O CORPO

 

 Conhecer o mistério de um corpo é talvez mais importante do que conhecer o mistério de uma alma.

Mario Quintana

 

As coisas físicas parecem imutáveis, embora saibamos que, no universo atômico, as transformações são contínuas. O mistério é o que atrai os átomos para um campo de força que se expressa sob uma forma que é mantida durante um longo ou curto tempo, apesar da contínua mudança dos átomos que a compõem.

O que é isso que mantém a forma, se ela é constituída de átomos em trânsito e, nos seres vivos, também de células que se renovam? Como se criou essa forma, que, em dado momento, perde sua força de coesão e se desintegra? A essa força de coesão podemos denominar de atrator transfísico (AT) em substituição ao vocábulo espírito. Por isso, quando o AT deixa de agir, o organismo se desfaz. E o que acontece com o AT que perdeu a força de coesão para sustentar a forma orgânica? Poderá recuperá-la, e constituir um novo corpo? Se o AT é essa força de coesão que mantém as formas orgânicas, além da do homem, então todas as entidades biológicas são mantidas por ele. O AT, porém, varia da inconsciência à suprema consciência de si mesmo.

Tudo o que existe, resiste. A resistência é o que mantém a forma. O corpo é um conjunto de resistências. Ele se estrutura dentro de um campo de pressões específicas: cessadas ou alteradas essas pressões, o corpo pode ser profundamente afetado e até destruído. A existência é, assim, um complexo de resistências.

Todo ser pressupõe um corpo, o qual é o seu modo de existir e de significar-se no mundo.

O corpo é um instante do processo, do vir-a-ser. É nossa posição provisória que nos perspectiva no mundo e em relação ao mundo. É o lugar habitual da nossa consciência na sua interação com a realidade física.    

O corpo nos dá a sensação de individualidade e é um conceito estático para designar um contínuo processo de mudanças. Ele não esgota todas as potencialidades do ser humano. Por isso, o homem desenvolveu parte dessas potencialidades em extensões artificiais e sucedâneos operacionais, tais como microscópios, telescópios, computadores, etc. Assim, o corpo humano vem demonstrando uma extraordinária capacidade de reciclagem e adaptação, o que levou Edgar Morin a afirmar que o nosso organismo não vai evoluir para uma especialização, mas, ao contrário, ele “desespecializa-se cada vez mais, à medida que a ciência e a técnica se aperfeiçoam”.

O corpo físico não nos basta para explorar todas as nossas potencialidades. Ele já não mais responde plenamente às necessidades da mente humana e, em breve, será um empecilho para ela. Então, a mente necessitará de uma outra espécie de corpo para realizar os seus objetivos. Um corpo que adoece, envelhece e morre não pode mais ser a sede da mente. É, na verdade, a sua prisão.

Começamos a reconstruir nosso corpo. Clonagem e próteses, no futuro, nos darão uma vida de duração indefinida. O envelhecimento será substituído pela renovação periódica do organismo. Uma biblioteca contida num chip será implantada no cérebro, dispensando o aprendizado. A dor será substituída por um sinal que indicará precisamente o local onde está ocorrendo um problema fisiológico, metabólico, endocrinológico ou funcional.

O que chamamos de corpo é a nossa sensação de individualidade. É um conceito estático para designar um contínuo processo de mudanças. Na verdade, temos uma noção subjetiva do nosso corpo. Talvez seja por isso que algumas das pessoas que passaram pela experiência fora-do-corpo (EFC) e pela experiência de quase-morte (EQM), guardam a impressão de possuir outro corpo não-físico ou virtual.

O corpo é um pacote dinâmico de informações e experiências, seja como resultante de uma possível auto-hereditariedade (ou reencarnação), seja como confluência de ancestralidades (a hereditariedade propriamente dita), ou as duas coisas.

O sentido do corpo é dado pela visão, pelo sistema vestibular e pela propriocepção. A propriocepção é a maneira como o corpo se percebe. Oliver Sacks asseverou que a perda da propriocepção redunda na perda da própria identidade, a qual, basicamente, se apoia na percepção do próprio corpo.

Para Thomas Hanna, os nossos corpos “são reencarnações genéticas das adaptações inumeráveis dos seus antepassados diante do ambiente terrestre”. Por isso, diz ele, nós fomos “desde a nossa concepção alimentados com uma velha sabedoria somática referente a este mundo, uma sabedoria que é a herança genética de um sucesso passado, de antigas lutas pela sobrevivência”.

O mundo é uma extensão do nosso corpo. Não é o mundo que se impõe como interpretação ao nosso corpo, mas é esse que interpreta o mundo na conformidade de sua estrutura peculiar.

O corpo é o reflexo do que somos. Não é a adrenalina que nos faz irados. É a nossa ira que, alterando a nossa fisiologia, libera a adrenalina na circulação sanguínea. Por conseguinte, pensamentos e sentimentos não são produtos da química orgânica, mas deflagradores de processos corporais mediados por substâncias endócrinas. O corpo está programado para as emoções de dor e de prazer. No cérebro há uma região que, estimulada, nos proporciona prazer. O prazer é a recompensa do existir, e o vício, a sua degradação, porque o torna compulsório, irresistível e, cada vez mais, dependente de progressivos aumentos da estimulação. A saciedade pode ser a satisfação do prazer e sua provisória suspensão, mas também a sua extinção, quando se torna abusiva. As recentes pesquisas científicas evidenciam que as nossas emoções têm um conteúdo químico e localizações cerebrais.

O corpo físico é a expressão transitória de algo permanente. É aparentemente estável, sob o ponto de vista morfológico, mas não ao nível de seus elementos atômicos, moleculares, celulares. Daí, a observação de Vivekananda:

“O corpo é o nome de uma série de mudanças.”

Se fôssemos apenas corpo físico, seríamos  um novo indivíduo a cada mudança total do corpo. Paradoxalmente, somos o que se transforma e o que permanece estável.

Deepak Chopra observou:

“Até mesmo dizer “meu corpo” implica uma divisão que não existe obrigatoriamente. O ar nos meus pulmões faz parte do meu corpo? Caso positivo, o que dizer do ar que estou prestes a inspirar ou do que acabei de expirar? A expressão “lá fora” é composta de trilhões de átomos que já foram ou que logo serão o que sou, e todo o pacote de matéria e energia que chamamos de Terra é necessário para me conservar vivo. Eu poderia facilmente dizer que não passo de uma célula neste corpo maior, e já que preciso de todo o planeta para me sustentar, tudo na Terra é parte do meu corpo. Se isto é verdade, então nada deve ser  considerado morto - carne putrefata, os vermes, e os fungos que se alimentam dela e até os ossos dos meus ancestrais são apanhados na mesma onda de vida que me carrega na sua crista.”

Nós somos, na verdade, um processo de troca e estamos vivos, enquanto permutamos. Assim, fundamentalmente, somos o que trocamos e não o que temos, pois o ter não passa de um momento do processo. A morte, sob este enfoque, é a cessação deste centro de  permuta.

O corpo é o que fazemos todos os dias com ele. Pensamentos geram células e se transformam em células. O corpo é o que pensamos. O corpo é o que sentimos.        

O nosso corpo é, também, social. Não somos seus únicos proprietários. O modo de  usá-lo, vesti-lo, alimentá-lo e até mutilá-lo é determinado por normas, padrões e valores sociais. Ele é um dos símbolos sociais. José Carlos Rodrigues, por isso, asseverou que o corpo é “um complexo de símbolos”.

E disse mais:

“As codificações do corpo condensam em si as codificações do organismo social.”

O corpo é também uma linguagem. Ele é uma semântica viva, embora silenciosa, pois utiliza o vocabulário dos gestos e das posturas corporais. Não apenas o rosto, mas o corpo todo é o espelho do que somos. É a nossa biografia viva e que nem sempre sabemos ou procuramos esconder.

É o corpo uma bateria biológica que armazena a energia da vida? Pode essa bateria ser recarregada indefinidamente? Pode preservar, renovar e até mesmo substituir os seus elementos? Será que a nossa bateria biológica - o sistema mitocondríaco de trifosfato de adenosina - poderá, um dia, ser preservada indefinidamente?

É preciso confiar no corpo, já que ainda não o compreendemos em sua totalidade, e evitar intervir na sua ação momento a momento, a cada mudança do meio onde atua. O corpo “sabe” adaptar-se, quase sempre, a cada circunstância ambiental, conservando o seu equilíbrio interno.

Pensar é um luxo para o organismo. Foi o pensamento que criou uma outra instância para o organismo, estabelecendo a dualidade mente-corpo. É o homem um corpo que pensa? É o homem um ser que pensa com o corpo? Pensar é um ato fisiológico? Ou o pensar tem consequências fisiológicas, sem ser um ato fisiológico? É o corpo a resultante de um programa psíquico que organiza átomos, moléculas e células, renovando-os constantemente para manter a organização somática?

À medida que a vida material se torna mais atraente, apesar de suas contradições, conflitos, frustrações, cresce mais ainda o desejo do homem pela conservação da juventude, aumento da longevidade e satisfação de suas necessidades físicas. Doenças, pobreza, morte passam a ser assuntos incômodos, pois a vida material é cada vez mais atraente do que uma hipotética vida espiritual.

O homem foi além de si mesmo, em relação ao corpo, e criou extensões tecnológicas como amplificadores de suas funções sensoriais e cerebrais. Cada vez mais, ele age utilizando suas extensões e gerando novas atividades decorrentes delas. O corpo do homem não é apenas biológico, mas também tecnológico, comandado por uma entidade misteriosa - a mente humana. Ela controla, gradualmente, a bioquímica orgânica e, um dia, a dominará completamente. Sabemos sempre mais, porque percebemos mais e melhor, seja no microcosmo, seja no macrocosmo. A nossa visão expandida investiga os mais remotos rincões do universo. Somos uma espécie que pretende comandar a evolução, sonhando ser, mesmo em  longínquo prazo, a mente da Terra e, por fim, do universo. Essa megalomania, que nos parece delirante, é, no entanto, a nossa necessidade de contínua expansão, característica fundamental do ser humano.

Temos, assim, um corpo biológico e um corpo expandido, que compreende todos os periféricos criados pelo homem para ampliar, cada vez mais, as suas atividades físicas e intelectuais. O computador, por exemplo, é o cérebro expandido ou um periférico do cérebro.

O homem não se sente apenas um ser biológico e não quer morrer como um ser biológico. Ele se sente como “algo” mais do que o corpo e que usa o corpo para realizar seus propósitos na existência física.