligência analisa e a experiência confirma a intuição. Além disso, há uma conexão com a imaginação.”

 

O conhecimento é também estruturado pela cultura e o seu principal instrumento – a linguagem. Tinha razão Ludwig Wittgenstein quando asseverou que “os limites do meu mundo são os limites da minha linguagem”. Por isso, o conhecedor deve observar as influências orgânicas e socioculturais que influenciaram o seu conhecimento, conscientizando-se de que ele é algo além dessas influências. Conhecer como o conhecimento criou o conhecedor é libertar o conhecedor do conhecimento para que o novo conhecedor possa gerar um outro tipo de conhecimento.

 

Galileu inventou o experimento imaginário, como fonte de conhecimento. Atualmente, a simulação, no computador, é um precioso auxiliar das atividades cognitivas. O homem não quer apenas aprender com o que é, mas com o que pode ser. A simulação é uma forma de aprender com o que poderá acontecer.

 

A simulação é a imaginação experimental. Testa-se o que é possível acontecer. Desenvolvem-se condicionamentos com a experimentação virtual. A imaginação é o sonho em vigília e o computador o instrumento para o exercício da criatividade. Futuros possíveis podem ser experimentados em programas de computadores. Assim, conforme explicou Pierre Lévy, o usuário do universo da informática pode “adquirir um conhecimento por simulação do sistema modelado, que não se assemelha, nem a um conhecimento teórico, nem a uma experiência prática, nem ao acúmulo de uma tradição oral”.

 

            Lévy observou:

 

    “O conhecimento por simulação, menos absoluto que o conhecimento teórico, mais operatório, mais ligado às circunstâncias particulares de seu uso, junta-se assim ao ritmo sociotécnico específico das redes informatizadas: o tempo real. A simulação por computador permite que uma pessoa explore modelos mais complexos e em maior número do que se estivesse reduzido aos recursos de sua imagística mental e de sua memória de curto prazo, mesmo se reforçadas por este auxiliar por demais estático que é o papel. A simulação, portanto, não remete a qualquer pretensa irrealidade do saber ou da relação com o mundo, mas antes a um aumento dos poderes da imaginação e da intuição. Da mesma forma, o tempo real talvez anuncie o fim da história, mas não o fim dos tempos, nem a anulação do devir. Em vez de uma catástrofe cultural, poderíamos ler nele um retorno ao kaïros dos sofistas. O conhecimento por simulação e a interconexão em tempo real valorizam o momento oportuno, a situação, as circunstâncias relativas, por oposição ao sentido molar da história ou à verdade fora do tempo e espaço, que talvez fossem apenas efeitos da escrita.”

 

            E acrescentou:

 

   “A simulação tem hoje papel crescente nas atividades de pesquisa científica, de criação industrial, de gerenciamento, de aprendizagem, mas também nos jogos e diversões (sobretudo nos jogos interativos na tela). Nem teoria nem experiência, forma de industrialização da experiência do pensamento, a simulação é um modo especial de conhecimento, próprio da cibercultura nascente. Na pesquisa, seu maior interesse não é, obviamente, substituir a experiência nem tomar o lugar da realidade, mas sim permitir a formulação e a exploração rápidas de grande quantidade de hipóteses. Do ponto de vista da inteligência coletiva, permite a colocação em imagens e o compartilhamento de mundos virtuais e de universos de significado de grande complexidade.”

 

            Finalmente, a mais controvertida fonte do conhecimento, o conhecimento psi ou conhecimento paranormal (telepatia, clarividência e precognição) rompe com o paradigma aristotélico de que não há nada no intelecto que não tenha passado antes pelos sentidos.

 

No universo religioso, a revelação, a graça e a mediunidade constituem fonte de conhecimento de outro nível da realidade – o espiritual ou transcendental.

 

Conhecimento é descoberta e também invenção. Descobrir coisas e saber como elas funcionam, e inventar coisas ou procedimentos novos de lidar com as coisas conhecidas.

 

Quase tudo o que conhecemos é aprendido. Então, pensamos e sentimos em função do que conhecemos. Raros são aqueles que reavaliam o conhecimento herdado e são capazes de modificá-lo. A inércia cognitiva das pessoas se insurge vigorosamente contra o inovador.

 

O conhecimento do conhecimento tem por objeto o próprio conhecimento. Ou seja, o conhecedor investiga as próprias condições do conhecer, visando conhecer como conhece. Emanuel Kant foi o primeiro a sustentar que o conhecimento é a investigação do próprio conhecimento.

 

O conhecimento do conhecedor, que tem por objeto o próprio conhecedor, é, na atualidade, uma das mais importantes áreas da investigação científica, notadamente das neurociências, com o desenvolvimento dos estudos sobre o cérebro humano. O conhecedor quer saber quem ele é, o seu modus operandi, a fim de entender melhor a sua aptidão de conhecer. E o computador, como extensão do cérebro, começou a ser utilizado, analogicamente, como uma estratégia cognitiva para a compreensão o cérebro.

 

Sócrates foi o primeiro filósofo a ensinar que o homem deve conhecer a si mesmo. Séculos depois, Leonardo Da Vinci fez a mesma recomendação:

 

“Ó pesquisador das coisas, não te gabes do conhecimento sobre as coisas que a natureza produz em seu curso habitual! Regojiza-te, ao contrário, por conhecer o objetivo e o fim das coisas que são nascidas do teu espírito!”

 

E Teilhard de Chardin sentenciou:

 

            “O Homem “sujeito do conhecimento” aperceber-se-á enfim de que o Homem “objeto do conhecimento” é a chave de toda a Ciência da Natureza.”

 

            Joseph Banks Rhine fez uma oportuna reflexão:

 

            “É chocante mas verdadeiro que conheçamos hoje o átomo melhor do que o espírito que o conhece”.

 

E o que é ou quem é o conhecedor?  Uma síntese de todas as atividades orgânicas que age sobre elas? Ou algo preexistente que as coordena? O conhecimento do conhecedor é o que se chama de autoconhecimento.

 

O homem só se conhece nas relações com os outros e não apenas nas relações consigo mesmo. O autoconhecimento não é uma atividade egocentrada. Conhecemo-nos nos outros e com os outros.

 

Nossa missão é investir em nós mesmos, observando o que somos a cada momento, porque vivemos em permanente autoconstrução. A compreensão é o resultado do autoconhecimento e o autoconhecimento é a percepção correta dos nossos condicionamentos e do seu modus operandi em cada momento do existir.

 

Conhecemo-nos apenas por analogias e metáforas, pois até o nosso pensar e sentir são únicos a cada momento e tudo mais que já pensamos e sentimos não passa de ecos mnemônicos, dando-nos a impressão de um continuum biográfico.

 

            O autoconhecimento é a compreensão do ser sobre os seus condicionamentos. Esta compreensão ocorre momento a momento e, por isso, nunca é definitiva.

 

            Dizia Daisetz Teitaro Suzuki:

 

            “A menos que brote de ti mesmo, nenhum conhecimento é realmente teu. É somente uma plumagem emprestada.”

 

Temos a impressão de saber o que pensamos que sabemos. Por mais sólido que pareça o que conhecemos, o nosso conhecimento é apenas uma hipótese bem-sucedida. Ao contrário, cada vez aumenta mais a certeza e o tamanho da nossa ignorância. Porque o conhecimento nos dá a sensação de segurança e de poder, exercemos, com extrema parcimônia, o nosso senso crítico. Na verdade, tememos que o conhecimento que adquirimos e ao qual nos apegamos possa ser demonstrado inválido, dando-nos aquela sensação de frustração e de vazio, parecendo inúteis todos os anos que gastamos em obtê-lo e nele depositarmos a nossa confiança. Por isso, muitos cientistas se apegam ao paradigma acadêmico da realidade com a mesma intensidade com que os religiosos veneram os dogmas de sua religião.

 

O conhecimento é uma atividade lúdica do intelecto. Brincamos de conhecer e, enquanto brincamos, a brincadeira parece verdadeira. Mudamos as regras da brincadeira, mas continuamos acreditando que ela é real. Assim, a ignorância é o nosso estado de adulto que não perdeu o gosto de brincar. É a consciência da nossa fundamental ignorância que nos dá serenidade e a alegria de viver num mundo como se fosse uma brincadeira - a brincadeira do saber.

 

Se soubéssemos de tudo, perderíamos o prazer do inédito, a emoção da surpresa. A consciência de nossa ignorância nos protege contra o tédio. A vida não seria mais um jogo, mas um resultado sempre previsível. Também não haveria a esperança e a expectativa de um milagre. Os filósofos de sistema procuram a segurança do casulo cognitivo onde pensam que podem controlar tudo e não ousam aventurar-se pelos descampados da insapiência.

 

As teorias são armadilhas inventadas pelo homem para aprisionar momentos da realidade. Mas, mesmo assim, nem sempre são eficazes. A realidade é infinitamente maior do que todas as armadilhas.

 

Sábio é aquele cuja consciência de sua ignorância aumenta sempre. Pensamos saber quando a ignorância se cansa ou quando nos cansamos de tanto ignorar. E o saber, uma vez com a validade vencida, volta a ser de novo ignorância.

 

O importante não é só o que se conhece, mas o que se vai fazer com que se conhece.

 

Diferentemente do conhecimento, a sabedoria é uma forma de compreensão, que consiste na percepção lúcida e imediata de fatos, sistematizados ou não em conhecimento. Sabedoria é a aptidão de agir adequadamente em cada nova circunstância. Não é conhecimento ou condicionamento que nos permitem agir adequadamente em situações rotineiras. A sabedoria é uma ação sempre nova, uma aguda e lúcida percepção de cada momento que passa.

 

Por isso, ensinava Chuang Tzu:

 

“A grande sabedoria vê tudo num só.”  

 

Conhecimento é descoberta e também invenção. É descobrir coisas e como elas funcionam e inventar maneiras de organizá-las racionalmente.

 

Os conceitos servem para identificar e qualificar as coisas. O nosso modo de conceituar influi na construção do conhecimento e nas relações das coisas entre si.

 

O conhecimento é interpretação que, fundada em conceitos, apresenta uma relação de verossimilhança com a realidade.

 

O conhecimento tem também um aspecto operacional, mediante o qual o homem pode intervir na natureza, modificando-a.

 

Quase tudo o que conhecemos é aprendido. Então, pensamos e sentimos em função do que conhecemos. Raros são aqueles que reavaliam o conhecimento herdado e são capazes de modificá-lo. A inércia cognitiva das pessoas se insurge vigorosamente contra o inovador.

 

Não podemos conhecer outros modos da realidade senão o modo como a conhecemos.

 

O importante não é o conhecimento, mas a aptidão de conhecer. Sabemos, muitas vezes, como as coisas funcionam, mas não por que funcionam dessa maneira.