ORGANISMO & AMBIENTE

 

Valter da Rosa Borges

 

Os organismos criam o meio onde vivem adaptando-o às suas necessidades ou são os organismos que se adaptam ao meio e este determina as necessidades daqueles? Parece que os organismos são segundo o meio onde vivem, como as células são segundo a região do organismo onde estejam.

O organismo está integrado com o ambiente onde vive, agindo e reagindo segundo as mudanças habituais. Alguns seres, como homem e a bactéria, são capazes de comportar-se adequadamente também nas situações imprevistas.

São os organismos biológicos se adaptam às leis da natureza, entre as quais a da seleção? Ou eles se auto-selecionam, dando-nos, porém, a impressão de que foram selecionados?

Seres sem cérebro agem e reagem adequadamente ao ambiente onde vivem. Onde está o programa que habilita esses seres a agir de maneira que se assemelha a uma ação inteligente?

O reducionismo desceu, até agora, ao nível do gene. São os genes egoístas, como pensa Richard Dawkins, os criadores do mundo e sucedâneos microscópicos dos Elohins? Possuem os genes um conhecimento (programa) inato ou aprendem com a experiência e, assim, evoluem? Será que, futuramente, o reducionismo, cada vez mais radical, irá ainda mais longe e postulará a existência da partícula atômica egoísta.

Por que o gene é egoísta? Poderia não o ser. E o que o fez ser assim? Procedimentos aleatórios? Programação inata? Se inata, quem ou o que o programou? O que leva, porém, o gene egoísta a colaborar? Colaborar não é algo que contraria a sua natureza? E o que o faz contrariar a sua natureza? A necessidade de sobrevivência? Ora, se para sobreviver, os genes precisam cooperar, por que eles eram ou são egoístas? Como neles foi introduzida essa programação de egoísmo, essa necessidade de sobrevivência? Ou esse programa resultou de processos aleatórios?   

Um dia, vários tijolos tiveram a mesma ideia: construir um edifício. Então se replicaram como tijolos e se transformaram, por seleção natural, em todos os equipamentos necessários para a construção de um edifício. Essa maravilhosa obra arquitetônica nasceu da especulação de humildes tijolos, dos quais os mais arrojados teorizaram que eles haviam sido construídos pela aleatoriedade de um concurso de moléculas, misturados com água e levados, pela seleção natural, ao forno onde foram cozidos.

Por que os genes precisam de organismos cada vez mais complexos, como o homem, para sobreviver? Sobreviver é questão de complexidade? Quanto maior complexidade, maior garantia de sobrevivência? Se sobreviver é copiar, seres monocelulares podem sobreviver sem precisar se associar para formar um ser pluricelular. O que leva, por conseguinte, os genes a construir organismos complexos? Apenas sobreviver? Não, pois podem sobreviver como seres simples. Então, neste empenho há algo mais do que apenas sobreviver. O que é, então?

O que faz com que átomos e moléculas se transformem em genes com programas específicos? E como esses programas existem nos genes? São eles prefixados? E se o são, quem ou o que os prefixou? Se não são prefixados, como esses genes, com suas experiências, criaram programas específicos para todas as atividades do organismo?

Se os genes chegaram à complexidade do organismo, como produziram a consciência capaz de agir sobre o próprio organismo e até mesmo modificar o próprio código genético? É a consciência o resultado das atividades neuronais?

Parece que propagar-se, duplicar-se, copiar-se são as atividades primordiais dos seres vivos. Os genes “querem” sobreviver em suas cópias. Os pais querem “sobreviver” nos seus filhos. Será que cópia e sobrevivência são sinônimos? Mas, as cópias não são reproduções exatas do original. E mais: durante algum tempo, originais e cópias permanecem juntos. O ser biológico vive pela atividade constante e copiadora de suas células.

O mecanismo da replicação foi aprendido pelos genes ou é inato neles? O que é esse software biológico que, a cada segundo, faz cópias microscópicas de nossos corpos, mantendo-os vivos? É esse software o que chamamos de espírito? Ele é eterno ou foi programado por algo ou alguém?                                                            

Quais foram os genes que nos deram as idéias de bondade, justiça, imortalidade da alma e Deus? Será que foram os átomos, as células, as conexões sinápticas que inventaram Deus e as experiências transcendentais? E por que o fizeram? É Deus mais uma obra do engenhoso e onipotente Acaso? Se Deus e as experiências transcendentais forem apenas produções bioquímicas, em breve os veremos sintetizados em pílulas milagrosas e vendidos nas farmácias como terapêutica eletiva às nossas angústias e descompassos da vida rotineira.

A euforia da paternidade e da maternidade é a manifestação arquetípica da necessidade de replicação ou reprodução. Macho e fêmea formam uma unidade replicadora. A adoção, psicologicamente, é uma forma compensatória para o insucesso da necessidade de replicação.

Todos os seres vivos são programados geneticamente para lutar pela própria sobrevivência. O egoísmo é, por conseguinte, o atributo biológico do ser vivo. Mas, por que há seres humanos que contrariam essa programação e colocam o interesse dos outros acima dos seus? Serão eles uma anomalia biológica, mutantes humanos ou pioneiros de uma nova humanidade?

Matar os concorrentes, alegrar-se com a sua desgraça, considerar como inimigos os que não são de nossa família ou clã, são manifestações do nosso egoísmo biológico, da nossa natureza genética. Se o egoísmo é causa do pecado, ele é o pecado original de todos os seres vivos. Então, como corolário, todos os seres, e não apenas o homem, já nascem perdidos, e somente alguns poucos conseguirão a salvação.

Do mesmo modo que há o vírus biológico, há o vírus psíquico. Há idéias viróticas que podem contaminar parte da humanidade, tais como o nazismo, o racismo, etc. Afirmações reiteradas se transformam em pensamentos e contaminam nossa mente. Uma vez infectados, podemos infectar os outros, disseminando uma epidemia de difícil controle.

É possível que, no futuro, a ciência desenvolva vacinas psíquicas contra o medo, a ansiedade, o ódio, o pessimismo e outros vírus dessa natureza. A saúde mental poderá ser preservada por essa forma de vacinação.

Falamos de seleção natural. Mas o que é a seleção natural? O que é ou quem seleciona? E por que e para que seleciona? Qual o critério de seleção? É a seleção um programa prévio ou é um processo estocástico, circunstancial? Se for o último caso, a seleção se seleciona aleatoriamente e, com base no que se selecionou, seleciona tudo mais. É a evolução consequência da seleção natural ou esta é o resultado daquela?

A grande questão é: como procedimentos aleatórios se convertem em mecanismos,  e esses se perpetuam? O que é que garante essa perpetuidade? Ou será essa perpetuidade aparente e os mecanismos, um dia, retornarão à aleatoriedade? É o relojoeiro cego, como pensa Richard Dawkins, ou nós é que somos cegos e, por isso, não vemos o relojoeiro? Relógios se autocriaram pelo mecanismo da seleção natural? Então, a seleção natural passa a ser o relojoeiro que já não é mais cego, porque vê e sabe o que faz.                                  

A lei fundamental da sobrevivência é a adaptação. A adaptação é a resposta adequada dos organismos às alterações do ambiente em que vivem. Assim, os organismos mais fortes são aqueles que possuem maior capacidade de adaptação às variações ambientais. O homem é o único ser biológico que, por meios artificiais, se adapta aos mais diversos ambientes, cria o seu próprio ambiente e/ou adapta o ambiente às suas necessidades.

O nosso programa de sobrevivência nos deixa sempre em alerta contra perigos potenciais que nos ameaçam a vida e contra acontecimentos que afetam nosso equilíbrio psíquico e emocional. Este estado inconsciente de alerta contra o que nos pode afetar talvez seja o fundamento biológico da experiência precognitiva. Talvez, por isso, não somos alertados para acontecimentos que nos beneficiam, porque eles não alteram o nosso equilíbrio orgânico e psicológico.

O que dotou as bactérias da impressionante versatilidade de se adaptar aos mais diversos ambientes? Como um ser tão simples possui um programa de tanta versatilidade operacional e superior a um ser complexo como o homem que não resiste a ambientes inóspitos a não ser usando seus recursos tecnológicos? Lynn Margulis não vê as bactérias como inimigas do homem, agente de doenças, mas como nossos ancestrais e origem de todas as formas da vida.

O chamado “efeito placebo” é a demonstração de uma sabedoria orgânica infusa, mediante a qual o corpo pode curar-se sozinho, bastando ser estimulado para uma ação terapêutica. Ele sabe tudo do que necessita e, como um verdadeiro alquimista, é capaz de realizar transmutações, utilizando os mais diversos elementos da natureza para a fabricação das substâncias necessárias ao reequilíbrio ou à manutenção das atividades orgânicas.

Como é que aproximadamente setenta bilhões de células sabem organizar-se harmonicamente e desta extraordinária atividade integrada resultar o fenômeno abstrato da consciência? Como explicar que cada célula sabe o que deve fazer para associar-se com outras células e desempenhar adequadamente o seu papel na complexidade sinérgica da organização biológica? Aprendeu cada uma, por si mesma, o seu papel específico e sua participação na economia orgânica? Ou este conhecimento já lhe era inato? E, se era inato, o que ou quem imprimiu em cada célula esse conhecimento? Dizer que tudo aconteceu por processos aleatórios tem o mesmo valor metafísico (porém de menor força lógica) do que a explicação de que a sabedoria das partes nada mais é do que a manifestação setorizada da sabedoria do Todo.

            Há organismos que nunca envelhecem: as amebas unicelulares, os protozoários e as algas. As abelhas são capazes de rejuvenescer, mediante mudança de seus hormônios. Se somos a síntese da evolução biológica, possuímos possivelmente um programa que nos impeça de envelhecer ou nos permita rejuvenescer. E por que, durante todos esses milênios, ainda não o utilizamos?

Fazendo uma analogia com o computador, podemos dizer que cada célula é um  back-up (cópia) da memória. Temos, no software, um programa (conhecimento inato, sabedoria orgânica) para acionar o hardware e outro programa para digitação de novos dados (conhecimento adquirido), os quais podem ser temporários ou definitivos. O que não se pode alterar é o programa que aciona o computador: este programa (read only) somente pode ser lido, a não ser que queiramos mudar a sua configuração, como já começamos a fazer com o código genético, que é também um programa apenas para ser lido.

Dentro desta analogia, também poderemos indagar se não existe no organismo um programa que possibilite, em caso de doença, reinstalar a configuração original orgânica, tal como acontece, quando reinstalamos um programa no computador. Isto poderia ser a solução eficaz para todas as formas de enfermidade, desde as adquiridas até as decorrentes do processo degenerativo do organismo ou de acidentes. Alguns animais possuem esta capacidade de autorregenerarão de algumas partes de seu corpo. No ser humano, o fígado também possui essa mesma aptidão.

Poderíamos postular que cada espécime tem o seu arquétipo, do qual cada indivíduo constitui uma cópia. Isto implica em que a hereditariedade humana não procederia dos indivíduos, mas do arquétipo biológico da espécie através dos indivíduos chamados progenitores. Os erros genéticos seriam acidentes na passagem da informação.

Se todos os seres vivos vivem para duplicar-se a si mesmos, somos basicamente copiadoras biológicas instruídas para nascer, reproduzir e morrer. Mas o que fez com que as copiadoras humanas tivessem consciência de si mesmas?

Nós somos, na verdade, um processo de troca, e estamos vivos enquanto permutamos. Assim, fundamentalmente, somos o que trocamos e não o que temos, pois o ter não passa de um momento desse processo. A morte, sob este enfoque, é a cessação desse centro de permuta.