O TERCEIRO MILÊNIO (*)

 

Valter da Rosa Borges

 

           

           A chegada do terceiro milênio cristão vem gerando uma expectativa exagerada sobre o advento de uma nova era, ou temores pela consumação das profecias anunciadoras do fim do mundo.

       Visto à luz de outros calendários, o ano 2000 será: 6236 segundo o primeiro calendário egípcio; 5760 segundo o calendário judaico; 5119 segundo o atual grande ciclo maia; 2753 segundo o antigo calendário romano; 2749 segundo o antigo calendário babilônico; 2544 segundo o calendário budista; 1716 segundo o calendário copta; 1420 segundo o calendário muçulmano; 1378 segundo o calendário persa.

            O Terceiro Milênio, portanto, não passa de uma utopia centrada no calendário cristão e de conteúdo psicológico e cultural.

            Conhecer o futuro para controlar o próprio destino sempre foi, é e continuará sendo uma das grandes aspirações do gênero humano. Daí, o prestígio das mais diversas mancias,   empenhadas em desvendar o futuro das pessoas, de povos e nações e até mesmo da própria humanidade.

            As profecias revelam expectativas para a vida em um mundo melhor ou em um outro radicalmente diferente do atual, seja porque se acredita num progresso interminável, seja porque o sistema atual do mundo é indesejável e deve ser modificado ou completamente destruído. A profecia é uma espécie de fé centrada no futuro.

    Podemos distinguir dois tipos de profecia:a) a do progressismo; b) a do catastrofismo.

         As profecias do progressismo revelam o otimismo em relação ao futuro, sinalizando uma melhoria tecnológica de vida para o homem, embora não importe necessariamente em qualidade de vida. A ciência tem transformado o que antes parecia especulações visionárias em realizações ou probabilidades concretas. Assim, o cientista é também uma espécie de profeta que, ao invés de procurar entender os planos de Deus, cria os seus próprios projetos e tenta viabilizá-los. Diferentemente das pitonisas do passado, ele não aspira os gases oriundos da terra para augurar o futuro, mas se inspira nas idéias oriundas das profundezas do seu inconsciente, buscando construir para a humanidade, não apenas futuros possíveis, mas, principalmente, desejáveis.

         Entre essas visões progressistas do futuro podemos destacar: a construção de cidades auto-suficientes nos oceanos e no espaço; a instalação estratégica de defesas bélicas contra possíveis choques do nosso planeta com asteróides; as teleportações de coisas e pessoas, minimizando o obstáculo do espaço; as viagens no tempo; a conquista do espaço exterior com a colonização de planetas do sistema solar e também de outros sistemas dentro da nossa galáxia e até fora dela; a extinção de todas as doenças e o aumento indefinido da longevidade, com a manutenção da saúde e o retardamento ou mesmo a abolição do envelhecimento; a instalação de próteses ampliadoras das funções do corpo; a utilização de memória suplementar em chips implantados no cérebro; a ampliação funcional do vestuário à condição de nicho ecológico individual; a alimentação sintética, reduzindo a dependência do homem aos alimentos naturais, o que poderá resultar em alterações da fisiologia humana; a expansão, em nível inimaginável, da inteligência artificial, substituindo as atividades rotineiras do ser humano; a reconstrução genética, visando a melhoria biológica da espécie humana; a clonagem de órgãos, abolindo a necessidade de transplantes e próteses; a felicidade química e a abolição da dor física; a realidade virtual como sucedâneo, em certas situações, da realidade física; a utilização das aptidões paranormais e a criação de uma tecnologia psi

            As profecias do catastrofismo revelam uma concepção pessimista sobre o destino da humanidade. Ela resultam do desespero, da desilusão, decorrentes de conflitos sociais, da mudança de normas e valores, do mundo presente  e que, projetados para o futuro, se apresentam como ponto final da tragédia contemporânea, podendo resultar ou não na esperança pelo início de uma nova era.

         Desde tempos imemoriais, acredita-se que a destruição da humanidade será decorrente de ações pecaminosas, gerando a dissolução dos costumes, com o incremento da licenciosidade, da corrupção do poder, da escalada da desonestidade, do arrefecimento do sentimento religioso, da busca exacerbada dos bens materiais, o agravamento da pobreza, da fome, e do aumento insuportável da violência, desencadeando o aumento da criminalidade, dos conflitos sociais e das guerras. Este quadro de extrema instabilidade social deflagra o mecanismo psicológico de compensação com a esperança visionária da destruição do atual sistema e sua substituição por outro mais justo. Os deserdados de hoje seriam, assim, os herdeiros de amanhã, os pecadores seriam punidos e os justos recompensados e uma nova humanidade surgiria das cinzas da devastação da grande Babilônia universal.

          As profecias para o 3º Milênio revelam a tendência do ser humano de encontrar no futuro uma promessa de consolo, de compensação e vitória para um presente insatisfatório, angustiante e incerto. O futuro é a esperança da realização do sonho de uma nova humanidade radicalmente diferente da atual.

          A ansiada punição ou a ira de Deus é a vingança dos deserdados contra os seus agressores e a desforra dos pobres. Quem não pode revidar ofensas nutre esperanças de que algo ou alguém o faça, restaurando-lhe a dignidade perdida. O Messias é, assim, o vingador coletivo e o Juízo Final, a plena consumação da vingança e o triunfo dos oprimidos.

             O futuro da humanidade é, de certo modo, um construto do psiquismo humano. Os futuros temíveis ou desejáveis podem se tornar prováveis, pois o homem, por sua capacidade de pensar as possibilidades do acontecer,  é suscetível de ser vítima ou beneficiário do conhecimento científico e de suas aplicações tecnológicas.

 

(*) Publicado no jornal "Ponto de Encontro", Ano XV, nº 43, de fevereiro-março de 2000.